Capítulo 1 - Voltando para Casa
Laramie sempre cheirava a poeira e sálvia quando o vento soprava.
Chloe Reeves estava de pé nas tábuas de madeira tortas da arquibancada do recinto da feira, com os dedos enfiados nos bolsos da jaqueta jeans, observando os corredores de barril de sexta à noite dispararem pela arena. O sistema de som chiou, crianças gritavam por causa do algodão-doce, o cachorro de alguém latiu no estacionamento, e as luzes sobre a terra brilhavam naquele amarelo barato e específico que significava lar.
Ela tinha passado quatro anos fora, correndo atrás de um diploma e de um relacionamento ruim em Denver, e depois mais dois pulando entre estágios e empregos de escritório que faziam seus dentes doerem. No fim das contas, Laramie a puxou de volta de qualquer maneira. Aluguel barato, rostos familiares, montanhas no horizonte. Seu pai sempre dizia que esta cidade tinha um jeito de manter seu povo, de um jeito ou de outro.
Ela não se importava tanto com isso esta noite.
O ar estava fresco, o pôr do sol estava tranquilo, e ela quase tinha conseguido esquecer que havia um nó no peito que não tinha nada a ver com empréstimos estudantis e tudo a ver com dois garotos que partiram em uniformes de gala e não voltaram exatamente os mesmos.
“Toc toc”, uma voz arrastada disse atrás dela. “Este lugar está ocupado, ou você ainda está chique demais para nós, locais?”
Chloe se virou, já sorrindo.
“Aaron Blake”, ela disse. “Você ainda está usando as mesmas cantadas do segundo ano?”
Ele sorriu, de forma lenta e torta. Os mesmos olhos azuis penetrantes. A mesma covinha na bochecha esquerda que sempre a irritava ao aparecer quando ele estava prestes a ganhar uma discussão. O uniforme tinha sumido, substituído por uma camisa de flanela escura com as mangas dobradas, jeans desbotados na medida certa, botas empoeiradas do estacionamento. Ele deixou o cabelo crescer um pouco desde o ensino médio, e a barba rala no queixo combinava com ele mais do que deveria.
“Ei, elas funcionaram, não foi?”, ele disse, subindo para sentar ao lado dela.
“Nós fomos ao baile porque sua caminhonete não ligava e eu fiquei com pena de você”, ela o lembrou.
“E isso é mentira”, ele disse tranquilamente. “Você foi ao baile comigo porque minha mãe te mostrou fotos de bebê e você percebeu que ninguém mais ia te aguentar dançando fora do ritmo as músicas de Garth Brooks.”
“Isso é difamação, Marine.”
“Ex-Marine”, ele corrigiu. “E você ainda não negou a parte da dança.”
Ela deu um encontrão com o ombro no dele. “Você está bem.”
Ele ficou sério apenas uma fração, estudando o rosto dela. “Você também, Clo.”
Isso fez coisas com ela que ela não queria examinar muito de perto agora.
“Há quanto tempo você voltou?”, ela perguntou.
“Alguns meses”, ele disse. “Tenho trabalhado com meu tio perto de Wheatland. Cercando terreno, fingindo que sei consertar as coisas. E você?”
“Voltei em junho”, ela disse. “Trabalho com fotos. Bebês, casamentos e, de vez em quando, fotos de fazenda quando alguém quer que suas vacas pareçam dramáticas.”
Ele riu. “Isso combina com você.”
Ambos ficaram em silêncio quando um cavaleiro passou correndo, o cavalo levantando poeira.
Chloe observava Aaron, em vez disso.
Ele estava mais largo do que aos dezoito anos, os ombros preenchendo a camisa, antebraços com músculos novos pelo trabalho e pelo inferno que o Corpo de Fuzileiros o fez passar. Havia linhas nos cantos da boca dele que não apareciam quando ele sorria, mas elas estavam lá se ela olhasse tempo o suficiente. Pequenos fantasmas. Prova de que o tempo entre o “a gente se vê por aí” e o “bem-vindo de volta” não tinha sido gentil.
“Você vai me contar algum dia?”, ela perguntou finalmente.
Ele não fingiu que não entendeu. “Contar o quê?”
“O que aconteceu lá.”
Ele esfregou o polegar ao longo do joelho esfolado de seu jeans. “Talvez.”
“Talvez quando?”
“Quando eu descobrir como dizer isso sem você me olhar desse jeito.”
“Desse jeito como?”
“Como você está agora”, ele disse calmamente. “Como se estivesse a três segundos de chorar.”
Ela engoliu em seco. “Não estou.”
Ele lançou um olhar para ela.
Ela soltou o ar. “Tudo bem. Talvez eu esteja. Mas não é porque você está quebrado ou algo assim. É porque... eu não sei. Você partiu como uma pessoa e voltou como alguém que eu tenho que conhecer de novo.”
Ele ficou quieto por um longo momento.
Então, ele estendeu a mão e entrelaçou seus dedos, como se fosse a coisa mais fácil do mundo.
“Eu ainda sou eu, Clo”, ele disse. “Só com mais histórias.”
O coração dela bateu forte contra as costelas.
“Ok”, ela disse levemente, fingindo que seu pulso não estava tentando subir pela garganta. “Então é melhor começar a contá-las.”
Ele apertou a mão dela, mas não falou.
O locutor chamou um intervalo. As crianças correram para a barraca de lanches. Alguém derrubou um refrigerante algumas fileiras abaixo e praguejou alto o suficiente para ganhar um olhar feio da avó.
Atrás da arquibancada, o motor de uma moto rugiu.
O estômago de Chloe deu um solavanco estranho e traidor.
“Você vai dar um oi para ele algum dia”, Aaron perguntou, “ou planeja se esconder atrás desse estado emocional delicado a noite toda?”
Ela fez uma careta. “Não estou me escondendo.”
“Você está se escondendo, sim”, ele disse. “Você ouviu a moto dele do estacionamento.”
“Não ouvi.”
“Você o viu antes de mim.”
Ela se irritou. “Eu só... ele tem uma presença muito barulhenta.”
“E o escapamento”, disse Aaron. “Não esqueça os canos.”
Outro motor cortou, desta vez mais perto. Ela ouviu risadas, o murmúrio baixo de vozes masculinas, o familiar “Irmão”, dito quase como um rosnado, em cumprimento.
Então botas tilintaram nos degraus de metal da arquibancada.
Aaron se virou, com o sorriso já no rosto. “Falando no diabo. Ou no pastor.”
“Não me chame assim na frente de civis”, o homem atrás deles disse.
O pulso de Chloe disparou.
Ela se virou.
Jack Shepard — apenas “Shepard” para quase todo mundo agora, e “Jack” apenas para os poucos que o conheciam antes do Corpo de Fuzileiros e do clube — estava um degrau abaixo da fileira deles, com uma mão no corrimão.
Ele tinha crescido, esguio e rígido, a camiseta preta esticada sobre um peito esculpido por anos de punição. Seu colete — um colete de couro preto com o emblema do lobo enrolado dos Wind Wolves MC — estava aberto. Havia graxa em seus nós dos dedos, um corte quase cicatrizado na maçã do rosto e uma luz em seus olhos que não tinha diminuído, apenas se tornado mais afiada.
“Ei, Clo”, ele disse, a boca inclinando-se de um jeito que parecia uma memória muscular direto do ensino médio.
“Ei, Jack”, ela conseguiu dizer.
O jeito como o olhar dele percorreu brevemente o corpo dela e depois voltou para o rosto, fez mais pelo seu sistema nervoso do que os próximos três barris.
“Você voltou”, ela disse, porque o cérebro dela aparentemente tinha esquecido como ser descolada.
“Estou de volta desde março”, ele disse. “Alguém não lê minhas mensagens.”
Ela corou. “Alguém trocou de número e só avisou o Aaron.”
Aaron ergueu as mãos ainda unidas. “Eu sou o favorito. Você já sabia disso.”
Jack bufou. “Mentira. Você só é o que mais me amola.”
Ele se impulsionou para a fileira deles e sentou do outro lado de Chloe, como se pertencesse àquele lugar. Suas coxas roçaram a perna dela, calor atravessando o jeans. O couro do colete rangeu quando ele se inclinou para frente para assistir à arena.
“Você está bem, Reeves”, ele disse.
“Nem comece comigo”, ela disse automaticamente.
Ele sorriu, de forma lenta e maliciosa. “Aí está ela. Eu estava preocupado que a vida na cidade tivesse te deixado mole.”
“Algumas de nós evoluíram além de puxadas de trator e cerveja barata”, ela murmurou.
“Uh-huh”, ele disse. “E, ainda assim, aqui está você. O mesmo recinto da feira. As mesmas botas.”
Ela olhou para suas botas de cowboy azuis, já gastas, e se recusou a corar novamente.
Aaron apertou a mão dela e então, com uma naturalidade quase suspeita, soltou seus dedos.
Ela lançou um olhar para ele.
Ele apenas deu de ombros, com os olhos na arena. “Preciso da minha mão livre para a pipoca. Negócios importantes.”
“É. Claro.”
Os três sentaram em uma fileira — ela entre eles, exatamente como nos velhos tempos. No último ano, eles estavam de cada lado dela em todos os refeitórios, em todas as caçambas de caminhonete, em cada fardo de feno que tinham transformado em sofá improvisado sob as estrelas.
Só que agora havia mais tinta na pele deles, mais sombras nas bordas de seus sorrisos e um colete de couro em Jack que significava problemas em uma língua que ela ainda não falava completamente.
Ela apontou para o peito dele. “Então. Esse novo acessório.”
Ele olhou para baixo, como se tivesse esquecido que estava lá. “Isso?”
“Não, o outro colete de couro estampado com animais selvagens agressivos”, ela disse. “É, esse mesmo.”
“Wind Wolves”, ele respondeu. “Capítulo local. Veteranos, na maioria. Fazemos passeios beneficentes, segurança, alguns fretes.”
“Então você entrou para um motoclube que faz venda de bolos”, ela disse com ironia.
Aaron bufou.
Um sorriso surgiu no canto da boca de Jack. “Algo assim.”
Ela deixou seu olhar percorrer a costura. O emblema inferior dizia LARAMIE. O emblema acima do coração dizia VICE PRESIDENT.
Sua barriga deu um frio estranho.
“VP?”, ela perguntou. “Eles realmente deixam sua bunda mandona ficar no comando das coisas?”
Os olhos de Jack encontraram os dela. “Eles me deixam proteger meu povo. Isso me serve muito bem.”
Havia um peso por trás disso. Algo não dito sobre irmãos que não voltaram para casa, sobre a necessidade de construir muros ao redor do que restou.
Ela não cutucou o assunto. Ainda não.
“Você anda muito de moto?”, ele perguntou.
“Não desde o penúltimo ano”, ela disse. “Da última vez que subi na garupa da sua moto, meu pai quase teve um infarto.”
“Ele estava mais preocupado com a sua saia”, Jack observou. “Ficou gritando sobre o vento e a tentação.”
“Porque você era uma tentação”, disse Aaron. “Eu era o bom moço. Lembra?”
Jack riu. “Era você quem a tirava pela janela escondido, cara.”
“Eu estava resgatando ela do toque de recolher”, Aaron corrigiu. “Uma grande diferença.”
Chloe ouviu os dois discutirem e sentiu algo quente se instalar na base de sua coluna.
Isso.
Disso ela se lembrava. Esse vai e vem fácil, esse pertencimento, essa sensação de que os três formavam algo que parecia certo.
O locutor pediu uma pausa antes da última bateria. As pessoas começaram a se levantar e se espreguiçar.
Jack levantou também. “Vou pegar um refrigerante. Quer alguma coisa?”
“Limonada?”, ela pediu.
Ele assentiu. “Como sempre.”
Ela piscou. “Você lembra disso?”
Ele lançou um olhar que dizia que ela tinha perguntado algo ridículo. “Claro que lembro.”
Ele desceu os degraus, com seus ombros largos abrindo caminho pela multidão.
Ela o seguiu com o olhar um segundo a mais do que o necessário.
Ao lado dela, Aaron disse baixinho: “Você sabe que ele perguntou sobre você logo de cara, né?”
Ela desviou os olhos. “Quando?”
“Quando eu cheguei”, ele disse. “Antes mesmo de sairmos de Cheyenne. ‘Como está a Chloe? Ela ainda tira fotos de tudo? Ela ainda está puta da vida com o mundo?’ Coisas assim.”
Sua garganta apertou. “Eu não estou puta com o mundo.”
“Você estava”, disse Aaron. “Às vezes você ainda está. É uma das muitas coisas que amamos em você.”
“Nós?”, ela repetiu.
Ele deu de ombros. “Você sabe como é.”
Ela sabia. E não sabia.
Ela sabia que, aos dezessete anos, houve noites em que ficou deitada na cama olhando para o teto, desejando que fosse mais simples. Que ela gostasse de um deles de forma clara e não dos dois de maneiras diferentes e enlouquecedoras. Que seu coração escolhesse um caminho e ficasse nele.
No fim, a escolha foi feita pelo tempo, pelo medo e pelo fato de Aaron ter a beijado primeiro atrás da arquibancada na formatura, enquanto Jack estava no treinamento básico.
Agora aqui estavam eles. Mais velhos. Marcados. De volta à mesma cidade com novos papéis e velhos fantasmas.
Jack subiu de volta, entregando a ela um copo de plástico transparente com uma rodela de limão boiando no topo.
Ela tomou um gole.
Perfeito. Azedo, gelado e exatamente como ela gostava.
“Obrigada”, ela disse.
“Disponha”, ele falou.
Ela olhou entre os dois — Aaron recostado, com um braço estendido atrás dela na arquibancada, Jack sentado à frente, com os cotovelos nos joelhos, dedos tamborilando levemente nas coxas. Duas metades de uma história que ela ainda não tinha descoberto como escrever.
O vento soprou, trazendo o cheiro de chuva e escapamento de motor.
O locutor chiou nos alto-falantes, chamando o próximo grupo de competidores para a rampa. O recinto da feira mudou ao redor deles — crianças correndo atrás de lanches, casais se espreguiçando, o cheiro de poeira e pipoca doce pairando na brisa.
O celular de Jack vibrou. Ele verificou, a expressão ficando um pouco mais tensa.
“Presidente”, ele disse, guardando o aparelho no colete. “Tenho que ir.”
Aaron levantou também, tirando a poeira da calça jeans. “Acho que isso significa que vou com você.”
Chloe piscou. “Você?”
Ele deu um sorriso charmoso. “Prospects não dizem não quando o VP é convocado.”
Jack bufou. “Prospects mal conseguem respirar sem permissão.”
Aaron colocou uma mão dramática no peito. “Abuso. Testemunhado por Chloe Reeves. Registrem isso.”
Jack revirou os olhos e desceu um degrau da arquibancada.
Aaron demorou um pouco mais.
Ele se virou para Chloe, apoiando o antebraço casualmente no parapeito, com os olhos quentes sob a luz que se apagava.
“Ei”, ele disse baixinho, “antes da gente ir... quer jantar comigo algum dia?”
O coração dela disparou.
“Ah”, ela disse. “Eu... sim. Sim, eu gostaria.”
O sorriso dele se abriu de forma lenta e satisfeita, aquela bendita covinha aparecendo na hora certa. “Amanhã? Às sete? Eu passo para te buscar. No Chevy, não na moto. Sabe como é, primeiras impressões são importantes.”
Ela riu. “Você acha que aparecer no seu Chevy velho conta como uma boa impressão?”
“Conta se eu for quem estiver dirigindo”, ele disse, com os olhos brilhando.
Ele pegou a mão dela, roçando o polegar sobre seus nós dos dedos — gentil, doce, o suficiente para fazer a respiração dela falhar.
“Eu te mando mensagem”, ele murmurou.
“Okay”, ela sussurrou.
Ele soltou a mão dela — relutante.
Jack subiu de volta um degrau, o suficiente para falar com ela. “Chegue bem em casa, Chloe.”
Sua voz era calma. Firme. Familiar.
Ela assentiu. “Vou sim.”
Jack manteve o olhar dela um pouco mais do que o necessário — havia algo de cúmplice em sua expressão — mas então ele se virou e desceu os degraus, com as botas batendo no metal.
Aaron o seguiu, mas não antes de olhar por cima do ombro e dar uma última piscadela que fez a barriga dela revirar.
Chloe os observou atravessar o cascalho em direção às motos — Jack caminhando com aquele passo confiante e controlado dele, Aaron saltitando um pouco como se tivesse um segredo que não via a hora de contar.
As motos rugiram ao ligar.
Jack não olhou para trás.
Aaron olhou.
Duas vezes.
E quando Chloe finalmente tirou os olhos da nuvem de poeira que deixaram para trás, um calor estranho se instalou em seu peito. Algo familiar. Algo novo.
Algo inevitável.
Lá no estacionamento, Aaron correu para alcançar Jack.
“Ei”, ele disse, ofegante. “Ela disse sim.”
Jack continuou andando, com as botas estalando no cascalho. “É. Eu ouvi.”
Aaron sorriu como um homem que tinha engolido o sol. “Você está surpreso?”
Jack balançou a cabeça. “Não.”
Aaron deu um leve empurrão nele. “Você está bem?”
O maxilar de Jack travou uma vez. “Já disse. Ela é toda sua.”
Aaron piscou. “O quê?”
Jack calçou as luvas. “Nada.”
Mas não era nada.
Ele tinha visto — claro como o dia. O jeito que Chloe se iluminava por Aaron. O jeito que Aaron suavizava por ela. O jeito que eles se atraíam naturalmente como ímãs encontrando o seu lugar.
Jack inspirou calmamente, deixando a poeira de Wyoming se assentar em seus pulmões.
Deixe o garoto ter sua chance.
Ela merecia alguém que pudesse lhe dar ternura. Alguém que ainda acreditasse em finais felizes sem complicações. Alguém que não fosse feito de lobos, guerras e todas as coisas que Jack tentava manter enterradas.
“Aaron”, ele disse finalmente, montando na moto, “só não estraga tudo.”
Aaron sorriu enquanto montava na sua própria moto. “Não ousaria.”
Jack acelerou o motor.
Atrás dele, Chloe ainda estava sentada na arquibancada, observando o horizonte.
Ele não olhou para trás.
Ele não precisava.
Ele já sabia como essa parte da história terminava.