Prólogo – A Manhã Seguinte
BREANNA
A luz quente do sol passava pelas persianas, pintando listras pálidas no meu rosto.
Minha cabeça latejava, com pulsos lentos e pesados que embrulhavam meu estômago. Era aquele tipo de dor de quem dormiu pouco e tomou decisões erradas demais.
Fechei os olhos com força por um segundo, tentando me controlar.
Ok. Respira.
Lenta e dolorosamente, abri os olhos.
Fiquei imóvel, deixando a visão se ajustar e observando o ambiente ao meu redor.
O quarto era… desconhecido.
Um pôster de um time de futebol americano. Uma pilha de livros que eu não reconhecia. Uma garrafa de água pela metade no criado-mudo.
Este não era o meu dormitório.
Senti um aperto no peito.
Ah, não.
Percebi, com um pavor imenso, que havia um braço pesado sobre mim. Firme, quente... Fiquei completamente estática, meu coração batendo mais forte no peito.
Como eu vim parar aqui?
O braço se moveu, me puxando para mais perto. Um murmúrio baixo e sonolento roçou meu ouvido:
“Perfeito… simplesmente perfeito.”
Engoli em seco, com a pulsação acelerada. Ele ainda estava dormindo, mas o som da voz dele me causou um arrepio nervoso.
Fragmentos da noite anterior vinham e iam. A festa. Música alta. Bebida demais. Um desafio estúpido. Risadas. O sorriso dele. O jeito que a mão dele roçou a minha. O calor dos lábios dele contra os meus—
E depois nada.
Só um vazio.
É isso que acontece quando você bebe de estômago vazio, Breanna.
Meu estômago revirou enquanto eu me forçava a respirar devagar, com cuidado.
Pensa. Então nós começamos a nos pegar, e depois—
Minha mente tentou, sem sucesso, juntar as peças de como viemos parar aqui, no quarto dele, e apenas de calcinha.
Esperei, ouvindo a respiração dele. Constante. Profunda. Estava dormindo.
Engoli em seco, tentei pensar, tentei respirar.
Ok... É só se vestir e ir embora.
Com cuidado, centímetro a centímetro, levantei meu braço e deslizei para fora debaixo dele, tentando não acordá-lo. O colchão mal se moveu. Ele não acordou.
Só então me virei para olhá-lo. Os cachos bagunçados caíam sobre sua testa, e a pele cor de caramelo brilhava suavemente na luz da manhã. Fiz uma pausa, observando-o... a linha do queixo bem definida, os lábios carnudos e macios, a curva do ombro e até mesmo seu peito subindo e descendo enquanto dormia.
Meu coração disparou. Quem é ele?
Tentei lembrar o nome dele: Charles? Cam? Definitivamente C… alguma coisa.
Uma vaga lembrança me provocou: o sorriso dele, o calor em sua risada, o jeito como sua mão roçou a minha. Meu estômago se contraiu com algo perigoso, algo elétrico.
Desviei o olhar antes que fosse pega encarando e vesti rapidamente meu cropped preto e jeans. Meus olhos dispararam pelo quarto, procurando por algo — meu boné do Seahawks. Um pânico me dominou. Então, encontrei o boné no chão, perto da mesa dele.
Vi o moletom dele jogado numa cadeira. Com o coração martelando, peguei a peça, sentindo um vestígio do cheiro dele. O perfume fez algo quente se espalhar pelo meu estômago e, por um momento, meu pulso saltou de novo.
Olhei de volta para ele. Seus olhos ainda estavam fechados, os lábios levemente entreabertos, e um gemido suave escapou quando ele notou que eu tinha me mexido. Ele apagou de novo, e não pude evitar um sorriso fraco ao ver como ele parecia tranquilo.
Saindo do meu transe, rastejei até a porta e a abri com cuidado, mas uma figura bloqueou a passagem. Prendi a respiração.
Foi quando vi minha amiga, encolhida no chão do corredor, com a boca aberta, o cabelo uma bagunça e o celular pendurado sem vida na mão.
“Ah… claro”, murmurei baixo. “Claro que você está aqui, porque por que não estaria?”
Cutuquei-a de leve.
“Gianna?” sussurrei.
“Ei… acorda. Vamos, precisamos ir embora.”
Minha amiga piscou, despenteada, com o cabelo loiro para todo lado, olhos ainda meio fechados. Ela gemeu, tentando processar a luz do sol e meu sussurro frenético. Ela parecia um desastre total, tão confusa quanto eu.
“O quê…?” ela murmurou, com a voz embargada pelo sono.
O corredor estava vazio. A luz do sol entrava pelas janelas do que percebi ser algum tipo de fraternidade. Algumas latas de cerveja estavam espalhadas pelo chão. O silêncio fazia tudo parecer irreal, como se a noite nem tivesse acontecido.
Engoli em seco, puxando o moletom mais para perto de mim.
Ela piscou para mim, grogue, claramente questionando o universo tanto quanto eu.
“Vamos, anda logo”, sibilei. “Precisamos chegar aos nossos dormitórios antes…” Parei. Antes que Brendan descubra. Antes que minha vida exploda. Quando crescíamos, Brendan não precisava de muito para liberar sua raiva explosiva. Ele entrava em modo de proteção total por quase nada, só por uma dica de que alguém estava interessado em mim.
Ela se desenrolou lentamente do chão, piscando como uma coruja confusa.
Gianna bocejou e se espreguiçou, olhando para mim como se eu tivesse duas cabeças. “Espera. Vai devagar. O que estamos fazendo? Que horas são?”
“Não importa!” sussurrei, com a voz subindo apesar de mim. “Precisamos voltar para o dormitório. Agora!”
Os olhos dela se arregalaram. “Voltar para… nosso dormitório? Amiga, você está… meu Deus, você está—” Ela apontou vagamente para minha roupa, o moletom que eu tinha roubado de… dele.
“Sim, sim, eu sei. Eu pareço um desastre. Eu SOU um desastre!” murmurei, puxando a mão dela.
Gianna gemeu, esticando os braços acima da cabeça como um gato.
Sussurrei novamente, desta vez com mais urgência: “Não acredito que estou fazendo isso. Escapando desse jeito — isso é vida real.”
Ela deu um sorriso malicioso e piscou. “Uh… você quer dizer a caminhada da fama?”
Lancei-lhe um olhar que poderia tê-la queimado: “A caminhada da fama? NÃO é isso que isso é.”
Caminhamos pelo corredor. Cada passo ecoava.
Puxei o moletom dele mais para perto, desejando que pudesse apagar a noite passada completamente.
“E…” sussurrei, com o estômago revirando, “nem sei se”, minha voz falhou. “Se a gente fez alguma coisa. Você sabe.”
Ela olhou para mim como se eu tivesse enlouquecido. “Breanna… apenas… vamos chegar ao nosso quarto primeiro, depois podemos entrar em pânico de verdade. Você não está morrendo. Talvez.”
Mordi o lábio, com os olhos lacrimejando um pouco e o coração acelerado como em uma corrida. Eu nem conseguia processar o fato de que ele não me conhece, e agora tenho que sair de fininho como uma ladra. Meu estômago se contorcia com confusão, ansiedade e uma atração estranha.
Gemendo, murmurei para mim mesma, alternando entre o português e o inglês de Trinidad:
“Meu Deus… Que bagunça…”
“Dis a hot mess… real hot mess…”
Ela piscou lentamente. “Você está sendo dramática. Ok. Eu lembro de um pouco… talvez.”
Revirei os olhos. “Sim, ‘talvez’. Eu lembro o suficiente. Definitivamente não quero que o Brendan descubra. Ou ninguém!”
Gianna deu um sorriso lento, ainda grogue, mas entendendo a situação. “Amiga… isso é outro nível. Você? Na cama de algum garoto gostoso da fraternidade?”
“Não zomba de mim! Isso é um desastre!” sibilei. “Estou sem bateria, roubei o moletom dele — cheira a ele, e eu. Eu nem sei o nome dele. Algo começando com C. E eu. Aff, nada de conversa, Gianna, vamos logo!”
Ela riu suavemente, esfregando os olhos. “Tá bom, tá bom. Vamos sobreviver a isso. Anda rápido. Não olha para ninguém. Finja que somos estudantes universitárias totalmente inocentes.”
Gemendo, puxei o moletom mais para perto. “Totalmente inocentes. É. Só que não.”
Ela balançou a cabeça e me fez uma saudação irônica. “Ok, general, lidere o caminho. Vamos sobreviver a esse desastre matinal.”
Cada som dos nossos sapatos no piso de madeira ecoava. Olhei para trás uma vez, com o coração aos pulos, pensando nele adormecido naquela cama. Olhos avelã, pele de caramelo… aquele sorriso… Minhas bochechas esquentaram.
Lá fora, o campus estava banhado pela luz suave da manhã. O orvalho brilhava na grama. Os prédios pareciam silenciosos, imponentes e belos. Senti o moletom, ainda com o cheiro dele, e meu estômago deu um frio. Essa estranha conexão roubada da noite passada pairava como uma sombra da qual eu não conseguia me livrar.
Caminhamos rápida, mas cuidadosamente, passando por pátios vazios e bancos silenciosos. Os pássaros chilreavam preguiçosamente. Eu não conseguia acreditar como tudo parecia real, a mistura de vergonha, adrenalina e aquele calor inexplicável que palpitava no meu peito sempre que pensava nele.
Mesmo em meio ao pânico, uma parte de mim queria olhar para trás, para a casa da fraternidade, para vê-lo novamente, para lembrar da risada e da faísca que eu não sabia nomear.
Mas, em vez disso, concentrei-me em chegar ao dormitório, agarrando o moletom dele como se fosse uma tábua de salvação, e esperando… rezando… para que esta manhã estranha e escandalosa não definisse o resto da minha vida universitária.
Finalmente, chegamos ao meu prédio. Senti um aperto no peito. Meu celular estava descarregado. Sem como ligar para o Brendan, sem como explicar.
Gianna me cutucou, sussurrando: “Você não está pensando nele, está?”
Sibilei, envergonhada. “Cala a boca. Não estou.”
Entramos no corredor, em silêncio, exceto pelos nossos passos, ambas conscientes de como parecíamos ridículas. E ainda assim, cada fibra do meu ser ainda vibrava por aquela conexão roubada, aquele momento fugaz e eletrizante que eu não conseguia esquecer…
Digitei o código da porta, com o coração na boca. A porta se abriu… e ele estava lá.
Brendan. Gêmeo. Estrela do hóquei.
Protetor e furioso. Braços cruzados, olhar afiado o suficiente para cortar aço. Ondas castanho-escuras na altura dos ombros emolduravam seu maxilar forte, e seus olhos avelã, tão parecidos com os meus, estavam semicerrados em tom de aviso.
Com quase 1,90m e um porte atlético e magro, sua pele bronzeada destacava sua herança italiana, portuguesa e trinitária.
Cada centímetro dele irradiava intensidade e lealdade, do tipo que tornava impossível discutir quando ele estava no modo “irmão protetor”.
“Breanna! Onde diabo você estava?!” Sua voz trovejou, metade inglês de Trinidad, metade creole: “Yuh tink yuh could jus’ disappear like dat?”
Congelei, com a boca seca, os dedos tremendo na maçaneta.
“Eu”, comecei, com a voz falhando. “Celular descarregou. E eu—”
Ele me interrompeu, andando de um lado para o outro, com a voz subindo: “Celular descarregado? Cérebro descarregado? Yuh tink yuh could jus’ leave me waitin’ all night?!”
Murmurei baixo, mudando para o português para acalmar minha própria mente em pânico:
“Calma… Respira… Não faz drama…”
O olhar de Brendan não suavizou. “Fala! AGORA!”
Dei uma risada trêmula, metade em descrença, metade de nervosismo. “Você nem quer saber!”
Ele se inclinou, braços cruzados como se estivesse segurando sua explosão, com a voz mais baixa, porém perigosa: “Tenta a sorte.”
Suspirei, com os ombros caídos e o coração acelerado.
É isso.
Minha vida está oficialmente uma bagunça.