Ilusão Irresistível

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Resumo

Ela sobreviveu às perdas mantendo o coração trancado a sete chaves. Ele é o queridinho do futebol americano universitário, com tudo a perder. Uma mentira imprudente escancara a porta. Rikki construiu sua vida baseada na resistência, com o luto guardado a fundo, dívidas se acumulando e nenhum espaço para distrações. O romance pertence a outra versão de si mesma, de antes de tudo desmoronar. Quando é encurralada e precisa de um acompanhante para o casamento de seu pai, ela conta uma mentira imprudente, trazendo o passado de volta para o presente ao mencionar a única pessoa que jurou nunca mais precisar. Um quarterback estrela em busca do Heisman e de um título nacional, o talento de George é indiscutível, mas sua reputação está na mira. Mais um escândalo pode custar seu futuro. A solução é simples: uma namorada estável. O problema? A mulher que pode salvar sua carreira é justamente aquela que conhece seus segredos melhor do que ninguém. Com o casamento se aproximando e o campeonato em jogo, o tempo para manter a mentira está acabando. Será que algum deles pode pagar o preço dessa jogada final? ~~Completo~~

Status
Completo
Capítulos
59
Classificação
4.9 11 avaliações
Classificação Etária
18+

Um - Rikki

Sair com alguém é uma merda.

Primeiros encontros, então, nem se fala.

Ou eu fico tentando me vender como se fosse um produto, na esperança de que ele ache alguma coisa em mim interessante o suficiente para me chamar para um segundo encontro, ou as borboletas no meu estômago ficam tão agitadas que parecem ter tomado um litro de café, enquanto eu analiso cada palavra que ele diz e cada toquezinho. Enquanto algumas pessoas sentem uma descarga de adrenalina, eu só fico enjoada, contando os segundos até essa tortura acabar e eu poder me enfiar na minha cama, em paz.

Então, claro, eu evito esse tipo de situação o máximo que posso. E estava indo muito bem, diga-se de passagem.

O que me leva até agora.

Sentada em frente a uma mesa para dois com o cara que minha melhor amiga e roommate, Gwen, encontrou no Plenty of Fish. Com o perfil que ela fez pra mim sem eu saber, porque tinha medo de que eu estivesse virando uma eremita. E eu só aceitei porque… bom, ela podia estar certa.

Mas agora, depois de cinco minutos de silêncio constrangedor enquanto o Fred não tirou os olhos do celular nem por um segundo, talvez eremita seja a melhor opção mesmo.

“Então, hã”, cocei a têmpora, tentando me lembrar do resumo que a Gwen tinha me dado dez minutos antes do encontro. “Você trabalha com TI. Como é isso?”

Ele deu de ombros, o cabelo ruivo desgrenhado balançando com o movimento. “É tranquilo.”

O Fred nem se deu ao trabalho de tirar os olhos do jogo. Tentei não ficar curiosa pra saber o que ele achava mais interessante do que um encontro comigo. Mas a curiosidade venceu, e me inclinei um pouco pra frente, tentando dar uma espiada na tela.

Era o Subway Surfers.

Puta merda, um jogo de criança era mais interessante do que eu. Cruzei os braços e afundei na cadeira de madeira.

Bom, só pra você saber, Fred, o Subway Surfers não vai te dar um orgasmo, mas eu posso.

Não que isso estivesse mesmo em pauta. Mas, se estivesse, agora já não estava mais.

Meus olhos passaram por cima dos ombros dele e encontraram o olhar de um casal sentado duas mesas atrás da nossa. A garota de cabelo cacheado preto com mechas caramelo me deu um sorrisão e dois polegares pra cima. Eu devolvi um olhar fulminante.

Claro que não éramos idiotas. Primeiro encontro com um completo estranho que ela catfou na internet se passando por mim? Eu não ia vir sozinha. Queria sair da toca, não ser sequestrada.

Finalmente, o Fred trancou o celular e olhou pra mim. Então vamos ter uma conversa depois de—

“Vou ali no banheiro.” Ele disse, apontando o polegar por cima do ombro e se levantando.

Falei cedo demais.

Assim que ele saiu da mesa, aquela pressão idiota que apertava meu peito desde o começo do encontro, me lembrando que eu tinha coisas mais importantes pra fazer do que ficar aqui, finalmente aliviou um pouco.

A Gwen ocupou o lugar do Fred num piscar de olhos, com um sorrisinho besta no rosto.

O perfume dela, uma mistura de framboesa e pétalas de íris, dominou o cheiro de pimenta e sálvia que vinha do meu encontro. Respirei fundo, aliviada por não estar mais sentindo aquele fedor de vestiário de colégio, que, infelizmente, eu conheço bem demais.

“E aí, como tá indo?” Ela perguntou, com aquele tom meloso.

“Como é que parece que tá indo?” Respondi, seca. Girei o dedo em volta do meu rosto. “Isso aqui parece a cara de alguém se divertindo?”

Ela inclinou a cabeça pro lado. “Pra ser justa, é a sua cara normal.”

“Idiota”, falei, pegando um potinho de geleia daquela bandejinha preta em cima da mesa e jogando nela, acertando em cheio no peito.

Ela viu o potinho cair na mesa depois do ricochete e o pegou entre os dedos.

“Então, acho que dá pra deduzir que você não vai levar ele como acompanhante pro casamento do seu pai”, a Gwen disse, rolando a geleia na mão.

Ah, agora sim chegamos ao verdadeiro motivo da Gwen catfisar gente como eu na internet. Não era porque ela tinha medo de eu virar uma eremita, afinal.

Endireitei as costas na cadeira e apontei pra ela. “Jacques!”

Ela fez um gesto de desdém. “Por favor, não vem fingir que você não sabia qual era o meu plano desde o começo. Faz meses que eu encho o seu saco com isso.”

É verdade. Só não achei que as reclamações dela sobre como seria mais fácil se eu tivesse alguém do meu lado acabariam com ela me dando um golpe baixo.

Não é que eu não esteja feliz pelo meu pai. Pelo contrário, estou radiante. A Jocelynn é incrível, e nunca vi ninguém combinar tão bem com ele. Não que meu pai seja um gênio, mas ele é meio bruto. E antes da Jocelynn, a única pessoa por quem ele mostrou um pingo de carinho fui eu. Foi bom ver meu pai se apaixonar de novo.

Não, o problema não é a Jocelynn.

“Tive uma ideia.” Estalei os dedos como se tivesse acabado de ter uma epifania, e não estivesse repetindo a mesma coisa pela centésima vez. “Se você tá tão insistente pra eu levar um acompanhante pro casamento, por que você não vai comigo, em vez de me empurrar pra um encontro com um desconhecido?”

“Porque eu provavelmente esfaquearia alguém se ficasse no mesmo ambiente que a Kaylynn. Então, sou um risco.” A Gwen enrolou um cacho no dedo, inocente. “E eu não te obriguei a fazer porra nenhuma.”

“Besteira”, resmunguei. “Você disse, e isso é citação direta: ‘Rikki, se você não sair com esse Fred que eu achei no POF, aquele app que eu fiz uma conta pra você sem você saber, eu vou jogar o seu brinquedinho de rabo de raposa pela janela.’” Olhei feio pra ela. “E o Kurama é edição limitada. Você não me deixou escolha.”

Um sorrisinho malicioso apareceu no canto da boca dela. “Bom, dá pra me culpar? Quando a minha melhor amiga vira uma mártir, medidas desesperadas são necessárias.”

Meus ombros subiram até as orelhas, e meu rosto queimou. “Eu não sou mártir.”

Pelo menos, não é essa a minha intenção. Só quero que meu pai seja feliz. E, considerando que ele sacrificou a própria felicidade por mim durante dezoito anos, é o mínimo que eu posso fazer.

Talvez tenha sido o meu tom que fez a expressão da Gwen amolecer.

“Rikki, como é que você chamaria alguém que nunca contou pro pai que ele tá se casando com a mãe da sua maior bully do colégio?”

Mordi o lábio. “E o que é que eu ia dizer? ‘Pai, eu sei que ela é a sua primeira namorada desde que a mamãe morreu, mas a filha mais velha dela é a garota que me torturou durante os quatro anos do colégio, a ponto de você ter que ir na diretoria toda semana pra me acalmar dos meus ataques de pânico. Ah, e ela também convenceu o time de basquete inteiro a me chamar de Pernas de Elefante.’”

Ao ouvir o apelido antigo, aquele que levei um ano inteiro pra esquecer, esfreguei as coxas.

Os olhos da Gwen se estreitaram, os lábios se apertando. “Eu queria ter te conhecido naquela época. Eu teria—”

“Esfaqueado alguém, eu sei.” Cortei ela, e as duas rimos.

Conheci a Gwen no meu primeiro ano de faculdade, quando dividimos o quarto no dormitório. Nunca acreditei em amor à primeira vista, mas aí conheci a Gwen, e de repente passei a acreditar em almas gêmeas platônicas. A gente se grudou na hora, e não consigo imaginar como sobrevivi aos primeiros dezoito anos da minha vida sem ela.

“Bom, o Plenty of Fish já era. Ouvi falar bem do Hinge e do Bumble.” Os olhos dela brilharam. “E se nada der certo, a gente sempre pode tentar o Farmer’s Only.”

Uma imagem minha puxando feno numa fazenda apareceu na minha cabeça, e estremeci. Eu não nasci pra trabalho braçal.

“E perder outra noite de gorjetas?” Apontei pro salão do bar Rising Ashes, onde eu também trabalho quando não estou em primeiros encontros. Os únicos outros clientes na área do restaurante eram a namorada da Gwen, a Lillian, e outro casal num reservado vermelho lá no fundo, além de três pessoas no balcão. “Tá bombando aqui hoje.”

Mesmo que o lugar estivesse vazio, eu tinha razão. Não tenho tempo pra mais um desses encontros que só desperdiçam minha noite, quando poderia estar ganhando gorjetas na época do futebol. Ainda bem que hoje é quarta, e a noite tá tranquila.

A porta do banheiro masculino se abriu, e eu gemi. A Gwen se virou na direção do meu olhar e me lançou um sorrisinho de gato de Cheshire.

“Divirta-se.”

Mostrei o dedo do meio pra ela enquanto ela saía da cadeira e voltava pra namorada. Quando o Fred voltou pro lugar, tirou o celular do bolso e continuou sua missão no Subway Surfers sem dizer uma palavra.

A Gwen que durma com um olho aberto hoje.

As portas duplas cinzas que levavam pro fundo do bar se abriram à minha esquerda, chamando minha atenção, e meu coração disparou, fazendo-me prender a respiração.

Óculos de aro preto na ponta do nariz e um avental preto amarrado na cintura sobre uma polo vermelha, um pouco justa nos bíceps, era o gerente do bar, Sean. E aquela sensação de borboletas que eu tinha no começo do encontro, e que já tinha sumido, voltou. Só que dessa vez não era enjoo.

O Sean empurrou os óculos pro alto do nariz e passou a mão pelo cabelo preto perfeitamente penteado. E meus olhos seguiram cada movimento, como sempre acontece com ele.

Bom, o Sean com certeza seria alguém que eu convidaria como acompanhante pro casamento do meu pai. A conversa sempre fluiu fácil com ele, já que temos vários interesses em comum, como anime, livros e videogames. Posso ser uma nerd completa perto dele, e ele nerdola de volta, provavelmente um dos motivos pelos quais acabei me apaixonando por ele.

Tipo, ontem à noite mesmo a gente teve um debate enorme sobre Naruto. Ele disse que o Naruto e a Hinata eram o casal perfeito, mas eu tive que lembrar que o único casal que teve algum desenvolvimento na série inteira foi o Naruto e a Sakura. Mesmo estando em lados opostos da discussão, eu não consegui parar de sorrir. Nem aquela sensação de formigamento e leveza no peito passou.

E eu até convidaria ele pra ir comigo, se não fossem tantos empecilhos no caminho.

Tipo, bom, A. Eu nem sei se ele gosta de mim desse jeito. B. Se ele gostasse, ele é meu gerente, e se a gente terminasse como o meu último relacionamento (comigo gritando “nunca mais quero te ver na minha frente”), o trabalho ia ficar meio estranho. E C. Aprendi há muito, muito tempo que não se deve misturar sentimentos românticos com amizade—

“Puta merda, esse não é o George Mercer?” O Fred perguntou, finalmente tirando os olhos do celular pra olhar por cima do meu ombro.

Foi como se um balde de água gelada tivesse caído em cima de mim, fazendo meus músculos se contraírem e me deixando com uma sensação de sufoco, como se todo o ar tivesse sumido dos meus pulmões ao ouvir o nome do meu ex-melhor amigo de infância. Não o vejo desde que ele cortou nossa amizade no primeiro ano da faculdade. E a forma como o Fred disse o nome dele fez parecer que ele estava logo atrás de mim.

Virei devagar, e meus pulmões se encheram um pouco. O George estava atrás de mim, mas era uma foto dele na ESPN. Não tenho certeza se ele está feliz com a imagem que estão mostrando, já que é uma em que ele aparece numa situação comprometedora com uma mulher num bar.

“O quarterback estrela do Denver State Phoenixes, George Mercer, foi flagrado com uma prostituta na segunda-feira”, disse um dos apresentadores da ESPN, e não consegui evitar que meu coração ficasse tão pesado que parecia que ia me derrubar.

Fiquei olhando pra foto do George na tela. Ele estava numa boate, e, pelo que dava pra ver, nada na imagem provava que a mulher era prostituta. Mesmo assim, a foto tinha sido tirada por alguém que claramente sabia mais do que eu. E, sinceramente, quem faz uma coisa dessas em público? Se fosse pra mim, parecia mais atentado ao pudor do que outra coisa.

“Não é a primeira vez que o QB do Reino Unido se mete no meio de um escândalo”, comentou o apresentador.

Apertei o lábio por dentro, me forçando a ficar quieta sobre aquele apelido idiota que a mídia esportiva deu pro George. De alguma forma, a imprensa descobriu que ele era tecnicamente de Wolverhampton, na Inglaterra. Mesmo sabendo que ele coloca Lexingfield, no Colorado, como sua cidade natal. Ele se mudou pros Estados Unidos com cinco anos. Até o sotaque dele já é americano, só escapa umas palavrinhas de vez em quando nas entrevistas.

Desde pequeno, ele só falava em entrar numa faculdade de primeira divisão e correr atrás do Heisman e do título nacional. Ele tá no caminho certo pra conseguir tudo isso esse ano, mas a mídia prefere falar dos escândalos pessoais dele. E ultimamente, ele tem dado muito assunto pra eles. Aquele apelido ridículo também não tá ajudando em nada.

“Dá uma olhada aqui”, disse o apresentador, apontando pra um gráfico com todas as polêmicas em que o George se meteu desde que começou a carreira universitária na UCLA. “Ele foi reprovado num teste antidoping de rotina, com resultado positivo pra maconha no primeiro ano.” Bom, pra ser justa, se ele tivesse 21 anos em vez de 19 na época, não teria sido pego. “Depois, na temporada de calouro na Denver State, logo depois de sair do transfer portal, ele foi flagrado bêbado e menor de idade num bar.” Tá, essa foi feia, mas o barman devia ter conferido a identidade. Aposto que o George nem usou documento falso e só recebeu bebida por causa de quem ele é. “E, claro, teve o incidente enorme do ano passado, quando ele foi preso por dirigir alcoolizado, com níveis acima do permitido tanto de álcool quanto de THC.”

E agora podem adicionar o que quer que ele tenha aprontado dessa vez. Eu tava vendo ele jogar tudo pelo ralo em tempo real. Uma dor apertou meu peito, e esfreguei o lugar sem perceber.

Não aguento mais essa sua dependência, Rikki. Não posso largar tudo pra ficar te paparicando. As palavras do George na nossa última conversa ecoaram na minha cabeça, me lembrando por que eu não devia sentir pena dele.

Mesmo três anos depois, aquelas palavras doíam tanto quanto na época. Em dois meses, perdi minha mãe e meu melhor amigo, e entrei numa espiral sem fim.

Fiquei duas semanas na cama e quase reprovei em todas as matérias do primeiro semestre. Por muito tempo, não consegui ver a luz no fim do túnel. A Gwen, sendo o anjo que é, me tirou dessa. Ela me ajudou a respirar de novo. A aproveitar a vida sem me sentir sufocada. Não falei com ele nem sobre ele desde então.

O que tá cada vez mais difícil, considerando que ele se transferiu pra minha faculdade há dois anos, e eu trabalho num bar esportivo.

Não consegui evitar balançar a cabeça pra tela, decepcionada com a decisão ruim dele. Esse movimento até chamou a atenção do Fred pra mim.

“Você conhece ele?” Ele perguntou.

Virei pra dar atenção total a ele, determinada a olhar só pro Fred enquanto todas as TVs do bar deviam estar mostrando a mesma reportagem, com a foto do George circulando.

“Quer dizer, ele deve vir aqui comer bastante, né?” Pra minha decepção, foi como se a voz dele ficasse mais animada quanto mais falava do George. “Um amigo meu viu ele numa festa de fraternidade ano passado, e ele comeu tipo todos os cachorros-quentes e o molho de queijo com pimenta. Diz que ele não soltou o saco de Doritos o tempo todo.”

Passei a língua pelos dentes. Se ele tava comendo tanto assim, devia estar mais chapado que um papagaio.

Me dei um tapa mental. Eu não devia saber mais essas coisas sobre ele. Bom, não é que eu pudesse esquecer, afinal, em algum momento, eu o conhecia melhor do que a mim mesma. Mas pelo menos não precisava vir à minha cabeça na hora.

Meus olhos voltaram pra foto mais uma vez. Ele até parecia o garoto com quem eu cresci, aquele pra quem eu contava tudo. Mas não vejo mais esse garoto. O George Mercer que eu conhecia não agiria assim.

“Não”, falei, seca. “Não conheço o George Mercer.”