DEZESSETE ANDARES DE DISTÂNCIA

Todos os Direitos Reservados ©

Resumo

Ela gostava de coisas silenciosas — o zumbido do escritório, o conforto da rotina, a segurança de passar despercebida. Ele foi feito para os holofotes — decisivo, confiante, admirado por todos, mas compreendido por ninguém. Quando seus caminhos se cruzam, Grace Clarke e Ethan Lancaster descobrem que, às vezes, as menores colisões mudam tudo. Entre dezessete andares de diferença e mil palavras não ditas, algo começa a surgir — constante, frágil e capaz de mudar vidas por completo. Nota: Esta é uma história slow-burn, focada nos personagens; por favor, leia com essa expectativa.

Status
Completo
Capítulos
84
Classificação
4.7 10 avaliações
Classificação Etária
16+

O Canto de Paredes de Vidro


POV de Grace Clarke

O escritório vibrava com a energia constante e inquieta de uma tarde de dia útil. Teclados batiam em ritmos irregulares, impressoras cuspiam folhas de papel com cliques mecânicos agudos e a copiadora roncava como se estivesse exausta pelo próprio trabalho. Arquivos eram passados por cima das divisórias, telefones tocavam e vozes subiam e desciam, tudo se misturando ao ruído de fundo familiar ao qual Grace Clarke se acostumara ao longo dos anos.

O grande salão era alinhado com fileiras organizadas de divisórias, uma colmeia de funcionários ocupados, cada um enfiado em seu próprio quadradinho. No final do andar, duas cabines quebravam o padrão: um espaço maior e totalmente mobiliado, com o ar polido de uma sala de chefe, e ao lado, uma divisória de paredes de vidro — maior que as outras, mas ainda modesta, mal comportando três pessoas.

Aquele era o canto da Grace. Seu pequeno território no último ano.

Ela não pretendia parar ali. Seis anos atrás, quando seu estágio terminou, ofereceram-lhe duas escolhas: sair, já que não havia vaga em seu departamento, ou aceitar um cargo no Departamento de Extensão e Ligação Industrial (IOL) como oficial de ligação júnior. O departamento de IOL não era nada glamoroso. As oportunidades de crescimento eram poucas, especialmente em sua função; o caminho para cima era quase inexistente. Mas Grace precisava de dinheiro e o emprego vinha com um salário estável. Ela aceitou, dizendo a si mesma que seria temporário. Seis anos depois, ela ainda estava lá. Seus antigos colegas de estágio subiram muito mais — para marketing, finanças, estratégia. Alguns já tinham avançado vários níveis. Ela permaneceu fincada no primeiro andar, enfiada em seu canto de vidro. A ideia de sair passou por sua cabeça algumas vezes, mas o conforto era algo difícil de abandonar, e sua avó dependia dela. O salário pagava as contas, e ela conhecia seu lugar bem o suficiente para trabalhar sem reclamar.

Oficialmente, ela era agora Oficial de Ligação Executiva no Departamento de Extensão e Ligação Industrial (IOL). O velho que a treinou — Max — tinha se aposentado no ano anterior, e a cabine dele tornou-se a dela. Seu trabalho não era tanto dentro das paredes da empresa, mas fora delas: ela gerenciava o fluxo de comunicação entre a sede e as fábricas espalhadas pelo país. Problemas, dados, notas de suprimentos, questões trabalhistas — tudo o que surgia passava pela mesa dela antes de subir para instâncias superiores.

A cabine maior ao lado da dela pertencia ao Sr. Adrian Jones, o diretor do Departamento de IOL e oficial-chefe de ligações (CLO). Em seus seis anos, Grace viu aquela cadeira mudar de mãos vezes demais; alguns ficavam um ano, outros mal passavam de seis meses. Grace já tinha entendido o padrão há muito tempo: o cargo de CLO era uma punição para executivos que perderam o prestígio ou um curto período de treinamento antes de uma promoção em outro lugar. Jones, na casa dos quarenta anos, era decente, trabalhador e estava um pouco deslocado ali, mas, pelo menos, tratava-a com respeito.

Apenas um punhado de pessoas durou tanto tempo quanto ela naquele andar: a Sra. Carmen Santiago, a Coordenadora de Instalações, calorosa, porém perspicaz, que cuidava de tudo, desde a manutenção do prédio até os contratos da cafeteria com autoridade silenciosa; o Sr. August Webber, o contador envelhecido que já via a aposentadoria no horizonte; e, até o ano passado, o velho Max. Todos os outros vieram e foram embora.

Seu fluxo de pensamentos foi interrompido por uma batida no vidro. Ela olhou para cima e viu um dos novos recrutas — Victor Holmes, achava que era esse o nome dele. Ele tinha entrado há dois meses, com cara de quem estava começando agora e muito empolgado, do tipo que ainda carregava um caderno para todos os lugares.

"Senhorita Clarke", disse ele educadamente, "o Sr. Jones está chamando você."

Grace sorriu, empurrando a cadeira para trás. "Obrigada, Victor."

A cabine de Jones cheirava levemente a café e papel. Ele olhou para cima quando ela entrou. "Clarke, como estão os dados mensais da fábrica?"

"Quase prontos, senhor", ela respondeu. "Vou enviá-los por e-mail até o final do dia. Se precisar corrigir algo, o senhor terá tempo suficiente para me devolver antes do prazo final."

Ele assentiu, aliviado. "Confio em você para isso. Você está aqui há... cinco anos, não é?"

"Seis, senhor", disse ela com um sorriso educado.

"Certo. Bom. Ah, mais uma coisa: amanhã chega uma nova leva de estagiários. Nosso andar foi designado para ficar com quatro deles. Você precisará mostrá-los o local. Eu mesmo não sei muito sobre este departamento, então eles precisarão da sua orientação."

"Com certeza", disse Grace.

Depois do almoço na cafeteria com a Sra. Santiago e o Sr. Webber — um ritual de refeições simples e conversas simples — Grace voltou para sua mesa e mergulhou em planilhas e relatórios. As horas passaram despercebidas, o escritório esvaziando-se gradualmente ao seu redor até que o silêncio substituísse o ruído de antes. Quando ela finalmente olhou para cima, as fileiras de divisórias estavam escuras e vazias.

Ela olhou para o relógio. Oito horas. De novo.

Grace suspirou. Hora extra significava dinheiro extra, sim, mas também significava que sua avó estaria esperando em casa, irritada com mais um jantar atrasado.

Rapidamente, ela desligou o computador, arrumou sua bolsa e saiu do prédio. Ela tinha perdido o transporte dos funcionários, que sempre saía pontualmente às sete, e agora estava no ponto de ônibus, com os fones de ouvido e uma música baixa tocando. O ar da noite estava mais fresco, e as ruas vibravam com o ritmo mais calmo da cidade após o expediente.

Quando o ônibus finalmente chegou, quinze minutos depois, Grace subiu e acomodou-se em seu assento. Ela observou a cidade passar como um borrão pela janela, seus pensamentos vagando naquele espaço intermediário familiar entre o cansaço e o devaneio. Mais um dia terminado, mais um salário ganho. Amanhã seria igual.

E aquilo era o suficiente. Por enquanto.