Chapter 1
A música estava mais alta agora. Mais lenta. Mais pesada. Daquele tipo que faz as pessoas se mexerem sem pensar.
Mila e Elena já estavam seminuas, dançando na frente dos homens de Dante como se fosse a única coisa que soubessem fazer. Os homens riam, jogavam dinheiro e sussurravam coisas em seus ouvidos enquanto puxavam seus vestidos.
Aria não se moveu.
Ela permaneceu onde estava, no canto da sala, com as mãos ao lado do corpo e os olhos fixos à frente. Como uma estátua. Mas não uma feita para ser admirada.
Ela não balançou os quadris. Ela não sorriu.
Ela apenas ficou ali.
Eventualmente, os dois homens se levantaram, jogaram algum dinheiro no sofá e foram embora com Mila e Elena, ambas as garotas rindo como se fosse apenas mais uma noite.
A porta se fechou.
Agora eram apenas ela e ele.
Dante Moretti.
Ele estava sentado no sofá, ainda recostado, com as pernas abertas e um cigarro na mão, observando-a como se ela fosse um quebra-cabeça que ele não tinha pressa para resolver.
Ele não falou de imediato.
Seus olhos percorreram o rosto dela, seus braços, suas pernas, e depois voltaram. Não de um jeito cafajeste, mas como se estivesse inspecionando algo raro.
E então ele falou, em um tom baixo e casual.
"Non balli?"
(Você não vai dançar?)
Aria não respondeu. Seu peito subia lentamente. Suas mãos estavam frias. Ela queria falar, mas não confiava no que poderia sair.
Ele ergueu uma sobrancelha, divertido. "Sei muta?"
(Você é muda?)
Ela mordeu a bochecha, mas continuou sem dizer nada.
Ele riu suavemente, sem zombaria; mais como se estivesse… surpreso.
Ele deu outra tragada no cigarro e inclinou a cabeça.
"Come ti chiami?"
(Qual é o seu nome?)
Ainda nada.
Então ele a observou com mais atenção.
E ela era… de tirar o fôlego.
Não aquele tipo de beleza chamativa e óbvia. Sem glitter ou cílios postiços. Não.
Ela tinha uma beleza serena.
Natural. Real.
Grandes olhos castanhos, atentos, emoldurados por cílios espessos que pareciam naturais demais para serem falsos. Sua pele tinha um tom dourado, brilhando suavemente sob a luz fraca.
Seus lábios estavam levemente entreabertos, rosados e rachados pelo estresse.
Seu cabelo era escuro, solto e bagunçado, como se ela tivesse lutado contra alguém antes que o tocassem.
O vestido preto em que a enfiaram colava em seu corpo, com curvas nos lugares certos, mas ele percebia que aquilo não era ela. Ela não estava tentando se exibir.
Ela parecia cansada, mas não do jeito das outras garotas. Não parecia… usada.
Parecia mais alguém que não dormia há dias.
E, acima de tudo, ela parecia limpa.
Corpo limpo. Energia limpa. Alma limpa.
Só isso já a fazia se destacar naquele lugar, como se não pertencesse ali. E aquilo o fascinou.
"Tu non sei come le altre," ele murmurou.
(Você não é como as outras.)
Ele se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.
"Hai paura di me?"
(Você tem medo de mim?)
Ainda assim, ela não respondeu. Mas seu maxilar ficou tenso. Ele percebeu.
E, meu Deus, ela era corajosa. Talvez estúpida. Mas corajosa.
Ela não desviou o olhar. Não chorou. Apenas encarou-o como se estivesse planejando fugir ou talvez esfaqueá-lo caso ele chegasse perto demais.
Dante sorriu para si mesmo.
"Interessante."
(Interessante.)
Então ele acenou uma vez, apagou o cigarro no cinzeiro e disse algo que fez o coração dela disparar:
"Tutti fuori. Lei resta."
(Todos para fora. Ela fica.)
O silêncio entre eles se prolongou demais.
Dante se levantou lentamente, agora pairando sobre a mesa. O cigarro tinha acabado. Sua paciência? Estava por um fio.
Ele caminhou em direção a ela com passos calmos, mas havia algo tenso em seu maxilar. Algo pulsava atrás de seus olhos.
Aria não recuou.
Ele parou na frente dela. Perto. Perto demais. Ele era alto, muito mais alto do que parecia sentado. E largo. Sólido como uma parede, vestido de preto.
A cabeça dela se inclinou apenas o suficiente para encará-lo nos olhos.
Foi aí que ele disse:
"Se você não falar comigo, eu posso te matar."
Frio. Direto. Sem emoção.
A expressão de Aria mudou instantaneamente. Seu lábio se curvou levemente, não por medo, mas por raiva. Desprezo. E então… ela falou.
"Sim. Me mate. Prefiro morrer a expor meu corpo a você."
Suas sobrancelhas subiram. Surpresa brilhou em seus olhos.
Ela falava inglês. E não só isso, ela estava falando muito sério.
Então veio a risada.
Baixa. Real. Quase... divertida.
Ele recuou ligeiramente, passando a mão pelo cabelo.
"Porra," ele disse, com um sorriso de lado. "Bom. Eu odeio falar italiano o tempo todo mesmo. Nunca aprendi isso direito."
Ele se sentou novamente no sofá, com as pernas abertas, um braço jogado sobre o encosto como se não tivesse planos de sair dali tão cedo.
Então ele fez um gesto preguiçoso na direção dela.
"Dance."
Aria estreitou os olhos. "Eu não sou dançarina."
Resposta errada.
Dante levantou-se novamente, desta vez rápido.
Ele atravessou o espaço entre eles em dois passos e a agarrou pelo pescoço, não com força para sufocar, mas o suficiente para sacudi-la.
Ela arfou, suas mãos voaram para segurar o pulso dele, mas ela não chorou nem implorou. Seu olhar era afiado, selvagem, queimando.
"Não tem nada que você possa fazer para me fazer dançar," ela disparou, ofegante.
Ele congelou.
Ainda segurando-a.
Apenas… encarou-a. Como se não conseguisse decidir entre bater nela ou beijá-la.
Aquele fogo no peito dela? Ele não se apagou.
Ela falava sério. Ela estava com medo, sim, mas não quebrada. Não como as outras.
Os lábios de Dante se entreabriram. Ele se inclinou lentamente, com os olhos fixos nos dela. Aria virou o rosto, com o maxilar travado de repulsa.
A boca dele roçou o queixo dela, suave, apenas um toque, e ele passou a língua ao longo da pele gentilmente.
Aria recuou. Seu corpo inteiro estremeceu de nojo, mas ela não gritou. Não chorou.
Ela apenas o encarou com mais firmeza.
A voz de Dante estava baixa. Rouca.
"Você vai ser minha."
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Anos atrás: O início da miséria de Aria.....
Nápoles, Itália – 2019
Rione Sanità, uma das favelas mais antigas de Nápoles. Paredes rachadas. Roupas estendidas balançando em varandas minúsculas. Cheiro de cimento úmido, cigarros velhos e perfume barato. O tipo de lugar para onde as pessoas não olham quando vão embora. Ela não chorou.
Ela ficou ali, encarando o túmulo como se fosse de um estranho, apenas um nome na pedra, não sua mãe.
O cemitério estava quase vazio, silencioso, exceto pelos corvos e aquele velho varrendo folhas com as costas curvadas. Os braços de Aria pendiam rígidos ao lado do corpo. Ela não falava há horas. Suas bochechas estavam secas, mas sua garganta queimava.
Maria Bellini.
Amada Mãe.
1975 – 2019.
A pedra de uma mentirosa.
Ela nunca foi "amada". Pelo menos não pelo mundo. Apenas mais um nome nas favelas, mais uma mulher que vendeu seu corpo e morreu em algum quarto infestado de drogas. Mas ela era mãe de Aria. Isso tinha que significar alguma coisa. Uma rajada de vento soprou poeira sobre o mármore. Aria não recuou. Ela não se despediu. Apenas se virou, com as mãos enfiadas no moletom puído, e foi embora.
Dias Atuais – Cinco anos depois
O prato em sua mão bateu contra a borda do balcão, mas ela o segurou rápido. Seu chefe a encarou. Ela não se importou.
— Mesa cinco — ele ordenou rispidamente.
— Eu sei — Aria murmurou, pegando dois garfos e uma jarra de água.
A pequena trattoria ficava em uma rua apertada no Centro Storico, o coração da cidade velha, onde os turistas gostavam de fingir que aquilo ainda
tinha algum charme. A verdade? Os azulejos estavam rachados, a cozinha cheirava a gordura e o chef tinha problemas de temperamento. Mas pagava as contas. Por pouco.
Aria se esquivava entre as mesas, servindo a comida com aquele meio sorriso educado que não abria espaço para conversas. Ela vestia um vestido preto simples, com o avental amarrado apertado demais e o cabelo preso em um coque bagunçado. Alguns clientes olhavam para ela como se fosse invisível. Outros… não olhavam. Ela ignorava os dois tipos.
Às 20h, o movimento começou a diminuir. Às 21h30, ela limpava as mesas enquanto o gerente fumava um cigarro atrás do outro lá fora. A água do esfregão ficava cinza rápido, como sempre. Seus braços doíam, mas ela não reclamava. Ninguém se importava mesmo.
22:04 – Rione Sanità
Quando ela desceu do bonde e entrou de volta no seu bairro, a cidade tinha mudado.
Estava escuro, e os postes de luz piscavam como se estivessem com medo também. Os prédios antigos se inclinavam uns contra os outros como se estivessem bêbados. A tinta descascava, as persianas estavam quebradas e as janelas rachadas, sem nunca serem consertadas.
Aria caminhava com a bolsa abraçada ao corpo, os olhos fixos à frente.
A loja da esquina tocava uma música pop italiana bem alta. Um grupo de caras ria perto do beco. Provavelmente chapados. Uma briga começou a uma quadra dali e ela podia ouvir a gritaria. Mas ninguém olhou duas vezes. Aquilo era normal ali.
Então ela as viu, as mulheres. As mesmas que costumavam chamar sua mãe de "irmã".
Elas estavam na rua de meia arrastão e maquiagem carregada demais, tragando cigarros e falando rápido com gírias napolitanas. Uma delas piscou para um carro que passava devagar.
O estômago de Aria deu um nó, mas ela não parou de andar.
— Ei, piccola Bellini — uma delas gritou com um sorriso. — Você está cada dia mais parecida com ela.
Aria não respondeu. Apenas continuou andando, mais rápido agora.
A pior parte? Aquela mulher não estava errada. Ela era mesmo parecida com a mãe. As mesmas pernas longas. O mesmo cabelo escuro. As mesmas maçãs do rosto marcantes que os homens costumavam comentar de todas as formas erradas. Mas Aria não era sua mãe. Ela jamais seria ela.
Ela subiu as escadas do seu prédio, um amontoado em decomposição de paredes desmoronando e azulejos manchados, e destrancou a porta. Quarto pequeno. Paredes descascadas. Um colchão. Uma chaleira empoeirada. Mas era tudo dela.
Ela trancou a porta, jogou a bolsa de lado e sentou-se no chão. Luzes apagadas.
Apenas ela. O silêncio. E cem pensamentos que ela não queria ter. Ela não acendeu a luz.
O luar fraco que entrava pela janela rachada era o suficiente. Aria sentou-se com as costas contra a parede, joelhos dobrados, o peito subindo e descendo devagar, como se estivesse segurando algo. Sempre havia algo para segurar.
O silêncio era pesado, mas familiar. Sem TV. Sem vozes. Apenas a buzina ocasional de um carro na rua ou o eco de alguém gritando a três prédios de distância. Provavelmente um bêbado. Talvez pior. Ela não se importava. Aquela era sua rotina.
Casa. Silêncio. Fingir que o mundo lá fora não existia.
Porque se ela começasse a pensar demais — nas contas que não podia pagar, nos olhares dos homens no trabalho ou naquele comentário estúpido mais cedo sobre parecer com a mãe — ela ia desmoronar. E ela tinha trabalhado duro demais para se manter inteira.
Ela encarou o teto.
Seu estômago roncou. Ela não comia desde de manhã. Tinha macarrão instantâneo no armário. Ela não se moveu. Ainda não.
Lá fora, as ruas de Rione Sanità continuavam agitadas. A favela nunca dormia de verdade; ela apenas mudava de personalidade. A manhã era para as crianças e compras. A tarde era barulho. A noite? Era quando as coisas reais saíam.
Prostitutas se apoiavam em grades enferrujadas, o som dos saltos batendo contra o asfalto quebrado. Motocicletas passavam zunindo, os pilotos nem se preocupavam com capacetes ou regras de trânsito. Música tocava alto de uma janela do segundo andar, algum remix de reggaeton cheio de grave e nada mais.
Aria deu uma olhada pela janela, entreaberta por uma veneziana velha que rangia quando o vento batia do jeito errado. Ela viu o grupo de sempre na esquina. Garotas que ela conhecia pelo nome, mesmo que não falasse mais com elas.
Elas riam. Uma acendeu um cigarro. Outra ajeitou a alça do sutiã como se fosse parte da sua rotina.
Só mais uma noite. Mas algo parecia estranho.
Havia uma van estacionada do outro lado da rua que não estava lá antes. Nada chamativa. Nem limpa. Apenas… fora do lugar. Dois homens estavam perto dela, encostados na lateral, conversando baixo. Ela não conseguia ouvi-los, mas não precisava. Eles não pareciam clientes.
Um deles olhou para cima de repente, não diretamente para ela, mas na sua direção.
Aria recuou, afastando-se da janela e fechando a veneziana.
Seu peito estava apertado agora. Não era pânico. Ainda não. Apenas… um pressentimento. O mesmo tipo de instinto que a manteve segura durante todos esses anos. Você cresce em Rione Sanità, você aprende a sentir o perigo antes que ele bata à porta.
Ela esfregou os braços e sentou-se de volta no colchão.
Talvez não fosse nada. Mas algo no seu íntimo sussurrava o contrário. E Aria Bellini sempre ouvia seu instinto.
Rione Sanità – 06:07
Aria puxou o capuz do moletom sobre a cabeça e saiu. O ar da manhã estava frio e azedo, como lixo úmido e resto de fumaça de cigarro. Ela fechou o zíper do moletom até o pescoço e trancou a porta atrás de si.
As ruas estavam mais silenciosas do que estariam em duas horas, exatamente como ela gostava. Mas assim que virou a esquina, ela a viu.
Giulia.
Ela estava encostada em uma parede grafitada com um cigarro pendurado entre dois dedos de unhas lascadas, o rímel borrado e os lábios ainda vermelhos da noite anterior. Seu vestido estava amassado, uma alça caída no ombro, e seus saltos pareciam mal ter sobrevivido ao calçamento.
Ela não tinha mudado desde que tinham treze anos. Apenas mais velha. Apenas… gasta.
— Aria? — ela chamou, arqueando as sobrancelhas. — È davvero te?
(É você mesmo?)
Aria assentiu lentamente, tentando não deixar o rosto se contrair. — Sì, Giulia.
(Sim, Giulia.)
Giulia caminhou até ela, seus saltos batendo com aquela mesma pose de quebrada que sempre teve, os quadris balançando como se o mundo lhe devesse algo e ela fosse cobrar tudo.
— Dio mio — disse ela, dando uma tragada no cigarro. — Guarda te, ancora com quei vestiti da brava ragazza. Cos'è, lavori ancora in quella topaia di ristorante?
—
(Meu Deus. Olha só você, ainda com essas roupas de menina boazinha. O quê, você ainda trabalha naquela pocilga de restaurante?)
Aria não recuou. — Sì. È onesto.
(Sim. É honesto.)
Giulia revirou os olhos e se aproximou, a fumaça rodopiando entre elas. — Onesto non ti compra scarpe, bella. Vieni con noi stanotte. Uno di quei tipi con la Mercedes chiede sempre di una nuova. E sei nuova nuova.
(Honesto não compra sapatos, gata. Vem com a gente hoje à noite. Um daqueles caras da Mercedes vive pedindo uma novata. E você? Você é novinha em folha.)
Aria manteve o olhar fixo e impassível. — Sto bene con quello che faccio.
(Estou bem com o que faço.)
Giulia riu, como se fosse a coisa mais engraçada que ouvira a semana toda. — ‘Fine’? Dai, Aria. La tua mamma non ha fatto storie, e ha vissuto meglio di noi tutte. Fai la santa, finirai uguale.
(‘Bem’? Qual é, Aria. Sua mãe não fez cena, e viveu melhor que todas nós. Faz a santa, você vai acabar igual.)
Aquilo tocou em uma ferida. Aria ficou tensa e então lançou-lhe um olhar mais frio que o ar da manhã.
— Non sarò mai come lei.
(Eu nunca serei como ela.)
O sorriso de Giulia sumiu por um segundo. Apenas um lampejo. Ela olhou Aria de cima a baixo e depois estalou a língua.
— Vedremo.
(Veremos.)
Aria foi embora sem dizer mais nada. Ela não olhou para trás e não respirou até estar a meia quadra de distância.