Prólogo
Mil anos atrás...
Em algum lugar em Elyndor, Reino Fae
Caelus
Lembro-me da queda como imagino que alguém se lembre de um afogamento: lento, interminável e dolorosamente brilhante.
O céu se abriu sobre nós e, pela primeira vez em uma eternidade, entendi o que significava sangrar. A luz que antes preenchia minhas veias virou fogo, e minhas asas — aquelas vastas relíquias dos céus com penas douradas — queimaram até não restar nada além de cinzas e silêncio.
Quando acordei, o mundo era pequeno.
O ar estava pesado, com cheiro de sal e fumaça. O chão sob mim tremia, como se não tivesse certeza de que poderia suportar o peso do que acabara de cair sobre ele. Respirei pela primeira vez e o ar cortou-me como uma lâmina de dentro para fora. Meu peito arfava. Meu corpo estava errado. Menor. Frágil. E, quando levei a mão ao rosto, a mão que encontrou meu olhar era a de uma criança.
Fui até a água e observei meu reflexo. Um garoto, com cabelos da cor da luz do sol presa na geada e olhos de um azul penetrante que não pertenciam àquela terra. Sentei-me, endireitando a coluna.
Meu nome — outrora uma canção pronunciada apenas pelas estrelas — ecoou fracamente em minha mente: Caelus. O último da linhagem Seraphim de Elysium. Ou, pelo menos, era o que eu era antes da queda.
Agora, eu era outra coisa.
A areia grudava em minha pele enquanto eu me levantava com dificuldade. Ao meu redor, outros doze estavam espalhados pela costa enegrecida; doze seres cuja radiância já havia iluminado os altos salões da Luminara. Agora, eles estavam tão quebrados e atordoados quanto eu, suas novas formas refletindo a ironia cruel de nosso castigo. Alguns eram adultos, outros não pareciam muito mais velhos que eu.
No centro de todos eles estava ele.
Arcadian.
Mesmo em ruínas, ele era magnífico. Seu corpo — mais alto que qualquer um de nós, de ombros largos, vestido com os trapos do que restou de sua armadura celestial — parecia esculpido tanto de luz quanto de sombra. Seu cabelo, antes branco como a luz das estrelas, agora estava manchado de cinza prateado. Suas asas tinham sido arrancadas completamente, e ainda assim, quando ele se levantava, o ar parecia se curvar em reverência.
"Levantem-se", disse ele, com a voz rouca, mas autoritária. "Ainda não estamos perdidos."
Os outros obedeceram, porque era isso que sempre tínhamos feito. Mesmo agora, mesmo tendo sido banidos, a voz de Arcadian carregava o eco da divindade. Quando finalmente nos levantamos, os outros tropeçaram, instáveis em pernas que não se lembravam da gravidade. Eu senti o mesmo: o peso dessa carne nova. Cada movimento era um esforço, cada respiração, cortante como vidro. A fome corroía meu estômago, uma dor vazia que eu não conhecia. Minha garganta queimava de sede e, quando tentei invocar o calor da minha chama interior, encontrei apenas o vazio.
Busquei minha luz lá dentro — nada. Virei-me ao som de um movimento suave ao meu lado.
"Caelus?"
Era minha irmã. Elaria.
O cabelo dela espelhava o meu, um dourado pálido, mas era mais comprido, chegando aos ombros. Ela parecia um pouco mais velha que eu nesta forma, embora eu ainda pudesse ver o imenso poder atrás de seus olhos azuis mortais. Minha mais velha em tudo, ela sempre fora minha âncora, a calma para minha inquietude. Mesmo agora, ela estendeu a mão, limpando a sujeira que manchava minha bochecha, com o toque trêmulo.
"Você está ferido", ela sussurrou.
Eu balancei a cabeça. "Não. Só... menor." Uma risada nervosa escapou dela, embora não houvesse alegria nela. Seu rosto estava pálido e seus olhos, arregalados demais.
"Não consigo ouvi-los", ela sussurrou.
"Os Coros?", perguntei.
Ela assentiu, com a voz embargada. "Eles se foram. Todos eles."
"Elaria! Caelus!" Nós dois nos viramos para o som de uma voz familiar: a de minha mãe. Ela vinha correndo, seu longo vestido em trapos, sua radiância apagada, mas não extinta. Seraphine, a Flamebearer de Luminara, minha mãe — a fêmea que havia cantado luz em estrelas moribundas. Seu cabelo ainda brilhava fracamente, como uma vela lutando contra o vento, e seus olhos eram gentis, embora eu pudesse ver o medo escondido ali.
Atrás dela estava meu pai.
Valen. Outrora um portador da chama do Primeiro Coro. Seu olhar era afiado como o gume de uma lâmina, seus ombros ainda cobertos pelo brilho fraco do que fora sua armadura de luz. O sigilo do Primeiro Coro — o sol ardente — estava vagamente gravado em seu peito, desbotando como uma cicatriz antiga. Ele não disse nada, apenas parou diante de mim e colocou a mão em minha cabeça. O calor que irradiava dele agora era diferente: oscilante, imperfeito.
"O que eles fizeram?", perguntei a ele. "Onde estamos?"
"Nós vivemos", ele murmurou, quase para si mesmo. "Isso já é misericórdia suficiente." Mas aquilo não era misericórdia. Era exílio. O ar zumbia, denso com o cheiro de salmoura e terra, e as árvores que margeavam a costa estavam negras de sal, suas folhas sussurrando segredos ao vento.
O olhar de Arcadian varreu a todos nós, frio e indecifrável. "Fomos lançados no reino Fae", disse ele, com o tom de voz calmo. "Nossas asas foram arrancadas, nossos nomes apagados. Os céus não se lembrarão de nós, e os deuses não nos perdoarão." Suas palavras afundaram no ar salgado como pedras na água. Nenhum de nós ousou falar, embora eu tenha visto os olhares trocados entre os doze: medo, descrença e, por baixo de tudo, algo perigosamente próximo da admiração.
Porque, mesmo agora, ele não se ajoelhava.
Ele estava na beira da linha das árvores, agora de costas para nós, seus ombros subindo e descendo com cada respiração. Os outros se viraram, cautelosos. Algo na postura dele fez o próprio ar parecer prender a respiração.
"Vocês sentem?", disse ele baixinho.
Uruk deu um passo à frente, com o tom cauteloso. "Sentir o quê?"
Arcadian se virou. Seus olhos — antes um ouro radiante — agora estavam mais escuros, girando com algo que parecia quase fumaça.
"O pulsar", murmurou ele. "A batida do coração sob a terra." Franzi a testa, me esforçando para ouvir. Abaixo do bater rítmico das ondas, havia algo mais: uma vibração fraca e profunda, como se a própria ilha estivesse respirando. "Ela nos dá as boas-vindas", disse ele, com a voz baixa e reverente. "Ela sabe quem somos."
A expressão do meu pai endureceu. "Não confunda fome com boas-vindas, irmão. Este lugar cheira a morte." Diante disso, Arcadian riu — um som agudo e sem humor que fez os pelos da minha nuca se arrepiarem.
"Morte?", ele repetiu, aproximando-se até que o ar entre eles estalasse. "Fomos feitos imortais, Valen. A morte foi o único presente negado a nós. Talvez agora, neste solo abandonado, finalmente a compreendamos."
"Já chega", disse meu pai, sua voz carregando a autoridade que um dia fizera as próprias estrelas tremerem. "Seja o que for esta terra, ela não é nossa salvação. Devemos encontrar abrigo antes..."
"Antes o quê?", interrompeu Arcadian, com tom de deboche. "Antes que os deuses enviem sua piedade para nos levar para casa? Eles não vão. Você sabe que não vão."
Os olhos do meu pai brilhavam com uma fúria contida. "Você nos trouxe para cá, Arcadian. Você e seu orgulho. Você abriu os céus com sua guerra, e agora fala de compreensão?"
Por um momento, pensei que Arcadian fosse atacá-lo. O ar ficou pesado, o poder vibrando entre eles — restos oscilantes do que um dia foram. Mas então ele sorriu. E foi pior do que qualquer golpe.
"Você não vê, Valen? Não estamos mais presos pelas correntes deles. Os deuses nos abandonaram, e ainda assim você se apega à lei deles."
"Nunca houve lei no que você fez", disse meu pai com a voz baixa. "Apenas vaidade."
Um músculo no maxilar de Arcadian contraiu. "Chame do que quiser. Eu vejo com mais clareza agora do que jamais vi na luz deles."
"E o que você vê?"
Arcadian sorriu levemente, com os olhos distantes. "Que nunca fomos feitos para servir."
O silêncio se estendeu entre eles, pesado e perigoso. Meu pai se virou primeiro. Arcadian não se moveu. Quando seu olhar encontrou o meu, eu recuei. Porque, por um instante, não vi o macho que eu conhecera. Vi algo vasto e furioso atrás de seus olhos — algo mais antigo que os céus de onde vínhamos.
Era ele quem liderara a rebelião, o anjo que desafiara os próprios deuses. Ele chamara aquilo de libertação — um levante contra a tirania da Primeira Luz. Mas a verdade, como eu entendia agora, era mais obscura. Arcadian não lutara pela liberdade. Ele lutara por vingança.
E, por causa disso, todos nós caímos.
Notei um vislumbre de algo estranho nas linhas marcadas de suas feições. Seu maxilar, seus olhos, até mesmo a leve cicatriz que cruzava sua sobrancelha esquerda. Algo mais sombrio — maligno. Eu ainda não entendia o que aquilo significava. Mas uma coisa estava clara: sua rebelião nunca teve a intenção de nos libertar. Era para destruir o que cabia ao meu pai proteger. Os céus nos expulsaram para puni-lo — Arcadian. Nós éramos apenas danos colaterais.
"Os deuses", começou ele, com o olhar varrendo a todos nós, "acreditavam que poderiam nos despir de nossa divindade. Que, ao nos expulsarem, poderiam desfazer o que somos." Os outros se moveram, murmurando baixinho, seus rostos voltados para ele como suplicantes diante de um profeta. "Mas eles estavam errados. Eles não nos destruíram. Eles nos libertaram."
Ele deu um passo à frente, e a luz rarefeita pegou a linha de seu maxilar, deixando sua expressão metade dourada, metade sombria.
"Olhem ao redor", disse ele. "Esta terra — o ar, o mar, o solo sob seus pés — não pertence aos deuses. Ela é intocada, sem dono, nossa." Uma onda de admiração passou pelos caídos. Um por um, seus olhos brilharam, oscilando com aquela luz perigosa que só a crença pode despertar. Arcadian ergueu a mão, com a palma aberta para o céu que escurecia. "Eles nos expulsaram de nosso lar", disse ele, "mas, ao fazerem isso, nos deram um reino. Um mundo livre das correntes deles. Aqui, governaremos como sempre fomos destinados a fazer. Como deuses."
Um murmúrio de concordância varreu os outros — suave, reverente. Alguns caíram de joelhos. Outros curvaram a cabeça. Apenas minha família não se moveu.
Senti o olhar da minha irmã primeiro, firme e consciente ao meu lado. Os lábios da minha mãe se apertaram em uma linha fina, suas mãos entrelaçadas com força à sua frente. Meu pai estava rígido, com o rosto indecifrável, embora eu visse o músculo de seu maxilar tremer — o mesmo que sempre denunciava sua raiva.
Os olhos de Arcadian se voltaram para nós brevemente, notando nosso silêncio, mas ele não disse nada. Em vez disso, ele se virou e apontou para os restos espalhados do que um dia fomos — pedaços de armadura dourada, fragmentos de tecido radiante, as insígnias quebradas dos Coros que nos definiram por milênios.
"Estas", disse ele, com a voz baixa agora, "são as correntes que ainda os prendem a eles. Os céus sempre deterão seus corações enquanto estas relíquias permanecerem. Queimem-nas. Livrem-se do que não é deste mundo."
Ninguém hesitou — ninguém além de nós.
Outro dos caídos, uma fêmea chamada Selith, removeu a armadura chamuscada de seu corpo, deixando-a cair na areia. O seguinte a seguiu, e outro, até que o ar da noite fosse preenchido pelo som de metal batendo na terra, de tecido sendo rasgado.
Logo, eles ficaram nus — despidos, sem vergonha. Uma estranha reverência passou entre eles e, um por um, começaram a alimentar as chamas lançadas por um dos caídos com suas armaduras e mantos. O fogo pegou rapidamente, queimando em azul no centro e em branco nas bordas. O cheiro de ozônio e fumaça encheu o ar — um eco fraco da pureza do céu transformada em ruína.
Arcadian virou-se então, seu olhar pousando em meu pai.
"Você discorda, irmão?", perguntou ele, a voz quase preguiçosa, embora as palavras carregassem aço.
Por um longo momento, ninguém falou. As ondas quebravam contra a costa. O fogo estalava. E ainda assim, meu pai não disse nada.
As sobrancelhas de Arcadian se arquearam, seu sorriso de lado retornando — frio, divertido. "Silêncio", disse ele suavemente, "é tão bom quanto a rendição." Ele se virou e se afastou, sua sombra longa e irregular contra a areia.
Somente quando ele se foi meu pai finalmente se moveu. Ele exalou lentamente, como se o próprio ar queimasse em seus pulmões, então olhou para nós — minha mãe, minha irmã e eu.
Não havia ordem em seu olhar. Apenas um entendimento silencioso.
Sem uma palavra, ele começou a soltar as placas de sua armadura, peça por peça, até que caíssem em uma cascata surda na areia. Minha mãe o seguiu, suas mãos delicadas tremendo enquanto desamarrava as fitas de luz que antes adornavam seus mantos. Quando ela ficou nua ao lado dele, a luz do fogo refletiu em sua pele como o último brilho de um amanhecer que se apaga.
Elaria engoliu em seco e tirou o aro fino de sua cabeça, jogando-o nas chamas. Ele desapareceu com um chiado, deixando para trás o cheiro fraco de prata e luz das estrelas.
E então, finalmente, foi a minha vez.
Meus dedos tremiam enquanto eu removia o pouco que restava da minha armadura. Ela caiu silenciosamente na areia e, pela primeira vez, senti o frio contra minha pele. Fiquei lá — pequeno, despido de tudo o que eu já conhecera — e observei enquanto o fogo devorava nosso passado.
Os outros se regozijavam silenciosamente entre si, murmurando juramentos de lealdade a Arcadian, seus olhos refletindo as chamas como adoradores diante de um novo altar.
Mas minha família permanecia à parte, silenciosa.
Naquele momento, eu soube o que todos nós sabíamos, mas não ousávamos dizer: o sonho de Arcadian não era a liberdade. Era a conquista. E qualquer coisa que ele estivesse construindo aqui nesta costa esquecida, não era um lar.
Era um império.
********************
Dias tinham se tornado semanas, e semanas em meses. E, finalmente, meses em anos.
A noite caiu pesada sobre a ilha. Ela tinha se tornado nosso lar, embora nunca vá ser o que conhecemos como um lar. Era uma terra estranha, mas nos viramos com o que podíamos.
O fogo já havia se reduzido a brasas há muito tempo, os outros dormiam perto da costa, seus corpos encolhidos na areia como restos de estrelas caídas. O mar murmurava suavemente contra as rochas e, acima de nós, o céu era vasto e vazio — sem constelações, sem brilho celestial, apenas o silêncio frio do exílio.
Eu estava apenas começando a cair em um sono estranho quando a voz do meu pai surgiu baixinho na escuridão.
"Caelus."
Pisquei, despertando e sentando-me. Sua silhueta pairava contra a luz moribunda das brasas, sua expressão indecifrável.
"Venha comigo."
Não havia dúvida em seu tom, apenas um comando silencioso. Eu o segui.
Caminhamos para o interior, longe da praia, para dentro da densa floresta que margeava o coração da ilha. As árvores eram altas e retorcidas, suas cascas lisas de sal e musgo. Criaturas estranhas sussurravam no mato — estalos e chiados suaves que eu não sabia nomear.
Meu pai não disse nada enquanto caminhávamos, e eu também não. Eu podia sentir o desconforto nele, porém. A rigidez em seus ombros. O modo como sua mão pairava perto do quadril, como se alcançasse algo que não estava mais lá. Quando ele finalmente parou, foi em uma pequena clareira onde o luar filtrava fracamente através da copa das árvores. O ar ali parecia mais frio, mais pesado.
"Aqui", disse ele suavemente. Ele se virou para mim e, antes que eu pudesse perguntar o que estávamos fazendo, ele se ajoelhou e afastou a espessa camada de folhas a seus pés. Abaixo delas jazia um embrulho envolto em um tecido grosso.
Ele hesitou — por apenas um suspiro — antes de desembrulhá-lo.
O ar ao nosso redor mudou.
Mesmo antes de vê-lo, eu o senti — o zumbido familiar do metal celestial, puro e mortal. Minha respiração falhou quando o luar atingiu a lâmina.
Uma espada.
Não de fabricação mortal, nem de nada nascido deste mundo. O metal brilhava fracamente com runas da Primeira Luz, cada símbolo pulsando suavemente, vivo.
"Pai", sussurrei, incapaz de desviar os olhos. "Você... você guardou?"
Ele encontrou meu olhar, sua expressão dura, sombreada. "Nem tudo merecia queimar."
Aproximei-me, o brilho da lâmina refletido em meus olhos. "Arcadian disse—"
"Eu sei o que Arcadian disse", ele interrompeu baixinho. "E é por isso que isso deve permanecer escondido."
Franzi a testa. "Escondido? Por quê?"
Ele olhou para a espada por um longo tempo, como se a resposta estivesse dentro do próprio aço. Quando ele finalmente falou, sua voz estava baixa.
"Esta lâmina", disse ele, "foi forjada no coração da Chama Eterna. Ela pode cortar o fio entre a alma e a luz. Ela pode matar um anjo."
As palavras me atingiram como um golpe. "Matar...? Mas por que nós um dia—"
"Porque temo que um dia possamos precisar."
Eu o encarei, atordoado. "Você fala em matar os nossos?"
Ele suspirou e endireitou-se, a mão ainda descansando no punho. "Vai contra tudo o que somos", ele admitiu, "mas Arcadian... ele mudou. Há algo nele agora — algo que não consigo nomear."
Eu queria argumentar. Dizer a ele que estava errado, que Arcadian nos guiou, nos protegeu. Que ele ainda era um de nós. Mas, ao lembrar de como seus olhos escureceram nos últimos meses, como a própria ilha parecia se agitar com suas palavras, não encontrei voz para falar.
"Ele fala de um reino não muito longe daqui. Ele diz que será nosso novo lar", disse ele. "Temo que ele tenha outra coisa planejada."
"O que — o que é?" perguntei trêmulo.
"Eu ainda não sei. Mas as pessoas que ocupam estas terras estão em grave perigo. E temo que nós também estejamos." O pai embainhou a lâmina novamente, envolvendo-a apertada no pano. "Isso é apenas uma precaução", disse ele calmamente. "Uma salvaguarda. Nada mais."
Assenti lentamente, embora um desconforto se retorcesse em meu peito.
"Onde vamos guardá-la?", perguntei.
Ele olhou para a floresta além, onde as sombras se acumulavam como tinta entre as árvores. "Em algum lugar onde não possa ser encontrada. Em algum lugar onde nem os olhos de Arcadian possam alcançar." Ele se virou para mim então e, pela primeira vez desde nossa queda, vi um lampejo de medo real em seu olhar. "Você nunca deve falar disso", disse ele com firmeza. "Para ninguém. Nem para sua mãe. Nem para sua irmã. Você entende?"
Minha garganta se apertou. "Eu entendo."
Ele descansou a mão em meu ombro — pesada, quente. "Bom."
Enterramos a espada profundamente sob as raízes de uma árvore antiga, sua casca preta e brilhante ao luar. Quando o último vestígio de terra remexida desapareceu, meu pai exalou suavemente, como se liberasse um fardo que não podia compartilhar.
Enquanto nos virávamos para sair, uma lufada de vento passou pelas árvores, baixa e lúgubre. Por um batimento cardíaco, eu poderia jurar que ouvi algo sussurrar meu nome. Quando olhei para trás, a clareira estava imóvel. Apenas o brilho fraco de poeira prateada permanecia no ar — restos de luz de um lar que nunca mais veríamos.
E sob aquele solo silencioso, a lâmina dormia — esperando.