Capítulo 1
Matt
Eu não sou um filho da puta complicado. Me dê uma bebida forte, uma câmera engatilhada e uma mulher que esteja realmente disposta a ser devassa — mas devassa de verdade, daquele tipo que faz padres se benzerem e mães de família trancarem as portas — e eu estou feito. Plenamente satisfeito. O problema é que encontrar uma mulher que não amarela no segundo em que você a prensa contra a parede e a chama do que ela implorou para ser chamada é mais raro do que um unicórnio porra louca fazendo um boquete num arco-íris.
Todas elas dizem que querem. Ah, elas adoram a fantasia. “Eu curto muito explorar”, elas ronronam, com as pálpebras pesadas e a voz escorrendo como melado em pele nua. Ou: “Você pode me chamar do que quiser, eu gosto do jeito bruto”. E eu caio nessa como um idiota do caralho toda santa vez, pensando: Certo. Finalmente. Uma das selvagens. Uma vadia que topa tudo e não chora depois de ser chamada assim na cara.
E então — bum — inevitavelmente, tudo desmorona. Como hoje à noite.
Ela tinha tudo. Cabelo loiro comprido, curvas pelas quais você venderia a própria mãe só para percorrer com a língua, lábios que pareciam feitos para envolver um pau e sorrir sobre isso. Ela me lançou aquele olhar do outro lado do bar, cheio de fome e desejo, e eu pensei: Ok, lá vamos nós. Ela flertou como se quisesse uma coleira no pescoço e meus dedos entre as pernas antes mesmo das bebidas esfriarem. Ela disse todas as coisas certas.
Mas, no momento em que eu disse o que ela afirmou que queria ouvir — a chamei de minha vadiazinha carente — ela mudou da água para o vinho na porra de um segundo.
— De jeito nenhum vou aceitar isso, você me chamou de vadia — ela dispara, puxando a blusa para cobrir seios que eu nem tinha conseguido agarrar direito ainda. O rosto dela ficou vermelho como se eu tivesse acabado de sacar o meu e mijado no túmulo da avó dela.
Fico sentado na beira da cama, nu, de pau duro e completamente pasmo da porra. — Você disse que gostava de safadeza — eu rosno, mas ela já está no modo furação total, batendo o pé como se eu tivesse soltado uma ofensa racial em vez de um maldito gatilho de fetiche.
— Você é um porco do caralho — ela sibila, ajeitando a saia naquelas pernas que, francamente, não pareciam nem metade tão boas agora que estavam me deixando na mão e de pau duro.
— Jesus do céu — murmuro, encostando-me para trás, com as palmas das mãos no rosto como se tentasse apagar a noite toda. — É só uma maldita palavra, princesa.
Mas ela já foi embora. O estalo dos saltos dela pelo corredor é mais afiado que um tiro e ecoa como um julgamento. A porta bate e eu fico com os lençóis bagunçados, um tesão não satisfeito e um cigarro que eu nem quero mais.
Essa é a mesma merda que me impede de sair com alguém. É sempre o mesmo roteiro: provocar, flertar, fazer promessas — e então pisar no freio no segundo em que as coisas ficam reais. Eu não quero amarrar uma garota e dar caco de vidro para ela comer. Não quero marcar ninguém nem bater em ninguém. Só quero uma mulher que não se encolha quando eu a chamar de minha putinha suja e a fizer se sentir como uma. Uma mulher que entenda que sexo não é para ser um chá das cinco educado com gemidos combinados e diálogo de novela das seis. É suor, é saliva, é mão no cabelo, dentes na pele e, sim, palavras sujas do caralho.
Mas não. Em vez disso, fico com a mesma merda de sempre: Oh meu Deus, como você ousa?, e aí eu viro o vilão, o degenerado, a bandeira vermelha ambulante com um pau e uma atitude de merda.
— Inacreditável — eu rosno, pegando a garrafa de uísque no criado-mudo. Sem copo. Só um gole. A queimação descendo pela garganta, algo real, pelo menos. O uísque não finge. Não mente. Não grita e sai correndo quando eu falo sujo para ele.
Coloco meu pau de volta na cueca, meio mole e ainda puto da vida, e me arrasto para a sala. Jules está jogada no sofá, de pernas cruzadas como um Buda arrogante, colher enterrada numa caneca de sorvete que provavelmente já está meio derretido. Ela nem levanta os olhos quando a madame bate a porta como se estivesse fazendo um teste para um dramalhão. Nem se mexe, nem levanta a sobrancelha. Só uma mão no controle, colher na boca, olhos fixos na TV como se nada tivesse acontecido.
Essa é a Jules. Fria. Inabalável. Uma rainha do gelo com um coração que ocasionalmente descongela quando eu faço uma merda grande o suficiente para diverti-la.
Eu me jogo no outro lado do sofá, o couro velho gemendo sob o meu peso como se até ele estivesse cansado das minhas presepadas. — Isso foi um desastre da porra — resmungo, deixando a cabeça cair contra as almofadas.
Ela nem pausa a colher. — Outra que não aguentou o tranco, hein?
— Cristo — murmuro, massageando as têmperas como se pudesse exorcizar a memória. — A mesma merda. Começa com todo aquele calor e respiração pesada, termina com ela saindo em disparada como se eu tivesse pedido para usar um uniforme nazista.
Jules bufa, e eu quase consigo ouvir ela revirando os olhos. — Talvez você não devesse começar chamando ela de vadia, gênio.
Eu lanço um olhar mortal. — Ela disse que gostava disso, porra.
— Claro. E eu digo que amo fazer cárdio, mas você não me vê me inscrevendo para uma maratona porra nenhuma.
— Não começa com essa, Jules.
— Eu nunca começo — ela diz, a voz melada com aquele tom sarcástico que ela usa quando está prestes a me destruir com cinco palavras ou menos. — Só estou aqui para testemunhar o estrago.
Ela coloca a colher na boca e suga devagar, alto, de um jeito irritante. Como se estivesse querendo provar um ponto. Como se estivesse me desafiando a explodir de vez.
Jules é minha parceira de vida desde a faculdade. Conheci ela em uma festa onde eu ainda fingia que me importava com o legado do meu pai. Ela percebeu na hora — viu a câmera que eu não mostrava para ninguém, o ressentimento que eu nem tinha admitido para mim mesmo. Tentei transar com ela, é claro. Eu era um idiota naquela época. Ela riu, derramou uma cerveja na minha cabeça, depois me ajudou a voltar para o dormitório quando eu desmaiei na escada. Não foi embora. Me comprou café. Ficou. Quem diabos faz isso?
Só a Jules.
Foi ela quem me tirou da escola de negócios e me empurrou para a fotografia, dizendo: "Matt, você é uma merda em mentir. Faça o que você faz bem: observar as pessoas, capturar o momento pouco antes delas quebrarem". E, porra, ela estava certa.
Ela veio de um lugar pior que o meu — pobreza, uma mãe quebrada, um pai com mãos que não conheciam limites — e ainda assim subiu na vida até conseguir um cargo de alto nível onde é paga para dizer a homens com o dobro da idade dela que eles estão errados. Eu a vi crescer na base da briga, sem nunca piscar. Só dentes, cafeína e despeito. Agora ela está toda crescida e aterrorizante.
Ela olha para mim, finalmente, com as sobrancelhas erguidas. — Por que você ainda insiste?
— O quê, sair com as pessoas?
Ela dá um sorrisinho de lado. — É assim que estamos chamando isso agora?
— Vai se foder, Jules.
Ela arrasta a colher dos lábios, devagar, sorrindo como o próprio diabo. — Você queria, babaca.
Clássica Jules do caralho. Sempre rápida nas respostas, afiada o suficiente para tirar sangue, fria como aço gelado. Nada a abala — Deus sabe que eu já tentei. Fazer birra, trazer uma histérica para casa, desabar no sofá com bafo de uísque e o arrependimento saindo pelos poros; ela só levanta uma sobrancelha e continua comendo o sorvete como se eu fosse um ruído de fundo.
Sentamos em silêncio, um silêncio pesado e familiar que não precisa ser preenchido. O tipo que se estabelece entre duas pessoas que já viram o pior uma da outra e ainda assim dividem o sofá. Alguns minutos se arrastam, e então ela pega o controle, com uma mão só, como uma rainha reivindicando seu trono, e muda o canal para um daqueles programas de restauração de carros antigos que ambos realmente curtem. Finalmente. Algo que vale a pena assistir, em vez daquela merda de reality show que ela estava vendo antes, cheio de bronzeado falso, peitos falsos, orgasmos falsos e que, de alguma forma, ainda é menos real do que um desenho animado.
Eu olho de soslaio enquanto ela afunda ainda mais nas almofadas, pernas dobradas embaixo dela como se fosse dona de toda a porra do planeta — e vamos ser sinceros, de certa forma ela é. Tecnicamente, ela é dona do apartamento, o nome dela é o único no contrato. Eu pago o aluguel, claro, mas foi ela quem fez deste lugar um lar em vez de apenas um teto para os meus arrependimentos.
O cabelo dela é cortado reto e curto, com pontas afiadas como se ela mesma tivesse cortado com uma faca num dia de mau humor. E, de alguma forma, esse visual faria noventa e nove por cento das mulheres parecerem que estão tentando forçar a barra demais? Jules faz funcionar sem nem piscar. Ela não apenas segura o look — ela o usa como armadura, como desafio, como se estivesse desafiando o mundo inteiro a tentar falar alguma merda sobre isso só para ela poder destruir o sujeito com uma frase e um sorrisinho.
É a estrutura óssea. É isso. As maçãs do rosto dela poderiam cortar vidro, a linha do maxilar é uma arma, e quando ela está brava, parece um deus antigo trazido à vida só para arruinar toda a sua maldita linhagem. Ela não é bonita. Bonita é delicado. Jules é viciosamente linda, esculpida em mármore e iluminada com fogo azul. Aquele rosto? Aquele rosto do caralho poderia causar revoltas. Escultores perderiam a cabeça tentando esculpi-lo, soluçando porque não conseguiriam capturar a expressão certa — aquela que diz: Você não vale o meu tempo, mas estou te observando mesmo assim, só caso você me divirta.
E aqueles olhos — puta que pariu — aqueles olhos. Azuis penetrantes, claros como gelo da montanha, afiados o suficiente para encontrar cada falha que você nem sabia que tinha e ficar olhando para ela até você desmoronar. Eles não piscam muito. Foi isso que eu notei primeiro. Quando Jules trava os olhos nos seus, é como ser pregado na parede. Sem desviar. Sem se mexer. Apenas aquele olhar, inabalável, um desmonte lento e silencioso. Não é nem raiva. É pior. É compreensão. Ela conhece você. Você não consegue fingir merda nenhuma com ela. E se tentar, ela vai sorrir como se o diabo tivesse acabado de sussurrar no ouvido dela e, então, vai retalhar seu ego com precisão cirúrgica.
Foi naquele momento que ela me fisgou, naquela festa. Não foi a risada, não foi o sarcasmo — isso veio depois, como a segunda onda de uma tempestade. Foi aquele rosto, aquele olhar. Aquele olhar de eu vou te mastigar e cuspir fora, e você ainda vai rastejar de volta pedindo mais. E, que Deus me ajude, eu a segui pela casa toda como um cachorrinho abobalhado, excitado e sem esperança, bêbado dela e daquela bebida barata, pensando que talvez — só talvez — eu tivesse uma chance.
Uma pena que ela seja à prova de balas agora. Imune. Tem sido assim há anos.
Jules é a única mulher que eu nunca consegui enganar. A única que não se encolheu quando descobriu do que eu fugi — os clubes de campo, a herança, o nome que ainda ecoa nos círculos da alta sociedade como uma maldição. Ela não se importou com nada disso. Não me tratou como um herdeiro falido com fetiche por câmeras. Ela me viu bêbado apagado, fedendo a vômito e podridão, e ficou. Ficou. Ela limpou o vômito do meu queixo, deixou remédio no criado-mudo e me trouxe café. Como se eu valesse a pena ser salvo.
Ninguém faz isso. Ninguém dá a mínima desse jeito.
Exceto a Jules.
Agora, anos depois, nada mudou no que importa. Continuo sendo um desastre com uma câmera e demônios demais. Ela continua afiada como o pecado e duas vezes mais viciante. Estamos largados no nosso sofá caindo aos pedaços, nesse cubículo glorificado de apartamento, assistindo a dois babacas grisalhos desmontarem um Mustang 67 como se fosse uma escritura sagrada, e não consigo parar de pensar que isto aqui? Este momento do caralho? Talvez seja o único tipo de paz que eu vá conseguir.
Sem joguinhos. Sem fingimento. Só a Jules, o brilho da TV no rosto dela e o ritmo calmo de nossas próprias vidas quebradas batendo em sincronia.
E, porra, eu nem sei o que faria se ela fosse embora um dia.
— Ainda remoendo sobre o seu encontro? — Jules pergunta, com os olhos fixos na tela, o tom casual pra caralho, como se não tivesse acabado de enfiar uma adaga no meu lado sem nem olhar.
— Não — minto na cara dura. — Loiras não valem a dor de cabeça.
Ela bufa, alto e ríspido. — Nem morenas, pode acreditar. Já transei com o suficiente das duas para saber.
E aí está. Nós dois em poucas palavras. Dois fudidos e cínicos, tão podres por dentro que quase desmanchamos, jogados num sofá surrado como se fôssemos a realeza observando camponeses soldarem glória a partir do lixo. É a mesma coisa toda noite: o brilho da tela, o zumbido das máquinas cansadas e nós dois marinando em nossas próprias escolhas de merda.
“Como está o seu projeto da galeria?” ela pergunta, com cara de tédio, sem tirar os olhos da TV. Como se a pergunta fosse um detalhe qualquer, e não o tipo de coisa que vem me corroendo e me cuspindo há semanas.
Jules é a única que dá a mínima para o que eu faço. Nada de fingir que se importa, nem aquele sorriso falso e o papo furado de “ah, que interessante” que as pessoas soltam em jantares. Ela sacou. Ela estava lá na noite em que queimei meu futuro numa sala de reuniões e caguei para o meu sobrenome, trocando ternos por cliques de câmera. Ela nem piscou. Só me entregou outra bebida e disse para eu parar de ser um mimadinho e ir trabalhar.
Meus pais? Eles que se fodam. Eles não dão a mínima para as fotos que eu tiro ou para as pessoas que eu registro. Já fotografei protestos, incêndios, casas de swing, leitos de morte — e eles ainda acham que eu estou brincando com o dinheiro do papai. Para eles, eu sou o fracassado que jogou o nome Brandt no lixo e voltou apenas com os dedos sujos de tinta e um ressentimento do tamanho do mundo.
“Estou progredindo”, digo, com a mentira soando amarga na minha língua. A verdade é que estou sentado diante da mesma maldita mesa de luz há duas semanas, semicerrando os olhos para as fotos e odiando cada uma delas. Nada parece certo. Tudo parece estranho, como se eu estivesse me esforçando demais e de menos ao mesmo tempo. Como se eu estivesse me masturbando para ganhar elogios e esquecendo como gozar.
Jules me olha de lado, com uma sobrancelha arqueada naquela expressão clássica de “não me venha com mentiras, idiota” que ela aperfeiçoou desde o primeiro ano em que moramos juntos. “Aham. Você parece empolgado.”
Solto uma risada que é mais um rosnado do que diversão, seca e amarga. “O que posso dizer? Tenho muito em jogo com isso aqui.”
“Você sempre tem”, ela diz, espetando a colher no sorvete com a força de quem profere um sermão. Ela aponta a colher para mim como se fosse uma arma, pingando sorvete como se fosse uma pontuação. “E você sempre consegue, porra. Você é um infeliz, mas não desiste.”
Eu balanço a cabeça, um sorriso surgindo antes que eu possa evitar. “Valeu pelo incentivo, Treinadora. Realmente inspirador.”
“Disponha”, ela resmunga de boca cheia, como se eu não tivesse acabado de expor um pedaço da minha alma e ela não tivesse acabado de remendá-lo com uma piada e uma colher.
Essa é a Jules. Não dá falsas esperanças. Não diz que as coisas vão melhorar quando ela sabe muito bem que minha família nunca vai parar de me tratar como a ovelha negra que fugiu para se juntar ao circo. Ela não me insulta com aquele papo furado de que eles vão mudar de ideia. Ela sabe a verdade: eles não vão. Eles têm reputação demais e caráter de menos. Preferem doar alguns milhões para alguma caridade de água potável em Gana do que passar cinco minutos vendo o mundo através das minhas lentes. Eles vão polir suas imagens enquanto a minha acumula poeira.
Para eles, sou uma mancha. Um constrangimento com um bom olho e uma atitude péssima. Um fracasso em forma de filho que eles tentam não mencionar nos eventos sociais.
Mas Jules? Jules me enxerga. Não as partes quebradas, não o potencial desperdiçado — eles estão lá, claro, mas ela vê além disso. Vê através disso. Ela me chama a atenção desde o início, nunca me deixando cair fundo demais sem colocar um freio na minha descida. Ela é como uma âncora boca-suja, banhada a uísque, me impedindo de mergulhar direto no abismo que eu mesmo criei.
E essa é a fodida verdade. Eu provavelmente já teria ido pro saco sem ela.
E, porra, acho que ela sabe disso.
“Você vai me deixar ver o que tem até agora?”, ela pergunta, me tirando da espiral depressiva com a facilidade de quem está acostumada a limpar as minhas merdas. Jules sempre sabe quando me arrastar de volta da beira do abismo — geralmente com sarcasmo e palavrões, nunca com pena. Graças a Deus por isso.
“Eventualmente”, murmuro, deixando a cabeça cair para trás no sofá, como se quisesse me fundir a ele. “Quando não estiver uma bosta.”
“Matt, você é um dramático do caralho”, ela diz, aquela risada maldita borbulhando nela — leve, cortante, como uma dose de algo forte e puro. O tipo de risada que soa espontânea, mas eu sei muito bem que levou anos de sofrimento e merda para ela esculpir esse som dentro de si. “É fotografia, não um maldito transplante de coração. Ninguém vai morrer se o seu enquadramento estiver errado.”
“Valeu por isso, Jules. Sua compaixão não tem limites.”
“Ei, só estou dizendo — pare de agir como se sua câmera guardasse o segredo da paz mundial. Você vai dar um jeito nessa porra. Você sempre dá.”
E, assim, sem palestra e sem mimimi, ela consegue tirar o peso do meu peito o suficiente para eu conseguir respirar de novo. Ela não passa pano. Não mima. Mas, de alguma forma, só de ouvi-la dizer isso faz a montanha que eu estava encarando parecer apenas um morrinho de merda. Como se talvez eu não vá me foder inteiro na frente de uma sala cheia de esnobes da arte com opiniões mais afiadas que seus maxilares.
Essa é a Jules. Ela não conserta minha vida. Ela só faz tudo ser um pouco menos uma bosta.
“Como está o inferno corporativo?”, pergunto, as palavras com gosto de cinzas na boca. Só de falar sobre o trabalho dela me dá agonia. Terninhos, reuniões inúteis, executivos puxa-sacos com egos do tamanho de suas malditas carteiras de ações — é exatamente o tipo de ambiente sugador de almas do qual eu fugi, mas de alguma forma ela prospera nele. Como se tivesse sido afiada na medida certa para o campo de batalha.
“A mesma merda de sempre”, ela diz, com um dar de ombros tão casual que chega a ser um crime. Como se fazer malabarismo com tubarões usando um blazer fosse um dia normal. “Mas tenho esse evento chegando. Uma frescura corporativa de gala. Acho que aparecer sozinha não pega bem.”
Eu bufo, não consigo evitar o sorriso que surge. “Você? Precisando de um acompanhante? O quê, nenhum daqueles filhinhos de papai corporativos implorando por uma chance de lamber suas botas?”
“Vai se foder”, ela diz e, com um movimento de pulso, lança uma colherada de sorvete em mim. Aterrissa no estofado do sofá entre nós como um “vai se foder” derretido. Ela resmunga. “Porra. A culpa é sua.”
“Aham”, digo, observando-a limpar com os dedos, grudenta e irritada. “Não aceito responsabilidade por baixas lácteas colaterais.”
“Estou falando sério”, ela diz, lambendo os dedos com um resmungo. “Não posso aparecer sozinha. É um daqueles eventos — smoking, champanhe enfiado no rabo, todo mundo fingindo ser melhor amigo enquanto planejam mentalmente como enterrar uns aos outros sem deixar impressões digitais.”
“Parece um sonho, porra”, murmuro, esticando as pernas e chutando a borda da mesa de centro só para sentir alguma coisa. “Por que você não arrasta um daqueles seus puxa-sacos corporativos? Tenho certeza de que eles gozariam nas calças de grife só pela chance.”
Ela revira os olhos tão forte que tenho certeza de que ouvi o som. “É, não, obrigada. A última coisa que preciso é que um desses imbecis ache que é um encontro real. Eu acabaria desviando de mensagens de texto com segundas intenções e olhares tortos pelos próximos seis meses.”
“Faz sentido”, digo, pegando a garrafa de uísque quase vazia na mesa e virando um gole. Calor líquido, bruto e honesto, ao contrário da maioria das pessoas que conhecemos. “Então qual é o plano? Vai contratar um acompanhante ou o quê? Posso te passar um link do Craigslist.”
“Vai se foder”, ela ri, dando um tapa na minha coxa com as costas da colher. “Embora, honestamente, isso possa ser menos irritante do que lidar com pessoas reais. Pelo menos você pode pagar um prostituto para calar a boca.”
Eu dou um sorriso, girando o uísque na garrafa como se estivesse fazendo um brinde a isso. “Essa é a pura verdade.”
Ela se recosta, passando a mão pelo cabelo curto, o rosto iluminado pelo brilho da TV e um leve toque daquele tipo de cansaço que nem sua armadura consegue esconder totalmente. Mas ela não reclama. Não resmunga. Apenas diz: “Eu não sei. Vou dar um jeito”, como se não fosse nada. Como se ela não estivesse lutando sozinha em um mundo projetado para mastigar mulheres e cuspi-las de meia-calça e sorrisos educados.
Essa é a Jules. Sempre com os pés na lama, nunca pedindo ajuda e, de alguma forma, ainda conseguindo parecer que está ganhando. Ou, pelo menos, mantendo a posição superior.
Ela vai dar um jeito. Ela sempre dá, porra.
Dou outro gole, o uísque queimando lá embaixo como se tentasse esculpir para fora tudo o que eu não quero pensar. Jules ainda está me observando — olhando de lado como se esperasse uma confissão que sou teimoso demais para dar. Como se, se ela encarasse por tempo suficiente, eu fosse confessar tudo. Mas não estou com vontade de abrir minha bagagem emocional esta noite. O ar já está denso o suficiente com merdas não ditas para sufocar um cavalo.
“Então, você não consegue arrumar ninguém mesmo para levar?”, pergunto, só para matar o silêncio antes que ele se torne alto demais.
Ela dá de ombros, passando o dedo na tela do celular com aquele distanciamento praticado que ela usa como armadura. Como se estivesse apenas passando o tempo, não folheando silenciosamente sua agenda mental de babacas e relacionamentos fracassados. “Não preciso de um relacionamento, Matt”, ela murmura. “Só preciso de alguém quente, que respire e seja fotogênico o suficiente para sentar ao meu lado e fingir um sorriso. De preferência sem tentar enfiar o pau em mim depois.”
“Parece que você já está quase usando as pessoas como adereços”, digo, quase sussurrando.
Ela vira a cabeça na minha direção com aquele olhar — o que poderia azedar leite e matar um homem mais fraco. Aquele que não precisa de uma única sílaba para gritar: cala a porra da boca antes que eu arranque seus bagos como pagamento. Ergo as mãos em rendição fingida, mas não recuo porra nenhuma.
“Só estou dizendo”, continuo, insistindo no erro como o idiota que sou. “Você poderia estar fazendo algo melhor do que brincar de se vestir no meio de uma suruba corporativa. Você é mais inteligente do que todos aqueles imbecis cheiradores de coca e puxa-sacos juntos.”
Ela levanta os olhos, afiados, cortando o quarto como lâminas. “Ah, é mesmo? E o que diabos você saberia sobre isso?”
Eu me recosto, esticando as pernas como se não estivesse prestes a começar uma briga que não tenho chance de vencer. “Eu te conheço, Jules. Você tem mais cérebro no dedo mindinho do que metade daqueles terninhos se masturbando por opções de ações. Você não precisa ser um enfeite num evento de merda só para manter as aparências.”
Seu maxilar se contrai — tenso, cerrado como se ela estivesse segurando todos os insultos do livro. Então ela ri. Não aquele riso bom, real. Não. Esse é amargo para caralho. Seco. O tipo de risada que as pessoas dão quando foram decepcionadas vezes demais e esqueceram como é o som real da felicidade.
“Obrigada pela palestra, Coach Brandt”, ela diz, com a voz fria e cortante. “Mas tenho sobrevivido muito bem sem os seus conselhos de vida. Você não precisa se preocupar comigo.”
Mentira. Ela está carregando muito mais do que deixa transparecer, sempre carregou. Eu vi as rachaduras, mesmo que ela não admita. Eu sei quanto de si mesma ela enfiou nessa imagem arrumada, poderosa e intocável — só para o mundo não notar o quanto ela está sangrando por baixo disso.
Mas não digo isso. Não sou um idiota completo. Então, em vez disso, deixo o silêncio nos envolver novamente, denso, pesado e familiar demais.
Depois de um tempo, arrasto a conversa para águas mais seguras. “Então, você vai sozinha?”
Ela está mais quieta agora, sua voz um pouco mais suave, como se a aspereza tivesse diminuído um pouco. “Talvez. Ou talvez eu arraste a sua bunda teimosa. Faço você sofrer através de vinho caro e conversa fiada comigo.”
Eu arqueio uma sobrancelha, bufando. “Você quer que eu o quê? Faça o papel do seu encontro? Nem fudendo.”
Ela sorri, o canto da boca puxando para cima como se estivesse se divertindo muito. “Por que não? Você tem cara para isso. Fica apresentável quando tenta. Coloque um terno, finja que gosta das pessoas, e eu até deixo você me chamar de ‘amor’ por uma noite.”
“Vai se foder”, resmungo, embora não consiga evitar a risada que escapa. A ideia é absurda. Eu, em uma sala cheia de alpinistas sociais de olhos mortos, sorrindo falsamente entre taças tilintantes e colônia enjoativa. É como pedir a um lobo para se misturar a uma matilha de poodles.
Eu a observo, estalando os dedos. “Nem ferrando que eu vou colocar um terno. Não por você, não por ninguém. Não estou nem aí se você me pagar com boquetes e bourbon.”
Ela revira os olhos com tanta força que juro que ouço um estalo. “Não é como se eu estivesse pedindo em casamento, seu imbecil. É só uma noite de fingir que você não é uma completa pilha de bosta misantrópica.”
“Uma noite no inferno ainda é inferno”, eu murmuro, virando o que restou da garrafa. A queimação parece boa, me mantém no chão. “Além disso, metade do escritório está se molhando só de pensar na chance de ser vista com você. Escolha um deles e me deixe em casa apodrecendo em paz.”
Ela debocha. “Sim, porque nada soa melhor do que escoltar um colega de trabalho tarado que acha que jantar e uma dança significam que estou assinando um contrato de casamento com a minha buceta. Não, obrigada.”
“Justo”, admito. “Então, qual é o plano? Trazer um manequim? Achar alguém no Craigslist que consiga sorrir e não se borrar na frente de um CEO?”
Jules solta uma risada contida. “Sinceramente? Talvez fosse mais fácil. Pelo menos um manequim não tentaria ‘acidentalmente’ roçar a mão na minha bunda a cada cinco segundos.”
Eu balanço a cabeça, dando um sorriso. “Você? Desesperada? Nem ferrando. Você tem mais opções do que uma máquina de venda automática, Jules. Você é apenas exigente demais para se dar ao trabalho com qualquer uma delas.”
Ela joga a colher em mim — de novo. “Vai se foder.”
“Não esta noite”, respondo, com um sorriso presunçoso.
“Mas falando sério”, ela diz, sentando-se mais ereta e lambendo o resto do sorvete do canto da boca de um jeito que definitivamente não está ajudando meu foco. “Não se trata de precisar de alguém. Não dou a mínima para isso. Só quero passar por essa noite sem algum executivo seboso me olhando como se eu fosse a sobremesa dele.”
“Então vá sozinha”, digo, inclinando-me para frente com os cotovelos nos joelhos. “Entre como se fosse dona do lugar — o que, vamos ser sinceros, você praticamente é — e ouse qualquer um daqueles babacas superestimados dizer alguma coisa.”
Ela ergue uma sobrancelha, fazendo aquela cara típica de Jules — aquela que diz que sou louco e, ao mesmo tempo, um pouco divertido. “Certo. Aparecer sozinha e instantaneamente virar o assunto de dez cochichos passivo-agressivos e uma consulta ao RH. ‘Ela está bem?’ ‘Você acha que ela é instável?’ ‘Talvez seja difícil trabalhar com ela.’ Tô fora, de jeito nenhum.”
“Bem, então assuma essa porra. Abrace o rótulo de psicopata. Comece rumores de propósito. Entre com um batom vermelho-sangue e um canivete na bolsa. Foda-se as expectativas deles. Exploda o lugar metaforicamente.”
Ela ri, balançando a cabeça. “Você é um desastre.”
“Eu sei”, digo, jogando-me de volta no sofá como o fracassado mais exausto do mundo. “Mas é por isso que você me ama.”
Ela não responde de imediato. Apenas dá um sorriso, lento, maldoso e um pouco perigoso. “Você gostaria, cinegrafista.”
E talvez eu goste mesmo.
Ela se levanta, espreguiçando-se com os braços acima da cabeça como se fosse dona da porra do quarto — e talvez seja, pelo jeito que ela se move, lenta e lânguida, como uma gata que sabe exatamente o quão bonita está e que tipo de caos causa sem nem tentar. A blusa sobe o suficiente para mostrar aquela faixa perfeita de pele entre suas costelas e o cós da calça, e, porra, isso me atinge como um soco no peito. Aquela barriga tonificada, a curva suave das costas, o jeito que o short curto se agarra à bunda dela como se tivesse sido feito sob medida só para me sacanear — é tudo demais, porra.
E sim, eu fico olhando.
Como diabos eu não olharia? Jules é linda, de um jeito impiedoso e natural que não implora por atenção — ela exige. Como a gravidade, como um buraco negro envolto em sarcasmo e maçãs do rosto afiadas. Ela não precisa de maquiagem ou de qualquer sutiã push-up de merda. Ela não precisa tentar. Ela anda por aí de camiseta velha e calcinha e ainda consegue parecer algo saído de um sonho fodido. E a pior parte? Ela sabe disso. A garota sabe exatamente o que está fazendo comigo, mesmo que finja que não.
Às vezes — porra, mais do que às vezes — eu me pergunto se tive uma chance. Se talvez, só talvez, quando nos conhecemos, antes de eu ferrar com tudo com álcool e desprezo por mim mesmo, houvesse uma janela. Uma chance real de algo diferente. Mas eu estraguei. Como sempre faço. Afoguei a chance em uísque e apaguei no chão, vomitando na camiseta, enquanto ela sentava ao meu lado e se certificava de que eu não engasgaria com o meu próprio fracasso patético.
Droga, por que diabos eu bebi tanto naquela noite?
Ela estava bem ali. Disposta. Interessada. Inferno, eu podia ver isso nos olhos dela naquela época — algo selvagem, algo curioso. E eu arruinei tudo. Enterrei sob uma avalanche de problemas de infância e potencial desperdiçado. Eu tinha a única mulher que me via exatamente como eu era e não vacilou — e eu joguei fora. Talvez se tivéssemos transado naquela noite, isso teria arruinado tudo. Talvez tivesse sido demais, rápido demais, e teríamos queimado antes mesmo de brilhar. Talvez ela tivesse ido embora no dia seguinte com aquele sorriso frio e eu não passaria de uma memória embaçada no fundo da mente dela.
Mas talvez não.
Talvez pudesse ter sido algo real. Algo que não viesse embrulhado em arrependimento, silêncio e noites regadas a uísque, onde fico olhando para ela e me perguntando que porra estamos fazendo.
Ela se vira, indo em direção ao seu quarto, mas não antes de olhar por cima do ombro. Apenas um movimento rápido de cabeça, olhos encontrando os meus com aquela faísca de entendimento que sempre faz minha espinha arrepiar. “Vou dormir”, ela diz, voz casual, como se não tivesse acabado de me dar um chute nas bolas com sua existência. “O inferno corporativo começa cedo.”
Eu resmungo, mexendo-me no sofá, reprimindo a vontade de dizer algo que torne essa tensão estranha ainda pior. “Sim, claro. Vá aproveitar sua terra de sorrisos falsos e competições de quem tem o maior pau. Estarei aqui, batendo uma para a minha crise existencial e fingindo que minha câmera me completa.”
Ela não diz uma palavra. Apenas dá um sorriso — quase imperceptível, como um desafio — e desaparece no quarto. A porta não bate, não range. Apenas fecha. Suave. Final.
E fico sozinho, de novo, com nada além do gosto passageiro da risada dela e a marca crua de pensamentos que não consigo calar. A garrafa ainda está na minha mão, meio vazia e me julgando, e o silêncio pressiona tão forte que quase parece uma lápide.
Tomo outro gole longo de uísque, deixo a queimação arranhar minha garganta como punição. Como se, talvez, se eu bebesse o suficiente, parasse de pensar no jeito que ela olhou por cima do ombro. Naquela curva perfeita do quadril dela, no jeito que a voz dela envolve meu nome como se significasse algo.
Mas eu sei que não.
Jules é um fogo com o qual estou dançando perto demais há muito tempo. E eu já estou todo queimado.
Cara, eu só preciso de uma transa boa e suja. Não uma sessão de amassos doce e leve. Não uma rapidinha higienizada e meia-boca, onde ela geme como se estivesse fazendo um teste para um pornô feito para mães de igreja. Preciso de algo cru. Feio. Pele suada, costas arranhadas, beijos com troca de saliva e garganta rouca de tanto gritar meu nome. Preciso arruinar alguém — deixá-la destruída e sorrindo, pernas tremendo, rímel borrado de todas as formas possíveis, implorando para que eu a chame de "depósito de porra" nojento como se fosse um elogio.
Quero me enterrar tão fundo dentro de alguém que o resto do mundo suma. Só uma noite onde tudo pare — sem culpa, sem pressão, sem merda de hesitação. Apenas dois corpos colidindo como se estivéssemos tentando tirar o mundo do eixo.
Mas vamos ser sinceros — Jules? Jules é boa demais para esse tipo de porra. Ou pelo menos, essa é a mentira que conto a mim mesmo toda vez que olho para ela e sinto aquele pulso no estômago gritar minha. Ela tem aquela disciplina rígida — controlada, composta, indecifrável. O tipo de mulher que nunca vacila, nunca quebra, nunca deixa o mundo ver nem um sinal de fraqueza. Tudo o que ela faz é calculado, afiado como uma navalha. O riso, a postura, o jeito que ela manda as pessoas se foderem sem nem aumentar o tom de voz — é tudo parte da armadura. Linhas limpas e controle.
Não é o tipo de garota que sente prazer em ser chamada de putinha suja com saliva na língua e joelhos machucados contra o chão.
…Certo?
Foda-se. Eu nem sei. Talvez ela seja. Talvez ela amasse esse tipo de coisa suja e depravada. Talvez exista um lado dela que eu não vi porque estive ocupado demais tentando não ferrar com tudo. Porque eu ferrei com tudo uma vez, e aquela noite me custou a chance. No segundo em que apaguei em vez de tirar a roupa dela, a oportunidade desapareceu, como se nunca tivesse existido.
E agora? Agora ela é minha melhor amiga. Minha constante. Minha âncora no meio de todo o caos. A única pessoa que não me olha como se eu fosse um defeituoso. O único ser humano em quem confio para me confrontar sem me derrubar. E construí tudo isso com ela sobre a fundação de não cruzar essa porra de linha.
Então o que diabos estou fazendo pensando em dobrá-la sobre a bancada da cozinha e vê-la desmoronar?
Balanço a cabeça com força, o quarto balançando o suficiente para me lembrar do quanto bebi. Isso não me para. Pego a garrafa de novo, despejo um pouco no copo — que se dane, direto do gargalo — e viro com um chiado. Fogo na garganta. O mesmo veneno de sempre.
Não sei por que diabos estou me torturando com esses pensamentos. Talvez eu seja apenas um idiota. Provavelmente sempre fui. É mais fácil ficar perturbado com fantasias do que lidar com o fato de que estou sozinho, de que a única conexão que não reduzi a cinzas é aquela que tenho medo de tocar.
Ela é minha melhor amiga. Isso deveria ser o fim da porra da conversa.
Mas não é. Porque toda vez que ela anda por aí naqueles shorts curtos, com as coxas tonificadas e aquele sorriso que ela dá quando está zombando de mim, eu sinto. Toda vez que ela passa por mim a caminho da geladeira, com a pele nua roçando na minha por um segundo a mais, eu sinto. Toda vez que ela se joga no sofá ao meu lado, com o pé dobrado, a camiseta larga o suficiente no colarinho — eu sinto. E me odeio por isso.
Talvez seja melhor manter as coisas como estão. Seguro. Familiar. Sem complicações. Não quero ferrar com tudo porque não consigo manter o pau dentro da calça perto da única pessoa que realmente se importa comigo.
Tomo outro gole. Deixo o uísque queimar o barulho. O que preciso — o que eu realmente preciso — é de alguma garota aleatória. Alguma transa suja, sem rosto, disposta. Alguém que não conheça meu passado ou meu sobrenome. Alguém que não dê a mínima para quem sou ou no que falhei. Apenas um corpo quente, uma boca aberta e uma veia safada do tamanho do mundo. Sem amarras. Sem fingimentos. Sem ilusões de merda. Apenas destruição crua, primal e mútua.
Mas isso também é uma fantasia. Porque mesmo as que dizem que gostam dessa porra — oh, elas falam bastante, todas dizem “me enforca”, “me degrada”, “eu gosto de selvageria” — desmoronam no segundo em que você realmente entrega. Um sussurro de “você gosta de ser uma puta, né?” e, de repente, elas estão agarradas aos lençóis como se eu as tivesse chamado de criminosas de guerra. É tudo encenação até ficar real. Depois, elas desabam como uma casa de papel molhado.
Recosto-me no sofá, o couro rachado gemendo sob meu peso, olhos fixos no teto como se ele fosse oferecer algum tipo de clareza divina. Mas é apenas gesso e sombras. Como tudo ao meu redor. Falso, vazio e cansado.
Tomo outro gole. Deixo pesar no estômago. Droga, preciso tirar minha cabeça dessa espiral. Preciso parar de pensar nela. Sobre isso. Sobre tudo. Mas quanto mais tento, mais fundo eu afundo.
E a pior parte?
Sei que amanhã ela vai aparecer aqui de novo, com os olhos sonolentos e convencida, perguntando se bebi o resto do café, e eu estarei de volta à estaca zero — observando, sentindo dor, fingindo que nada disso importa.
Puta que pariu.