DOMADA PELA BESTA

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Resumo

Ele era um rei do submundo, sangrando aos pés dela. Ela era uma deusa da elite, que não recuou. Quando a professora Peony Maddox salvou Korrin, o brutal executor dos Iron Serpents, um jogo perigoso começou. Ele a afastou para salvá-la; ela enfrentou a escuridão dele com um fogo que ameaçava consumir a ambos. O erro dele foi pensar que poderia viver sem ela. O erro dela foi pensar que ele a deixaria ir. Após uma traição que a destruiu, Peony se isolou, erguendo muralhas de gelo ao redor de seu coração partido. Mas Korrin não é um homem que bate à porta. Ele é um culto de um homem só, e a religião dele é ela. Movido por uma loucura possessiva e avassaladora, ele inicia seu culto. Ele invade o espaço dela, sua presença um calor constante e opressor. Ele não pede perdão; ele exige rendição. Cada toque demorado em uma sala lotada, cada promessa sussurrada em seu ouvido, é uma marca. Ele a encurrala no escuro, suas mãos sendo uma reivindicação desesperada pelo corpo que ele um dia afastou, sua boca uma confissão pecaminosa contra a pele dela. "Você é minha" é sua oração, sua ameaça, sua única verdade. Ele usará todas as armas que possui — seu corpo, sua vontade, seu domínio inabalável — para queimar a memória de seu fracasso e gravar sua devoção na alma dela. Ele a fará lembrar do prazer que só ele pode proporcionar, da segurança que existe apenas em seus braços e da verdade aterrorizante de que o mundo dele começa e termina nela. Mas Peony não é uma mera conquista. Ela é uma rainha das sombras, guardando um segredo que poderia reduzir seu reino a cinzas. A questão não é mais se ele pode reconquistá-la, mas se ele pode sobreviver ao inferno da verdade dela assim que ela for revelada.

Status
Completo
Capítulos
36
Classificação
5.0 9 avaliações
Classificação Etária
18+

Bull e Sangue

A chuva tinha acabado de começar, uma névoa fina e cintilante que transformava as luzes da cidade em manchas de ouro e neon contra o veludo escuro da noite. Dentro de seu carro esportivo rebaixado, o mundo estava em silêncio, exceto pelo ronronar do motor e os acordes suaves e melancólicos de um concerto para violoncelo. Peony Maddox guiava o veículo com uma graça distraída, a mente a mil quilômetros de distância do asfalto molhado.


Ela era uma visão, um contraste gritante com a rua industrial e sombria por onde passava. Vestida num vestido dourado líquido, com um decote canoa de seda pesada caindo em cascata suave sobre as clavículas, parecia um fragmento de um antigo tapete vermelho de Hollywood. O cabelo, geralmente preso num coque elegante para eventos públicos, estava solto, caindo em ondas castanhas e ricas sobre os ombros. O perfume sutil e picante — âmbar e baunilha — ainda a envolvia, um fantasma das festividades da noite.


O evento na sua galeria, *The Gilded Frame*, tinha sido um sucesso. A artista em destaque, Elara Vance, era uma mulher que havia passado pelo fogo, literalmente. As cicatrizes que marcavam metade do seu rosto eram testemunhas de uma dor passada, mas seus olhos guardavam a luz feroz e inquebrantável de uma fênix. Suas obras não eram meros quadros; eram escavações. As telas retratavam florestas onde troncos magníficos e apodrecidos brotavam fungos vibrantes e fosforescentes. Esculturas de metal retorcido e enegrecido abrigavam flores de vidro soprado, delicadas e fortes. Eram recriações impressionantes de podridão e renascimento, de fogo e forja. A peça central, um tríptico imponente intitulado *“Uma Elegia para Pele e Alma”*, mostrava uma figura humana, metade consumida por chamas brilhantes e terríveis, enquanto a outra metade já se reconstruía com fios de ouro e madrepérola.


Peony estava fascinada. Enquanto dirigia, sua mente voltava sem parar à declaração de Elara, lida com uma voz rouca por causa da fumaça inalada, mas cheia de poder: *“A beleza não é a ausência de dano. É a prova da sobrevivência. É o ouro que preenche a rachadura na porcelana, o novo broto depois do incêndio na floresta. Todos nós somos forjados em nossas próprias fornalhas.”*


As palavras ecoavam na alma de Peony, uma melodia pungente que contrastava com a vida que ela projetava com tanto cuidado. A professora alegre e ensolarada, a socialite efervescente — era sua própria forma de recomeço, uma decisão consciente de pintar ouro sobre as rachaduras de sua história. A obra de Elara era um espelho, e Peony ainda aprendia a se olhar nele sem recuar.


Estava tão perdida em pensamentos, com o abismo filosófico entre podridão e renascimento se abrindo em sua mente, que quase não percebeu o movimento. Uma figura, grande e cambaleante, saiu de um beco lateral bem na sua frente.


O coração disparou na garganta. O tempo pareceu distorcer, esticando e comprimindo ao mesmo tempo. Suas mãos, delicadas mas firmes no volante revestido de couro, reagiram antes que a mente pudesse processar. Ela pisou no freio, os sistemas avançados do carro protestando com um guincho enquanto ele parava bruscamente, o para-choque a menos de trinta centímetros das pernas do homem.


Por um segundo, só se ouvia o batimento frenético do seu coração e o som das palhetas do para-brisa. O homem ficou paralisado nos faróis, como um cervo diante do caçador. Então, como se a pausa tivesse esgotado suas últimas forças, ele desabou no asfalto molhado.


Peony prendeu a respiração. Sem pensar duas vezes, desligou o motor, e o silêncio repentino pareceu mais alto que o guincho dos pneus. Abriu a porta, e a chuva fina logo beijou seus braços nus, depositando-se como pó de diamante nos cabelos. O frio foi um choque, mas não era nada comparado ao que via à sua frente.


Ele era um gigante, feito de músculos brutais e vestido com jeans escuro encharcado e um colete de couro preto, gasto e manchado. Mas era o sangue que prendia seu olhar. Uma mancha escura e sinistra se espalhava pelo seu lado, o tecido da camisa colado ao corpo. Um dos nós dos dedos estava aberto, e um corte recente na testa deixava um fio lento e persistente de sangue escorrer pela têmpora, misturando-se à chuva.


Era a coisa mais assustadora e quebrada que ela já tinha visto.


— Meu Deus — sussurrou, a voz quase inaudível. Avançou depressa, os saltos dourados batendo no concreto molhado. — Você está bem? Consegue me ouvir?


Ao se ajoelhar ao lado dele, o cheiro de graxa, sangue ferroso e o frio úmido da noite invadiu seus sentidos. Ele recuou ao seu toque, levantando a cabeça. Seus olhos, de um cinza-tempestade impressionante, encontraram os dela. Estavam vidrados de dor, mas por baixo havia uma intensidade selvagem, de animal acuado, que deveria tê-la feito correr.


— Sai de perto de mim — rosnou, as palavras um rugido grave que parecia vibrar no asfalto. Tentou se levantar, mas uma nova onda de dor lhe roubou o fôlego, e ele desabou de volta com um xingamento cortado no meio.


Peony não recuou. O olhar de fênix de Elara parecia queimar atrás dos seus próprios olhos. Aquele não era uma ameaça; era um homem na fornalha. Era podridão, dor e a matéria-prima crua do renascimento.


— Você está machucado — disse, a voz suavizando-se no mesmo tom que usava para acalmar alunos de arte nervosos. Era calma, melodiosa e firme. — Precisa de ajuda. Deixa eu te ajudar.


Os olhos dele, aqueles olhos selvagens e tempestuosos, se estreitaram. — Eu disse *sai de perto*. — O pedido vinha carregado de um aviso venenoso. — Por favor.


O “por favor” foi o que a convenceu. Era uma rachadura na armadura dele, um sussurro do ser humano por trás da violência e do couro. Era o ouro na rachadura.


— Não vou fazer isso — disse, o olhar firme. Estendeu a mão devagar, dando-lhe todas as chances de recusar, e seus dedos afastaram delicadamente o cabelo molhado da testa dele para ver melhor o corte. O corpo inteiro dele enrijeceu ao toque, como se tivesse sido marcado a ferro. — Você precisa de um médico. Meu carro está logo ali.


Ele a encarou como se ela falasse uma língua estrangeira. Seus olhos percorreram o vestido dourado, a maquiagem impecável, a riqueza que transbordava de cada onda perfeita do cabelo. O abismo entre os dois mundos, naquele momento, era algo físico, tangível.


— Quem é você? — perguntou, a desconfiança cavando linhas profundas no rosto.


— Alguém que não consegue ir embora e deixar você sangrar até morrer num beco — respondeu, um sorriso determinado tocando seus lábios. — Vai ser discreto. Prometo. Sem perguntas.


Houve um longo silêncio tenso, quebrado apenas pelo tamborilar da chuva e pela respiração entrecortada dele. Ele avaliava suas opções, o olhar indo do rosto dela para o carro caro e voltando. A luta o abandonava, substituída por uma onda de fraqueza debilitante. Com uma careta que era mais um mostrar de dentes do que qualquer outra coisa, deu um aceno curto e seco.


Precisou de toda a sua força para ajudá-lo a se levantar. Ele era pesado demais, uma parede sólida de músculos e dor. Apoiou-se nela mais do que provavelmente queria, o braço um peso quente sobre seus ombros. Ela aguentou sem vacilar, guiando-o os poucos passos até o lado do passageiro e ajudando-o a se acomodar no banco baixo. O contraste era quase ridículo — aquele titã sangrento do submundo, dobrado no interior imaculado de couro creme, o sangue dele em contraste com o luxo pálido.


Entrou no carro, a porta fechando-se com um baque suave e caro que os selou naquela bolha estranha e íntima. O cheiro do sangue dele e da noite agora se misturava ao seu perfume. Não falou enquanto dirigia, seguindo as direções curtas e secas dele — “Esquerda.” “Direita.” “Aqui.”


Acabaram numa parte da cidade que os guias turísticos não mencionavam. O prédio era discreto, as janelas gradeadas, mas uma luz fraca brilhava lá dentro. O homem que atendeu à batida fraca de Korrin era tão estéril e duvidoso quanto o lugar prometia. Usava um jaleco manchado de sangue velho, os olhos cansados, e não perguntou nomes.


Peony esperou na sala branca e fria de azulejos enquanto o médico trabalhava, ouvindo os sons abafados de pontos e grunhidos de dor. Ficou perto de uma janelinha suja, o vestido dourado uma explosão de cor no ambiente clínico e sombrio. Parecia um anjo que tinha caído por engano num açougue.


Quando o médico terminou, Korrin saiu, movendo-se com rigidez. O sangue tinha sumido, os ferimentos no rosto e nos nós dos dedos estavam costurados e enfaixados. Estava mais limpo, mas não menos perigoso. Os curativos só ressaltavam o poder bruto e primitivo dele. Evitou o olhar dela, uma nova onda de algo que parecia vergonha ou frustração emanando dele.


— Obrigado — murmurou, as palavras claramente estranhas à sua língua.


— De nada — disse ela, simplesmente.


Levou-o de volta à beira do território dele, a mesma área industrial onde o encontrara. Quando ele se mexeu para sair, ela o deteve com uma mão suave no braço. Novamente, ele estremeceu, mas ficou parado. Pegou a pequena bolsa bordada e tirou um cartão pesado e creme. Tinha um design simples e elegante gravado: *The Gilded Frame*, e abaixo, seu nome, *Peony Maddox*.


— Se precisar de qualquer coisa — disse, colocando-o na mão grande e calejada dele. Seu sorriso era genuíno, um pequeno sol quente na escuridão do carro molhado pela chuva. — Sem perguntas. Essa oferta está de pé.


Ele pegou o cartão, os dedos roçando nos dela. O contato foi elétrico, uma descarga que subiu pelo braço dela. Ficou olhando para a caligrafia elegante como se fosse um hieróglifo indecifrável. Por dentro, estava em choque. Aquela mulher, aquela criatura de luz, seda e uma coragem impossível, tinha descido ao seu inferno, o arrastado para fora e não pedido nada em troca. Era um enigma, uma contradição. Era a coisa mais linda que ele já tinha visto, e todo instinto que possuía, afiado por uma vida de violência e traição, gritava que ela era o tipo mais perigoso de ameaça — o tipo que podia fazer um homem desejar coisas, esperar por coisas que só o matariam.


Os olhos tempestuosos se ergueram, encontrando os dela por um instante que parou o coração. No fundo deles, ela não viu gratidão, mas uma guerra turbulenta — um lampejo de espanto atordoado lutando contra uma enxurrada de desconfiança enraizada.


Sem dizer uma palavra, ele enfiou o cartão no bolso da calça jeans, virou-se e foi embora. Dissolveu-se nas sombras do depósito que indicara, as costas largas uma silhueta orgulhosa e recuante, recusando-se a olhar para trás sequer uma vez.


Peony o observou até ele desaparecer, a chuva agora caindo forte, riscando o para-brisa como lágrimas. Ficou ali por um longo tempo, o fantasma do peso dele ainda no carro, o cheiro de sangue e couro pairando no ar. Pensou na beleza forjada de Elara, na podridão e no renascimento. E soube, com uma certeza que se instalou fundo nos ossos, que o homem de olhos tempestuosos era uma obra-prima de potencial devastador, problemático e agudamente belo, esperando no escuro por uma mão corajosa o suficiente para tocá-lo.

*

A caminhada do depósito até o galpão principal dos Iron Serpents era de apenas cinquenta metros, mas para Korrin parecia uma marcha de um quilômetro em território inimigo. Cada passo enviava uma pontada quente de dor pelo lado costurado, um lembrete brutal de sua vulnerabilidade. A chuva, que antes era uma névoa fina, agora caía em um aguaceiro frio e constante, encharcando as ataduras e roubando o calor dos ossos. Ele acolheu o desconforto físico; era uma distração da tormenta que se agitava em suas entranhas.


O galpão, seu santuário, era uma catedral de máquinas engraxadas, aço enferrujado e o zumbido constante de motores sendo desmontados e remontados. O ar estava carregado com o cheiro de gasolina, fumaça de solda e suor masculino. Placas de neon de marcas obscuras de cerveja lançavam um brilho doentio e colorido sobre o espaço caótico. Era um mundo de arestas duras e homens mais duros ainda, um mundo que ele entendia. Um mundo que acabara de contaminar com o cheiro de seda dourada e perfume caro.


Ele empurrou a pesada porta de aço, o som um rangido estridente que cortou o zumbido baixo das conversas e o barulho das ferramentas. Imediatamente, toda a atividade cessou. Uma dúzia de pares de olhos, afiados e avaliadores, se fixaram nele. Perceberam na mesma hora o estado em que estava: a palidez do rosto sob a sujeira, a maneira rígida e cuidadosa como segurava o corpo, as bandagens brancas e recentes contrastando com a pele.


— Korrin! Que merda aconteceu com você? — A voz era de Bear, um homem enorme, com uma barba que poderia abrigar uma família de pardais. Ele largou uma chave-inglesa pesada com um estrondo e se adiantou.


— Emboscada — Korrin grunhiu, a única palavra custando caro. Ele se moveu em direção ao sofá velho e manchado que servia de centro para a área comum, sentando-se com um gemido contido. As molas gastas rangeram em solidariedade. — Black Dogs. Quatro deles. No beco da Sétima.


Uma onda de xingamentos irrompeu, um murmúrio baixo e raivoso que encheu o galpão. Os Black Dogs eram uma gangue rival, ambiciosa e desleixada, e aquilo era uma clara escalada.


— Filhos da puta — cuspiu Mouse, um cara magricela cujos dedos já se contorciam em direção à faca na cintura. — Vamos atrás deles?


— Ainda não — Korrin disse, a voz não deixando espaço para discussão. Ele recostou a cabeça no sofá e fechou os olhos. A imagem de cabelos dourados e olhos destemidos lampejou atrás das pálpebras, sem ser convidada. *Saia de perto de mim.* Ainda sentia o fantasma dos dedos dela na testa, surpreendentemente gentis.


Foi então que sentiu uma presença ao seu lado. Não precisava abrir os olhos para saber que era Jax.


Jax era seu segundo, seu irmão em tudo, menos no sangue. Onde Korrin era uma muralha de intensidade silenciosa, Jax era um fio desencapado — mais rápido para sorrir, mais ágil com uma piada, mas não menos letal quando a situação exigia. Era o único que conseguia ler as entrelinhas dos silêncios de Korrin.


No começo, não disse nada. Korrin ouviu o *clique* suave de um isqueiro Zippo, depois o cheiro de tabaco barato invadiu o ar. Um instante depois, um pano frio e úmido foi pressionado contra sua nuca. Korrin se encolheu, depois relaxou com a sensação simples e reconfortante. A ajuda de Jax sempre era prática, nunca bajuladora.


— O Dr. Evans te costurou? — Jax perguntou, a voz calma.


Korrin balançou a cabeça de leve, o movimento provocando uma nova pontada na têmpora. — Não. Foi outra pessoa.


O silêncio que se seguiu foi mais pesado, mais curioso. Ele sentia o peso dos olhares, uma pressão física. Manteve os olhos fechados, tentando afastar o inevitável.


— Outra pessoa? — Jax insistiu, o tom enganosamente leve. — Quem? Uma boa samaritana?


Alguns dos homens riram, o som oco. Boas samaritanas não existiam naquela parte da cidade. Não as que ajudavam tenentes ensanguentados dos Iron Serpents.


Korrin não disse nada. Tentou afastar a lembrança dela, mas era teimosa. O jeito como ela se ajoelhou na chuva, o vestido se espalhando ao redor como ouro derretido, completamente destemida. O jeito como disse: *“Eu não vou fazer isso.”*


O silêncio dele era uma linguagem que todos entendiam, e só alimentava a curiosidade. Ouviu o farfalhar do couro quando Jax se mexeu, e então sentiu os olhos do amigo, afiados como os de um falcão, se fixarem na frente de sua jaqueta ensanguentada.


Os olhos de Korrin se abriram de repente.


Era tarde demais. O olhar de Jax estava preso no pequeno volume quadrado no bolso do peito. A ponta creme do cartão era visível, um corte limpo e nítido contra o couro escuro e manchado.


— O que é isso? — Jax perguntou, a voz mais baixa, perdendo o tom casual.


— Nada — Korrin rosnou, a mão se movendo por instinto para cobrir o bolso.


Mas Jax foi mais rápido. Seus movimentos sempre eram fluidos, quase preguiçosos, até deixarem de ser. Os dedos dele dispararam e arrancaram o cartão da jaqueta de Korrin com a precisão de um batedor de carteiras. Segurou-o entre dois dedos, como se fosse um inseto raro.


Os homens se inclinaram. O cartão era um objeto estranho no mundo deles, tão deslocado quanto um diamante em uma mina de carvão. O papel grosso e texturizado, a caligrafia elegante e em relevo — tudo remetia a um universo de privilégio e requinte que era o oposto do deles.


Jax virou o cartão, a testa franzida. Leu as palavras em voz alta, a voz cortando o ar sujo com a clareza de um sino.


— *The Gilded Frame* — leu. Depois, mais devagar, como se saboreasse o nome: — *Peony Maddox*.


O nome pairou no ar, delicado e estranho. *Peony.* Soava como algo de conto de fadas, algo macio, perfumado e completamente frágil.


— Peony Maddox? — Bear repetiu, o rosto uma máscara de confusão. — Quem diabos é Peony Maddox?


Todos os olhares voltaram para Korrin. Ele sentiu um calor subir pelo pescoço — raiva, vergonha, não sabia dizer. Quis arrancar o cartão de volta, amassá-lo e queimá-lo. Era prova de sua fraqueza, um símbolo de um momento de vulnerabilidade profunda.


— Foi ela que te ajudou? — Mouse perguntou, a voz carregada de incredulidade. — Uma *Peony*?


Jax não olhava para os outros; seu olhar estava fixo em Korrin, lendo a tempestade nos olhos dele. — Uma socialite? — murmurou, batendo o cartão na palma da mão. — Uma galeria de arte. Chique. — Um sorriso lento e sabido começou a se espalhar pelo rosto. Era o sorriso que geralmente precedia encrenca. — Então me diz uma coisa: você apanhou dos Dogs, estava sangrando no beco, e quem aparece para te salvar? Uma princesa de vestido dourado? Korrin, seu safado. Você andou escondendo coisa da gente.


A tensão se quebrou. Os homens explodiram em risadas altas e especulações grosseiras, mas bem-humoradas.


— Ela chegou montada num cavalo branco, essa Peony? — Bear gargalhou.


— Aposto que ela cheira a dinheiro e encrenca! — outro gritou.


— Ela beijou seu dodói pra sarar, tenente?


O maxilar de Korrin se contraiu até ele achar que os dentes iam quebrar. — Cala a boca — rosnou, a ordem baixa e perigosa.


As risadas diminuíram, mas os sorrisos permaneceram. Não tinham medo dele, não daquele jeito. Aquilo era bizarro demais, sem precedentes. O tenente deles, sempre tão estoico e inabalável, salvo por uma mulher com nome de flor.


Jax, ainda sorrindo, se sentou no sofá ao lado dele, ignorando o olhar fulminante de Korrin. — Sério, cara. Quem é ela? E, mais importante, o que ela estava fazendo naquela parte da cidade?


Korrin desviou o olhar, encarando uma Harley semi-desmontada como se ela tivesse as respostas. — Ela só estava passando de carro. Eu tropecei na frente. Ela parou. — Omitiu os detalhes: o jeito como ela se ajoelhou na chuva, a calma inabalável nos olhos dela, a sensação de que o toque dela o marcara como ferro quente.


— E ela simplesmente... te levou a um médico? Sem perguntas? — Jax insistiu, a curiosidade agora genuína.


— É.

— E depois te deu o cartão? “Se precisar de alguma coisa”? — Jax citou, o tom deixando claro que achava a ideia ao mesmo tempo hilária e fascinante.


— É.


Jax soltou um assobio baixo. — Destemida. Ou burra.


— Ela não é burra — Korrin disse, as palavras saindo antes que pudesse impedi-las. A veemência na própria voz o surpreendeu.


O galpão ficou em silêncio de novo. O sorriso de Jax se suavizou, tornando-se algo mais pensativo. Ele estudou o amigo — a rigidez dos ombros, o jeito como evitava encarar alguém. Aquilo era mais do que irritação. Era algo mais profundo, algo que Korrin lutava contra com todas as fibras do seu ser.


— Você gosta dela — Jax disse, não como piada, mas como um simples e surpreendente fato.


A cabeça de Korrin virou bruscamente, os olhos tempestuosos ardendo. — Não seja idiota. Ela é civil. Ela é... *aquilo*. — Fez um gesto vago em direção ao cartão na mão de Jax, um desprezo abrangente por tudo o que ele representava. — Ela é uma ameaça. Uma complicação. No segundo em que perceber o que eu sou, o que nós somos, vai sair correndo gritando. Ou chamar a polícia. Ou as duas coisas.


— Talvez — Jax concordou, dando de ombros. — Ou talvez ela seja exatamente o que você precisa. Um pouco de luz nesse buraco de merda. — Inclinou-se, baixando a voz para que só Korrin ouvisse. — Quando foi a última vez que alguém olhou pra você sem ver o corte nas suas costas? Quando foi a última vez que alguém te ajudou sem querer nada em troca?


Korrin não tinha resposta. Porque Jax estava certo. No mundo dele, todo favor tinha um preço. Toda mão estendida era ou o prelúdio de um golpe ou um investimento esperando retorno. A ajuda dela tinha sido... limpa. Era essa pureza que mais o aterrorizava. Era uma moeda que ele não entendia e não podia competir.


— Você devia ir vê-la — Jax disse, o tom não deixando espaço para discussão. — Pelo menos agradecer. Direito. Não só grunhir e sair andando como um homem das cavernas. Aposto que foi isso que você fez, né?


Korrin continuou em silêncio, o que já era resposta suficiente.


Jax suspirou, levantando-se e dando um tapinha leve no ombro bom de Korrin. — Pensa nisso. Uma mulher que não tem medo de sujar as mãos, que não se assusta com sangue e ainda por cima é dona de uma galeria de arte? Isso é... interessante. Não é só uma patricinha qualquer.


Jogou o cartão creme no sofá ao lado de Korrin. Ele caiu com a face para cima, o nome *Peony Maddox* parecendo brilhar sob a luz neon e fraca.


Os homens aos poucos voltaram ao trabalho, a conversa retornando aos Black Dogs e à retaliação necessária. Mas o clima tinha mudado. Uma nova variável havia sido introduzida na equação brutal de suas vidas.


Korrin ficou sozinho no sofá, a chuva batendo um ritmo constante no telhado de zinco. Olhava para o cartão. Era só um pedaço de papel, mas parecia mais pesado do que qualquer arma que já carregara. Era uma porta, e do outro lado havia um mundo de luz que ele sabia, com uma certeza doentia, só serviria para destacar cada mancha em sua alma.


As palavras de Jax ecoavam em sua mente. *Um pouco de luz.*

Mas Korrin tinha passado a vida inteira nas sombras. Sabia, melhor do que ninguém, que quando uma criatura da escuridão é exposta a uma luz súbita e brilhante, não é iluminada. É cegada, sua fraqueza revelada, e se torna um alvo.


Pegou o cartão, os dedos grossos e calejados se sentindo desajeitados contra a textura fina. Por um longo momento, pensou em rasgá-lo ao meio. Seria a coisa mais inteligente a fazer. A mais segura.


Em vez disso, com uma careta que era metade dor, metade resignação, guardou-o de volta no bolso da jaqueta, bem sobre o coração.