Capítulo 1
— Basta assinar e rubricar onde está indicado, e o acordo está fechado. Não precisa fazer drama. — Adrian Vale me encarou com aqueles olhos azuis e frios e ajeitou o cabelo preto e curto para trás. Parecia… entediado.
Enquanto isso, meu mundo desabava. A luz do sol entrava pelas persianas entreabertas, e o cheiro de café queimado invadia minhas narinas. Meu time cochichava enquanto meu coração batia forte, misturando frustração e adrenalina. Passei a noite inteira preparando argumentos para salvar minha equipe, mas esse babaca nem quis ouvir!
Aceitei uma taxa de juros absurda e prometi demais a um tubarão de investimentos, mas fiz o que tinha de fazer. Enquanto meus colegas de faculdade comemoravam seus 21 anos desmaiados ou flertando com uma intoxicação alcoólica, eu corria de banco em banco tentando conseguir um empréstimo para a empresa. O mundo precisava da NovaTech, e eu ia fazer isso acontecer.
Contratei desenvolvedores, artistas, roteiristas e me matei de trabalhar. Por cinco anos, lutei para entrar no mercado de jogos. Dei tudo de mim para ter sucesso. Criamos vários jogos, pequenos no começo, e o maior deles estava prestes a ser lançado no mês que vem.
E agora estava ali, sentado na frente de Adrian Vale, CEO da ValeCorp, encarando o contrato de compra. O cara era tão metido que batizou a empresa com o próprio nome! Só isso já dizia tudo o que você precisava saber sobre ele. Os traços eram afiados, as sobrancelhas ainda mais, e a língua, a mais afiada de todas.
— A NovaTech dá um lucro razoável para uma startup, mas a estrutura é uma bagunça. O primeiro passo é demissões e reestruturação. Precisamos otimizar o capital humano para manter a empresa à tona. — O tom dele era calmo, quase ofensivamente calmo. — Você está pagando demais e esperando de menos. O objetivo é metade da equipe produzindo a mesma coisa.
Meu estômago se revirou. Otimizar capital humano? Ele fala como se fôssemos peças sobressalentes! Cada palavra soava como uma sentença de morte para meu time. Ao meu redor, meus colegas olhavam para a mesa, com medo de abrir a boca. Sentia meu pulso latejar nas têmporas enquanto a raiva subia pela garganta.
Não aguentei mais. Empurrei a cadeira para trás, o barulho do arrasto ecoando na sala silenciosa. Adrian parou no meio da frase, erguendo levemente uma sobrancelha. Ajeitei a gravata pela quinta vez, as mãos um pouco suadas, mas mantive a voz firme. — Se vai desmontar tudo o que a gente construiu, pelo menos tenha a decência de me olhar nos olhos e ouvir nossos argumentos antes!
O terno cinza impecável de Adrian e os punhos de prata brilhavam sob a luz. A gravata parecia tão apertada que dava a impressão de estar segurando a cabeça dele no lugar. Cada movimento era preciso, calculado. Sua presença era magnética, mas de um jeito gelado. Como… gravidade com dentes. O olhar dele percorreu a sala e, quando pousou em mim, senti um peso no peito.
— Que corajoso, Sr. Navarro. — Ele me observou por um longo momento, os olhos se estreitando levemente. O ar ficou mais pesado, e meu coração disparou. O calor subiu pelo colarinho, e entrelacei as mãos para evitar que tremessem. Odeio como eu sinto as coisas, enquanto esse cara parece feito de gelo. A mandíbula dele se contraiu, um músculo na bochecha tremeu, e então ele abriu um sorriso clínico e frio. — Se tem um plano melhor para lucrar, estou todo ouvidos. Senão, sente-se e deixe eu fazer o que faço de melhor.
Eu sentia todos os olhares sobre mim. Meus colegas estavam apavorados. Adrian, impenetrável. Continuei de pé. A garganta estava seca, mas algo imprudente me fez falar. — O que você faz de melhor é transformar empresas em planilhas! Mas a NovaTech não é só uma coluna de números. Você está destruindo uma empresa cheia de gente que se importa com o que faz. Não dá pra forçar metade das pessoas a fazer o mesmo trabalho e esperar o mesmo resultado!
Silêncio. O olhar de Adrian se afiou, avaliativo. Mas ele não parecia irritado. Estava mais… curioso? Por um instante, algo passou pela expressão dele. Interesse, talvez? Mas antes que eu pudesse decifrar, já tinha sumido. Minha pele formigou quando aqueles olhos pareceram me enxergar e me despir ao mesmo tempo.
— Você tem bastante fogo nas palavras, Sr. Navarro. E, no entanto, eu sou quem está aqui para comprar sua dívida e impedir que sua empresazinha quebre de vez. Seu método não funcionou até agora, enquanto o meu me tornou um multibilionário. De quem você acha que é o plano que vai dar mais certo? — Ele se inclinou sobre a mesa, um sorriso maldoso no rosto.
Tudo na postura dele gritava “eu ganhei”. Mas eu não ia recuar tão fácil. — Depende de como você define sucesso. Se o objetivo é só dinheiro, então claro. Seus gráficos e a ideia de espremer os funcionários como azeitonas numa prensa funcionam. Mas a NovaTech nasceu da paixão, do coração e do orgulho pelo nosso trabalho. É difícil se orgulhar de algo que é cuspido por um robô sobrecarregado.
Ele deveria ter me expulsado ali mesmo. Em vez disso, me encarou como se eu tivesse entrado num jogo que ele esperava que alguém jogasse. Fechou a pasta devagar. — Anotado. — A voz voltou a ser suave, como a superfície de um lago congelado de novo. — E, Navarro? Eu sempre olho diretamente para o que estou prestes a desmontar.
Ele juntou os papéis e se levantou, lançando mais um olhar na minha direção. Definitivamente durou mais do que o necessário, tempo suficiente para deixar claro que isso não tinha acabado. Então, simplesmente… saiu. Sem assinar nada, sem discussão, sem nada. O ar pareceu voltar para a sala só depois que a porta se fechou atrás daquele traseiro esculpido.
Meus ombros caíram, e a adrenalina se transformou em um tremor incrédulo. Meus colegas me olhavam como se eu tivesse acabado de assinar minha própria demissão. Provavelmente tinha. O peito ainda estava apertado, mas, por baixo da raiva, algo pior começava a se mexer: curiosidade. Contra todo bom senso, comecei a me perguntar como Adrian Vale seria sem aquela armadura grossa.
— Isso foi… bem? — Andrea, minha desenvolvedora-chefe, tentou sorrir. Saiu mais como uma careta de dor, mas agradeci o esforço mesmo assim. — Ele não te mandou calar a boca na hora, Eli. Já é mais do que eu esperava quando soube que a ValeCorp era quem ia nos comprar.
— Ele tem essa fama mesmo — concordei. — Mas eu não podia ficar sentado ali e deixar ele transformar a gente numa fábrica de jogos sem alma, só pra imprimir dinheiro. Já tem demais dessas por aí. O que diferencia a NovaTech é o nosso espírito e a atenção aos detalhes. — Esfreguei os nós dos dedos na coxa, irritado. Gente como Adrian nunca ia entender o que é colocar o coração e a alma numa empresa que você ama. Nem tenho certeza se ele sabe o que é amor!
Andrea se remexeu na cadeira, desconfortável, e folheou a cópia do contrato de compra na sua frente. — E… o que a gente faz agora? Sei que não dá pra simplesmente desistir do acordo. A gente ia à falência em menos de seis meses. Mas o Sr. Vale não disse se ainda vai em frente ou não.
Suspirei e afundei na cadeira. — Por enquanto… continuamos fazendo o que sempre fizemos. O contrato diz que o lançamento de Endless Skies não vai ser afetado. Então, vamos focar em deixar ele o mais redondo possível, com o mínimo de bugs. Talvez, se conseguirmos atrair jogadores o suficiente, a gente tenha mais voz quando o Adrian voltar.
Não era muito, mas já era algo para a equipe se agarrar. Os sorrisos voltaram, e os ombros deles se endireitaram. — É isso aí, esse é o time da NovaTech que eu montei! Não temos tempo pra ficar preocupados com o que vem pela frente. Vocês se concentram em fazer um jogo de espaço irado, e eu resolvo o que fazer com a ValeCorp. — Dei um high-five em cada um enquanto passavam por mim na saída, tentando manter o ânimo.
Assim que a porta se fechou atrás do último desenvolvedor, minha cabeça caiu sobre os braços na mesa. O que eu ia fazer? Essas pessoas confiavam em mim para garantir o sustento delas. Mas eu estava falhando. O acordo de compra prometia resolver nossos problemas financeiros e nos dar uma chance de nos recuperar do fracasso de Hidden Galaxies. Em vez disso, estava se mostrando uma tomada de controle fria, com a intenção de nos transformar em mais uma fábrica de drones corporativos.