Capítulo 1
A chuva não tinha parado o dia todo. Não era um temporal, apenas aquela garoa fina e fria que se infiltrava nas roupas e ficava ali. Ela cobria o asfalto rachado do East Quarter de Briarwick, enchendo as partes baixas com poças rasas que refletiam os postes de luz lá no alto. As lâmpadas zumbiam e piscavam na neblina, com uma luz fraca e trêmula.
Grayson Hale já deveria ter ido para casa há horas. Ele estava sentado, curvado sobre o balcão do bar, com uma mão segurando frouxamente um copo baixo de uísque que já tinha sido enchido vezes demais. Sua jaqueta estava pendurada no banco ao lado, com o forro começando a rasgar perto dos punhos, mas era tudo o que lhe restava que ainda o fazia parecer alguém que se importava com alguma coisa. Ele não se importava, não naquela noite.
O dia tinha sido uma derrocada lenta. Demitido. Sem aviso, sem rescisão, sem nem a decência de um sorriso falso do gerente com quem ele trabalhou por três anos. “Cortes”, eles disseram. Mas Grayson sabia o que era de verdade: um favor para o sobrinho do chefe que precisava de um emprego. Agora ele estava ali, no The Rusted Anchor, tentando afogar o gosto amargo na garganta.
“Você parece um homem que precisa de companhia.”
A voz dela cortou o zumbido baixo do bar. Grayson não precisava olhar para saber que ela era problema. Ele olhou na direção dela: cabelos escuros que brilhavam em ondas, batom vermelho borrado o suficiente para ele pensar que estava usando aquilo há horas.
Ela se apoiou no balcão, as unhas batendo suavemente contra a madeira. “Meu nome é Lila.”
Ele assentiu uma vez, sem se comprometer, e voltou a beber.
“Você é sempre tão amigável assim?” Ela provocou, inclinando a cabeça.
Os lábios de Grayson se curvaram, o mínimo vestígio de um sorriso. “Só com pessoas em quem estou interessado.”
Os olhos dela se estreitaram, brincalhões a princípio, depois avaliadores. “Não sou o seu tipo?”
“Não”, ele disse simplesmente. Ele não se deu ao trabalho de ser delicado.
Mas Lila era persistente. Ela escorregou para o banco ao lado dele. “Talvez você não conheça o seu tipo.”
Grayson deu outro gole lento, deixou a ardência se espalhar pelo peito e, finalmente, olhou para ela direito. Ela era bonita, com certeza. Mas havia algo afiado ali, não do tipo que te deixa curioso, mas do tipo que te deixa cauteloso.
“Querida”, ele disse, com a voz baixa, “se eu quisesse passar a noite com uma mulher, eu não estaria sentado aqui desejando que todos me deixassem em paz.”
O brilho nos olhos dela foi instantâneo: a mágoa se transformou em algo mais frio. Ela se endireitou, o sorriso desapareceu. “Você é um idiota.”
“É”, ele murmurou para o copo. “Já ouvi isso antes.”
Lila saiu do banco e se afastou, seus saltos batendo contra o piso de madeira. O barman lhe lançou um olhar, mas Grayson ignorou.
Dez minutos depois, ele decidiu ir embora. O uísque tinha feito o que podia, e ele não estava a fim de continuar dançando com os fantasmas em sua cabeça. Ele vestiu a jaqueta, enfiou uma nota amassada debaixo do copo vazio e saiu para a noite.
A rua lá fora estava quase deserta. Ele acendeu um cigarro enquanto caminhava, deixando a primeira tragada chegar fundo aos pulmões. A noite estava quieta para aquela parte de Briarwick. Quieta demais. Ele virou à esquerda, em direção ao beco rachado que dava na sua rua.
“Você cometeu um erro lá dentro, bonitão.”
A voz veio da direita, era baixa, com um tom áspero, carregada com algo mais frio do que raiva.
Grayson diminuiu o passo, seus movimentos calculados, e se virou apenas o suficiente para vê-lo.
O homem saiu da entrada do beco como se fosse o dono das sombras, seus ombros largos preenchendo o espaço estreito entre as paredes de tijolos. A chuva brilhava sobre uma jaqueta de couro preta, escorrendo pelas tatuagens que subiam pelo maxilar até a testa. O olhar dele se fixou no de Grayson e não se moveu, quase como um predador avaliando a distância antes do bote.
“Você estava falando com a minha irmã”, o homem disse, a voz ainda baixa, mas com um toque de aço.
“Ela começou a conversa”, Grayson respondeu, com o tom suave, mas sem qualquer pedido de desculpas.
“Ela também disse que você era um idiota.”
Ele deu de ombros lentamente, o menor sinal de sorriso tocando sua boca. “Ela não está errada.”
O sorriso do homem vacilou, a diversão se transformando em algo mais duro, mais cruel. Seus olhos se estreitaram até virarem fendas. “Você acha que pode falar com ela assim e simplesmente ir embora?”
Grayson soltou a fumaça sem olhar para ele, derrubando a cinza na sarjeta. “Esse é o plano.”
Ele mal deu dois passos antes que um punho se fechasse na parte de trás da sua jaqueta e puxasse. Com força. A gola apertou sua garganta, cortando sua respiração.
“Plano errado”, disse o homem, com uma voz calma, do jeito que apenas homens perigosos conseguem.
O pulso de Grayson acelerou, mas sua postura permaneceu relaxada. Ele já tinha se envolvido em confusões de beco o suficiente para saber quando alguém estava apenas estufando o peito e quando alguém pretendia derramar sangue. Aquele cara? Ele não estava procurando uma discussão. Ele estava procurando causar dano.
“Solta”, avisou Grayson.
Mas o homem não soltou. Em vez disso, ele o empurrou, um solavanco violento que fez Grayson tropeçar na rua molhada pela chuva. Suas botas cantaram contra o asfalto úmido, mal conseguindo se firmar antes que o homem se aproximasse novamente.
O primeiro soco atingiu o ombro de Grayson como um martelo, a dor detonando pelo seu braço até as costelas. O segundo veio rápido em direção ao seu maxilar; ele se abaixou, sentiu o vento passar raspando pela bochecha, o cheiro de couro e fumaça de cigarro invadindo seu nariz.
“Você está cometendo um erro”, Grayson avisou, com o tom monótono e perigoso.
Os lábios do homem se curvaram. “O único erro aqui é pensar que você vai sair andando com todos os seus dentes.”
Ele avançou novamente, as mãos agarrando a camisa de Grayson, os nós dos dedos afundando em sua clavícula. O calor da adrenalina atingiu Grayson como um rastilho de pólvora, uma descarga elétrica e afiada que esvaziou sua mente de tudo, exceto do homem à sua frente. Suas mãos se moveram antes que ele pudesse pensar. Grayson empurrou — não um empurrão qualquer, mas um golpe com o corpo inteiro, as palmas das mãos colidindo contra o peito do homem com toda a força que ele tinha. O impacto jogou o homem para trás. As botas arrastaram, escorregaram. Seu calcanhar prendeu na borda irregular da calçada. Por uma fração de segundo, seu equilíbrio vacilou. Então a gravidade venceu. O crânio dele atingiu o concreto com um som que cortou a chuva, um estalo oco e úmido que pareceu ecoar nos dentes de Grayson.
O corpo do homem ficou mole instantaneamente, um braço estendido em um ângulo estranho. A chuva corria pelo rosto dele, criando riachos através do sangue que já começava a escorrer para a sarjeta. Grayson ficou paralisado, seu coração martelando contra as costelas. Ele se agachou lentamente, a mão pairando logo acima da garganta do homem, sem tocar — ele não precisava. A imobilidade era o suficiente.
“Merda...” A palavra foi apenas um sussurro.
Ele se endireitou, a respiração ainda irregular, a imagem gravada no fundo de seus olhos. Grayson examinou a rua rapidamente. Ninguém por perto. Nenhum passo perto o suficiente para importar. Ele puxou a jaqueta e foi embora sem olhar para trás.
O som daquele estalo o seguiu por todo o caminho até em casa.
O The Rusted Anchor estava silencioso agora, vazio de barulho e pessoas. O único som vinha do letreiro de neon zumbindo na janela, banhando os bancos vazios em um brilho vermelho opaco. Jack Marlowe estava sozinho atrás do balcão com uma garrafa de uísque e a luz granulada do monitor de vigilância.
A filmagem passava em loop novamente. O empurrão. O tropeço. A queda úmida na calçada. Jack assistiu à cena se desenrolar em preto e branco, seu estômago se revirando quando o homem atingiu o chão — e não se levantou mais. Ele passou a mão pelo rosto. Oito anos gerenciando o lugar tinham lhe ensinado como essas coisas terminavam. Algumas sujeiras você não podia simplesmente limpar e esquecer.
O telefone estava no final do balcão, pesado em seu suporte, o fio enrolado como uma corda de forca. Jack encarou o aparelho por um longo momento, o polegar tremendo contra a madeira. Ligar significava se envolver. Significava que alguém lembraria seu nome amanhã, e não de um jeito que ele gostasse. Mas o Anchor não era dele. Pertencia a ele. E o pessoal do Kane não gostava de surpresas.
Jack pegou o fone. O número não estava escrito em lugar nenhum, mas seus dedos discaram como se o conhecessem desde sempre.
Dois toques.
Três.
Então uma voz respondeu — profunda, firme, carregando o tipo de peso que fez a nuca de Jack arrepiar.
“Fale.”
Jack engoliu em seco. “É o Marlowe. Temos um problema.”
“Onde?”
“No The Rusted Anchor.”
Uma pausa.
Então, “Qual a gravidade?”
Os olhos de Jack se voltaram para a imagem congelada no monitor. Ele suspirou. “Do tipo que não vai se levantar de novo.”
“Quem?”
“Não o conheço.” Jack hesitou. “Nunca o vi antes de hoje à noite.”
O silêncio se estendeu do outro lado, tempo suficiente para Jack ouvir uma música baixa ao fundo. Finalmente, a voz falou novamente. “Fique aí dentro. Tranque as portas. Isso já está sendo resolvido.”
A garganta de Jack apertou. “Ele... não precisa vir até aqui, precisa?”
Um leve bufo de divertimento. “Não. Se ele aparecer, significa que a situação está pior do que você está dizendo. E acredite em mim, Marlowe... você não quer isso.”
Jack apertou o telefone com mais força. “E o corpo?”
“Ele terá sumido antes que você abra amanhã. Não preciso te lembrar o que acontece se você abrir o bico.”
A linha ficou muda.
Jack baixou o fone, o silêncio na sala subitamente mais alto do que antes. Ele se serviu de uma dose dupla, pura, e desligou o monitor.
Pela manhã, não haveria sinal do homem na rua. Sem sangue. Sem perguntas. O que significava que alguém poderoso já tinha decidido que o assunto estava encerrado.