Capítulo 1
PONTO DE VISTA DE YARA EMBRY
A garota no espelho é uma estranha.
Ela está vestida de seda e renda, uma noiva em todos os sentidos da palavra, mas não se parece em nada com a mulher de ontem. Seus ombros estão tensos, o queixo erguido como se para fingir dignidade — mas eu vejo através disso. Vejo as fraturas sob sua pele, as rachaduras se espalhando pela base frágil de quem ela costumava ser. O véu cai sobre minha cabeça como uma coroa de espinhos, mais pesado do que o tecido deveria ser, pressionando como um lembrete cruel da vida que já não me pertence.
Um único dia. Foi só o que bastou para tudo mudar.
Ontem, eu era Yara Embry, uma mulher à beira de um futuro que ela havia se convencido de que poderia ser tolerável — talvez até decente. Eu disse a mim mesma que o amor não precisava ser imediato. Que segurança, companheirismo e uma visão compartilhada poderiam ser suficientes. Que um dia, eu poderia até olhar para o meu noivo e sentir algo real. Não era um conto de fadas, mas era estabilidade. Uma vitória silenciosa sobre o caos do qual eu tinha lutado para sair.
Mas então… ele foi embora.
Sem um bilhete. Sem explicação. Nem mesmo a decência de me contar pessoalmente. Apenas desapareceu, como vapor, deixando para trás um altar vazio e uma sala cheia de olhares críticos que perfuravam minha pele como chuva ácida. E antes que a vergonha tivesse se instalado, antes que eu pudesse recuperar o fôlego ou encontrar minha voz, outro nome foi dito. Outro homem deu um passo à frente.
Kian Carrington.
Meus dedos se fecham na borda da penteadeira, os nós dos dedos ficando brancos. O nome ecoa como uma maldição em minha mente. Ele sempre esteve lá — inevitável. Uma sombra na periferia do meu mundo. Um menino que virou homem, outrora meu inimigo de infância. Sempre frio, sempre intocável. Ele nunca olhou para mim, nem uma vez, não de verdade. E agora… ele é meu marido.
Marido.
A palavra é quase risível.
Eu olho para o anel enrolado no meu dedo como uma algema. Não sei o que é pior — o fato de ele ter se casado comigo pelo nome da minha família, ou o fato de eu ter ficado ali e deixado acontecer. Paralisada pela desgraça. Entorpecida pela pontada da traição. Deixei que ele colocasse este anel em mim, selasse meu destino com um beijo que não significava nada.
Minha respiração falha. Eu me forço a olhar para cima, para o meu próprio reflexo.
Como eu cheguei aqui?
Como a garota que lutou com unhas e dentes para sobreviver, que gritou para o mundo não defini-la, tornou-se isso? Uma mulher presa em um casamento que não escolheu, ligada a um homem que não a entende, que nunca tentou.
Eu deveria odiá-lo.
E eu odeio. Não odeio?
Pela sua arrogância. Pela indiferença em seus olhos. Pelo jeito que ele olhou para mim esta noite — não com amor, nem mesmo piedade — mas algo mais. Algo ilegível. Algo que se enterrou sob minha pele e chacoalhou o chão sob meus pés.
Passei anos desprezando Kian Carrington. Por seu silêncio. Por sua distância. Por como ele ignorava minha existência como se eu fosse invisível. E ainda assim… enterrado sob a amargura, há algo mais. Uma emoção que não consigo nomear. Um fantasma de algo perigoso, algo que me recuso a enfrentar.
Eu solto o ar, trêmula e irregular, os olhos presos aos do espelho como se desafiasse o reflexo a responder ao meu grito silencioso.
Mas ela se foi.
A garota que eu era.
A garota que eu conhecia.
Substituída por uma mulher que usa um nome que não parece ser seu.
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PONTO DE VISTA DE KIAN CARRINGTON
O corredor está quieto demais.
Estou parado do lado de fora da porta dela, as costas eretas, a mão apoiada contra a superfície de mogno escuro. Eu tinha batido — uma vez. Firme. Propositado. Um som feito para provocar uma resposta. Mas o silêncio me cumprimentou. Um silêncio espesso e sufocante.
Fico ali por um momento, as pontas dos meus dedos roçando a madeira polida. Esforço-me para ouvir o menor farfalhar — tecido se movendo, passos, até mesmo uma respiração. Nada.
Ela não virá.
Um suspiro escapa de mim — agudo, irritado, não com ela, mas com a percepção de que ela preferia ficar sentada em silêncio do que dividir um quarto comigo.
Yara Carrington.
Não. Yara Embry.
Ainda tão apegada ao nome que nunca a deixou de verdade.
Ela sempre foi teimosa. Mas isso não é desafio. É outra coisa. Algo mais frio. Uma rebelião silenciosa, uma parede invisível entre nós que ela não tem intenção de me deixar quebrar. E a pior parte? Isso me desconcerta.
Olho para o meu relógio. Uma hora após o jantar.
A mesa tinha sido posta de forma impecável — até a curva exata dos guardanapos dobrados. Uma refeição preparada com perfeição. Taças de cristal brilhavam sob o lustre. Mas a cadeira à minha frente permaneceu vazia. Sua ausência ecoou pela sala como um trovão.
Eu disse a mim mesmo que não me importaria.
Que ela estava fazendo uma declaração. Que sua ausência não importava.
Mas importou.
Notei que a luz não refletia da mesma forma. O tilintar dos talheres na porcelana soou oco. O silêncio não era pacífico — era barulhento. Zombeteiro.
Com o maxilar tenso, viro-me bruscamente e caminho. Meus passos são lentos, deliberados, os saltos batendo suavemente contra o piso de mármore enquanto me aproximo do quarto de hóspedes — aquele que ela escolheu. Não o nosso.
Minha mão envolve a maçaneta. Hesito, apenas por um suspiro, antes de girá-la. A porta range levemente ao abrir.
E eu congelo.
Ela não está na cama.
Ela está encolhida no chão, bem ao lado dela.
Seu corpo é pequeno, curvado, joelhos puxados contra o peito, a borda de um cobertor fino enrolado nela como uma armadura. Sua bochecha descansa sobre o braço e, no brilho dourado e fraco do abajur, eu vejo — seu rosto manchado de lágrimas. Seus cílios úmidos. Seus lábios levemente entreabertos, como se tivesse sido pega no meio de um suspiro. Meu peito aperta.
Ela chorou até adormecer.
Por um momento, não consigo me mover. Apenas observo. O ar parece mais pesado agora, misturado com algo que não consigo nomear.
Ela não se parece em nada com a garota explosiva da escola — aquela que me desafiava com suas palavras, que circulava pelos corredores como se fosse dona do mundo, mesmo quando o mundo tentava quebrá-la. Aquela garota era selvagem. Radiante. Viva.
Mas isto?
Essa garota no chão é uma vela tremeluzente no escuro.
E eu odeio isso.
Eu me abaixo, devagar, cuidadoso para não acordá-la. Minha mão paira sobre sua bochecha. Não a toco de início. Apenas a respiro — lavanda e tristeza. Então meus dedos roçam sua pele. Ela se mexe levemente, um suave ganido escapando de seus lábios.
Pergunto-me se ela está sonhando com ele.
O homem que foi embora.
O ciúme se acumula em meu peito, escuro e indesejado.
Eu deveria acordá-la. Dizer-lhe para dormir na cama. Lembrá-la de que esta é sua casa agora, também. Mas meu corpo se move antes que a razão possa intervir.
Com movimentos lentos e cautelosos, deslizo meus braços sob ela, levantando-a com uma facilidade treinada. Ela é mais leve do que eu esperava — leve demais. Como se o luto a tivesse esvaziado por dentro.
Ela se agita contra mim, sua cabeça caindo suavemente contra meu ombro, mas não acorda. Carrego-a até a cama, coloco-a com um cuidado que eu não sabia que tinha. Puxo o cobertor sobre ela, metendo-o gentilmente sob seus braços.
E então eu pauso.
Apenas por um segundo.
Observando-a respirar. Observando a dor escapar de suas feições, mesmo que apenas por um momento.
A pergunta surge antes que eu possa impedi-la?
Será que algum dia verei aquela garota novamente?
Aquela com fogo no coração e desafio no sorriso?
Eu não sei.
Mas eu quero.
"E se você acha que o silêncio é o lugar mais seguro para se esconder, espere até ele começar a gritar de volta".-snow