Carta de Aceitação
Sentei-me na beira da cama, com a porta trancada atrás de mim e o envelope pardo pesado no meu colo. Suas bordas estavam gastas por uma jornada que atravessou oceanos. No centro, uma fênix dourada abria as asas, brilhando como fogo preso no papel. Acima dela, letras pretas em negrito formavam um nome que eu sussurrava há meses: Everwyn University.
O quarto estava parado, com cada canto entulhado pelos pedaços da minha vida. Havia romances empilhados na escrivaninha, com as lombadas rachadas de tantas fugas noturnas. Uma foto de Dianna e eu repousava no parapeito da janela; seu sorriso largo espelhava o meu, como se nada no mundo pudesse nos atingir. Meus tênis de corrida estavam jogados no canto, com as solas gastas de quilômetros que um dia pareceram ter um propósito, e um troféu de vôlei de primeiro lugar captava a luz da tarde, brilhando como a prova de uma garota que acreditava em vencer.
Pela primeira vez, o quarto parecia uma casa de bonecas — tudo pelo que lutei encolheu para algo que eu poderia deixar para trás.
Passei os dedos trêmulos pelo selo. Meu coração batia forte. O envelope parecia vivo. Com um estalo suave, o selo cedeu. A tinta subiu do papel como fumaça, curvando-se em minha direção enquanto eu o desdobrava. Recuei, piscando os olhos. A tinta se assentou e as palavras apareceram, como se estivessem esperando que eu olhasse.
“Cara Sophia Romanova,
Você foi aceita em nossa instituição, Everwyn University. Temos o prazer de lhe oferecer uma bolsa de estudos integral com alojamento no campus.”
Aceita. A palavra ficou embaçada diante dos meus olhos. Li novamente, mais devagar desta vez, deixando a ficha cair.
“Aceita… sério?” Minha voz tremeu. “Isso está… acontecendo mesmo?”
Uma risada escapou do meu peito — aguda, incrédula. Joguei os braços para cima. Por um momento vertiginoso, nada daquilo poderia me tocar: nem esta casa, nem esta cidade, nem a longa sombra da minha família.
Eu tinha me enterrado em livros, em esportes, em cada conquista que conseguia alcançar, como se acumulá-las pudesse comprar minha liberdade. Agora, o bilhete estava em minhas mãos.
Mas o rosto de Dianna surgiu antes que a alegria pudesse se instalar. Empurrei o pensamento para longe. Ainda não.
O pós-escrito chamou minha atenção:
“P.S. O custo da viagem foi coberto. Mais detalhes em anexo. Pode me agradecer depois. —Diretora Talia McStruce”
Meu peito apertou, a emoção azedando nas bordas. O jeito que a diretora escreveu me fez sentir como se a decisão nunca tivesse sido realmente minha.
Por quê? A pergunta não saía da minha cabeça. Não o porquê da Everwyn, não o porquê da bolsa. Apenas — por que eu?
Senti que descobriria em breve.
A batida da porta respondeu por mim.
Meu corpo reconheceu o som antes que minha mente processasse — os ombros se encolheram, a respiração ficou curta, os velhos cálculos se encaixaram sem que eu pensasse: quão perto, quão alto, qual o humor. Dobrei a carta devagar, escondendo-a sob minha blusa, segurando a respiração como se até o sussurro do papel pudesse me denunciar.
Os saltos da minha mãe estalaram no assoalho de madeira, firmes e sem pressa. Um xingamento resmungado ecoou pela casa. “Ugh, essa vadia nunca cala a boca.” A voz dela abafou com a distância, engolida pelo estrondo da porta do quarto se fechando.
A fúria em seu tom me arrastou para o passado.
Sete anos de idade, em pé na cozinha, dedos apertados em um teste de matemática marcado com um A+ vermelho brilhante.
“Mamãe! Olha! Tirei a nota mais alta!”
Seus olhos passaram por ele uma vez. Desinteressados. “Bom. Você lavou a louça?”
“Eu… eu esqueci…”
“Tal pai, tal filha.” Ela se virou antes que eu terminasse. “Inútil.”
A lição tinha sido clara: perfeição nunca era suficiente. Uma coisa pequena podia desencadeá-la — louça suja, uma reclamação de um professor, um dia ruim no trabalho. Meu pai tentou detê-la uma vez, com a voz embargada: “Pare! Pelo amor de Deus, pare!” Mas ela não o ouvia.
Lágrimas turvaram minha visão. Pisquei para contê-las, forçando minhas mãos a ficarem firmes enquanto eu puxava a carta novamente, ancorando-me no peso dela, na próxima página esperando para ser lida.
Ela trazia o lema de Everwyn, palavras escritas em carmesim:
Hic fatum tuum invenies. Aqui você encontrará seu destino.
Hic te ipsum invenies. Aqui você encontrará a si mesma.
Sussurrei o latim baixinho, sentindo o sabor das palavras na boca. Um pulso sob minha pele vibrou em resposta. Algo esperava além do mundo que eu conhecia — e estava me chamando.
Eu não sabia o que encontraria, ou quem eu me tornaria quando não estivesse vivendo em modo de sobrevivência — calculando cada palavra, cada movimento, cada respiração. A incerteza me apavorava quase tanto quanto me fascinava.
Virei a página.
Partida—29 de agosto.
Amanhã.
Meu voo. Já reservado.
A ficha caiu de uma vez, afiada e inegável, tirando o ar dos meus pulmões antes que eu pudesse me acalmar. Não havia mais tempo para hesitar, nem espaço para repensar. Já estava acontecendo.
Everwyn claramente esperava que seus alunos prosperassem sob pressão… e eu não fazia ideia do que me esperava.
A fênix no envelope brilhou enquanto eu a segurava contra o peito. Ela me prometeu uma coisa: uma chance de renascer.