Capítulo 1
— Acorde! — A voz de Rani Sa ecoou pelas câmaras, com um tom melódico e ao mesmo tempo autoritário que quebrou a quietude do amanhecer. Imediatamente, as pálpebras de Madhulika se abriram, seu coração disparado como se ainda estivesse preso aos sonhos vívidos que tinham acabado de escapar como areia por entre seus dedos. Naquele momento precioso entre o sono e o despertar, sua mente lutava para alcançar a realidade, enquanto os resquícios de paisagens encantadoras e aventuras selvagens desapareciam nos cantos de sua consciência.
Madhulika, a joia querida do reino, não era de acordar facilmente. Se a sua natureza espirituosa pudesse ser domada pelos cutucões gentis das criadas, Rani Sa não precisaria convocá-la com tanta urgência. No entanto, sua determinação era mais do que mera teimosia; era um reflexo do amor que envolvia sua vida. Ela era a irmã amada de Raja Bhawan Singh, que a adotou como sua após a perda trágica de seus pais. Rani Durga, com seu coração acolhedor, tinha tomado Madhulika sob sua proteção, tornando-se carinhosamente a "Bhabhi Ma" em vez de apenas "Bhabhi Sa".
— Desculpe, Bhabhi Ma — murmurou Madhulika, esfregando os olhos enquanto se sentava. Os lençóis de seda caíram, revelando sua silhueta delicada. A luz do dia entrava pela janela ornamentada, lançando tons dourados sobre ela e iluminando a beleza que o reino adorava. Seus pensamentos ainda dançavam com imagens de jardins florescentes, vastos prados e áreas selvagens — o sonho tinha pintado um mundo onde ela vagava livre, sem as amarras do dever real.
Rani Sa riu baixinho, um som caloroso e convidativo, mas entrelaçado com uma urgência implícita. — O seu Rajkumar não vai simplesmente cavalgar para fora dos seus sonhos, querida. Temos que ir em frente e encontrá-lo — provocou ela, afastando uma mecha rebelde de cabelo da orelha de Madhulika, com os dedos demorando-se em um carinho suave.
As bochechas de Madhulika coraram com uma mistura de vergonha e excitação. — Bhabhi Ma! Eu não estava sonhando com Rajkumars; eu estava explorando a beleza da natureza, viajando pelo mundo — respondeu ela, sua voz carregada de anseio. A imensidão de seus sonhos parecia quase tangível, como o perfume de jasmim em flor que vinha pela janela aberta.
Rani Sa, com sua expressão tornando-se séria, sentou-se ao lado dela, com os ombros quase se tocando. — É claro, minha querida, mas você precisa se casar primeiro para que essas aventuras realmente comecem — disse ela, com um tom de sabedoria materna.
Uma onda de resignação tomou conta de Madhulika ao contemplar a busca incansável de seu irmão para encontrar um pretendente adequado. Raja Bhawan já tinha rejeitado cinco pretendentes, e cada recusa era um fardo que ele carregava sozinho, pesado em seu coração. A ideia de um swayamvar tinha pairado no ar como uma borboleta atraente, prometendo escolhas e possibilidades, mas sombreada pelo espectro do caos que frequentemente trazia — guerras travadas por orgulho e poder, sangue derramado em nome da honra.
Rani Sa tinha sugerido seu irmão mais novo, Rajan, como um possível pretendente, mas o pensamento causou um arrepio na espinha de Madhulika. O fedor de álcool manchava a reputação de Rajan, e a própria Rani Sa tinha rapidamente descartado essa ideia antes que ela pudesse criar raízes.
O que buscavam era alguém que não apenas admirasse sua beleza estonteante, mas que valorizasse as profundezas de seu espírito. Precisavam de um homem que permanecesse firme em sua lealdade, uma raridade entre os homens de sangue nobre, onde a poligamia era a regra, não a exceção. O coração de Raja Bhawan crescia com o desejo de presentear sua irmã com um amor que refletisse seus próprios valores, um que a honrasse de todas as formas, em corpo e alma.
Enquanto Madhulika olhava no espelho, o reflexo parecia chamá-la para um destino inexplorado. Ela ansiava por um parceiro que a acompanhasse em suas explorações, um homem que entendesse que a verdadeira beleza não reside apenas em uma fachada real, mas nas aventuras compartilhadas da vida — o riso, os segredos sussurrados e os momentos tranquilos sob um céu estrelado.
E, enquanto Rani Sa continuava a pentear seu cabelo, o quarto parecia vibrar com a promessa de novos começos, o ar vivo com expectativa e o perfume de possibilidades florescentes. Naquele momento, Madhulika sentiu o despertar da esperança, um lampejo de coragem acendendo-se em seu coração — talvez, apenas talvez, sua jornada para encontrar o amor fosse tão deslumbrante quanto as paisagens que ela sonhava explorar.
Mas a vida tinha outros planos para ela. Nas câmaras ensolaradas do palácio real, Madhulika se divertia, suas risadas melódicas misturando-se à conversa gentil de suas criadas enquanto brincavam com água, as gotas frias brilhando como diamantes na luz dourada. O perfume de sândalo e jasmim pairava no ar, um abraço perfumado que a envolvia como um xale quente. Ela era a imagem da alegria, sua silhueta delicada adornada com um vestido requintado de tons pastéis, o tecido caindo ao seu redor como uma cascata serena. Seu cabelo, ainda úmido do banho, brilhava sob a luz do sol, emoldurando seu rosto com elegância e inocência.
Sem que ela soubesse, em outra parte do palácio, Raja Bhawan sentava-se na luz fraca da sala de guerra, com um ar pesado pairando ao seu redor. As lamparinas a óleo tremulantes projetavam sombras dançantes nas paredes, sua luz revelando as sobrancelhas franzidas do Raj jhyotish, o adivinho real, cuja figura frágil tremia com o peso de suas revelações. Gotas de suor se formavam em suas têmporas, brilhando como pequenas pérolas sob o olhar penetrante de Raja Bhawan.
— Vejo uma realeza muito mais grandiosa que a sua — intuiu o jhyotish, sua voz trêmula, mas carregada de uma estranha reverência que sugeria possibilidades tanto maravilhosas quanto aterrorizantes. O coração de Raja Bhawan se encheu de orgulho ao pensar no futuro de sua irmã. Um sorriso surgiu em seus lábios, aliviando momentaneamente a tensão que o cercava. No entanto, tão rápido quanto veio, a preocupação gravou-se em suas feições quando o jhyotish continuou: — Mas a princesa não será uma esposa única.
— Impossível! — A voz de Raja Bhawan trovejou pela sala mal iluminada, reverberando nas paredes de pedra, o som pesado de descrença. A simples ideia de compartilhar o coração de Madhulika, seu amor, com outra pessoa o enchia de um pavor indescritível.
O jhyotish, sem se deixar abalar pela explosão, continuou, seus olhos nublados com as visões do destino. — O futuro da Rajkumari sa é complicado; uma nuvem escura paira sobre ela. Ela passará por imensos testes e provações. Seu futuro está com um homem de grandeza, mas isso lhe trará uma dor imensa.
— Chega! — A fúria de Raja Bhawan irrompeu como uma tempestade, seus punhos cerrados ao lado do corpo. — Não ouvirei mais nada! A Rajkumari não enfrentará dificuldades. Encontraríamos um homem comum e a manteríamos aqui conosco, se preciso for. Mas nenhuma provação chegará até ela! — Sua voz era resoluta, cada palavra carregando o peso de sua determinação em proteger Madhulika das crueldades do mundo.
Nesse momento, a porta pesada de madeira se abriu bruscamente e um soldado entrou apressado, o peito arfante de cansaço. — Raja Sa! Há notícias importantes — o Sultão Zafir foi visto perto do nosso reino!
O nome pairou no ar, eletrificando a atmosfera enquanto a testa de Raja Bhawan se franzia em confusão e curiosidade. Sultão Zafir era um nome sussurrado tanto com admiração quanto com medo, um governante conhecido por sua astúcia e presença formidável. O que o trazia às suas terras? O que isso significava para Madhulika?
Enquanto isso, em seu santuário de risos, Madhulika permanecia alegremente alheia à tempestade que se formava ao seu redor. Ela girava de alegria, as cores vibrantes de sua vestimenta rodopiando ao redor dela como as pétalas de flores que dançam na brisa da primavera. No entanto, enquanto girava, ela sentiu um bater inexplicável em seu coração, um sussurro do destino chamando-a para o desconhecido.
O sol baixou no horizonte, lançando longas sombras que dançavam pelas paredes do palácio, prenunciando os destinos entrelaçados que aguardavam Madhulika e Zafir. O perfume de jasmim ficou mais forte, misturando-se com a tempestade iminente, como se a própria natureza estivesse se preparando para a colisão de dois mundos — um abrigado no calor do amor familiar, o outro equilibrando-se no limite da grandeza e do caos.
Naquele momento, os fios de seus destinos começaram a se entrelaçar, preparando o cenário para um conto de amor, provações e a busca pela liberdade, alterando para sempre o curso dos sonhos de Madhulika e despertando um destino que ela nunca soube que a aguardava.