Capítulo 1 Competição Aberta
“Espera aí... você vai mesmo deixar um cara te comer?”
As palavras ecoaram pelo gelo enquanto Ryder contornava um cone, seu taco acertando o disco com um toque leve.
“É”, disse ele, com o hálito formando uma nuvem branca no frio. “Não é nada demais.”
“Não é nada—” Drew quase tropeçou nos próprios patins. “Que porra é essa, cara? Um cara vai enfiar o pau no seu cu.”
Ryder deu um sorriso de lado, deslizando de costas. “É fantasia da Lila.”
No passe seguinte, Connor patinou ao lado dele, com uma sobrancelha arqueada atrás da grade do capacete. “Sua namorada quer isso?”
“Namorada é uma palavra forte”, disse Ryder. “Acho que tecnicamente ela é, mas nosso relacionamento é aberto. Sem regras. Só diversão.” Ele alinhou o próximo disco, acertou o alvo no canto da rede e deu um sorriso irônico. “Você precisava ter visto a suruba que eu fiz semana passada.”
Drew gemeu. “Ai meu Deus, lá vem ele.”
“Não, sério.” Ryder riu. “Três garotas. Eu, a Lila, a colega de quarto dela e uma ruiva tatuada do time de natação. Eu não conseguia lembrar o nome delas depois da segunda rodada. A Lila disse que o meu pau parecia que estava controlando o trânsito.”
Connor quase engasgou. “Jesus Cristo.”
“Não tem nada proibido e eu quero que continue assim”, Ryder acrescentou, respirando rápido enquanto acelerava pela pista. “Ela quer um ménage onde os caras também se comam.”
Isso rendeu uma chuva de gelo quando Drew parou bruscamente. “Você está brincando.”
“Na verdade, não.” Ryder deu de ombros, pegando o rebote. “A gente faz de tudo. Ela já enfiou o dedo no meu cu antes. Um brinquedo uma vez. Não foi ruim. Dá para gozar com isso.”
Connor se curvou sobre o taco, rindo tanto que quase perdeu o equilíbrio. “Cara, você não tem filtro nenhum.”
Ryder apenas deu um sorriso irônico, deslizando pela linha azul. “Qual o sentido de ficar quieto? Eu não tô nem aí.”
O apito do treinador soou como uma sirene. “Ei! Chega de conversa, vamos focar!”
Os rapazes se endireitaram, tentando não rir enquanto Ryder levantava a mão em um cumprimento irônico. “Sim, Treinador.”
O Treinador Larsson não era de tolerar corpo mole, mas Ryder Hayes tinha ganhado pontos suficientes para se safar de vez em quando. Ele era o center estrela do time, um veterano com um chute matador e o tipo de marra que fazia os olheiros prestarem atenção.
Seu cabelo loiro-areia estava úmido de suor e levemente bagunçado sob o capacete, seu sorriso afiado era pura confiança. Ryder tinha certeza de que se tornaria profissional após a formatura, todo mundo tinha. Os Greyhollow Direwolves já tinham revelado jogadores para a NHL antes, e ele planejava ser o próximo.
Nesta temporada, porém, o gelo parecia mais lotado. Desde que um ex-aluno de Greyhollow ganhou a Stanley Cup no seu ano de estreia, transferências de todo o país estavam inundando o time. Uma dúzia de novos jogadores apareceu para os testes, e metade deles ainda estava no banco, esperando sua chance de provar o seu valor.
O Treinador Larsson deixou claro: ninguém entrava no seu time sem merecer. Ele não se importava com o quão boas eram as estatísticas deles, ou qual time tinham abandonado para estar ali.
Ainda assim, Ryder não estava preocupado. Ele tinha trabalhado pra caralho por três anos; seu lugar não ia a lugar nenhum.
Ou era o que ele pensava.
Durante um exercício de troca de linha, alguém colidiu com ele com força suficiente para fazê-lo girar. Ryder se recuperou antes de atingir o gelo, virando-se a tempo de ver um cara alto de cabelos escuros patinando com o disco que ele tinha perdido o controle.
O cara era naturalmente descolado, um pouco mais alto que Ryder, com pernas longas e o tipo de físico que fazia suas proteções parecerem esculpidas ao redor dele. Ele tinha cabelos escuros úmidos na nuca e olhos escuros combinando. Afiados, indecifráveis e firmes. Ele se movia como se fosse dono da pista, cada passada suave e certeira, seu poder escondido por trás daquela calma, uma facilidade irritante.
“Olha por onde anda, novato”, Ryder gritou.
O cara parou na outra extremidade da pista, jogou o disco na rede sem perder o ritmo e se virou com um sorriso que combinava com o de Ryder. “Não sabia que os centers daqui eram tão fáceis de derrubar... Acho que esse time precisa de alguém que saiba o que está fazendo.”
As sobrancelhas de Ryder se uniram. “Você joga de center?”
“É.” A voz do cara ecoou facilmente, baixa e firme.
O maxilar de Ryder travou.
A confiança do cara o deixou incomodado. Suave demais, seguro demais, forçado demais.
Ryder conseguia quase ouvir a trilha sonora imaginária tocando atrás dele, aquele andar em câmera lenta como se ele achasse que era a estrela do seu próprio vídeo de melhores momentos. Provavelmente o tipo de cara que sorria em todas as fotos, chegava às festas como se fosse o dono do lugar e achava que seu maxilar podia ganhar jogos. Ryder mordeu o lábio para não rir, forçando um sorriso tenso no lugar.
Não tinha como, porra nenhuma, de um transferido chegar chegando e fazê-lo parecer lento. Não no seu gelo. E ainda assim, quando aqueles olhos escuros permaneceram nele, firmes e indecifráveis, isso deixou um rastro de algo que Ryder não conseguiu afastar.
O treino se arrastou, com exercícios em rotações infinitas até que as coxas de Ryder ardessem e suas luvas grudassem nas palmas das mãos. Drew e Connor continuaram com suas provocações habituais, mas ele mal ouviu, canalizando tudo para viradas mais bruscas e arrancadas mais rápidas. Toda vez que ele impulsionava, porém, sentia o peso da presença daquele cara em algum lugar no gelo.
Ele tentou rir disso, patinando perto o suficiente para dar um encontrão de ombro em Connor durante um passe.
“Atenção, Capitão!” ele gritou ao colidir com seu capitão, Beck Calder, que lhe lançou um olhar capaz de congelar lava.
“Hayes, tente focar essa energia no disco, não nas minhas costelas, caralho”, Beck rosnou, mas Ryder apenas deu um sorriso. Entrar na mente de Beck era quase um esporte por si só.
Ele se forçou a voltar ao ritmo, mas a consciência nunca passou.
Aquele cara novo parecia estar em todos os lugares. Toda vez que Ryder se alinhava para um exercício, ele via um vislumbre dele na periferia da sua visão: suave, sem pressa, puro controle e nenhum esforço. Isso fazia Ryder patinar mais forte, forçar mais rápido, tentando provar alguma coisa.
No final do treino, o suor escorria pelo seu pescoço e seu pulso batia em seus ouvidos. Ele se curvou para recuperar o fôlego, o ar frio o suficiente para arder seus pulmões.
Quando ele finalmente olhou para cima, paralisou.
Do outro lado da pista, o novato de cabelos escuros estava na linha azul, sem capacete, olhos escuros fixos nele. Sem sorriso agora. Apenas aquele olhar silencioso.