Capítulo 1
NICKI
Os corredores do hospital estavam silenciosos, exceto pelo zumbido ocasional das lâmpadas fluorescentes acima. A última entrega havia chegado horas atrás. Desta vez, não eram suprimentos médicos, mas algo muito mais pessoal: uma caixa cuidadosamente embrulhada com uma fita azul-escura, que repousava na geladeira da copa, discretamente etiquetada com o nome dele: Dr. Calen Ward.
Dentro estava sua sobremesa favorita: bolo de mel com especiarias, vindo de uma confeitaria boutique do outro lado da cidade. Implorei à equipe da cozinha por um espaço para mantê-lo refrigerado, jurando que era para um aniversário. Não era. Era apenas uma terça-feira comum.
Mas era a nossa terça-feira.
Nossos turnos quase não coincidiam ultimamente, e hoje à noite — esta noite preciosa — finalmente nossos horários estavam batendo. Fazia semanas que não jantávamos juntos, quem dirá ficarmos abraçados na mesma cama.
Então, fiz um plano. Algo simples. Algo doce.
Mesmo após catorze horas em pé, eu não ia deixar o cansaço estragar tudo. Saí do meu uniforme no vestiário e vesti o vestido azul-marinho justo que eu tinha escondido na bolsa. Aquele com uma fenda modesta e um tecido que se ajustava ao corpo, o suficiente para lembrá-lo do porquê ele costumava rosnar quando eu passava. Passei o batom bordô que ele adorava, aquele que deixava marcas de beijo discretas no colarinho dele.
Meus cachos, amassados pelo caos do dia, foram ajeitados rapidamente em frente ao espelho e presos de lado, exatamente como ele gostava.
Calen sempre dizia que eu parecia uma tentação quando usava azul. E, agora, eu queria ver a cara dele quando me visse. Imaginei como seus olhos cor de âmbar se enrugariam de surpresa, como ele me puxaria para perto com aquele sorriso torto e silencioso, sussurrando: “Você me estraga.”
Meu Deus, como eu sentia falta dele, mesmo com toda a tensão que havia surgido ultimamente. Ele estava distante, cansado e distraído. Ele culpava o trabalho e seu novo cargo como Gamma. Gammas carregavam muito peso, e ele era o mais jovem que a alcateia já teve. Eu sabia o que aquele tipo de pressão causava.
Como médica, eu também entendia turnos noturnos, esgotamento e silêncio. E talvez... eu também entendesse o meu lugar.
Eu não tinha um nome de alcateia. Nem legado. Eu era uma ômega que trabalhava o dobro para conseguir estar em salas como aquela. E estar com ele tinha me elevado de maneiras que eu não esperava. Os membros da alcateia diziam que eu deveria ser grata. Que eu tive sorte por ele ter me escolhido. Mas o amor não parecia sorte, não quando era real. E com Calen, era real demais.
Esta noite era um lembrete do nosso amor.
Um frio na barriga tomou conta de mim enquanto eu ia até a copa buscar o bolo. Nosso encontro seria em menos de uma hora. Olhei o celular, mas ele não tinha respondido às minhas mensagens.
Talvez ele estivesse atolado de trabalho. Ele odiava o celular durante os turnos porque perdia o foco. Comigo era igual.
Ao dobrar em um dos corredores laterais, vi uma ômega agachada, esfregando uma mancha de lama seca no chão.
O chão do hospital estava sempre sujo ao final de um turno, então passei por ela, mas parei quando notei o jeito que ela se apoiava em apenas um lado. Seus movimentos eram desajeitados e seu tornozelo estava inchado. A pele estava irritada e em carne viva onde a meia tinha friccionado.
O cheiro azedo de uma infecção pairava no ar. Até um filhote veria que ela não estava bem. Mas parte de mim sabia por que ela não tinha feito nada a respeito: a hierarquia dela.
“Venha comigo”, murmurei antes que eu mesma pudesse me impedir.
Os olhos dela se arregalaram e suas mãos pararam sobre a escova de limpeza. “Doutora. Eu não deveria—”
“Não se preocupe.” Olhando pelo corredor, guiei-a para uma sala de exames vazia. “Não vou contar para ninguém se você não contar.”
O modo como ela mancava fez minha mandíbula travar. Assim que fechei a porta, agachei-me e puxei o tecido gasto sobre o pé dela. O calor irradiava da pele inflamada e soltei um chiado. Por que a vida era tão difícil para nós?
“Isso deveria ter sido tratado há dias.”
“Eu… não tenho condições—” ela começou.
“Quem disse que você tem que pagar?” sussurrei, pegando os suprimentos. Os olhos dela se encheram de lágrimas e levei o dedo aos lábios. “Lembre-se, você não pode contar a ninguém.”
Ela assentiu rapidamente, com os ombros tremendo.
Ômegas não se curavam tão rápido quanto lobos de hierarquia alta, e feridas sem tratamento como aquela podiam se tornar perigosas rapidamente. Minhas mãos trabalharam por hábito. Limpei, apliquei pomada e enfaixei o ferimento com firmeza até que a pele ficasse oculta sob as bandagens limpas. Ao terminar, enfiei a mão no bolso e tirei um pouco de dinheiro.
“Compre algo para comer”, disse eu, com um tom firme para que ela não recusasse. Ela tentou protestar, mas eu já a guiava até a porta. “Coma bem. Descanse sempre que puder.”
Um "obrigada" baixo e engasgado me seguiu pelo corredor. Ela virou para o outro lado e eu não olhei para trás.
Gratidão e amor se misturaram em meu peito enquanto eu continuava até a copa. Torci ainda mais para que Calen gostasse da minha surpresa. Talvez, se ele não fosse meu companheiro, eu nem estaria aqui.
Alguém dobrou a esquina que levava à copa rápido demais e esbarrou em mim. Cambaleei para trás, com o ombro latejando pelo impacto. Felizmente, Calen já tinha me reivindicado e marcado, fortalecendo meu corpo através do elo, ou teria doído ainda mais.
“Desculpe”, sussurrei instantaneamente, embora ele nem tivesse olhado.
Ele mal olhou para mim. Claro que não. Ômegas eram sempre as que estavam no caminho. Mas quando me lembrei do motivo de estar indo à copa, endireitei a postura.
Não se encolha. Calen me amava. Ele tinha dito isso hoje de manhã.
Com um sorriso confiante, peguei o bolo, saí pela entrada dos funcionários e entrei na noite silenciosa.
Quando cheguei em casa, eram quase nove da noite. Calen estava atrasado, mas eu não me importava. Ele disse que terminaria às dez, o que me dava tempo de sobra para criar o clima.
Assim que tirei os sapatos, corri para a geladeira e peguei a massa que eu tinha preparado antes do turno. Depois de aquecida e servida, coloquei o bolo e a garrafa de vinho na mesa. Era o favorito dele, um Cabernet encorpado que sempre fazia com que ele me puxasse para perto após apenas uma taça.
Um brilho dourado se espalhou pelo apartamento modesto que dividíamos quando acendi as velas. Tudo estava pronto. Só faltava ele, mas o silêncio apenas se arrastava.
Não houve mensagem, nem chave girando na fechadura. Sentei-me na ponta do sofá, tentando não olhar para a porta novamente. Meu celular estava virado para baixo ao meu lado, vibrando uma vez, depois outra.
Não era ele. Suspirei e me levantei. Se ele estava preso no trabalho, pelo menos eu poderia manter a comida aquecida. Voltei para a cozinha e coloquei os pratos de volta no micro-ondas.
O perfume de alho refogado e alecrim fresco pairava no ar, agarrado ao calor da cozinha. Dei por mim cantarolando, um hábito que peguei dos longos turnos no pronto-socorro. Era um jeito de me manter centrada.
Passei meu dia cuidando de mulheres grávidas, suturando barrigas, trazendo bebês ao mundo e oferecendo sorrisos exaustos. De alguma forma, nada daquilo se comparava à dor que eu sentia no peito agora. Eu não precisava de gestos grandiosos.
Apenas ele. Apenas sua presença, seu calor, a força silenciosa de seus braços quando o dia finalmente me vencia.
Será que era pedir demais?
O relógio passou da meia-noite e eu encarei a porta fechada. Venha para casa, pensei. Por favor, apenas venha para casa.
Esta noite era importante. Não apenas por marcar o aniversário do nosso elo. Mas porque eu finalmente tinha economizado dinheiro suficiente para reservar uma viagem de fim de semana para nós dois.
Algo longe das obrigações da alcateia e dos turnos do hospital. Uma cabana silenciosa, perto de um lago, onde imaginei nós dois lendo perto da lareira, abraçados, rindo, respirando e sendo mais do que apenas dois títulos presos um ao outro em um mundo construído sobre hierarquias.
Sorrindo levemente, peguei a confirmação impressa na minha bolsa, dobrei-a cuidadosamente em um envelope e enfiei embaixo do prato dele. Feito isso, peguei minha taça de vinho e servi um gole. Estava quente e suave. Exatamente como a noite deveria ser.
A fechadura girou e meu coração disparou. Finalmente. Levantei-me, limpando as mãos no vestido enquanto a porta se abria.
Mas Calen não entrou como de costume. Ele não chamou meu nome, nem sorriu com o cheiro do seu prato favorito. Sem palavras provocantes. Sem beijo.
Em vez disso, ele entrou com ela. A mão dela ainda estava agarrada à manga do casaco dele, como se estivessem se beijando no caminho. Ambos congelaram ao me ver ali, emoldurada pela luz das velas e arrumada para ele, com os olhos arregalados e estúpidos de esperança.
“Oh”, disse a convidada, com uma voz fina.
Ele ficou na frente dela, como se protegê-la fosse consertar a situação. “Nicki, eu não sabia que você estaria em casa.”
Foi só o que ele disse. Nada de me desculpe. Nada de não é o que parece. Apenas aquilo, como se a errada fosse eu. Como se eu tivesse invadido o espaço deles.
A taça de vinho escorregou dos meus dedos. Mas não quebrou; apenas tombou contra a borda da mesa e rolou, com o líquido carmesim trilhando a madeira como uma ferida. Encarei aquilo, com o coração martelando nas costelas.
“Você não sabia?” sussurrei. Ele poderia ter inventado uma mentira mais convincente. “Nós tínhamos planos. Eu cozinhei para você—”
Os olhos dele foram para a mesa. As velas. Os pratos cuidadosamente arrumados. E ele praguejou baixo. A mulher atrás dele, pálida, loira, de alta hierarquia se eu tivesse que adivinhar, se moveu desconfortável.
“Eu não sabia que você tinha uma companheira”, ela disse. Nem parecia arrependida. Apenas irritada. “Devo ir embora?”
“Não. Espere.” Ele fez uma careta. “É… complicado.”
“Complicado”, repeti, a palavra com gosto de sangue. Uma risada baixa e trêmula escapou de mim. “É isso que você disse a ela enquanto estava dentro dela?”
“Nicki”, ele rosnou. “Não faça isso. Agora não.”
“Agora não?” Dei um passo à frente. Meus saltos bateram contra o chão como pequenos tiros. “Há quanto tempo?”
“Nicki—”
“Há quanto tempo, Calen?” perguntei novamente, mais calma desta vez. “Alguma parte disso foi real? Ou eu era apenas seu pequeno projeto de ômega para ganhar pontos com os anciãos?”
A mandíbula dele travou. Isso foi resposta suficiente. A pontada veio antes que eu pudesse contê-la. Não era apenas a traição, mas a humilhação. Saber que eu tinha trabalhado o dobro para ser vista como merecedora ao lado dele. Que eu ignorei os olhares, os sussurros, o jeito que até as enfermeiras no hospital me chamavam de “doutora” com um sorriso irônico porque não acreditavam que uma ômega como eu poderia ter conquistado o cargo apenas por mérito.
Mas eu tinha conquistado. E achei que tinha conquistado ele também. No entanto, lá estava ele, sem arrependimento nenhum.
“Preciso que você vá embora”, disse ele à sua acompanhante, com a voz tensa. “Por favor, Nicki. Não torne isso mais difícil do que já é.”
A dor no meu peito aumentou, mas falei acima dela.
“Calen, eu fiz um jantar para nós”, disse suavemente. “Eu reservei uma cabana. Apenas para duas noites. Eu ia te dar hoje à noite. Eu pensei—” Minha voz falhou. “Eu pensei que talvez você estivesse cansado. Que você voltaria para mim como sempre.”
Algo mudou na expressão dele. Algo como culpa, mas foi passageiro. Ele não chorou nem implorou, nem veio até mim. Quando ele olhou para a mulher que insistia em ficar para trás, talvez para assistir ao desenrolar da cena, e depois voltou para mim, eu soube que o tinha perdido para sempre.
Minha loba choramingou com o pensamento do que eu pretendia fazer. Eu a senti pela primeira vez desde que ele me marcou. Mas eu preferia ser solteira e estar sozinha do que ficar com um companheiro infiel.
“Eu rejeito você”, sussurrei. Meu corpo tremia e minha voz vacilava. “Eu rejeito você como meu companheiro, Gamma Calen.”
A expressão dele mudou. Primeiro foi choque, depois fúria, e então algo feio que eu não sabia nomear. Não tristeza. Não culpa.
“Você acha que pode me rejeitar?” ele rosnou. “Você esquece quem te elevou, Dominique. Você esquece o seu lugar.”
“Não. Eu nunca esqueci”, disse calmamente. “Mas você esqueceu.”
O silêncio que se seguiu não era de paz. Estava carregado de fúria e vergonha — a dele, não a minha. Eu me recusei a sentir culpa por isso.
“Nicki”, ele disse, mais suave. “Vamos conversar sobre isso.”
Calen agarrou a mulher pelo braço e a puxou em direção à porta. Ela me lançou um olhar por cima do ombro, com os lábios curvados em um sorriso. Eles saíram sem dizer uma palavra, e eu fiquei ali em um silêncio tão alto que parecia gritar.
As velas tremeluziram. O vinho formou uma poça na borda da mesa. E o envelope debaixo do prato dele, aquela última esperança frágil, queimava como uma marca que eu não conseguia tocar.
Esta noite deveria ter sido perfeita, mas agora, eu não pertencia a ninguém. Eu estava sozinha, exatamente como sempre estive.
Ei, Queens!!!
Chegou a hora de apresentar todas vocês a um novo mundo. Obrigada por darem uma chance a TBHP. Espero que gostem de ler tanto quanto eu gostei de escrever.
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Iniciado: 9 de fevereiro de 2026
P: Em que dia você começou a ler?