Chapter 1
👉História destinada a maiores de dezoito anos.
Alice Collins
"Você vai entrar, escolher um alvo, seduzir, dopar e roubar.
Não pode ser tão difícil.
Você consegue.
Sim, eu consigo.
É perigoso, mas eu consigo.
Eu preciso conseguir. Porque, se eu falhar, estou perdida.
É o que digo a mim mesma quando chego ao local onde tudo vai acontecer: uma boate sofisticada chamada Surrender at Night. Três andares de luxo em uma rua sem saída, no coração de um dos bairros mais ricos de Nova York. Onde só a elite frequenta.
O lugar perfeito para meu objetivo, conseguir dinheiro para sair de Nova York antes que aquele monstro me encontre de novo.
O monstro responsável pelos meus pesadelos e por causa do meu medo fora deles. O monstro pra quem sou um pagamento de uma dívida de jogo que meu pai morto não conseguiu pagar, e de uma obsessão doentia que ele não vai parar de perseguir.
"Por causa dele, tive que abandonar meu emprego, meu apartamento e meu sonho de ser enfermeira para me tornar uma fugitiva.
Agora, meu refúgio é um quarto fétido de um motel barato, onde passo mais tempo matando baratas na cama do que dormindo nela. O quarto está pago só até domingo. Ou seja, só até depois da manhã. Se não conseguir dinheiro essa noite, não só não poderei sair de Nova York, que a razão principal para eu estar aqui essa noite, como vou pro olho da rua porque não tenho mais nenhum centavo para me manter no hotel.
É por isso que não posso falhar essa noite.
Meu celular vibra na bolsinha lateral. Tiro-o e vejo o nome de Pietro piscando na tela.
Pietro é meu antigo vizinho, um criminoso de mão cheia. Vende drogas, falsifica documentos, clona e zera cartões de crédito roubados, age como agiota e ainda fatura comprando e repassando coisas roubadas.
O ingresso, os comprimidos de boa noite cinderela e a identidade falsa, vieram dele.
E tudo isso me custou um absurdo de quinhentos dólares, uma dívida que terei que pagar com o dinheiro que conseguir essa noite. Isso ,e mais vinte por cento do limite do cartão da vítima, que ele vai zerar. É assim que ele trabalha.
Aqui está mais um motivo que não posso falhar. Pagar Pietro.
Sem paciência para ouvi-lo repetir o que já sei " que tenho que pagá -lo ainda essa noite,
recuso a ligação. Tudo que não preciso quando já estou uma pilha de nervos, é de Pietro me lembrando de um dinheiro que ainda não consegui.
Antes de entrar na boate tiro meu espelhinho da bolsa e fico atrás de um carro para checar minha aparência.
A peruca loira, lisa com corte chanel, está impecável. Nenhum fio fora do lugar.
Já o batom vermelho não teve a mesma sorte: estava borrado, vítima do meu maldito hábito de morder os lábios sempre que fico nervosa.
Retoquei com pressa, guardei tudo de volta e segui para a fila.
Cinco minutos depois, estou diante dos seguranças.
Um deles passa um detector de metais pelo meu corpo enquanto o outro verifica minha identidade falsa. Finalmente, pegam meu ingresso e me entregam um cartão de registro de consumo.
Entro na boate.
Estou pronta para a caça.
Ao atravessar o limiar, a música eletrônica invade meus ouvidos. À minha frente, uma pista de dança enorme se estende como um oceano em movimento. As paredes revestidas de veludo vermelho e os lustres de cristal pendurados no teto refletem a luz dourada sobre a multidão que dança, ri e bebe como se fosse o último dia de suas vidas.
Eu, não.
Eu só quero fazer o que preciso e sair.
Me dirijo ao bar - o lugar ideal para ser notada. Sentada em uma banqueta de granito preto, cruzo as pernas e deixo meu olhar vaguear, casual e discreto, em busca de um alvo com uma promessa de uma noite inesquecível que não vai acontecer.
Meus olhos encontram três homens me devorando à distância. Dois estão no bar, o terceiro dança na pista com duas mulheres. Todos jovens, bonitos e fortes. Todos errados. Não são o perfil que procuro. Quero um homem que não seja tão forte.
Desviei o olhar rapidamente, sentindo uma onda de desconforto por estar atraindo atenção demais. E isso era exatamente o que não queria que acontecesse. Bem, eu quero ser notada, mas não tão notada. É perigoso. Você não tem como drogar alguém com tantas pessoas de olho em você.
Não entendo o motivo de tanta atenção masculina sobre mim. Apesar de ter escolhido um vestido vermelho mais justo e curto do que normalmente usaria para parecer sexy, as últimas semanas de dieta forçada - consequência da falta de dinheiro - deixaram meu corpo magro demais, sem curvas ou atrativos que justificassem tanto impacto. Talvez seja a peruca loira, o batom vermelho, ou o exagero no delineador que destaca ainda mais meus olhos azuis?
Ou talvez isso não tenha nada a ver com minha aparência.
Talvez seja só o normal em uma balada, onde homens atiram para todos os lados em busca de um encontro fácil.
E eu não estou familiarizada com isso. Nunca estive em uma balada antes. Na verdade, nunca saí para me divertir antes. Também nunca fui em um encontro.
Desde que cheguei a Nova York,minha vida se resumia a trabalhar incessantemente para me sustentar, pagar o aluguel e juntar dinheiro para a faculdade. Quando iniciei o curso de enfermagem,não tinha tempo pra mais nada mesmo.
Era duro, mas eu não reclamava. Algumas pessoas precisam se esforçar mais do que outras para alcançar seus objetivos,realizar seus sonhos , e eu sou uma delas.
Então o monstro me encontrou e arrancou tudo de mim. Ou melhor, os lacaios dele.
Deixo isso pra lá e volto
a explorar o local. Continuo procurando. Caçando.
E então, algo estranho acontece.
Um arrepio percorre minha nuca, descendo pela espinha e se espalhando como eletricidade por todo o meu corpo. Os pelos do meu braço se eriçam, e uma sensação desconfortável pulsa em mim: a sensação de que estou sendo observada.
Por alguém perigoso, como uma sombra pairando nas minhas costas.
É denso, profundo.
Como se olhos invisíveis escorressem pelas paredes, tocando minha pele, sondando cada movimento meu com uma paciência predadora.
Meu coração dispara.
Será que de uma caçadora me tornei numa presa?
" Deixe de ser paranóica, é só o medo ganhando força. Controle-se.
Sim, é só medo. Isso é ridículo
O plano ainda está de pé.
Essa noite ainda é minha.
Ou pelo menos... é o que tento desesperadamente acreditar.