Um: Planos Bem Elaborados
Bellatrix ‘Trix’ Wicker
O plano era simples:
Passo um: Embebedar o dragão.
Passo dois: Recuperar o colar de rubi.
Passo três: Quebrar a maldição.
O Root Cellar estava lotado com a clientela de sempre. Eu limpava o balcão distraída enquanto examinava o local à procura do dragão. Um par de elfos sombrios cochichava num canto. Um grupo de humanos estava aglomerado ao redor de uma mesa grande, jogando cartas. Um goblin e um anão pareciam negociar algum tipo de troca. Mas nada de dragão.
Levei três meses para encontrá-lo e outros três para descobrir seu nome completo. Nicodemus Brande. Será que o nome completo de um dragão tinha o mesmo poder que o nome completo de um fada? Eu não sabia. E esperava não descobrir.
E não deveria precisar, se meu plano desse certo. Passei todos esses meses trabalhando no The Root Cellar. Aguardando o momento certo. Aprendendo seus hábitos. Nicodemus Brande vinha a esta taverna duas vezes por semana. Uma para tratar de negócios na cidade e adicionar tesouros à sua fortuna. Outra para sentar nesta taverna, por um motivo que eu ainda não tinha descoberto. Mas ele sempre pedia a mesma coisa.
Uma dose dupla de Runeshine da Tilly.
Ele sentava na mesma mesa, no canto. Bebia devagar e examinava o lugar como se procurasse por algo. Mas o quê?
Ele já tinha uma fortuna acumulada.
Ele já tinha um castelo lindo na montanha.
Ele até tinha várias mulheres (e alguns homens) morrendo de vontade de ir para a cama com ele.
Os Fados sabem que Ebony, a outra garçonete, já tinha tentado. Ela insistia que iria conquistá-lo, alegando que ele era “o tipo dela”. Com aquele cabelo escuro bagunçado e olhos azuis intensos. De alguma forma, ele equilibrava-se entre ser um predador alfa e alguém naturalmente sexy. Como se não ligasse para a aparência, mas ainda assim conseguisse ficar incrível.
Devia ser algum tipo de magia.
Ebony servia os elfos no canto, rebolando e batendo os cílios. Aquela mulher não tinha vergonha na cara… mas ela ganhava uma nota em gorjetas.
“Wick-ed Trix. Pelos deuses, que porra você está fazendo neste fim de mundo?”
Ah, merda.
Eu conhecia aquela voz.
Chase Madden entrou na taverna como se fosse o dono. Embora aquele bastardo convencido entrasse em qualquer lugar como se fosse o dono; ele e sua ‘guilda de ladrões’ roubariam a camisa do seu corpo e você ainda agradeceria pela honra.
“Chase, eu—”
“Não.” Ele levantou a mão, aquele sorriso torto familiar surgindo no rosto. “Eu conheço esse olhar. Você está trabalhando. E eu aqui pensando que você tinha largado essa vida por... isso.” Ele gesticulou pela taverna com um desdém evidente.
“Só estou servindo bebidas”, eu disse, forçando minha voz a ficar firme. “Olha, estou ocupada hoje. Podemos nos falar depois? Amanhã, talvez?”
Seus olhos castanhos brilharam. “Amanhã? Sério? Porque eu estava pensando que a gente podia—”
“Chase.” Segurei seu braço, um desespero surgindo em minha voz. “Por favor. Só... não hoje.”
Ele ia responder quando a porta da taverna se abriu. As conversas não pararam exatamente, mas diminuíram consideravelmente. Até o ar pareceu mudar.
Nicodemus Brande entrou.
Quase dois metros de músculos definidos e graça predatória. Seu cabelo escuro estava despenteado por causa do voo, e aqueles olhos azuis intensos varreram o recinto com uma autoridade casual. Ele se movia como uma sombra líquida, cada passo calculado. Quando seu olhar passou por mim, senti como se fosse um toque físico.
“Bem, bem”, murmurou Chase ao meu lado, sua voz caindo para um sussurro perigoso. “Escolha interessante de alvo, Wicked Trix.”
Meu sangue gelou.
Antes que eu pudesse responder, os dedos de Chase envolveram meu pulso e ele me puxou para a porta dos fundos. “Precisamos conversar. Agora.”
O beco atrás do The Root Cellar fedia a cerveja velha e coisas piores. Chase soltou meu pulso, mas permaneceu perto, com uma expressão séria pela primeira vez.
“Um dragão, Trix? Sério?” Ele passou a mão pelo cabelo loiro-areia. “Que porra você está pensando?”
“Não sei do que você está falando.” Cruzei os braços, tentando parecer inocente. “Sou apenas uma garçonete.”
Chase riu, mas não havia humor naquilo. “Para com essa merda. Te conheço desde que éramos crianças aplicando golpes no distrito inferior. Você acha que eu não sei quando você está estudando um alvo?” Seus olhos se estreitaram. “A questão é: o que poderia valer a pena arriscar a ira de um dragão?”
“Não é da sua conta. Não mais.” Endireitei a postura, colocando certa distância entre nós.
Chase cobriu rapidamente sua mágoa com um sorriso sarcástico. O sujeito era tão arrogante; como eu não tinha notado isso em todos aqueles anos?Balancei a cabeça. Não, eu não ia entrar nessa hoje.
“Se o que você precisa é de dinheiro —”
Mas eu não deixei ele terminar, erguendo o queixo. “Não é sobre dinheiro.”
“Então o que é?” Sua voz suavizou e, por um momento, ele pareceu aquele garoto que costumava dividir o pão roubado comigo. “Trix, seja o que for, tem que haver outro jeito. Dragões não matam ladrões apenas — eles fazem deles um exemplo. Lentamente.”
O desespero que eu vinha combatendo a noite toda arranhou minha garganta. “Você não entende. Eu não tenho escolha.”
“Sempre existe uma escolha.” Ele deu um passo à frente, e senti aquele cheiro familiar de couro e aventura que costumava fazer meu coração disparar. “Se você precisa de dinheiro —”
“Não é sobre dinheiro!” As palavras saíram mais ríspidas do que eu pretendia. “E, como eu disse antes, não é da sua conta de qualquer jeito.”
Chase me encarou por um longo momento, então seus ombros caíram. “Droga, Trix. Você realmente vai fazer isso, não vai?”
Eu não disse nada. O que eu poderia dizer? Que minha avó estava morrendo? Que em dias ou semanas, eu estaria amaldiçoada com uma sorte terrível pelo resto da vida, a menos que roubasse a criatura mais perigosa dos três reinos? Que minha mãe tinha me condenado para salvar a si mesma?
“Tudo bem.” Ele recuou em direção à entrada do beco. “Mas me prometa uma coisa. Não faça nada que eu não faria.”
Apesar de tudo, eu soltei uma risada debochada. “Não tem nada que você não faria.”
Aquele sorriso torto retornou, embora não tenha chegado aos seus olhos. “Exatamente. Então tome cuidado, Wicked Trix. O mundo seria muito menos interessante sem você nele.”
Ele piscou e desapareceu na multidão da rua principal, deixando-me sozinha com o cheiro de lixo e o peso do que eu estava prestes a fazer.
Respirei fundo, alisei minha saia e voltei para dentro. Nicodemus já estava sentado em sua mesa habitual, e Ebony caminhava rebolando com a bebida dele.
Hora de embebedar um dragão.