Rumo à Sociedade

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Resumo

Dizem que não se deve ir para a cama com o chefe. Mila Watts já fez isso. Era para ser apenas uma noite. Um erro imprudente, transgressor e orgásmico com Oliver Armstrong — seu advogado sênior irritantemente brilhante e insuportavelmente atraente. Agora, ele está focado em se tornar sócio, ela está tentando manter o emprego, e a única coisa mais complicada do que a dinâmica de trabalho dos dois é a tensão sexual que se recusa a morrer em silêncio. Prepare-se para: advogados invejosos, um RH suspeito, novos assistentes jurídicos e um incidente de elevador na hora mais inoportuna possível. O amor não estava na pauta. Mas os sentimentos têm o hábito de invadir o tribunal.

Status
Completo
Capítulos
25
Classificação
4.9 30 avaliações
Classificação Etária
18+

Capítulo 1

Mila Watts

Ok, chaves — ok.

Celular — ok.

Bolsinha — ok.

Merlot —

Merda. Onde está o Merlot?

Dou uma volta no apartamento como se estivesse na cena de um crime. Geladeira? Nada. Armário de bebidas? Apenas uma garrafa triste de licor de pêssego que ninguém pediu. Aquela prateleira aleatória acima do micro-ondas que eu nunca limpei? Só tem poeira e um isqueiro, mas nada de vinho.

"Você só pode estar de sacanagem", murmuro, encarando a bancada vazia como se ela me devesse dinheiro. Eu juro que comprei aquela droga de garrafa. Tipo, recentemente. Tenho a memória de segurá-la. De niná-la como a um recém-nascido. Será que sonhei com isso?

Não posso chegar numa festa que pede para levar a própria bebida (BYOB) de mãos vazias. Isso é suicídio social. É assim que você fica marcada para sempre na selva dos cubículos — "Ah, a Mila? Sim, é aquela que chega sem nada e come todo o queijo bom".

Inaceitável.

"Ally?", grito em direção à sala, porque, a essa altura, só existe uma explicação lógica.

"Oi?", ela responde lá do seu forte de almofadas, onde está aninhada como alguma criatura da floresta que só assiste à Netflix.

"Você abriu um Merlot?", pergunto enquanto coloco os brincos, tentando manter alguma ilusão de controle.

"Uh... não?", ela diz, com toda a convicção de alguém que está mentindo descaradamente.

Fala sério.

Vou até lá e vasculho sua pilha de almofadas como uma mãe procurando contrabando. Não vejo a garrafa, mas encontro um copo com restos suspeitos de vinho na borda.

"Eu te disse que era para a festa", disparo.

Ela dá de ombros, totalmente indiferente. "Você não disse *qual* festa."

"Eu não achei que precisava especificar que a única garrafa de vinho fechada do apartamento não era para a sua maratona de Real Housewives."

"Bom, tecnicamente você não colocou uma etiqueta nele..."

"Pelo amor de Deus, Ally."

Ela faz uma carinha triste e oferece o copo pela metade, como se isso compensasse. Não compensa. Na verdade, piora tudo. Quem leva *meio copo* de Merlot para uma festa? O que é isso, uma degustação?

Pego minha bolsa, considerando a logística de ir comprar vinho em uma conveniência. Que Deus me ajude, talvez eu tenha que levar um rosé.

E se a Karen, do RH, fizer um comentário irônico, eu juro que jogo um queijinho na testa dela.

Bato a porta e desço as escadas como se estivesse em uma missão divina — ou pelo menos a mando de Dionísio. Mentalmente, passo por todos os lugares decentes que ainda estão abertos a esta hora, pesando o quanto estou disposta a parecer desesperada. Vinho de esquina? Não. É assim que você termina com uma ressaca de quatro dólares e uma garrafa com gosto de arrependimento e uva passa. CVS? Mais vale levar álcool isopropílico e fazer uma oração.

Acabo correndo em direção ao Harlem, desviando de um cara tentando me vender incenso e de uma mulher gritando no fone de ouvido como se estivesse controlando o tráfego em sua própria ópera pessoal. Clássico Nova York: caos, barulho e três ratos que claramente não pagam aluguel, mas mandam no quarteirão como se fossem os donos.

Finalmente — *finalmente* — avisto o Aldi como se fosse um oásis. Sem anjos cantando, apenas o deslizar barulhento das portas automáticas e aquele cheiro familiar de compras baratas e sonhos frustrados.

Entro quase correndo, como se estivesse treinando para as Olimpíadas: Edição Corrida pelo Vinho. Desvio de um carrinho com uma roda travada e vou direto para a seção de bebidas. Passo pelos salgadinhos, passo pelos vegetais murchos, passo por um cara tendo um momento muito emocional com um frango assado.

Lá está. A terra prometida. A prateleira de vinhos.

Só que — e, claro, porque minha vida é uma comédia escrita por duendes vingativos — as opções são poucas. Uma garrafa solitária de Chardonnay que está lá há tanto tempo que desenvolveu problemas de abandono. Um Pinot Grigio que parece que vem com um lado de arrependimento. E então, finalmente, *abençoadamente*, uma garrafa de Merlot escondida atrás de um Riesling qualquer, como se estivesse se escondendo de mim.

Eu a agarro como se fosse o último colete salva-vidas do Titanic.

"Não me fode", sussurro para o rótulo, checando o ano. Nada mal, nada mal mesmo. Dá para beber. Provavelmente não vai cegar ninguém. Perfeito.

"Eu não levaria isso", uma voz interrompe atrás de mim, suave e arrogante como um café com leite com espuma demais.

Viro-me por instinto, pronta para brigar. É um homem — claro que é — vestido naquele estilo casual bem pensado: um blazer, como se ele *não* estivesse se esforçando muito; calça jeans bonita que certamente custou mais do que minha conta de internet; uma camisa cinza provavelmente passada a ferro só para essa saída. O cabelo está naquele topete arquitetônico que grita: "Eu gasto mais tempo nisso do que você gasta com seus impostos". Óculos de tartaruga apoiados no nariz, como se ele tivesse acabado de sair de uma livraria indie com uma ecobag cheia de opiniões. E aqueles olhos castanhos? Fixos na garrafa na minha mão, com todo o julgamento de um mestre sommelier e a experiência real de um cara que uma vez ficou bêbado com sangria no casamento de um primo.

"É Merlot", digo, arqueando as sobrancelhas. "Uma boa safra, inclusive."

Ele solta uma risadinha. Uma *risadinha*. Como se eu tivesse acabado de dizer que ia harmonizar o vinho com macarrão instantâneo.

"É preguiçoso", diz ele, cruzando os braços como se estivesse dando uma palestra no TED sobre como não passar vergonha no corredor de bebidas.

Pisco os olhos. "Desculpe, você é o fiscal dos vinhos?"

"Não", diz ele, sorrindo como se achasse isso charmoso. "Só estou dizendo. Merlot é o que as pessoas pegam quando não sabem o que estão fazendo."

"E opiniões não solicitadas são o que as pessoas dão quando não têm mais nada a oferecer", respondo, ainda segurando a garrafa, agora mais determinada do que nunca a aparecer com ela e servi-la com todo o drama possível.

Ele ri, como se eu fosse um pequeno desastre engraçado e sem paladar.

"Digo, tem um *Bordeaux* na prateleira de baixo que não é ruim", diz ele, apontando com o queixo, porque aparentemente ele acha que sou o tipo de garota que aceita dicas de vinho de estranhos em mercados de desconto.

"Legal", digo, "mas não estou tentando impressionar um bando de babacas. Estou tentando não ser esculachada pela Sharon do RH por chegar de mãos vazias."

Ele dá de ombros e pega a garrafa para ele. "Você que sabe."

"Oh, eu sempre sei."

Passo por ele em direção ao caixa eletrônico, com a garrafa na mão como se fosse um dedo do meio. Que se dane ele e seu elitismo com vinhos. Espero que o Bordeaux dele tenha uma rolha tão seca que esfarele dentro da garrafa como uma metáfora triste.

Deixe-o levar sua atitude artesanal para outro lugar. Tenho uma festa para invadir, uma reputação para salvar e uma garrafa de Merlot "preguiçoso" com meu nome nela.

Quando saio do Aldi, estou suando como se tivesse sobrevivido a uma versão dos Jogos Vorazes baseada em vinhos. Seguro o Merlot como se fosse um bebê e corro para o metrô mais próximo, ignorando o cara na plataforma fazendo beatbox em um cone de trânsito. Que Deus abençoe Nova York.

Chego à festa tarde o suficiente para ser considerada "descolada", mas não tão tarde que alguém possa me acusar de furar. O apartamento é bonito — bonito até demais — um daqueles lugares com conceito aberto, lâmpadas de filamento e aquela vibe escandinava de madeira. Definitivamente pago por alguém que usa a expressão "investimento imobiliário" sem ironia.

Avisto a mesa de bebidas e praticamente jogo o Merlot lá, como se estivesse fazendo uma declaração. Porque eu *estou* — trouxe a garrafa, ela está aqui, conta como participação, e se alguém quiser brigar comigo por isso, estou armada com um saca-rolhas e muita raiva.

A festa está cheia de gente fingindo que não são colegas de trabalho, bebendo em copos descartáveis como se estivéssemos em 2006, tentando manter conversas apropriadas para o RH enquanto ficam bêbados o suficiente para fofocar. Atravessou um mar de pessoas que conheço mais ou menos e certamente não confio, indo em direção à tábua de queijos como se ela me devesse algo.

E então, como uma piada cármica escrita por um deus mesquinho, *ele está lá*.

O Cara do Blazer.

O porra do Cara do Blazer.

Parado do outro lado da sala, taça na mão, conversando com a *Karen* do RH, rindo como se estivesse fazendo teste para um comercial de vinho. E o que ele tem na mão?

Uma taça de Bordeaux.

Claro que sim.

Congelo no meio de um gole, observando-o fazer um gesto dramático de girar e cheirar o vinho, como se fosse recitar poesia. A Karen está adorando. Provavelmente acha que ele é sofisticado. Ela sempre teve um fraco por homens pretensiosos de mocassim.

Ele me vê. Eu sei que ele me vê. Seus olhos passam pelo meu copo e depois pela garrafa na mesa. *Minha* garrafa.

Levanto-a em um brinde sarcástico, com um sorriso sem um pingo de piedade.

Ele dá um sorrisinho de lado, como se achasse tudo muito fofo, e levanta a taça de volta. Então — e juro por Deus que esse homem não tem vergonha na cara — ele murmura *preguiçoso* para mim do outro lado da sala.

Eu respondo com um *vai se foder* silencioso.

Ele ri.

Viro metade do meu copo de uma vez, deixando o Merlot aquecer meu peito como se fosse uma armadura. Não sei quem convidou esse cara, mas se eu descobrir, está morto para mim. Dito isso... talvez eu precise de outro copo, só caso eu queira provar um ponto. Ou começar uma guerra mesquinha. Um dos dois.

Dou uma volta, fazendo a clássica valsa de festa de firma: uma mão no copo, a outra apertando a mão de pessoas com quem falo todo dia, mas que agora tenho que fingir que *gosto* de ver fora do Slack. George, do TI, me conta de novo sobre algum drama com as impressoras; Jen, do Compliance, me solta sua mentira habitual de "precisamos marcar um almoço", e eu balanço a cabeça como se já não tivesse ouvido esse roteiro antes. Déjà vu corporativo.

Então Lucy — a outra paralegal, de corte chanel e delineador ainda mais afiado — segura meu braço no meio do caminho.

"Ei, Mila", diz ela, com os olhos já brilhando de fofoca. "Você ouviu a novidade?"

Minha cabeça vai direto para demissões, dramas ou um teste antidoping surpresa. "Que novidade?"

"Advogado novo", diz ela, apontando o queixo para o canto como se estivesse revelando a localização de um corpo.

Sigo o olhar dela — e, claro. *Claro que sim.*

O porra do Cara do Blazer.

Ele está encostado casualmente na ilha da cozinha, batendo papo com nosso gerente sênior como se tivesse *nascido* dentro de um post do LinkedIn. O mesmo sorrisinho arrogante, os mesmos malditos óculos, como se tivesse acabado de sair de um drama jurídico da Netflix direto para o meu ambiente de trabalho.

"Sério?", digo, sem emoção. Meu copo se aproxima dos lábios. "Aquele cara?"

"Ah, sim", Lucy diz, balançando a cabeça como se fosse recitar o currículo dele. "Harvard. Liberty & Partners. Dizem que o Jeffrey fez umas manobras para trazê-lo — tipo levar para jantar no Le Coucou, envolver o RH com dois meses de antecedência, todo aquele tratamento de 'galinha dos ovos de ouro'."

Galinha de ovos de ouro.

Pisco. "Você disse galinha?"

Ela balança a cabeça. "Você sabe, tipo quando eles botam todos os ovos e fazem o dinheiro e... enfim. Você sabe o que eu quero dizer."

Eu sei. Eu sei muito bem. E eu odeio isso.

O Cara do Blazer — que, apenas algumas horas atrás, insultou minha escolha de vinho em um mercado como se estivéssemos competindo no *Chopped: Edição Sommelier* — agora é *meu colega de trabalho*. Provavelmente com seu próprio escritório. Provavelmente com vista. Provavelmente com um salário que começa com um número que nunca verei em um contracheque, a menos que eu venda um órgão.

"Conversei com ele mais cedo", Lucy acrescenta. "Ele é até gatinho, naquele jeito de quem investe em criptomoedas."

"Ele me disse que Merlot é preguiçoso", murmuro para o meu copo.

Lucy pisca. "Que grosso."

"Né? E num Aldi, ainda por cima."

Ela faz uma careta. "Quem critica vinho no Aldi? É tipo avaliar a vibe de um posto de gasolina."

Exatamente.

Olho de volta para ele. Ele está rindo de algo que o Jeffrey disse, inclinando a taça no ângulo certo, como se estivesse num anúncio de tinto de preço médio. Odeio o quão bem ele fica naquele blazer. Odeio o fato de que ele provavelmente diz coisas como "sinergia" sem ironia. Odeio que agora vou ter que vê-lo em reuniões.

Ah, e eu *realmente* odeio que ele murmurou *preguiçoso* para mim e agora tem um escritório em frente ao meu.

Mas, ei — isso é guerra. Guerra corporativa silenciosa.

E eu tenho Merlot.

A festa continua, a música baixa, mas a conversa aumentando como o vapor de um radiador quebrado. Estou no meio de uma mordida, enfiando um cubo de provolone na boca como venho fazendo a noite toda — sem graça, sem vergonha — quando ouço a voz do Jeffrey atravessar o barulho:

"Ah, Mila! Você aí!"

Viro-me, com o queijo mastigado entalado em algum lugar entre minha dignidade e meus molares. E lá está ele.

Sr. Blazer. Sr. Bordeaux. Sr. *"É preguiçoso"*. Parado ao lado do Jeffrey como se não tivesse acabado de insultar minha alma no corredor de vinhos há menos de duas horas. Ele ainda tem aquele topete impecável de cabelo escuro, os óculos de tartaruga e a postura polida e arrogante de um homem que provavelmente passa o próprio jeans e chama isso de "esforço mínimo".

Engulo rápido demais. Queima um pouco.

Jeffrey abre um sorriso, no modo total chefe apresentando novos talentos. "Esta é Oliver Armstrong — ele começa com a gente na segunda-feira!"

Estendo a mão profissionalmente, calculando mentalmente quantos dias da minha vida agora terei que fingir que esse homem não criticou minha aura de vinhos como um sommelier condescendente.

"Mila Watts", digo com meu sorriso de assassina mais educado.

Oliver segura minha mão, com um aperto firme e contato visual. "Prazer."

Jeffrey coloca a mão no meu ombro como se fôssemos co-capitães da Equipe de Boas-Vindas. "A Mila é uma das nossas melhores — paralegal, mas basicamente psíquica. Mantém todos nós vivos. Não conte para a Lucy que eu disse isso."

Balanço a cabeça, ainda sorrindo, ainda fingindo com toda força que nunca vi esse homem na minha vida.

O sorriso de Oliver treme. "Tentarei não dizer isso para a *Lucy* também."

Jeffrey ri. "Ah, você vai se enturmar rapidinho."

Aposto que vai. Aposto que ele se enturma em *todo lugar*, como uma daquelas canetas de gente rica que desliza para o bolso interno de um casaco de 900 dólares e nunca vaza.

"Bom, vou deixar vocês dois se misturarem", diz Jeffrey, já virando para cumprimentar outra pessoa como um DJ de casamento viciado em café. "A Mila vai te mostrar onde ficam os petiscos."

E assim, estamos ali. Sozinhos, mais ou menos. Copos de plástico na mão. Contato visual em progresso. Um zumbido elétrico silencioso de *eu-sei-quem-você-é* vibrando entre nós.

Mas nenhum de nós diz uma palavra sobre o Aldi. Ou sobre vinho. Ou sobre o insulto que me persegue como uma safra barata.

Ele aponta para a mesa de queijos. "Você recomenda o provolone?"

"É confiável", digo calmamente, colocando outro cubo na boca. "Descomplicado. Não finge ser nada do que não é."

Ele balança a cabeça lentamente, como se essa fosse uma resposta real e não uma metáfora extremamente mesquinha.

"Parece uma boa escolha", diz ele. "Vou ter que experimentar."

Levanto um pouco meu copo. "Melhor se apressar. Os abutres atacam por volta da segunda hora."

Ele ri, dando um passo em direção à comida. "Valeu pela dica, Mila."

Observo-o se afastar, blazer impecável, copo na mão. Ele pega um cubo de provolone, joga na boca e — juro — olha para trás com um esboço de sorriso.

Que comecem os jogos.