Capítulo 1 ~POV de Greyson~

O som do despertador me fez abrir os olhos instantaneamente. Desliguei o alarme antes de encarar o teto branco impecável por alguns momentos. Mais um dia, a mesma rotina de sempre. Saí da cama, tremendo um pouco ao sair debaixo dos cobertores quentes. Fui ao banheiro e liguei o chuveiro. A água quase fria correu sobre minha pele, e senti como se estivesse começando a acordar. Fechei os olhos, deixando a água escorrer pelo meu rosto, e respirei fundo.
Minha rotina matinal era sempre a mesma. A maioria dos caras usava um gel de banho 3 em 1, mas eu não. Eu sabia da importância de hidratar e cuidar da minha pele. Usei um sabonete de limpeza, depois um esfoliante facial e, por fim, um hidratante. Usei shampoo e condicionador separados para o meu cabelo. Para mim, autocuidado era algo religioso. Quase.
Era como um ritual. Não fazia ideia de onde tinha vindo, talvez dos meus pais. Toda vez que terminava de passar loção pós-barba, eu encarava meu rosto no espelho por alguns segundos. Pele bege clara, sempre recém-barbada e parecendo seda. Cabelo loiro escuro cortado com franja cortina, sempre arrumado e com aspecto macio — olhos azuis misteriosos, sempre sem olheiras.
Não sei por que, mas sempre tive um rosto com um aspecto mais "bonitinho", mesmo sendo homem. Já fui chamado de "rostinho bonito" mil vezes. Eu sempre fui magro e em forma, embora não tivesse muitos músculos. Sempre mantive uma aparência impecável e polida. Eu parecia um integrante de boyband, o que fazia os outros pensarem que eu era convencido ou pretensioso.
Um suspiro escapou dos meus lábios. Eram apenas os padrões da vida que eu levava. Eu precisava parecer perfeito o tempo todo, como se esperava do filho de uma família rica.
Todos esperavam que eu atendesse às expectativas deles, mesmo que eu não quisesse.
Enquanto minha máquina de café funcionava, preparei meu café da manhã: um omelete francês. Eu sempre comia uma refeição equilibrada e nutritiva: ovos, frutas e vegetais. Sentei-me à mesa, com o omelete fumegante em um prato branco perfeito. Eu sempre era consciente do que colocava no meu corpo. Sabia que, se não cuidasse bem da minha saúde, minha aparência e meu status desapareceriam.
Foi assim que fui criado.
Famílias ricas esperam que seus filhos sejam perfeitos. Elas fariam de tudo para garantir que eles estivessem no topo, mesmo que isso significasse impor padrões impossíveis.
Depois de terminar de comer, fui ao closet escolher minha roupa para o dia. Meu closet era grande e organizado quase à perfeição. Um monte de roupas, camisas, calças e ternos, tudo impecavelmente pendurado e passado. Escolhi algo simples, porém elegante: uma gola alta preta justa com calças cinzas e sapatos Oxford pretos.
Era um conjunto simples que eu sabia que caía bem em mim. Eu sabia que a gola alta preta justa destacaria meu físico magro, e as calças cinzas realçariam as linhas das minhas pernas. Perfeito.
Adicionei um cinto de couro marrom escuro com uma fivela dourada. A fivela trazia uma sensação de luxo sem tornar o visual chamativo demais.
Olhei-me no espelho, certificando-me de que meu cabelo estava no lugar, e dei uma olhada no meu Rolex. Eu estava na hora certa, como sempre. Peguei os documentos na minha mesa, coloquei-os na minha pasta e saí do meu apartamento.
As portas do elevador se fecharam e fiquei sozinho no compartimento de paredes espelhadas. Apertei o botão do saguão e o elevador começou a descer suavemente. Um suspiro escapou de mim enquanto me encostava na superfície reflexiva, olhando meu reflexo do outro lado. O sobretudo preto parecia pesado nos meus ombros, assim como as responsabilidades. Isso acontece quando você tem pais ricos e com status que te enviaram para a melhor universidade de direito.
Agora, trabalho em um escritório de advocacia de prestígio — muito conservador. Era uma sensação constante de pressão, sabendo que precisava corresponder às expectativas da minha família e do nosso meio. Mas eu estava bem com isso. Era para isso que eu tinha sido criado. As portas do elevador se abriram com um "ding" e saí, indo em direção ao estacionamento privativo do prédio, em direção ao meu Porsche prateado.
O motor do carro rugiu e peguei a estrada. Naveguei pela cidade com facilidade, conhecendo as rotas como a palma da minha mão. Eu sempre dirigia rápido, mas nunca de forma imprudente; obedecia a todas as regras de trânsito e sempre estacionava perfeitamente. Segui o caminho familiar até o meu escritório: um prédio enorme com o logotipo da firma no alto da parede: Gold&Silver Law.
Estacionei meu carro na minha vaga particular, assim como todos os outros funcionários bem de vida. Saí, garantindo que eu estivesse impecável antes de caminhar até o elevador.
Parecia ser um dia agitado. A caminho do elevador, pude ouvir todos conversando. Estavam todos vestidos da cabeça aos pés, todos impecáveis, enquanto suas conversas giravam em torno de casos importantes e fofocas ácidas. Ao entrar no elevador, captei alguns sussurros e olhares curiosos. Eu sabia que a fofoca começaria assim que achassem que eu estava fora de alcance.
Não era algo incomum. Eles faziam fofoca sobre todos, até dos amigos mais próximos, se é que eu podia chamá-los de amigos. O termo não era apropriado para o que faziam uns aos outros — difamando uns aos outros, e até mesmo traindo suas esposas pelas costas.
Era um mundo de competição e manipulação, e isso vinha naturalmente para eles. A maioria das pessoas ao meu redor foi criada no mesmo tipo de mundo: rico, ambicioso e impiedoso. O elevador finalmente chegou ao andar onde ficava meu escritório, e o som de zumbidos baixos e conversas sussurradas me deu as boas-vindas. Respirei fundo, ajustando minha expressão para aquele comportamento frio e ensaiado.
Minha secretária — uma jovem chamada Sarah — já estava me esperando na mesa do lado de fora da minha sala. Ela se levantou ao me ver, com um sorriso perfeito estampado no rosto. "Bom dia, senhor!", ela cumprimentou com uma voz excessivamente doce. "Preparei sua correspondência e sua agenda para o dia, está tudo na sua mesa."
Ela estava vestida como todos ali: por excelência. Um conjunto azul claro com saia lápis e sapatos de salto pretos. Ela usava o cabelo loiro em um rabo de cavalo alto e perfeito que balançava a cada passo.
"Obrigado, Sarah", respondi educadamente, sem parar enquanto passava por ela e entrava na minha sala. A porta se fechou atrás de mim, cortando o burburinho do mundo exterior.
Ao entrar na minha sala, fui recebido pela visão da minha mesa, onde uma pilha de documentos já estava arrumada de um lado. Tirei meu casaco, pendurei-o nas costas da minha cadeira e sentei-me, sentindo o couro macio sob mim. Dei uma olhada na pilha de documentos, revisando mentalmente os casos em que precisava trabalhar naquele dia. Havia alguns clientes e casos importantes, um deles incluindo um caso de peculato.
Assim que abri o arquivo, a porta da minha sala se abriu e Jackson entrou. Ele nunca se dava ao trabalho de bater, entrando como se fosse o dono. Fomos colegas na universidade.
Tentei não demonstrar nenhum incômodo no rosto, mas foi difícil. Nunca fui fã da arrogância dele. "Bom dia, Jackson", cumprimentei-o, embora meu tom não combinasse exatamente com as minhas palavras.
Éramos parecidos e, ao mesmo tempo, opostos. Ele era muito mais alto que eu, com um físico mais musculoso e uma boca grande. Éramos todos arrogantes ali, mas ele tinha o hábito de exibir esse aspecto como se fosse uma medalha de honra. Ele estava vestido com um terno azul-marinho, gravata dourada e sapatos sociais pretos. Seu cabelo castanho claro estava penteado para trás, e aquele sorriso branco como pérola intensificou minha dor de cabeça.
Ele caminhou até minha mesa, ignorando a cadeira à frente, e sentou-se na borda da minha mesa. "Noite difícil, hein?", perguntou ele, seu olhar percorrendo meu rosto e corpo.
"Poderia ter sido pior", respondi, mantendo a voz neutra enquanto voltava minha atenção para o arquivo na mesa. Jackson riu, com um sorriso malicioso no rosto enquanto se recostava.
"Sempre trabalhando. Você poderia ter vindo comigo e com os outros naquele clube que acabou de abrir."
"Barulhento e cheio demais para o meu gosto", respondi, folheando algumas páginas do arquivo. Era o típico clube para esnobes. Jogos de cassino elegantes, bebidas caras e fofocas. Jackson deu de ombros — o sorriso malicioso ainda nos lábios.
"Você está perdendo. As mulheres lá estavam umas gatas", disse ele, rindo como se estivesse compartilhando algum tipo de piada interna.
"Estou perfeitamente satisfeito com a minha própria companhia", respondi sem tirar os olhos do arquivo, tentando dar a impressão de que estava ocupado demais para lhe dar atenção. "E pare de falar das mulheres como se fossem pedaços de carne. Isso faz você parecer ignorante."
Ele não pareceu se abalar com minhas palavras. Aproximou-se, ainda sorrindo. "Ah, qual é, não seja tão puritano. Viva um pouco. O que você faz para se divertir, afinal? Lê livros?"
"Sim, eu leio livros."
Jackson soltou uma gargalhada como se eu tivesse dito a coisa mais hilária que ele já tinha ouvido. "Livros. Sério. Você está fazendo jus à sua reputação de garoto perfeito, hein? Qual é. Não estamos mais na faculdade. Você é um homem agora."
Respirei fundo, tentando conter a irritação que crescia dentro de mim. "Ser homem não tem nada a ver com ir a clubes e beber até não conseguir ver nada. É sobre ser responsável e tomar boas decisões, não agir como um adolescente com um cartão de crédito aberto."
Jackson bufou e cruzou os braços sobre o peito. "Ainda preso na Ophelia?"
Fiquei tenso involuntariamente. "O que tem ela?", perguntei, com um tom mais frio do que pretendia.
O sorriso dele era vitorioso, como se tivesse acabado de marcar um ponto. "Você ainda não conseguiu superá-la, hm? Desde que ela terminou com você, você está terrivelmente carrancudo."
"Chega. Não quero ouvir o nome dela novamente."
Jackson levantou as mãos em um gesto defensivo, mas seu rosto ainda estava cheio de diversão. "Relaxa, cara. Não é como se eu estivesse te zombando. Só não consigo acreditar que você ainda sofra por ela depois do que ela fez."
Engoli em seco e cerrei o maxilar. Ophelia era minha ex-namorada. Ficamos juntos durante todo o tempo da faculdade, apenas para ela terminar tudo um dia antes da formatura. E nem um mês depois, ela se casou. O motivo do término? Ela disse que não se sentia uma mulher ao meu lado. Que eu não sou homem o suficiente. Não masculino o suficiente.
Jackson pareceu notar minha expressão se fechando, seu sorriso diminuindo um pouco. "Ei, ei, só estou tentando te ajudar, cara. Você precisa superá-la. Faz dois anos. Quase."
Respirei fundo, tentando me recompor. "Não preciso da sua ajuda, Jackson. E estou perfeitamente bem."
"Claro, você está bem", ele disse com sarcasmo. "Você está perfeitamente bem, todo frio, tenso e sozinho. Totalmente bem, sem uma mulher ao seu lado."
Eu estava começando a me cansar das provocações dele, mas me forcei a manter a calma. "Minha vida, minhas escolhas. Não é da sua conta, Jackson."
Ele se levantou da minha mesa e caminhou em direção à porta. "Só dizendo, se você é exigente demais para as mulheres, minha porta está sempre aberta. Sua secretária é uma gata." Com essas palavras, ele saiu, deixando-me no silêncio sufocante.
Ele não era meu amigo. Jackson era mais um conhecido. Alguém que eu tolerava. Mas isso não significava que ele não fosse detestável e condescendente. Respirei fundo novamente, tentando afastar suas palavras. Eu tinha trabalho a fazer e não tinha tempo para deixá-lo me irritar. Arquivo após arquivo. Caso após caso. Eu não fazia tudo como um robô.
As horas passaram e continuei trabalhando, tentando ignorar os pensamentos que insistiam em invadir minha mente. Pensamentos sobre Ophelia. Eu costumava amá-la, mas agora, apenas a imagem mental de seu cabelo preto sedoso e olhos castanhos escuros me dava vontade de vomitar. Pensar que eu derretia cada vez que olhava em seus olhos. Até comprei um anel para pedi-la em casamento no dia da formatura, apenas para ela destruir tudo.
Suas palavras ainda ecoavam nos meus ouvidos, mesmo depois de dois anos. "Você não é um homem, Greyson. Você é um rostinho bonito. Eu não me sinto mulher ao seu lado. Você é como uma boneca de porcelana." Essas palavras estraçalharam meu coração em pedaços.
Nem me senti mal por jogar o anel de 20 mil dólares no oceano. Foi um gesto simbólico, jogando fora tudo o que tinha a ver com ela. Não sei por que me machucou tão profundamente. Foi a indiferença dela ou o fato de ter sido considerado "não masculino" o suficiente? Seja qual for o motivo, deixou um gosto amargo. Ou o aspecto mórbido de ela ter se casado logo um mês depois. Logicamente, isso significava que ela já tinha um plano reserva durante nosso relacionamento.
O fato de ela ter se casado tão rapidamente depois de terminar comigo jogou ainda mais sal na ferida. Parecia que tudo o que compartilhamos, tudo o que dei a ela, não tinha significado nada. E o fato de ela ter tido um plano reserva o tempo todo... me fez sentir como um completo idiota.
Cerrei os dentes e me forcei a me concentrar no trabalho.
Foco. Trabalho. Não pense nela.
Não pense nela.
Não pense nela...