ATRAÇÃO FATAL

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Resumo

O aperto dele era bruto, a voz era suave, e a combinação fazia seus joelhos tremerem pelas razões erradas e aterrorizantes. Zinnia Vance nunca deveria ter cruzado a fronteira para o Distrito de Ferro. Uma mente brilhante no lugar errado e na hora errada, ela é arrastada diretamente para o território de Ronan Vale — o rei tatuado dos Vultures, um homem cujo nome é pronunciado como um aviso e temido como uma sentença de morte. Ele não pergunta o nome dela. Ele não pede permissão. Ele apenas a observa com aquela certeza fria e faminta que diz que ela é dele para manter... ou para quebrar. Zinnia o teme — seu tamanho, seu silêncio, a violência contida sob sua pele. Mas o medo não a protege da forma como seu pulso acelera quando ele se aproxima, ou de como sua respiração trava quando as mãos ásperas dele a prendem como se ela fosse a única coisa delicada que ele já tocou. Ronan é um monstro, e ele não faz segredo disso. No entanto, cada vez que ele a encurrala contra seu peito, cada vez que ele rosna que mataria por ela, ela sente a atração por algo muito mais sombrio do que o terror. Ela sabe que deveria fugir. Ela sabe que ele a caçaria. E a pior parte? Seu medo está começando a parecer fascinação.

Status
Completo
Capítulos
45
Classificação
5.0 5 avaliações
Classificação Etária
18+

Rusted

O ar no The Rusty Nail era algo sólido, um coquetel pressurizado de suor, synth-ale barato e sede de sangue. Era uma redoma de violência, e a multidão lá dentro formava um único organismo ofegante. O nome era literal; a estrutura inteira, um hangar de carga reaproveitado, mantinha-se de pé por pura ferrugem e força de vontade. Em seu coração, suspenso sobre o chão de concreto por correntes grossas, estava o Ring: um círculo de grades de metal com seis metros de diâmetro, o prego homônimo onde esperanças e ossos eram quebrados regularmente.

Ronan não estava no ringue esta noite. Ele era o mestre dele.

Ele estava na beira do poço, de costas para a parede de ferro corrugado, um ponto estratégico que lhe permitia ver tudo. A luta, a multidão, o dinheiro trocando de mãos, as mudanças sutis no ecossistema de seu reino. Aquela era sua igreja, e aquele era o hino.

Rust era um monólito à sua esquerda, com seus braços enormes cruzados sobre o peito largo. Ele não torcia, não recuava. Seus olhos, como lascas de sílex, acompanhavam os movimentos dos lutadores com um desinteresse frio e profissional. Ele estava analisando o jogo de pernas, o aviso de um soco, a forma como o homem mantinha a guarda. Ele era o árbitro final da física pura e aplicada.

À sua direita, encostado em uma viga de sustentação com um sorriso preguiçoso, estava Chip. Seus dedos eram um borrão; um baralho surrado de cartas dançava entre eles em um embaralhamento contínuo e fluido. Seus olhos, no entanto, não estavam nas cartas. Estavam na multidão, lendo os sinais, o suor na testa, o toque nervoso de um dedo que indicava uma aposta ruim. Ele era o maestro do acaso.

“O grandalhão abriu o bico”, murmurou Chip, sua voz mal sendo uma ondulação sob a maré de barulho. Ele não olhou para Ronan. Não precisava.

Ronan grunhiu em concordância. O "grandalhão" era um recém-chegado do Foundry Sector, todo força bruta e nenhuma resistência, um touro que gastou sua fúria no primeiro minuto. Seu oponente, um veterano magro e marcado chamado Stitches, era um matador. Ele sangrava por um corte acima do olho, mas seus pés ainda eram leves, seus olhos calculistas. Ele estava esperando.

“Eu te disse”, disse Ronan, sua voz um estrondo baixo que atravessou o barulho até chegar à sua equipe. Não foi um grito. Foi uma constatação de fato que cortou o caos. “Músculo é barato. Estamina é moeda.”

Um rugido explodiu quando o Touro avançou novamente, uma investida lenta e telegrafada. Stitches desviou com um movimento fluido e econômico e, conforme o Touro passava tropeçando, ele desferiu uma cotovelada precisa e forte no rim. O Touro urrou de dor e frustração.

“Sprocket apostou cinquenta no Stitches”, informou Chip, um sorriso brincando em seus lábios. “Diz que o atuador do joelho esquerdo do Touro pifou. Está compensando demais.”

Ronan permitiu que um sorriso fraco e sombrio tocasse seus lábios. Seu olhar varreu para cima, para as vigas de metal lá no alto. Empoleirada precariamente em uma travessa, com um par de óculos de lentes múltiplas refletindo as luzes fortes da arena abaixo, estava Sprocket. Ela deveria estar monitorando os feeds de segurança da garagem, mas nunca conseguia resistir a uma luta ao vivo. Ela fez um sinal de negativo com o polegar, imitando uma perna colapsando. Seus diagnósticos raramente estavam errados.

“Diga a ela que está falando o óbvio”, respondeu Ronan. “E que, se ela cair, não vou pagar a conta médica dela.”

A aposta já tinha sido feita. Fazia parte do ritual deles. A análise técnica de Sprocket, a definição de probabilidades de Chip, o instinto de Ronan para o espírito de um lutador. Era um sistema.

Uma nova presença se acomodou ao lado dele, não com a solidez de Rust ou a esperteza de Chip, mas com um sussurro de ar deslocado. Switch. Ela cheirava a ozônio e algum perfume caro e indefinível da cidade acima — um aroma totalmente alienígena no The Rusty Nail. Seu cabelo estava de uma cor diferente esta noite, um bordô profundo, e ela vestia roupas de uma executiva corporativa de médio escalão, misturando-se perfeitamente enquanto se destacava.

“Silas tem um homem aqui”, disse ela, sua voz baixa e melódica, sem precisar subir o tom. Ela assentiu quase imperceptivelmente para um homem magro em um paletó alinhado perto da entrada, que tentava e falhava em parecer que pertencia ao local. “Tomando notas. Ele parece... impressionado. E nervoso.”

Ronan nem olhou. “Deixe que tome notas. Deixe que veja como é o verdadeiro poder. Não está em uma sala de reuniões.” Seus olhos estavam fixos no ringue. O Touro estava diminuindo o ritmo, seus movimentos ficando desajeitados, sua respiração vindo em suspiros ofegantes, visíveis no ar frio. Stitches estava começando a cercar, um predador prestes a dar o bote.

“Os Revenants estão ficando ousados”, grunhiu Rust, suas primeiras palavras em uma hora. Era uma constatação, carregada de implicações.

“Ousadia é só outra palavra para estupidez”, disse Ronan. “Eles veem a força, mas não entendem a base.” A base dele estava ali mesmo, ao seu redor. Esta equipe. Esta família.

Das sombras atrás deles, onde as luzes fortes não chegavam, uma voz mais quieta surgiu. Gibbs. Ele segurava um pequeno tablet de dados, cujo brilho iluminava seu rosto sério. “A aposta inicial está garantida. O retorno, com as probabilidades atuais, será significativo. O suficiente para cobrir o carregamento de líquido refrigerante que... adquirimos na semana passada.” Ele nunca dizia "roubamos". Era sempre "adquirimos" ou "realocamos". Ele era a bússola moral deles, à sua maneira.

A luta chegava ao seu ápice. O Touro, desesperado e com dor, avançou mais uma vez. Desta vez, Stitches não desviou totalmente. Ele deixou o Touro agarrá-lo e, por um segundo aterrorizante, pareceu que a força do homem maior finalmente contaria. A multidão gritou, uma mistura de horror e euforia. Chip parou de embaralhar as cartas. Rust descruzou os braços.

Ronan, no entanto, não moveu um músculo. Ele apenas observou, com os olhos semicerrados. “Agora”, sussurrou, quase para si mesmo.

Enquanto o Touro tentava erguê-lo para um golpe esmagador, Stitches envolveu o torso do homem com as pernas, prendendo-o. Com os braços livres, começou uma série brutal de golpes curtos e rápidos, como pistões, nas têmporas, pescoço e mandíbula do Touro. Não era um soco de nocaute. Era a morte por mil cortes, acelerada. O som era um *thump, thump, thump* molhado e enjoativo.

O aperto do Touro se afrouxou. Seus olhos reviraram. Ele balançou por um momento, como um carvalho gigante caindo, e então desabou de cara na grade com um estrondo final e ressonante que silenciou a multidão por um único segundo de fôlego.

Então, o rugido foi ensurdecedor.

Stitches ficou de pé, com o peito arfando e sangue escorrendo pelo rosto, e ergueu os braços. Ele não estava sorrindo. Era apenas um trabalho.

Chip já estava se movendo, suas cartas desapareceram e um maço de notas apareceu em sua mão enquanto ele ia recolher os ganhos. Sprocket gritou lá das vigas, o som ecoando estranhamente no espaço vasto.

Rust grunhiu novamente, desta vez com uma nota de satisfação. “Eficiente.”

Switch já tinha sumido na multidão, sua tarefa concluída. O espião dos Revenants tinha ido embora.

Gibbs fez uma anotação em seu tablet. “Realocação de ativos bem-sucedida.”

Ronan finalmente se desencostou da parede. A camaradagem frouxa do momento, a linguagem compartilhada e não dita da aposta e da vitória, começou a se dissipar, com seu propósito cumprido. Eles tinham compartilhado o risco, e agora compartilhariam a recompensa. Foi uma reafirmação de seu vínculo, forjado em sangue e sorte. Ele deu um tapa no ombro de Rust, um gesto raro de contato físico que dizia muita coisa.

“Eu te disse”, repetiu ele; as palavras eram simples, mas nelas residia toda a história da confiança entre eles. Ele olhou ao redor para os rostos de sua equipe — a força, a astúcia, o gênio, o silêncio. Este era seu verdadeiro império. Não o ringue, não o dinheiro, mas este círculo inquebrável de lealdade em um mundo que tinha tentado quebrá-los. O The Rusty Nail era apenas a arena onde eles provavam isso, noite após noite.

O ar no The Rusty Nail era denso o suficiente para ser mastigado, um coquetel pressurizado de suor, synth-ale barato e sede de sangue. Ronan estava à beira do poço, de costas para a parede de ferro corrugado, um rei observando seu domínio caótico. No ringue, dois homens pintavam a grade de metal marcada com seu sangue e ambição. O rugido da multidão era uma força física.

Uma mudança súbita na periferia. Chip, geralmente uma estátua de confiança preguiçosa, enrijeceu. Ele estava ouvindo uma voz chiando através de um minúsculo ponto eletrônico em sua orelha. Seu sorriso desapareceu, substituído por um foco afiado e calculista. Ele se virou, cortando o barulho para encontrar o olhar de Ronan.

“Chefe”, a voz de Chip era uma lâmina, limpa e afiada, cortando o barulho. “Revenants. Eles atacaram um comboio na antiga estrada arterial. Lado oeste.”

Os olhos de Ronan, que rastreavam a dança fluida e brutal no ringue, pararam. “O pessoal do Silas? Qual deles?”

“Essa é a questão”, disse Chip, seus dedos parando seu embaralhamento constante de cartas. “Dizem que... foi o carregamento errado. Não era um pagamento corporativo. Era outra coisa. Uma bagunça.”

Um sorriso lento e predatório se espalhou pelo rosto de Ronan. Era uma visão aterrorizante, feita de ângulos agudos e uma promessa sombria. “Uma bagunça?”, ele retumbou. “Eu não perderia a chance de ver uma bagunça. Rust, Sprocket, Switch. Comigo. Chip, segure as pontas.”

Ele não esperou por confirmações. Ele já estava se movendo, uma força da natureza abrindo caminho pela multidão ofegante. Sua equipe o seguiu sem questionar — Rust uma montanha de músculos silenciosos, Sprocket uma sombra inquieta já puxando uma multiferramenta do cinto, Switch um fantasma misturando-se à esteira deles.

Eles saíram do Iron District ao som do rugido de motores de motocicletas customizadas, as ruas sujas e banhadas de neon dando lugar à expansão industrial abandonada que margeava a cidade propriamente dita. A estrada arterial era uma cicatriz de concreto rachado, ladeada pelos esqueletos da indústria antiga. Eles viram a fumaça primeiro, uma pluma negra manchando o céu do crepúsculo. Então, o cheiro os atingiu — fumaça acre, combustível derramado e o cheiro metálico de sangue.

A cena era uma natureza-morta de violência. Dois veículos de escolta blindados eram destroços retorcidos, um encostado em um pilar de suporte, com a lateral aberta como uma lata de sardinha. O terceiro veículo, uma limusine de luxo preta e elegante que parecia absurdamente deslocada, era o epicentro da carnificina. Seu chassi estava crivado de balas, as janelas tecidas de rachaduras, uma porta pendurada por uma única dobradiça. Corpos em equipamentos táticos e uniformes de motorista estavam onde tinham caído, seu sangue escuro e viscoso na estrada cinzenta. Um pequeno fogo ainda lambia o chassi de um dos veículos de escolta, projetando sombras bruxuleantes e infernais.

“Amadores”, grunhiu Rust, seus olhos vasculhando por ameaças, sua mão descansando no cabo da pistola pesada em seu quadril.

“Mas foram minuciosos”, comentou Sprocket, seu olhar já analisando os padrões de explosão e trajetórias de bala com o olho frio de uma técnica.

Ronan desceu da moto, suas botas estalando sobre o vidro estilhaçado. Ele caminhou pelos destroços com uma curiosidade distanciada, um conhecedor do caos apreciando a composição do desastre. Este era o trabalho de Silas — eficiente, brutal, mas sem finesse. Uma marreta quando, às vezes, um bisturi era necessário.

Foi então que um lampejo de movimento veio da limusine destruída.

A porta traseira, a única ainda presa, rangeu ao abrir. Uma figura cambaleou para fora, instável, um fantasma emergindo da fumaça e da ruína.

Era uma mulher.

Ela era uma visão de total dissonância, uma fada dos destroços. Seu cabelo, uma cascata de seda preta como tinta, tinha se soltado do que um dia certamente fora um coque elegante, caindo agora até sua cintura em uma onda desalinhada. Um corte em sua testa sangrava uma linha vermelha vívida pela têmpora, destacando-se contra sua pele clara e impecável. Ela usava uma blusa de seda luxuosa, agora manchada de fuligem e borrões de sangue. Sua saia lápis, uma peça de autoridade executiva, estava rasgada em uma longa e reveladora fenda de um lado, expondo uma perna longa e graciosa. Seus olhos castanhos, grandes e sem piscar, eram poços de puro medo não diluído e uma adrenalina afiada e hiperalerta. Ela era uma criatura da civilização polida violentamente jogada de volta à lama primordial.

Ela os viu.

Seus olhos, varrendo o horror ao seu redor, travaram em Ronan e sua equipe. O medo neles cristalizou-se em puro terror animal. Eles não eram salvadores. Eram monstros, emergindo das sombras, maiores, mais selvagens, mais reais do que aqueles que a tinham atacado. Ronan, com seu tamanho imenso e o poder bruto e indomado que irradiava dele, era o predador alfa neste ecossistema novo e aterrorizante.

Rust deu um passo à frente, com a intenção de acalmar, sua forma massiva sendo tudo, menos calma. “Calma lá”, sua voz era um estrondo baixo e rouco.

Foi o movimento errado. Ela recuou, seus saltos — agulhas impossivelmente delicadas — prendendo-se nos escombros. “Fiquem longe de mim!” Sua voz era uma lâmina afiada e desesperada, cortando o estalar silencioso do fogo.

Ela se virou e começou a correr. Foi uma fuga desajeitada e aterrorizada, como um filhote de cervo no gelo. Seus saltos escorregavam no permacrete sujo de sangue, e sua saia rasgada impedia seus passos.

Sprocket soltou um assobio baixo. “Caramba. Olha como ela corre com esses saltos.”

Mas Ronan não estava apenas olhando. Ele estava hipnotizado. Havia uma graça feroz e desesperada em sua fuga; uma beleza selvagem em sua ruína que fisgou algo no fundo de seu peito. Ele viu a precisão em seu terror, a inteligência em seus olhos arregalados e em pânico. Aquela não era uma boneca corporativa mimada. Era uma lutadora, encurralada e magnífica.

“Rust, pare”, a voz de Switch era calma e autoritária. Ela colocou a mão no braço do executor. “Ela está com medo. Olhe para você mesmo. Acha que ela precisa de um pesadelo ambulante para resgatá-la?” Seus olhos, afiados e astutos, desviaram-se para Ronan. “Ronan”, ela chamou, suavemente.

Foi toda a permissão de que ele precisava.

Ele se moveu. Não foi a investida desajeitada de Rust, mas o passo fluido e explosivo de um caçador. Ele cortou um caminho na diagonal, não diretamente para ela, mas para interceptar sua rota em direção aos campos escuros e abertos além da estrada — um caminho para a morte certa por exposição ou por carniceiros. Ela o viu chegando e tentou desviar, a respiração presa em um soluço aterrorizado.

Ele a encurralou contra o casco retorcido de um dos veículos de escolta, com o metal ainda quente. Não havia mais para onde fugir. Suas costas pressionavam o aço quente e amassado, seu peito arfando.

Os olhos dele queimavam nos dela. Não eram gentis, mas estavam focados e intensos, segurando o olhar dela com uma força inegável. “Calma”, disse ele; sua voz era um comando baixo e ressonante que vibrava no espaço entre eles.

A mão dela, tremendo violentamente, surgiu de trás da dobra de sua saia rasgada. Ela segurava um fragmento de metal, um pedaço dos destroços que ela havia pegado, com a borda afiada e irregular. Ela o segurava como uma adaga, apontando para ele. “Não! Não faça isso!”, ela implorou, a arma balançando em seu aperto.

Ele não recuou. Ele nem olhou para a arma improvisada. Seus olhos permaneceram fixos nos dela. Em um movimento rápido e sem esforço, sua mão disparou e fechou-se em torno do pulso dela. Não foi um aperto brutal, mas uma gaiola imóvel. O aperto dela, enfraquecido pelo choque e pelo medo, relaxou instantaneamente. O fragmento de metal caiu no chão; o som foi minúsculo e patético na vasta quietude do campo de batalha.

Ele não soltou o pulso dela. Seu aperto era firme, ancorando-a, parando os tremores violentos que sacudiam todo o seu corpo. Ele deu meio passo à frente, seu porte grande bloqueando os destroços em chamas, os corpos mortos, o mundo inteiro. O cheiro dela — perfume caro, fumaça e o ferro de seu próprio sangue — preencheu seus sentidos.

“Calma”, ele murmurou, sua voz baixando para um tom surpreendentemente e perigosamente gentil. Era um tom que sua equipe raramente ouvia, uma voz feita para domar coisas selvagens e assustadas. Ele usou o polegar para acariciar um círculo lento e deliberado na parte interna do pulso dela, onde seu pulso martelava como um pássaro preso contra sua pele. “Eu não vou te machucar.”

Os olhos arregalados e aterrorizados dela buscaram o rosto dele, procurando pela mentira, encontrando apenas uma verdade nua e desconcertante. Ele não tinha motivos para mentir.

O olhar dele desviou dos olhos dela para o corte em sua testa. Ele soltou o pulso dela, e seus dedos, surpreendentemente calejados, mas agora incrivelmente gentis, subiram para afastar uma mecha de cabelo do ferimento. O toque dele era como uma marca, ao mesmo tempo chocante e tranquilizador.

“Você está sangrando”, disse Ronan, sua voz não passando de um sussurro.

E naquele momento, cercada por fogo e morte, mantida em cativeiro por um homem que era a personificação de tudo o que ela sempre temeu, Zinnia sentiu o primeiro fio frágil de algo que não fosse terror. Era a percepção aterrorizante e inegável de que o próprio diabo acabara de encontrá-la e, em seus olhos ardentes, ela talvez tivesse acabado de encontrar o único lugar seguro que restava no mundo.

O ar na estrada arterial era um coquetel fétido de plásticos queimados, combustível derramado e o cheiro doce e metálico de sangue. O silêncio após o rugido dos motores era profundo, quebrado apenas pelo estalar de um fogo moribundo. A equipe de Ronan se espalhou, uma máquina bem azeitada avaliando os danos, mas sua atenção estava dividida, constantemente puxada de volta para a cena que se desenrolava contra o veículo de escolta destruído.

O mundo de Zinnia havia se restringido ao homem que a mantinha ali. O aperto dele em seu pulso era como ferro, mas seu polegar acariciando sua pele era um contraponto enlouquecedoramente gentil à violência da última hora. A adrenalina que fora como um raio em suas veias estava entrando em curto-circuito, deixando para trás uma vulnerabilidade aterrorizante. Sua respiração falhou, com perguntas caindo em um fluxo frenético e quebrado.

“Quem é você…? Por quê… o quê? Por que fomos atacados? O que vocês querem de mim? O que *é* este lugar?” Sua voz subiu a cada pergunta, entrecortada por um tremor que ameaçava se transformar em um soluço. Seus olhos grandes e escuros iam do rosto impassível de Ronan para o grupo bizarro que os cercava. Era um circo dos condenados, e ela era a atração principal.

A equipe se reuniu em um semicírculo aberto, uma coleção de figuras intimidadoras e incompatíveis que pareciam totalmente sem saber como lidar com aquele pedaço específico de dano colateral.

Foi Switch quem se moveu primeiro, sua abordagem silenciosa e deliberada. Ela se movia como a água, não como uma ameaça, mas como uma presença. Ela parou a alguns metros de distância, as mãos levemente caídas ao lado do corpo.

“Você está sangrando bastante”, disse Switch, sua voz calma e melódica, um contraste gritante com a aspereza dos outros. Ela gesticulou para a própria têmpora. “Bem ali. Meu nome é Switch. Qual é o seu?”

A pergunta era tão normal, tão mundana em meio à carnificina, que cortou o pânico de Zinnia por um segundo. “Z-Zinnia”, ela gaguejou.

Lá de cima, no teto amassado da limusine, onde examinava os buracos de bala, Sprocket soltou um assobio baixo. “Zinnia. Nome legal. Como a flor. São bem resistentes, essas aí.” Ela empurrou seus óculos de proteção para a testa, revelando um par de olhos brilhantes e curiosos. “Significa ‘pensando em amigos ausentes’ naquela linguagem antiga das flores. Estranho, né?”

O comentário aleatório foi tão bizarro que era quase reconfortante. O olhar de Zinnia passou para ela, depois para o gigante imponente que a havia assustado primeiro.

Rust deu um passo cuidadoso à frente, seus movimentos lentos e deliberados, como se tentasse imitar a gentileza de um homem cinco vezes menor. Ele abaixou a cabeça, um gesto estranhamente respeitoso vindo de um homem daquele tamanho. “Eu sou Rust”, ele resmungou, sua voz como pedras sendo trituradas. “Sinto muito se a assustei.” O pedido de desculpas soou estranho em sua língua, praticado, mas sincero.

Zinnia apenas olhou para eles, sua mente lutando para processar. A infiltradora graciosa, a mecânica inquieta no teto, o gigante gentil… seus olhos arregalados e descrentes finalmente pousaram de volta em Ronan, com uma expressão que gritava: *Que porra de circo é este?*

Os lábios de Ronan se curvaram no menor indício de um sorriso. Ele viu o cálculo nos olhos dela, o intelecto afiado tentando categorizá-los mesmo através do terror. Ele não disse nada, deixando que as tentativas bizarras e não planejadas de sua equipe para confortá-la fizessem o trabalho por ele.

Foi então que a queda da adrenalina a atingiu como um golpe físico. O tremor que estava limitado às suas mãos espalhou-se por todo o seu corpo em uma onda violenta. Sua visão turvou, os rostos da equipe borrando-se em manchas de cor e sombra. A força drenou de suas pernas.

“Eu preciso… preciso ir para o meu seminário…”, ela murmurou, as palavras arrastadas enquanto tentava se afastar do aperto de Ronan. Era um último e desesperado apego ao mundo que ela conhecia, um mundo de palestras e horários que agora parecia estar a milhões de quilômetros de distância.

Suas pernas cederam.

“Ah, merda”, exclamou Sprocket lá do teto.

Mas Zinnia não bateu no chão. Os braços de Ronan se moveram mais rápido do que o pensamento, segurando-a enquanto ela desabava. Ela caiu contra o peito dele, um peso morto, com a cabeça pendendo para trás. O mundo escureceu.

Por um momento, havia apenas o som do fogo.

“Bem”, disse Chip, quebrando o silêncio enquanto emergia do outro lado da limusine, com um tablet de dados na mão. Ele estava inventariando os mortos. Ele olhou para a mulher aninhada, inerte, nos braços de Ronan, depois para o rosto de seu líder. “Isso complica as coisas.”

“Os sinais vitais dela?” A voz de Ronan era cortante, puramente profissional, mas seus braços eram cuidadosos, ajustando o peso dela.

Gibbs materializou-se das sombras perto das motocicletas, com seu próprio tablet já em mãos. Ele não precisava que lhe pedissem. “Frequência cardíaca elevada, respiração superficial indicativa de resposta ao estresse agudo e provável síncope. A laceração na cabeça parece superficial, mas requer limpeza e fechamento para evitar infecção.” Ele a examinou por cima dos óculos. “Ela também está em choque. A hipotermia é um fator de risco.”

O maxilar de Ronan endureceu. Ele olhou para a mulher em seus braços. Zinnia. Seu rosto estava pálido como o luar contra o couro escuro de sua jaqueta; o sangue em sua testa era um corte carmesim chocante. A arquitetura delicada de suas maçãs do rosto, o movimento de seus cílios contra a pele — ela parecia uma boneca de porcelana quebrada. Uma possessividade feroz e inesperada surgiu em seu estômago.

“Não vamos deixá-la aqui”, afirmou. Não foi uma pergunta.

“Os Revenants podem voltar para limpar o local”, observou Rust, sua mente prática já focada na ameaça. “Uma testemunha é um problema.”

“Ela não é uma testemunha”, disse Ronan, seu olhar ainda fixo em Zinnia. “Ela é um prêmio. Eles atacaram o comboio errado. Eles estavam atrás de um pagamento corporativo. Eles conseguiram… isto.” Ele finalmente olhou para cima, seus olhos varrendo sua equipe. “O erro de Silas é o nosso ganho.”

“O que vamos fazer com um… um ‘prêmio’ como esse, Chefe?”, perguntou Sprocket, deslizando do teto e aterrissando com um baque leve. “Ela não é exatamente uma carga. Ela vai acordar.”

“Nós a levaremos para o Den”, decidiu Ronan. “Switch, você vai comigo na minha moto. Preciso que você a segure. Rust, você dirige o caminhão. Vamos colocá-la na parte de trás. Sprocket, acomode-a com o que encontrar dos destroços. Chip, faça uma varredura na área. Quero todos os tablets de dados e unidades de comunicação desses corpos. Descubra quem ela é, com quem deveria se encontrar. Gibbs, você cuida da limpeza. Faça com que pareça um simples ataque de assalto, sem sobreviventes.”

A equipe entrou em ação; o breve momento de incerteza foi substituído pela clareza das ordens. Rust saiu para pegar o caminhão pesado e blindado que usavam para aquisições maiores. Sprocket começou a puxar o estofamento e o material de isolamento acústico da limusine destruída, montando uma maca improvisada, porém macia, na carroceria do caminhão.

Enquanto Ronan levava Zinnia em direção ao caminhão, Switch acompanhou seus passos. “Ela não é um carregamento de refrigerante ou uma caixa de armas, Ronan”, ela disse baixinho, sua voz apenas para ele.

“Eu sei o que ela é”, ele respondeu, com a voz baixa.

“Sabe mesmo?”, insistiu Switch. “Porque essa expressão no seu rosto… nunca vi isso antes. Você não estava olhando para um prêmio. Você estava olhando para um quebra-cabeça.”

Ronan não respondeu. Ele chegou ao caminhão onde Rust segurava o portão traseiro aberto. Com uma gentileza surpreendente, ele deitou Zinnia na maca acolchoada que Sprocket havia feito. Sua cabeça descansava sobre um monte de forro de seda rasgado, seu cabelo escuro espalhado ao redor. Mesmo inconsciente, havia uma dignidade profunda nela.

Ele ficou por um momento, olhando para ela. O corte em sua testa ainda sangrava. Ele tirou sua jaqueta de couro pesada, revelando os músculos definidos e as tatuagens de seus braços. Ele dobrou a jaqueta e a colocou cuidadosamente sob a cabeça dela, um gesto tão contraditório com a brutalidade ao redor que até Rust piscou.

“Dirija suave, Rust”, ordenou Ronan, com a voz áspera. “Nem um único solavanco.”

Rust apenas assentiu, com sua expressão ilegível.

Enquanto Ronan se virava para caminhar em direção à sua motocicleta, Sprocket aproximou-se dele com um trapo sujo de graxa nas mãos. “Então… estamos no negócio de sequestro agora?”, perguntou ela, com o tom leve, mas os olhos sérios.

Ronan parou e olhou de volta para o caminhão, para a mulher deitada, indefesa, em sua barriga escura. O vento aumentou, trazendo o perfume dela — algo como jasmim que floresce à noite e ozônio — através do fedor de morte.

“Não”, disse Ronan, com uma estranha e nova certeza na voz. “Estamos no negócio de aquisições. E eu acabei de adquirir algo muito mais valioso do que qualquer um de nós percebeu.” Ele passou a perna sobre sua moto, o motor rosnando ao ganhar vida sob ele. “Agora, vamos levar nosso novo ativo para casa.”