Prologo
Prólogo Onde o mar encontra a terra
Cresci entre poeira e mar. Dondo, Moçambique. Chamavam minha terra de pérola do Índico, mas as únicas pérolas que eu via eram os dentes dos meus amigos quando riam correndo descalços, chutando pedras como se fossem bolas de campeonato.
Eu era franzino, cabeça raspada, sempre mais magro do que queria ser. Carregava as histórias do meu avô como quem carrega um feitiço. Jafari riscava o chão com gravetos, círculos sem começo nem fim. “Niatsimba, nossa família foi de grandes caçadores”, dizia, a barba branca suja de açúcar imaginário. Ele contava sobre Kwame e a bruxa de um dente só — pérola lunar, escura como a noite. Ela queria devorar nosso ancestral, mordia árvores até fazê-las cair. Mas os cães o salvaram. “Kwame sobreviveu, formou família, e dela você veio. Mas a bruxa ainda vaga, desejando nossa carne.” Eu acreditava. Ainda acredito.
Essas histórias vieram comigo quando deixei Dondo. Lembro da despedida em Beira, minha mãe orgulhosa, meus amigos tentando sorrir. A bolsa da Xiamtec me trouxe ao Brasil. Eu pensava que viria para a matemática, mas percebi logo: era a programação que me seduzia.
Eu não estava preparado para São Paulo. O avião desceu sobre um mar de concreto que não acabava nunca. Um oceano cinzento, sem horizonte. As ruas eram rios de metal parados, buzinas como gritos engarrafados. Cada prédio era um corte na respiração.
A cidade era veloz e imóvel ao mesmo tempo. Um corpo gigante que respirava fumaça e cuspia luz. Eu caminhava por dentro dela como quem atravessa um motor sempre ligado, engrenagem que não aceita falhas.
E então lembrava de casa. Dondo não era só poeira e mar. Era batuque em lata enferrujada no quintal, era a roda dos meninos improvisando passes de futebol até o pôr do sol. Era a senhora Jendayi corrigindo lição com voz firme, mas guardando bolo de fubá para depois. Era o cheiro de mandioca assada subindo pelas ruelas, misturado ao sal da brisa do Índico. Lá, as noites eram escuras, mas não vazias. O breu vinha cheio de estrelas, como se os ancestrais vigiassem cada telhado de zinco. O escuro não sufocava — acolhia.
Em São Paulo, a noite era outra camada de concreto. As estrelas não passavam de memória. O céu era iluminado por outdoors digitais que piscavam nomes de produtos, repetiam slogans, como se tentassem ocupar qualquer silêncio.
Eu me movia entre os dois mundos. No corpo, estava aqui, esmagado por buzinas, corredores de vidro, anúncios tóxicos. Na mente, carregava o ritmo de tambores improvisados, o balançar das palmeiras, a lembrança da voz do meu avô riscando histórias no chão.
Era isso que me sufocava: viver num código sem alma, quando eu vinha de um lugar onde até o silêncio respirava.
O calor grudava em mim como segunda pele. São Paulo parecia não respirar, apenas ferver. Eu me sentei na beira da cama estreita do quarto estudantil e olhei para a minha mão. A palma aberta, iluminada pela lâmpada fraca, mostrava sulcos que pareciam pequenos rios secos. Passei o dedo indicador por eles, como quem percorre um mapa antigo, buscando saída ou chegada.
Pensei se era possível reescrever uma palma. Desenhar novos caminhos, redesenhar a carne como reescrevemos linhas de código. Me perguntei se um futuro podia caber ali, na superfície da pele. Falam de utopia como se fosse destino. Mas o que é utopia além de névoa? Palavra que muda de forma quando tentamos agarrá-la. Nunca igual de um ângulo para outro. Para uns, promessa; para outros, ameaça. Para mim, parecia apenas uma dúvida constante: se eu podia realmente chegar a algum lugar onde as falhas fossem corrigidas, onde o reinício não fosse sempre acompanhado pela lembrança da queda.
Talvez utopia fosse isso: um loop interminável entre desejo e fracasso, cada um gerando o outro, até não sabermos mais qual veio primeiro.
Aprendi nos livros que a invenção de qualquer coisa depende apenas de soluções tecnológicas, contanto que não contrarie a natureza nem a lógica. Parece simples. Mas o que é a natureza senão aquilo que muda? E a lógica não é também moldada pelo que acreditamos ser possível? O que sobra, então? Talvez apenas o esforço de escrever código sobre ruínas, acreditando que os ciclos se repetem porque querem ensinar, não apenas punir.
Chamavam-me de “o africano” nos primeiros dias. Riam baixo, falavam rápido, como se o idioma fosse uma muralha na qual eu sempre batesse de frente. Descobri cedo que o português é uma ótima língua para xingar. Cheio de palavrões que explodem como tiros, maldições que se dobram em sílabas ásperas. Mas é ainda mais perverso quando se dobra no preconceito. As palavras se tornam pequenas lâminas, afiadas no riso: “negrinho”. “Garoto”. “Pelé“. Cada uma entrava seca, sem direito de defesa.
Naquele tempo eu repetia para mim mesmo a palavra njota. Sede. Não só de água, mas de saber, de entendimento. Era o que me movia. A sede fazia a boca secar quando abria livros de programação, fazia os olhos arderem diante da tela. A mesma sede que me mantinha em pé quando os apelidos queimavam mais do que o calor paulista.
Eu lembrava das histórias do avô, da bruxa de um dente só, mordendo madeira com paciência e ódio. Aqui, a bruxa se escondia em expressões: o professor que desviava a pergunta antes de eu terminar; o colega que ria chamando-me Simba, como se fosse intimidade. Eu entendia. A bruxa nunca deixava de perseguir.
Os corredores eram cheios de tipos que pareciam saídos de um catálogo de futuros inacabados. Um garoto de cabelo tingido de verde, fones sempre colados às orelhas, pele amarelada pela luz azul da tela — andava como extensão do próprio notebook. Uma menina de botas pretas, tatuagens em binário correndo pelo braço — gostava de se apresentar como hacker antes mesmo de dizer o nome. Um trio inseparável: camisetas de startups, inglês misturado às frases, como se ensaiassem para um mundo que ainda não existia.
Eu os observava com atenção clínica, registrando cada detalhe como linhas de comando. Mas eles me olhavam como glitch. Ruído no sistema. Eu não tinha o brilho certo, nem o sotaque limpo, nem a história desejada.
Njota me mantinha. A sede não era fraqueza — era motor. E enquanto eles me pesavam pela cor e pelo sotaque, eu aprendia. Cada livro, cada código, cada noite de estudo era um gole contra o deserto.
Eu não dizia nada. Só pensava: quem carrega sede não precisa de permissão para beber.
A palma da minha mão queimava sob o olhar demorado. Era como se os sulcos pedissem para serem preenchidos de novo, como se pedissem linhas de comando, instruções. Mas tudo que eu tinha era suor.
O calor me sufocava. Quis me levantar. Pensar menos, suar menos. Caminhar até o bar perto do prédio dos estudantes, beber uma cerveja gelada, ouvir as vozes misturadas sem sentido. Talvez ali, entre o amargo e o riso alheio, eu esquecesse por instantes que futuro e utopia eram apenas palavras que me assombravam.
São Paulo me engoliu. Ruas que nunca param, buzinas que não cessam, gente que se esbarra sem olhar. O trânsito parecia um animal faminto, o calor subia do asfalto como respiração pesada. No começo, achei que fosse morrer de solidão. Depois, comecei a observar. A cidade não era puro caos — era repetição. Tudo voltava em ciclos. Como linhas de código, falhando e reiniciando.
Foi assim que imaginei o sistema Pérola. Redundância cíclica. Cada falha retorna ao núcleo, se refaz. Não só correção, mas renascimento. Eu dizia isso aos professores, mas no fundo pensava em Obaluaiê, o orixá que é doença e cura, morte e vida. Minha vida também era assim: Dondo, Beira, São Paulo. Cada mudança, uma morte. Cada recomeço, uma chance de viver mais. Ainda não sabia se sobreviveria, mas pela primeira vez sentia que estava vivo.
Na véspera da apresentação, sonhei com meu avô. Eu subia a árvore das histórias. A bruxa mordia o tronco com o dente de pérola. Não havia cães. O medo me engasgava. No alto, vi Jafari flutuando, braços estendidos. Agarrei sua mão, senti meu corpo estremecer. Acordei. Não dormi mais.
Na noite seguinte, ela voltou. A mesma árvore, mas a bruxa mais feroz. Eu gritava e não havia som. Os galhos se partiam. Não havia cães, não havia avô. Apenas o ferro em brasa e o hálito da bruxa na minha nuca. Acordei molhado de suor. Entendi: a apresentação seria também um salto — ou cairia.
No auditório, a gravata me sufocava. “Chamo este sistema de Pearl”, disse. A voz quase falhou. “A inicialização é estável, bugs removidos, interface em aberto. Projetado para múltiplas plataformas. Já ativo nos smartwatchs da Xiamtec e na CPU à frente dos senhores.”
Ninguém aplaudiu. Apenas murmúrios. Ainda assim, consegui o diploma.
Quando tirei a gravata, senti como se arrancasse uma cobra do pescoço. Então, um toque no ombro. Virei-me. Fernando Keigo, presidente da Xiamtec, estava diante de mim. Pequeno, terno caro, olhos que não sorriam.
“Acredito que agora podemos falar do valor que sua pérola tem”, disse, a voz como lâmina.
Tentei responder, mas ele me cortou com uma cordialidade que me gelou: “Primeiro, vamos almoçar. Falar de negócios de estômago vazio é bobagem.”
E caminhou adiante, como se eu fosse apenas sombra seguindo seus passos.