Chapter 1
Três Anos Atrás...
A sala vibrava com um tipo de silêncio que não era nada pacífico. Era pesado, cruel.
Lana sentava-se no meio da sala, com a cabeça baixa e o cabelo cobrindo o rosto. Seu moletom escondia sua estrutura pequena, e as mangas estavam puxadas para baixo para ocultar os hematomas em suas mãos. Um fino rastro de sangue manchava o canto de sua boca. Ela tremia, quase imperceptivelmente, mas o suficiente para ser notado se alguém estivesse prestando atenção.
Risadas irromperam atrás dela. Baixas no início, depois mais altas, ecoando pelas paredes. Não era engraçado; qualquer que fosse o motivo da risada, era apenas maldoso.
Um respingo gelado atingiu sua cabeça. A garrafa ricocheteou em seu ombro e caiu no chão, rolando para debaixo de uma carteira. A água escorreu pelo seu pescoço, encharcando seu moletom. Ninguém se moveu. Ninguém disse uma palavra.
Os passos vieram em seguida, saltos estalando contra o piso. Uma das garotas parou ao lado de sua mesa. Ela agarrou Lana pelo cabelo, puxando sua cabeça para trás o suficiente para fazê-la estremecer. Então, ela se aproximou, seu perfume era forte e adocicado.
“Ainda acha que é melhor do que nós?”, ela sussurrou. “Não é. Você é apenas uma pobre. Sempre será.”
A risada veio novamente, mais perto desta vez. Os dedos de Lana apertaram a borda da mesa. Sua respiração falhou. Ela não levantou a cabeça; não daria a eles essa satisfação.
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Lana abraçou o próprio corpo enquanto caminhava para casa, cada passo lento e cuidadoso. Seu moletom não conseguia esconder os hematomas, e suas mãos ainda tremiam pelo que aconteceu na aula. Ela fazia esse caminho desde o primeiro ano, sofrendo o mesmo tipo de bullying, das mesmas garotas, repetidamente. Elas a achavam fraca porque seu pai nunca voltou, deixando ela e sua mãe lutarem sozinhas. Sua mãe trabalhava até a exaustão em quatro empregos só para colocar comida na mesa. Lana era filha única, o que pelo menos impedia que o tormento se espalhasse para um irmão, mas não tornava as coisas mais fáceis.
O som de pneus cantando fez seu coração disparar. Um carro parou bruscamente à sua frente, bloqueando a calçada. Seu estômago revirou. As mesmas garotas. Só que, desta vez, elas não estavam sozinhas. Seus namorados estavam no carro, encostados nas portas, com sorrisos presunçosos.
A garota que havia puxado seu cabelo na sala saiu primeiro, segurando uma garrafa de uísque pela metade. Seu sorriso era afiado, cruel, como se mal pudesse esperar para ver Lana se quebrar. Suas amigas riam atrás dela, alto, e os rapazes se juntaram, a diversão deles fazendo o estômago de Lana revirar.
“Olha só para você”, a garota zombou, inclinando a garrafa, testando a reação de Lana. “Ainda patética, hein?”
O corpo de Lana tremia, mas ela tentou ficar ereta. Seus punhos se fecharam, os nós dos dedos brancos através do tecido das mangas. Ela queria correr. Queria desaparecer.
Então o uísque foi derramado. Frio e ardente, encharcou seu moletom, escorrendo por seus braços e ensopando seu cabelo. Ela soltou um suspiro, seus joelhos quase cedendo. As garotas riram, os rapazes riram, e Lana sentiu cada segundo de humilhação pesar sobre ela.
Sua mente gritava para revidar, mas o medo a mantinha paralisada. Seu peito subia e descia, uma mistura de raiva, vergonha e impotência. Ela queria chorar, mas até isso parecia impossível; suas lágrimas já haviam se esgotado há muito tempo.
O uísque continuava a ser derramado, frio e cortante contra a pele de Lana. Seu corpo tremia tão violentamente que ela quase não conseguia ficar em pé, mas algo dentro dela superou o medo.
“Avery… para.” Sua voz saiu pequena no início, trêmula, quase engolida pelas risadas e gritos ao seu redor.
Avery congelou no meio do movimento, a garrafa semi-inclinada na mão. Por um momento, ela piscou como se não pudesse acreditar no que tinha acabado de ouvir. Até suas amigas e os rapazes no carro ficaram quietos, trocando olhares surpresos.
“O que você acabou de dizer?”, Avery disparou, descrença e irritação contorcendo sua voz.
O peito de Lana subiu e desceu e, pela primeira vez, ela levantou a cabeça. Seu cabelo caiu para trás o suficiente para revelar seus olhos — quentes, castanhos e firmes. Ela olhou diretamente para o rosto de Avery, a voz mais firme desta vez:
“Eu disse… para.”
O rosto de Avery se contorceu de raiva, seus olhos se estreitando como se não pudesse acreditar que Lana ousara encará-la. Seu orgulho foi ferido, seu controle escapando. “Como você se atreve?”, ela cuspiu baixinho.
Antes que alguém pudesse impedi-la, a mão dela disparou e deu um tapa no rosto de Lana. O impacto fez Lana cair no chão, sua bochecha ardendo e lágrimas ameaçando cair novamente. As amigas de Avery explodiram em risadas, cruéis e altas, o tipo de risada que assombrava Lana há anos. Elas a haviam espancado, humilhado e forçado a ficar de joelhos inúmeras vezes.
Avery ficou de pé sobre ela, a voz cortante e escorrendo ódio. “Você acha que pode enfrentar a mim? Você não é nada, Lana! Uma vadiazinha pobre e patética que vai acabar usando sua boceta para pagar por tudo!” Ela cuspiu as palavras, cada uma pensada para ferir. “Uma cadela que se acha melhor que todo mundo. Você me ouviu? Melhor que eu?”
Ela ergueu a garrafa novamente, balançando-a na direção de Lana, a ameaça clara na linha tensa de seu maxilar, no movimento de suas narinas e na inclinação selvagem de sua cabeça.
Mas Lana já não tremia mais. Ela estava furiosa. O instinto e anos de dor aguçaram seus movimentos. Com uma onda de força, ela agarrou o pulso de Avery, parando a garrafa no ar. A tampa de metal pressionou sua palma fria enquanto Avery lutava violentamente, os olhos arregalados de descrença.
“Você… solta!”, Avery sibilou, puxando o braço contra o aperto de Lana. Sua respiração estava pesada e ofegante, a raiva distorcendo cada traço de seu rosto.
“Não”, Lana rosnou, a fúria rugindo em seu peito. Cada memória dos últimos anos, cada insulto, cada humilhação, a alimentava. Em um movimento rápido e decisivo, ela arrancou a garrafa da mão de Avery. O tempo pareceu se esticar por um segundo, o queixo de Avery caiu, os olhos se arregalando em pânico.
Antes que Avery pudesse reagir, Lana golpeou a lateral da cabeça dela com a garrafa. O vidro se estilhaçou com um estalo doentio, bordas afiadas cortando o couro cabeludo de Avery. Um grito escapou da garganta de Avery, metade choque, metade dor. O sangue escorreu pela linha do cabelo e ela cambaleou para trás, agarrando o ferimento, sua raiva colidindo instantaneamente com medo e descrença.
Um silêncio caiu sobre o grupo. As amigas de Avery congelaram, sem saber se aquilo era real. Os rapazes que tinham rido segundos atrás agora olhavam para Lana como se ela tivesse se transformado em alguém irreconhecível, alguém perigoso.
"Chega! Sua vadia!", Lana gritou. Ela já tinha tido o suficiente. Desde seu primeiro dia de aula, aquilo era um inferno.
O peito de Lana subia e descia, olhos faiscando, punhos ainda fechados. Seu corpo tremia, não de medo, mas com o poder bruto de cada ano em que fora espancada, ridicularizada e humilhada finalmente explodindo.0 Q1