A Sombra e o Alfa

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Resumo

A espiã mais letal do Conselho. Um fantasma forjado em sangue e silêncio. Até o dia em que foi capturada — e quebrada — pelos monstros que um dia caçou. Após meses de tortura e escuridão, Ellara é enviada para Ironfang, uma poderosa alcateia de lobisomens, para se recuperar de seus ferimentos. Mas a cura nunca fez parte de seus planos. Kael, o Alfa de Ironfang, enxerga a guerreira por baixo de suas cicatrizes — e a mulher que ela tem medo de ser. Ele lhe oferece segurança, paciência e algo que ela jamais pensou sentir novamente: desejo. Quando as sombras de seu passado retornam, Ellara precisa enfrentar o homem que a destruiu... e confiar no Alfa que pode libertá-la.

Status
Completo
Capítulos
27
Classificação
4.9 15 avaliações
Classificação Etária
18+

Chapter 1

Ponto de vista: Kael

A câmara do conselho sempre cheirava a pedra velha e poder. As paredes foram esculpidas em granito negro, com runas gravadas em suas superfícies que pulsavam fracamente com magia, um lembrete de que até os Alphas eram vigiados ali. Eu tinha entrado nesta sala mais vezes do que conseguia contar, mas hoje parecia diferente. Mais pesado.

Arthur já estava esperando, o sempre calmo chefe dos Shadows, os espiões do conselho. Ele estava encostado na longa mesa com os braços cruzados, seus olhos afiados não deixavam passar nada. Ao lado dele sentava-se Salazar, um dos membros mais astutos do conselho com quem já lidei. Seu cabelo prateado brilhava sob a luz da tocha e, quando me viu, ele sorriu como um homem que guarda segredos.

“Alpha Draven,” Salazar cumprimentou, sua voz suave e autoritária. “É bom ver o líder de Ironfang nos honrando com sua presença.”

Eu inclinei a cabeça, com os ombros eretos. “Ironfang sempre apoiará o conselho. Diga-me por que estou aqui.”

O olhar de Arthur percorreu-me, avaliando, antes que ele finalmente dissesse: “Precisamos da sua proteção. Para uma das nossas.”

Eu franzi a testa. “Uma das suas?”

“Uma Shadow.”

A palavra caiu com peso. Os Shadows eram a elite do conselho. Lobos transformados em armas vivas. Suas identidades eram segredos aos quais nem mesmo Alphas como eu tinham acesso. Eles viviam e sangravam na escuridão para que alcateias como a minha pudessem prosperar na luz.

“Você quer que eu proteja uma Shadow?” perguntei devagar. “Diga-me quem ela é.”

A boca de Arthur se curvou, embora não fosse exatamente um sorriso. “Não é ele. É ela.”

Ele deslizou uma pasta sobre a mesa.

Eu a abri e a primeira coisa que me atingiu foi o retrato. Uma jovem mulher me encarava — forte, atlética, olhos astutos. Cabelo castanho claro preso com a precisão de uma soldada. Um corpo talhado para a guerra, cada linha de sua estrutura prometendo velocidade, poder, letalidade. Seu nome estava carimbado no topo: Ellara McGregor.

A voz de Arthur interrompeu meus pensamentos. “A melhor agente que os Shadows já treinaram. Ela se infiltrou em Grey Moon quando ninguém mais conseguia. Foi ela quem descobriu a corrupção, o tráfico e os experimentos deles. Sem ela, nunca teríamos feito justiça àquela alcateia.”

Eu me lembrei. Grey Moon tinha abalado o reino até o núcleo. Lobos roubados. Quebrados. Distorcidos. Levou anos para limpar a sujeira deles da terra.

E essa mulher… ela foi a razão pela qual eles caíram.

Salazar inclinou-se para frente, seu olhar penetrante me prendendo. “Você tem uma das alcateias mais fortes do reino. Se existe um lugar onde ela possa ficar segura, é em Ironfang. Você perdeu uma parceira, Alpha Draven — você sabe o que significa reconstruir depois da devastação. Ela precisa desse tipo de força ao redor dela agora.”

A menção a Aurora foi como uma lâmina girando em meu peito. A guerra com Grey Moon a tirou de mim — minha parceira, meu coração, abatida no caos de uma batalha que deixou cicatrizes em cada lobo de Ironfang. E agora, ali estava Ellara McGregor, a mulher que revelou as profundezas da corrupção de Grey Moon, a responsável por trazer sua crueldade à luz. Eu odiava o quanto me sentia grato, e ainda assim não podia ignorar isso.

Os anos não atenuaram a dor de perder Aurora; seu nome ainda ecoava como um fantasma em cada momento de silêncio. E agora, ver essa mulher que enfrentou os mesmos monstros e sobreviveu… doía, e ao mesmo tempo despertava algo protetor em mim.

Mas, enquanto eu folheava as páginas, as imagens mudavam. Relatórios. Notas de recuperação. Prontuários médicos. A guerreira do retrato tinha sido substituída por outra versão — seu corpo mais magro, músculos atrofiados, cicatrizes como marcas em sua pele. Dez meses nas garras de Grey Moon. Torturada. Usada. De alguma forma, não destruída.

Fechei a pasta com um estalo. “Mostre-me ela.”

Arthur assentiu uma vez, e uma porta se abriu na lateral da câmara.

Ela entrou.

Ellara McGregor.

O arquivo dela não me preparou para a realidade.

Ela usava o uniforme escuro do conselho, mas ele não servia como deveria. Ficava largo em sua estrutura, um lembrete constante de tudo o que ela tinha perdido.

O cabelo castanho claro emoldurava seu rosto, embora estivesse mais ralo agora, não a trança grossa que eu vira em seu retrato oficial. Seus olhos, porém — aqueles olhos — verdes, afiados e inabaláveis, mesmo com sombras os assombrando. Ela estava mais magra do que eu esperava, seu corpo carregando as evidências da fome, cicatrizes aparecendo sob as mangas de seu uniforme. Mas havia algo inquebrável na maneira como ela se portava, com o queixo erguido e os ombros contraídos contra um peso invisível.

Ela era frágil e feroz ao mesmo tempo. Uma contradição que fez algo apertar em meu peito.

O conselho podia cicatrizar seu corpo, mas não tinham quebrado seu espírito.

Seu olhar travou no meu. Avaliador. Desafiador.

“Então,” ela disse, com a voz firme, mas cortante como aço, “você é o Alpha em quem decidiram me jogar.”

Arthur pigarreou, mas levantei uma mão para silenciá-lo. Meus olhos permaneceram nela. “Eu sou o Alpha que aceitou você. Existe uma diferença.”

Ela deu uma risada curta e sem humor. “Me aceitou, como se eu fosse algum objeto quebrado que você concordou em remendar. Não se incomode, Alpha. Não estou doente. Não preciso de mimos.” Ela deu um passo à frente, o aço em sua voz inegável. “Não quero proteção sem propósito. Se vou ficar no território de Ironfang, então vou trabalhar. Vou treinar. Vou lutar por você como uma de suas guerreiras.”

Droga, ela tinha garras. Mesmo agora, com seu corpo debilitado, seu espírito atacava como fogo.

Dei um passo à frente, deixando seu cheiro roçar em mim — terra e aço, mas com um toque de fumaça e dor. Meu lobo se agitou lá dentro, inquieto, protetor.

“Você não quer mimos?” eu disse calmamente, mantendo seu olhar. “Bom. Ironfang não mima ninguém. Mas não confunda proteção com pena. Se você ficar com minha alcateia, terá ambos.”

Pela primeira vez, sua expressão dura vacilou, apenas por um instante. Gratidão, rapidamente escondida sob sua armadura.

Ela inclinou a cabeça levemente. “Então… obrigada. Por me aceitar.”

Suas palavras eram educadas, mas seu tom carregava um aviso: ela não deixaria que eu a controlasse, não deixaria ninguém vê-la como vidro frágil.

E eu respeitava isso pra caralho.

Ainda assim, enquanto eu a olhava, o lobo dentro de mim rosnou com uma verdade inegável: qualquer força que ela acreditasse ter, estava enterrada profundamente sob cicatrizes e memórias. Ela estava quebrada, querendo admitir ou não.

E que os deuses me ajudem, eu já queria ser aquele que a ajudaria a juntar os pedaços novamente.

A viagem de volta para Ironfang foi silenciosa no início, o ritmo constante do carro preenchendo o ar entre nós. Ellara sentou-se à minha frente na carruagem, sua postura reta apesar da fadiga que eu podia ler em cada linha de seu corpo. Sombras se agarravam a ela, mas seus olhos — aqueles olhos verdes penetrantes — nunca vacilaram.

Eu a estudei por mais um momento antes de perguntar: “Você me conhece? Minha alcateia?”

Ela virou a cabeça, seu olhar prendendo-se ao meu. “Eu sou uma Shadow,” ela disse simplesmente. “Eu preciso saber de tudo.”

Não havia arrogância em seu tom, apenas fatos. E quando ela falou novamente, suas palavras saíram como um relatório preciso, seco e afiado.

“Ironfang sempre foi considerada uma das alcateias mais influentes do reino — rica, disciplinada, respeitada. Mas sob sua liderança, as coisas mudaram. Você pegou o legado de seu pai e o expandiu. Você modernizou o comércio. Só na última década, você triplicou o alcance econômico de Ironfang. Sua alcateia agora fornece as melhores armas forjadas do reino. Você transformou uma alcateia real em uma potência.”

Minhas sobrancelhas se elevaram. “Você estudou tudo isso… para este momento?”

Sua boca se curvou, um gesto fraco e sem humor. “Para a minha vida. Para o meu dever. Estudei todos, Alpha. É o que os Shadows fazem.”

Algo se contorceu profundamente em meu peito. Ela tinha vivido toda a sua existência servindo e se sacrificando. E ainda estava ali, com a coluna ereta, mesmo depois de tudo o que Grey Moon tinha tirado dela.

Seu tom suavizou, apenas um pouco. “Sua Luna era Aurora, não era? Ela era uma guerreira. Ela caiu durante a guerra com Grey Moon.”

O ar ficou rarefeito. Por um momento, quase pude sentir o cheiro do campo de batalha novamente — o fedor de sangue e fumaça, a forma como o corpo de Aurora ficou mole em meus braços. Meu peito apertou, mas forcei minha voz a ficar firme.

“Sim.” Uma pausa. “Eles jogaram sujo. E eu a perdi.”

Seu olhar manteve o meu, firme, respeitoso. “Sinto muito por isso.”

Soltei um suspiro lento. “E eu sinto muito por você. Grey Moon destruiu demais. Mas você os derrubou, Ellara. Você os expôs. Por sua causa, eles estão acabados. Por isso… sou grato.”

Ao mencionar sua participação, ela se encolheu, apenas um leve tremor em seu rosto, rapidamente escondido. “Eu estava fazendo meu trabalho.”

Um trabalho que quase lhe custou tudo.

Inclinei-me um pouco para frente. “Apenas três pessoas saberão quem você é aqui. Eu. Meu Beta, Magnus. E o Dr. Vernon, que supervisiona a enfermaria. Para todos os outros, você será uma guerreira se recuperando de uma batalha. Essa é a verdade sob a qual você viverá, até que decida o contrário.”

Seus lábios se abriram, um leve sinal de protesto, mas eu continuei.

“Vou pedir que você permaneça como paciente, pelo menos por enquanto. Deixe seu corpo se recuperar antes de pegar uma lâmina novamente. Ironfang não desperdiça seus guerreiros. Quando estiver pronta — se você escolher — você lutará novamente.”

Seus olhos se estreitaram, mas havia um lampejo de outra coisa sob a resistência. Alívio, talvez. Ou o reconhecimento de que eu não estava descartando sua força, apenas a protegendo até que ela retornasse.

Ainda assim, sua resposta veio firme. “Não quero ser vidro em seu salão, Alpha. Eu vou me curar. E então eu vou lutar.”

Encontrei seu olhar, o fogo em seus olhos faiscando contra o calor protetor que já se agitava em meu peito.

“Eu não esperaria nada menos.”

As palavras se acomodaram entre nós, pesadas, carregadas.

E conforme o carro parou, percebi que estava sentindo algo que não sentia há anos. Não desde Aurora.

A centelha de algo novo.