Capítulo 1
“Sujeito Dezessete. Americana de origem mexicana. Vinte e seis anos. Órfã desde os nove. Sem amigos. Sem parceiros sexuais. Emprego sem futuro. Ninguém sentirá falta dela.”
A voz profunda e monótona arranhou os sentidos de Sofia, trazendo-a lentamente de volta à consciência.
Suas pálpebras estavam pesadas, recusando-se a abrir. Seu corpo parecia letárgico e dolorido enquanto ela tentava, sem sucesso, virar-se na cama. Em vez de seu colchão macio, o que quer que fosse aquilo em que ela estava deitada era rígido e muito mais desconfortável.
Será que ela tinha pegado no sono no sofá enquanto assistia à TV de novo?
Isso explicaria a dor que tomava conta de todo o seu corpo — seus móveis eram todos usados e gastos — e o monólogo estranho que ela ouvia ao fundo. Os turnos extras que ela tinha feito no restaurante deviam ter cobrado seu preço nos últimos meses.
Um calafrio percorreu sua espinha, piorando suas dores. Ela gemeu quando seu baixo ventre contraiu, o som saindo fraco e abafado.
Será que sua menstruação tinha descido? Ela esperava que não; o anticoncepcional que usava impedia, embora às vezes ocorresse um sangramento nos piores momentos.
Ela nunca sentia cólicas assim, no entanto…
“Ela está em ótima condição física, o que sem dúvida a ajudou no primeiro teste do medicamento”, a voz continuou arrastada.
“Qual lote você administrou e quando?”, outro homem perguntou, parecendo tão entediado quanto o primeiro.
Teste de medicamento? O que ela tinha assistido antes de dormir?
Sua testa franziu e, exausta, ela tentou esticar a mão em busca do controle remoto, ansiosa para desligar aquela conversa incessante.
Seus movimentos eram lentos e descoordenados, e ela mal conseguiu mover o braço mais do que alguns centímetros antes que seu pulso encontrasse resistência.
O quê...?
“Nós a injetamos com o lote duzentos e cinquenta e seis do soro de reprodução.” Houve uma breve pausa, seguida pelo barulho de papéis. “Dois dias atrás. Ela não sofreu efeitos colaterais graves e sobreviveu à primeira fase com os órgãos reprodutivos intactos. A maioria não chega tão longe.”
Soro de reprodução?
Sofia fez uma careta. Qualquer que fosse a coisa, parecia horrível. Seria algum tipo de injeção de fertilidade pesada?
Uma rajada de ar frio a atingiu em cheio, fazendo arrepios surgirem por toda a sua pele. Seus mamilos enrijeceram em pontas duras, a sensação sendo prazerosa e dolorosa ao mesmo tempo.
Simultaneamente, um calor explodiu em seu núcleo, tão intenso, tão potente, que o desejo escapou de seu centro, encharcando suas coxas.
Outro calafrio percorreu seu corpo, fazendo seu útero se contrair. Doía, mas aquela pressão logo se transformou em algo sensual. Ela gemeu novamente, apertando as pernas enquanto mais lubrificação escorria por suas coxas.
Que porra estava acontecendo?
“Ela está tremendo.”
Tudo dentro de Sofia parou, como se um alarme interno disparasse no fundo de sua mente. Quais seriam as chances de os homens na TV mencionarem uma mulher tremendo exatamente no momento em que ela tremia?
“Essa é uma resposta normal ao soro, posso garantir, Dr. Hines. Reações alarmantes seriam: sangramento pelos orifícios, vômitos, erupção cutânea no corpo todo, seguidos rapidamente por convulsões. O corpo dela entraria em parada cardíaca conforme os órgãos parassem de funcionar. Um calafrio não é motivo de preocupação.”
Sofia gemeu baixinho, seus cílios tremulando rapidamente enquanto ela finalmente forçava um olho a abrir. Uma luz branca ofuscante atingiu seus sentidos. Ela puxou o ar, engasgando, enquanto uma dor aguda cortava seu cérebro.
Ai, que porra é essa?
Ela apertou os olhos contra a claridade, lutando para entender o que via através da visão embaçada. Tudo era branco. Paredes brancas, teto branco.
Ela não estava na cama nem no sofá — aquilo não era sua casa de jeito nenhum.
Onde estou?
Ela virou a cabeça, apenas para soltar um grito ao sentir uma picada aguda na nuca. Ela fechou os olhos com força, soluçando conforme as cólicas voltavam, aquele calor se espalhando de forma desconfortável por seu útero até que aquele breve pico de prazer se tornasse uma lembrança distante.
Sua cabeça parecia cheia de algodão, seu cérebro incapaz de processar qualquer coisa.
Algo estava muito errado com ela.
Será que ela sofreu um acidente de carro voltando do trabalho? Ela geralmente pegava o ônibus para economizar combustível, mas era inverno, e ela odiava esperar no ponto se precisasse trabalhar até tarde.
Será que ela tinha ido trabalhar dirigindo? Ela não conseguia se lembrar.
Ela não deveria se lembrar?
Algo está muito errado, ela pensou novamente, o pânico a arranhando. Apesar da súbita onda de ansiedade, seu coração mantinha o mesmo ritmo forte, e sua respiração não alterava nem um pouco.
Por que ela não estava reagindo como deveria?
Ela forçou os olhos a abrirem novamente; o mundo brilhante demais balançava lentamente para frente e para trás, fazendo-a sentir um pouco de náusea.
Será que ela estava em um hospital?
Ela abriu a boca para chamar uma enfermeira, mas as palavras não saíram. Ela engoliu em seco, fazendo uma careta pela sensação de arranhão na garganta. Quando foi a última vez que bebeu água? Ontem à noite, talvez.
Então por que parecia que tinham se passado dias?
“Ela está acordando.”
O quê...?
Apesar da agonia no pescoço, Sofia virou a cabeça para o lado, piscando lentamente para uma parede de vidro sólido. Duas sombras escuras, do tamanho de pessoas, espreitavam logo do outro lado.
A segunda sombra virou-se para a primeira. “Quando você planeja administrar a dosagem final do soro?”
Soro?
Como ela conseguia ouvi-los através do vidro? Onde, diabos, ela estava?
Sofia tentou se sentar, apenas para encontrar a mesma resistência nos pulsos de antes. Franzindo a testa, ela olhou para baixo enquanto os homens continuavam falando.
Um som horrorizado escapou de sua garganta dolorida ao ver seu corpo — seu corpo completamente nu. Ela estava em algum tipo de cama de metal, com vários fios conectados ao seu peito. Um acesso venoso estava conectado à parte interna de seu cotovelo.
Mas essa não era a parte mais alarmante.
Algemas brancas grossas envolviam seus pulsos e tornozelos, prendendo-a à cama. Desta vez, seu coração falhou uma batida conforme o pânico aumentava, mas a reação parecia lenta.
Estranha.
A sensação de algo errado despertou um terror feroz, e Sofia soltou um gemido, lutando inutilmente contra as amarras, seus músculos doloridos e sem cooperar.
“Ajuda”, ela grasnou, sua garganta em chamas enquanto a palavra mal passava pelos seus lábios. Os homens do outro lado do vidro não ouviram ou não se deram ao trabalho de responder ao seu apelo, e mais medo se espalhou por ela.
“Em mais quarenta e oito horas, ela receberá a última dose. Vamos mantê-la sedada até que seu corpo tenha tempo suficiente para se ajustar a tudo.”
Sedada? É por isso que ela se sentia tão estranha! Eles a tinham sedado! Ela puxou as mãos — ou tentou — mas não conseguia se mover.
“Achei que você tivesse dito que ela passou pelo primeiro teste com louvor. Por que mantê-la sedada por mais tempo do que o necessário?”
“O corpo dela se adaptou maravilhosamente”, afirmou o primeiro homem com naturalidade. “Mas, como a injetamos com um soro melhorado para garantir que sua compatibilidade reprodutiva fosse superior a noventa e oito por cento, é melhor monitorá-la por mais alguns dias, só para ter certeza de que ela não irá morrer, antes de apresentá-la ao seu parceiro de reprodução.”
Compatibilidade reprodutiva? Parceiro de reprodução?!
Morrer?
Ah, nem ferrando! Qualquer sonho doentio e distorcido que ela estivesse tendo, ela queria sair dele! Agora mesmo!
Só que não parecia que ela estava sonhando. Ela não tinha imaginação suficiente para conjurar algum tipo de laboratório experimental maligno e distorcido.
Aquilo parecia real demais.
Aterrorizante demais.
Ela precisava sair dessa porra de lugar!
Sofia lutou com mais força, movendo os braços um pouco mais do que antes. Ela se contorceu contra as amarras, desesperada para se soltar. O que quer que estivesse acontecendo, aquilo não era um hospital. Ela não tinha sofrido um acidente.
“Os outros sujeitos de teste não receberam a mesma cortesia.”
“Os outros sujeitos foram antes de esgotarmos nossos recursos. Todo o nosso financiamento foi para melhorar o soro. Espero que seja o suficiente. Eu odiaria colocar tanto tempo e esforço em outra causa perdida.”
A segunda sombra deu de ombros. “Pode ser, apesar dos nossos avanços científicos. O Sujeito Zero tem sido bastante volátil. Ele destroçou todas as fêmeas elegíveis que apresentamos a ele como possíveis parceiras. Ele está instável.”
Ai, meu Deus.
A primeira sombra riu levemente. “Claro que ele está instável. Nós o transformamos em um monstro, arrancando qualquer humanidade que ele tinha antes e deixando apenas seus instintos animais mais básicos intactos.”
Esses homens eram delirantes! Eles a tinham sequestrado e parecia que tinham torturado outra pessoa. Um grito estrangulado ficou preso em sua garganta, a náusea girando em seu estômago enquanto seu coração finalmente começou a bater forte.
“Alguém”, Sofia murmurou, sua voz subindo apesar da dor na garganta. “Ajuda!”
Nesse momento, ela ouviu o zumbido de uma máquina. Virando a cabeça rapidamente para a direita, em direção ao acesso venoso, ela observou em pânico enquanto um líquido azul era injetado na bolsa de soro por uma máquina conectada a ela, misturando-se com a solução transparente lá dentro.
“O que—” O líquido azul percorreu o tubo de plástico, indo direto para a agulha em seu braço. “Não, para! O que é isso? Pa—”
O mundo girou, fragmentos de luz branca ofuscante se misturando ao breu total enquanto ela desabava de volta em sua cama de metal. Antes que pudesse resistir, antes que pudesse sequer tentar lutar contra a letargia se espalhando por seu corpo, a escuridão a dominou.