1.
A neve cai suavemente, como se a própria Deusa da Lua estivesse me vendo quebrar e não suportasse desviar o olhar. Cada floco pousa em minha pele dilacerada, frio contra o calor do sangue que não para de escorrer pelas minhas costas.
O chicote estala novamente. Mordo o lábio com tanta força que sinto o gosto de cobre, recusando-me a dar a eles a satisfação de mais um grito. Meus joelhos fraquejam, mas eu me forço a ficar de pé. Não vou cair diante deles. Não na frente dele.
“Dez chicotadas”, diz Lucas, com a voz fria e absoluta. “De cada guerreiro.”
Aquela voz um dia sussurrou meu nome como se fosse sagrado. Agora soa como uma sentença de morte.
“Lucas…” minha voz treme. “Por favor. Olhe para mim. Você sabe que eu nunca—”
“Silêncio!” Seus olhos dourados faíscam, e o vínculo entre nós pulsa dolorosamente. Posso sentir sua raiva, sua confusão — algo não natural retorcendo-se através disso.
A multidão murmura. Posso sentir a descrença deles. A companheira do Alpha, a garota que curava os feridos, que rezava por cada alma perdida, agora acusada de traição.
“Elmai, diga a ele!” imploro, virando-me para a única pessoa que jamais deveria ter se voltado contra mim.
Minha gêmea dá um passo à frente, o reflexo do meu rosto, mas sem nada do meu coração. Seus lábios se curvam em um sorriso cruel e perfeito. “Ah, querida irmã”, ela cantarola. “Você não vê? Você nunca foi feita para ele. A Deusa me escolheu. O seu vínculo foi um erro. Lucas e eu estamos ligados agora.”
As palavras atingem mais forte que o chicote. Minha loba, Seren, rosna fracamente dentro de mim. Ela mente, Ella. Magia negra mancha a aura dela. Ele está enfeitiçado.
Tento alcançar o vínculo novamente, desesperada para sentir algo — qualquer coisa do homem que eu amei. Mas tudo o que toco é escuridão.
Lucas caminha em minha direção, com olhos frios e irreconhecíveis. “Eu, Alpha Lucas da Alcateia SilverMist”, diz ele, com a voz ecoando pelo pátio, “rejeito você, EllaRose Hall, como minha companheira e Luna.”
O mundo desmorona. A rejeição me atinge como uma lâmina no peito, rasgando o vínculo que um dia nos uniu. O ar me falta. Meus joelhos finalmente cedem, com uma dor como nunca senti antes.
“Lucas, por favor! Eu sou sua companheira!” grito, esperando que ele se libertasse.
Mas ele não terminou.
“Você ousa se chamar de minha companheira?” Sua mão aperta minha garganta e ele me joga na neve. Seus golpes vêm — fortes, impiedosos —, mas não o suficiente para matar. O suficiente para me lembrar de que não sou nada para ele agora. Ouço suspiros e gemidos da multidão, mas ninguém dá um passo à frente. O medo domina a todos.
Quando ele finalmente me solta, mal consigo vê-lo através da névoa de sangue e lágrimas.
“Levem-na para a fronteira”, ele ordena friamente. “Se ela voltar… matem-na.”
Os guerreiros hesitam apenas um momento antes de obedecer. Suas mãos são ásperas, o silêncio deles é mais pesado que a neve que cai ao nosso redor. Eles me arrastam pelo chão, deixando um rastro carmesim para trás. Ouço um deles murmurar entre dentes: “Talvez o Rei Lycan termine o que nós não conseguimos.”
Eles me jogam na beira do território e vão embora sem dizer mais nada. O som de seus passos desaparece na noite, deixando apenas o sussurro do vento e minha respiração ofegante.
O mundo fica turvo, mas minha loba se agita fracamente dentro de mim. Levante-se, Ella…
“Eu não consigo”, sussurro, minha voz mal passando de um sopro.
Sim, você consegue.
Meu corpo queima e depois formiga. Um calor suave e dourado se espalha pelas minhas veias — meu dom de cura, frágil, mas vivo. As feridas começam a fechar lentamente, e a dor diminui para um latejar surdo. Pressiono minhas mãos trêmulas contra a neve, forçando-me a ficar de pé. Cada passo parece uma caminhada pelo fogo, mas eu me movo. Um passo. Depois outro.
As árvores à frente são silhuetas escuras — a floresta proibida. O ar vibra de forma diferente aqui, denso de poder, pesado de segredos.
“O terreno de caça do Lycan”, murmuro para mim mesma, quase rindo da crueldade de tudo aquilo. “Talvez ele realmente termine o que você começou”, sussurro para a noite.
A neve sob meus pés brilha fracamente ao luar, o mundo estranhamente silencioso. Minhas pernas finalmente cedem quando cruzo a fronteira invisível para o desconhecido. Incapaz de caminhar mais, agarro-me a uma árvore coberta de geada, segurando-me como se minha vida dependesse disso.
O ar muda. Um rosnado ecoa pela escuridão — profundo, ancestral e selvagem o suficiente para fazer meu coração falhar.
Então, silêncio.
E, das sombras, olhos como ouro derretido perfuram a escuridão. Eles são selvagens e imponentes demais para pertencerem a qualquer lobo comum.
Uma voz, profunda e suave como uma tempestade, ruge pela noite.
“Quem ousa sangrar em minhas terras?”
Minha visão escurece, a dor misturando-se a algo estranho — paz. “Alguém que já foi morto”, sussurro enquanto a escuridão me consome.
Braços fortes me seguram antes que eu atinja o chão.
A última coisa que sinto é calor — desconhecido, perigoso e terrivelmente vivo.
Ponto de vista em terceira pessoa
O frio morde profundamente, com a neve estalando sob os pés enquanto Levino se move pela floresta. Cada respiração é visível no ar, cada batida de coração soa alto no silêncio da noite. Azel cantarola sob sua pele, enroscado e vivo, vibrando com expectativa.
A emoção da caçada ressoa nele, afiada, inebriante, familiar. A floresta tem cheiro de lar: pinheiros, terra congelada, o leve odor dos animais que se agitam sob a neve. Cada cheiro fala com ele, diz-lhe o que é presa, o que é ameaça e o que não é nada.
Um cervo salta do mato à frente, assustado. Levino poderia pegá-lo em um batimento cardíaco, acabar com ele sem esforço, mas, em vez disso, ele o deixa correr. Um jogo, um desafio, apenas pela diversão da perseguição.
O cervo pula entre as árvores, levando-o mais fundo, quase até a extremidade de seu território. Uma pequena parte dele se pergunta por que ele permite isso. Outra parte está quieta, quase… curiosa.
Então, ele sente o cheiro.
No início, é fraco — doce, inebriante, desconhecido. Nem predador, nem presa. Algo vivo e impossível, retorcendo-se pelo ar frio da noite. Azel pressiona contra ele, afiado e insistente. Encontre. Encontre o cheiro. Descubra o que tem um perfume tão bom.
Levino inala novamente, a curiosidade puxando-o, superando a razão. Ele não reconhece. Ainda não quer reconhecer. E, no entanto, não consegue se impedir. O que… é aquilo?
Passo a passo, mais fundo na floresta. A neve estala sob suas botas, galhos cobertos de geada arranham seus ombros. O aroma fica mais forte, impossível de ignorar. Seu pulso acelera e Azel vibra dentro dele como um segundo coração. Está aqui. Estamos perto.
E então, ele a vê.
Inclinada fracamente contra uma árvore coberta de geada, com neve e sangue manchando sua pele e roupas, o cabelo dourado caindo sobre os ombros. Ela é de tirar o fôlego — absolutamente deslumbrante —, mesmo quebrada, mesmo machucada, mesmo tremendo. Há uma atração em sua presença, crua e inegável, e Azel ruge em sua mente. Ela é nossa. Ela é nossa.
Levino balança a cabeça. “Nossa companheira morreu há séculos, Azel”, ele murmura entre dentes, tentando se acalmar. Não se deixe levar.
Azel não cede. Você sente. Você sabe. A atração é real. Reivindique-a.
Levino aperta a mandíbula, furioso com a insistência do seu próprio lobo. Ele dá mais um passo, recusando-se a admitir o que sente. Ainda assim, ele é atraído, imparável, a floresta desaparecendo ao seu redor até que tudo o que existe seja ela.
Ela se agarra à árvore como se ela fosse mantê-la de pé. Ele nota o tremor em suas mãos, a leve oscilação de seu corpo, a forma como sua respiração sai em suspiros curtos. Ele pode sentir o cheiro de cada traço de sangue, de cada gota de calor e, ainda assim, de alguma forma, cada grama de vida restante irradia dela como fogo.
Sua sombra se estende sobre ela, predatória e protetora ao mesmo tempo. “Quem ousa sangrar em minhas terras?” ele exige, com a voz baixa e perigosa.
Ela olha para ele, os olhos verdes afiados, inabaláveis, mas seu sorriso é sem humor, uma máscara que não toca a profundidade de seu olhar. “Alguém… que já foi morto”, ela sussurra.
Seus joelhos fraquejam. Ela começa a cair.
Instintivamente, Levino está lá, segurando-a antes que ela atinja a neve. Ela se inclina contra ele, tremendo violentamente, frágil, mas viva. Seus olhos verdes encontram os dele, cautelosos, desafiadores, inabalados apesar de tudo.
“Deixe-me… para que o Rei Lycan termine o que eles começaram”, ela murmura, com a voz desaparecendo, e então ela desmaia completamente.
Ele permanece paralisado por um momento, com o peito apertado. Algo se retorce profundamente dentro dele — uma atração estranha e impossível que ele se recusa a nomear. Uma parte dele dói com o reconhecimento, com o desejo, com algo que ele enterrou há séculos. Mas ele não vai permitir. Ele não vai passar pela dor de perder alguém que ama novamente. Nem agora. Nem nunca.
Azel rosna baixo em sua mente, frustrado e impaciente. Ela é nossa. Ela está viva. Você não pode resistir.
Levino não responde. Ele a carrega com cuidado, ainda tremendo, pela neve, em direção ao calor de seu domínio, a floresta escura ao redor deles. Ele não fala. Ele não reconhece a atração. Ele não pode.