Capítulo 1
Vila de Ashborn – Capítulo Um
A lua pairava pesada sobre as paredes de pedra do Castelo de Ashborn, lançando longos rastros prateados pelo pátio. Sable se pressionou contra a fresta estreita da janela, sua respiração não passava de um sussurro.
“Um... dois... quatro à esquerda”, murmurou, observando os guardas com atenção cirúrgica. “A troca de turno ainda não começou. Vamos agora. Vamos, Lexa.”
As orelhas de Lexa baixaram, ansiosas. “Vamos ser pegas, Sable. Estou te dizendo, essa é uma ideia de merda!”
Sable lançou um sorriso selvagem por cima do ombro, os olhos brilhando com uma determinação feroz. “Você está louca? Não vamos voltar atrás agora.”
Antes que Lexa pudesse protestar, os ossos de Sable estalaram e se remodelaram sob sua pele. Pelo branco percorreu seus braços enquanto seus dedos se transformavam em garras poderosas. Seus olhos azuis queimavam como fogo congelado quando ela saltou da janela em sua forma de loba, aterrissando silenciosamente no telhado abaixo.
Lexa hesitou apenas por um segundo antes de se entregar à transformação. Pelo castanho-acinzentado cobriu seu corpo enquanto ela mudava, seguindo-a com passos mais silenciosos e cautelosos.
Elas dispararam pelas telhas inclinadas e entraram na sombra das árvores além do muro externo, as patas quase não fazendo barulho. Sable escalou o velho bétula com facilidade, saltando sobre a barreira final e desaparecendo na proteção da floresta.
Longe do castelo, as duas lobas corriam sob os pinheiros imponentes, as patas batendo no musgo e nas raízes enquanto o vento frio da noite chicoteava seus pelos. A floresta começou a rarear à medida que se aproximavam da fronteira da vila — a primeira regra do território de Ashborn: nada de lobos de sangue real fora da fronteira sem escolta. E elas estavam quebrando isso audaciosamente.
“Viu?”, a voz de Sable ecoou, aguda e provocadora, através da conexão mental delas. “Eu disse que não aconteceria nada. Estamos prestes a entrar na porra da vila. Deixe esse medo de lado logo.”
Lexa rosnou baixo. “Falar é fácil para você! Se formos pegas, meu pai vai me matar — e o Rei Aloha vai matá-lo por ter deixado você escapar!”
Sable soltou uma risada, parando bruscamente no topo de uma colina com vista para as luzes fracas dos lampiões da vila abaixo. Ela voltou à forma humana, espreguiçando-se enquanto seu pelo desaparecia sob a pele clara.
“Relaxa”, disse ela em voz alta, jogando o cabelo branco sobre o ombro com um sorriso rouco. “Só por esta noite, esqueça esse medo. Você é filha de um beta, não uma filhote medrosa.”
Lexa a seguiu com mais hesitação, voltando à forma humana. Seus cachos castanhos colavam na testa, e seus olhos âmbar ainda estavam arregalados de incerteza.
“Filha de um beta”, ela murmurou, “que está prestes a ficar de castigo para o resto da vida.”
Sable passou o braço por seus ombros, puxando-a para perto.
“Então vamos fazer valer a pena.”
Dito isso, ela as guiou colina abaixo em direção à vila proibida.
A vila estava viva.
A música fazia o chão vibrar sob seus pés enquanto desciam a colina. Centenas de lobisomens — guerreiros, anciãos, filhotes e ômegas — enchiam as ruas em uma celebração vibrante. Lampiões pendiam de cada galho e varanda, pintando a noite de dourado e carmesim. O cheiro de carne assada, hidromel doce e fumaça de lenha envolvia as duas, enquanto tambores soavam ao longe.
Os olhos de Sable se arregalaram de alegria. “Isso sim é vida.”
Lexa girou lentamente, olhando em descrença. “Eu nunca... nunca vi nada parecido. Meu pai nunca me deixou ir aos festivais.”
“Então hoje você vai”, declarou Sable, dando um empurrãozinho nela com um sorriso. Ela apontou para um círculo de chamas onde dançarinos giravam cajados em brasa, faíscas deixando rastros como cometas.
Lexa suspirou. “Deuses... olhe para isso.”
Sable se aproximou. “Fique aqui. Vou buscar nossas bebidas.”
Lexa voltou à realidade. “O quê — não! Não me deixe sozinha nessa multidão!”
Sable já estava se afastando, rindo. “Relaxa! Não vou para longe. Está vendo aquela barraca com os barris? Já volto. Continue assistindo ao show de fogo!”
Com isso, ela desapareceu no mar de corpos, engolida pela música e pelas risadas.
O pulso de Lexa batia em seus ouvidos, mas o fogo prendia sua atenção. Os dançarinos giravam em ritmo perfeito, as chamas refletidas em seus olhos âmbar. Ela não percebeu a mudança no ar... ou o par de olhos prateados observando-a do outro lado das chamas.
Uma sombra deslizou pela multidão — alto, firme, decidido.
Lexa não o notou até que ele estivesse bem atrás dela. Uma respiração quente roçou sua orelha.
“Aproveitando o show, minha dama?”
Ela ficou rígida. Uma mão roçou seu ombro — gentil, porém firme.
Lexa girou, afastando a mão dele com um olhar cortante.
Um homem estava diante dela. Ombros largos, cabelo castanho bagunçado como se tivesse acabado de correr pela floresta, e olhos — prateados, brilhantes como a luz da lua. Ele parecia divertido.
Lexa não esperou que ele falasse novamente. Ela disparou pela multidão, empurrando corpos até avistar Sable em uma barraca próxima, com dois copos de madeira na mão.
Lexa agarrou seu braço com força. “Tem alguém nos seguindo.”
Sable piscou. “Quem?”
“Olhos prateados. Cabelo castanho. Ele — ele tocou meu ombro.”
Os lábios de Sable se curvaram em um sorriso malicioso. “Oh. Parece que ele está a fim de você.”
“Estou falando sério, Sable. Precisamos ir embora.”
Sable olhou casualmente por cima do ombro de Lexa — e encontrou o olhar do homem. Ele estava de fato seguindo-as, serpenteando pela multidão com uma confiança tranquila.
Em vez de se alarmar, Sable ergueu seu copo e acenou para ele com um sorriso provocante.
Lexa puxou com mais força. “Pare! Não encoraje ele!”
Sable apenas deu um sorriso sarcástico. “Relaxe. Vamos ouvir o que o Sr. Olhos de Prata quer.”
O estranho fechou os últimos passos entre eles, a confiança emanando dele como o calor do fogo.
“Olá, linda. Se importa se eu me juntar a vocês?”, perguntou ele, o olhar fixo em Lexa.
Antes que ela pudesse recusar, Sable lançou-lhe um sorriso. “Claro, por que não?”
Lexa lançou-lhe um olhar assassino, mas Sable apenas deu de ombros, fingindo inocência.
O homem riu. “Sua amiga parece menos entusiasmada.”
Lexa apenas o encarou em silêncio.
Sable interveio com naturalidade. “Não ligue para ela. Somos novas nesta vila.”
“Oh? Rostos novos.” Seus olhos prateados brilharam com interesse. “De onde vocês são?”
“Vila de Elowen”, mentiu Sable facilmente.
Ele ergueu uma sobrancelha. “Ah, vizinhas então.” Ele piscou. “Eu moro aqui. Permitam-me ser o guia de vocês.”
Ele fez sinal para que o seguissem, e Sable — encantada — o fez sem hesitar. Lexa caminhou atrás deles, relutante, mantendo-se um pouco afastada.
Enquanto percorriam o festival agitado, Lexa notou algo estranho. A cada poucos passos, uma loba passava — sorrindo, piscando ou até mandando beijos para o estranho.
E, a cada vez, ele retribuía sem esforço. Um sorriso, um levantar de queixo, uma piscada. Como se fosse uma língua que ele dominava perfeitamente.
“Você é bem famoso aqui”, observou Sable.
“E bem vulgar”, murmurou Lexa, ríspida.
O homem diminuiu o passo... virando a cabeça o suficiente para encontrar o olhar dela.
“Se o vulgar lhe agrada, minha dama”, disse ele suavemente, “garanto-lhe que posso ir ainda mais longe.”
Sable caiu na gargalhada, quase derrubando sua bebida.
O rosto de Lexa esquentou de indignação. “Você —!”
Antes que ela pudesse terminar, ele se aproximou — perto demais — e ofereceu um sorriso lupino.
“Mas só se você pedir com jeitinho.”
Antes que Lexa pudesse rebater, uma nova voz cortou bruscamente o barulho.
“Meu lorde.”
Um jovem guerreiro se aproximou, curvando a cabeça respeitosamente para o estranho de olhos prateados.
“Alguém atravessou a fronteira de Ashborn. O Príncipe exige sua presença — imediatamente.”
Lexa congelou.
O sorriso brincalhão de Sable desapareceu, seu rosto empalidecendo.
Meu lorde?
Príncipe?
...Com quem, exatamente, elas estiveram conversando?
O homem de olhos prateados sorriu levemente, como se estivesse aproveitando a mudança na expressão delas.
Ele fez uma meia-reverência desleixada para elas. “Bem, o dever chama, minhas lindas.” Ele lançou um sorriso malicioso por cima do ombro. “Não desapareçam. Eu odiaria que esta noite fosse nosso último encontro.”
Antes que qualquer uma pudesse responder, ele desapareceu na multidão com sua escolta.
No momento em que ele saiu de vista, Lexa agarrou o braço de Sable. “Precisamos ir embora. Agora.”
Os olhos de Sable percorreram o local, nervosos. “Você acha que eles nos reconheceram?”
“Eles sabem que alguém atravessou a fronteira”, sibilou Lexa. “E estamos a dois minutos de sermos cercadas.”
Sable não discutiu desta vez.
Elas começaram a correr, serpenteando por entre as multidões, passando por vendedores e fogueiras, ignorando os gritos de espanto atrás delas.
Suas respirações ficaram pesadas de pânico.
“Vá para a floresta”, disse Sable entre dentes cerrados. “Vamos nos transformar assim que chegarmos à linha das árvores.”
Lexa assentiu, o coração batendo forte no peito.
Mas assim que a floresta apareceu —
Elas atravessaram as colinas em velocidade máxima, o pelo roçando o vento enquanto disparavam em direção à fronteira. A luz da lua atravessava suas costas — vultos branco e castanho-acinzentado correndo pela liberdade.
Mais alguns metros —
Uma forma saltou da crista da colina à frente. Maciça. Bloqueando o caminho delas.
Pelo preto. Maior que ambas. Olhos queimando em vermelho-brasa como lava derretida.
Ele rosnou, um som baixo e trovejante, os lábios se retraindo para revelar presas como adagas.
Um Alfa.
Lexa derrapou, as garras cavando a terra. A forma de loba branca de Sable entrou protetoramente à frente dela, o pelo eriçado, as presas à mostra.
O lobo negro avançou lentamente, com a cabeça baixa — pronto para matar ou capturar.
“Lexa”, a voz de Sable ecoou através da conexão mental, calma, mas feroz, “vou mantê-lo ocupado. Atravesse a fronteira. Se eu não voltar — conte tudo ao Pai.”
Lexa rosnou de volta pela conexão. “Eu não vou deixar você! Lutamos juntas!”
“Não!” O comando mental de Sable estalou como um trovão. “Ele é mais forte que nós duas. Uma de nós tem que conseguir voltar. Vá!”
Lexa hesitou, com o coração na boca.
“Por favor, Lexa. O Pai precisa saber por que viemos aqui.”
Aquilo a quebrou.
Com um último olhar — cheio de fúria impotente — Lexa assentiu.
Sable lançou-se contra o Alfa em um borrão branco.
Garras encontraram garras. Dentes bateram. Uma colisão selvagem de fúria.
Lexa correu.
Cada instinto nela gritava para voltar — mas ela forçou suas patas a avançarem, correndo em direção à floresta, com lágrimas queimando sua visão.
Atrás dela, os rosnados de Sable ecoavam pela noite.
E então — um rugido.
Profundo. Dominante.
Não apenas um aviso.
Uma posse.