CAPÍTULO 1 — O AVISO DA BOLSA
A carta chega numa quinta-feira de manhã, enfiada debaixo da porta do meu dormitório como uma sentença de morte silenciosa.
A princípio, penso que seja apenas mais um panfleto sobre as próximas feiras de clubes, horas de voluntariado ou qualquer outra coisa que a St. Augustine Academy use para lembrar os bolsistas como eu de que devemos constantemente "retribuir" pelo privilégio de simplesmente existir aqui. Mas então vejo o selo — azul-escuro, em relevo e oficial.
Departamento de Auxílio Financeiro. Aviso Urgente.
Meu coração falha uma batida.
Não. Não, não, não.
Deixo minha mochila cair no chão, com os dedos trêmulos enquanto rasgo o envelope. O papel arranha minha pele. A carta se desdobra como um anúncio de funeral.
“Prezada Srta. Nara Adine,
Sua bolsa de estudos está atualmente sob análise devido a uma irregularidade processual em seu arquivo de residência.
Por favor, apresente-se ao Prédio Administrativo às 10:00.”
Sob análise.
Irregularidade.
Apresentar-se imediatamente.
Meu estômago dá voltas. São apenas 8:15 da manhã e, de alguma forma, já sinto que estou atrasada para minha própria execução.
Leio novamente. E mais uma vez. As palavras não mudam. Minha respiração fica curta, rápida demais, alta demais. Por um momento, o quarto do dormitório parece girar, como se alguém tivesse pegado o prédio inteiro e dado um sacudidela violenta.
Isso não pode estar acontecendo.
Não agora. Não com as provas finais em três semanas. Não com a mamãe já fazendo turnos duplos para cobrir as pequenas taxas que as bolsas nunca cobrem de verdade. Não com tudo o que andei construindo — notas, recomendações, um futuro — equilibrado num fio de navalha.
Aperto a carta como se ela pudesse se dissolver nas minhas mãos.
A última linha queima no meu cérebro.
“A não comparência pode resultar na suspensão imediata dos benefícios da bolsa.”
Sento-me na cama. Minhas pernas parecem não me pertencer. O colchão afunda e range sob o meu peso — fino, velho e cheio de caroços, porque este é o dormitório antigo, o dormitório dos bolsistas, o lugar onde cada som te lembra que você é "sortuda" por estar aqui.
Sortuda.
Certo.
Fecho os olhos com força, tentando acalmar a respiração. Meu coração se recusa a cooperar.
"Ok, Nara", sussurro para mim mesma. "Pense. Provavelmente é um erro. Um problema de arquivo. Um erro de digitação. Eles disseram 'irregularidade processual', não 'você está expulsa'."
Mas irregularidade pode significar qualquer coisa. Um papel faltando. Um formulário de moradia preenchido errado. Uma falha no sistema. Ou — meu Deus — por um segundo, um pensamento horrível cruza minha mente.
E se for o vídeo?
Não. Impossível. Aquele vídeo é de anos atrás. De outra vida. Mal dá para ver alguma coisa. E passei toda a minha adolescência fingindo que ele nunca existiu.
Balanço a cabeça. "Foco."
Mas é difícil focar quando parece que sua vida inteira está sendo espremida por um cano estreito e você está a segundos de explodir.
Forço-me a levantar e pegar minha mochila. Minhas mãos continuam tremendo e deixo cair minha garrafa de água duas vezes antes de conseguir guardá-la. Ótimo. Perfeito. Um desastre antes do café da manhã. A cara da Nara.
O corredor lá fora já está movimentado — estudantes conversando, rindo, comparando notas de testes, falando sobre o clube de debate, esgrima, galas de caridade. Todos os filhos lindos, polidos e privilegiados de CEOs, da realeza e de impérios de biotecnologia.
Abro caminho entre eles.
Ninguém nota a bolsista hoje.
Ninguém nota nunca.
A não ser quando algo dá errado.
O Prédio Administrativo fica do outro lado do campus — um edifício de mármore enorme, com colunas tão altas que parecem tentar tocar o céu. Uma escolha de design ridícula, mas a St. Augustine está cheia dessas. Tudo aqui foi projetado para te lembrar do seu lugar.
Entro.
A recepcionista mal levanta os olhos. "Nome?"
"Nara Adine", respondo com a voz fraca.
Os olhos dela passam para a tela do computador. Então a expressão dela muda — quase nada, mas o suficiente. Um franzir de testa. Um olhar demorado. Como se eu fosse um problema que ela esperava que nunca aparecesse.
"Espere na sala três", ela diz bruscamente.
Sala três.
A sala para onde os bolsistas vão para "avaliações".
A sala onde, no ano passado, disseram aos alunos do terceiro ano que a ajuda financeira deles não seria renovada.
A sala sobre a qual todos cochicham.
Minha garganta fecha.
Caminho pelo corredor, cada passo ecoando alto. Quando chego à porta, empurro-a lentamente, esperando encontrar um pelotão de fuzilamento.
Em vez disso, vejo duas pessoas:
A Sra. Lane, do Auxílio Financeiro.
E o Sr. Carrow, o diretor de habitação.
Ambos sentados. Ambos sérios. Ambos olhando para mim como se eu fosse uma planilha cheia de erros.
"Srta. Adine", diz a Sra. Lane. "Sente-se."
Meus joelhos quase falham, mas consigo sentar-me ereta.
"Revisamos sua documentação de residência", ela começa. "Parece haver uma discrepância."
Minha boca seca. "Uma... discrepância?"
"Sim." Ela desliza uma pasta pela mesa. Meu nome está carimbado em vermelho. Irregularidade. Meu Deus. "Você reside atualmente no Bloco de Dormitórios C, correto?"
"Sim", sussurro.
"E você foi designada para lá no início do ano?"
"Sim."
"E você permaneceu lá desde então?"
Assinto novamente, mas mais devagar.
“Infelizmente”, continua ela, “uma auditoria recente revelou que os alunos bolsistas alojados no Bloco C não estão em conformidade com as novas exigências de residência”.
Atualizadas? Atualizadas quando?
Tento firmar a voz. “Eu… eu não fui informada de nenhuma mudança.”
O Sr. Carrow pigarreia. “Elas foram implementadas na semana passada.”
Semana passada.
Uma semana.
E, de alguma forma, já estou encrencada.
“Entendemos que a culpa não foi sua”, acrescenta ele, em um tom que sugere que não se importa se foi ou não. “No entanto, a administração exige que todos os alunos bolsistas se mudem para os Elite Dorms devido a um remanejamento de espaço.”
Pisco os olhos.
“Os Elite Dorms?”
Devo ter ouvido errado.
“Exatamente”, diz ele. “Bloco de Alojamento A.”
Meu coração para.
O Bloco A é para alunos veteranos, realeza internacional, filhos de bilionários.
Alunos que vestem casacos de grife e riem em idiomas que mal compreendo.
Alunos que poderiam comprar meu bairro inteiro com a mesada semanal deles.
Balanço a cabeça. “Deve haver um erro. Bolsistas não moram no Bloco A.”
“Agora moram”, diz a Sra. Lane com suavidade. “Com efeito imediato.”
Imediato.
A palavra atinge como um soco.
“Mas… mas eu não posso simplesmente me mudar hoje”, digo, com a voz subindo. “Eu tenho aulas, trabalhos, eu… não estou pronta…”
“Isso não será um problema”, interrompe o Sr. Carrow. “Já remanejamos seu quarto.”
Já remanejamos.
Meu pulso dispara. “E quanto à minha colega de quarto? Eu nem conheci…”
“Você conhecerá”, diz ele. “Quando chegar lá.”
A Sra. Lane bate levemente na pasta. “Por favor, assine o formulário de realocação. Não fazer isso pode resultar em… complicações com sua bolsa.”
A ameaça paira pesadamente no ar.
Complicações.
Significado: perder a bolsa.
Significado: perder tudo.
Engulo em seco, sufocando em pânico. Minha mão se move sozinha, pegando a caneta. O papel fica embaçado enquanto assino meu nome.
A Sra. Lane acena. “Quarto 407.”
“407”, repito, entorpecida.
“No Bloco de Alojamento A.”
“Nos Elite Dorms.”
“Com sua colega de quarto designada.”
Forço uma respiração. “Quem é minha colega de quarto?”
Eles trocam olhares.
Não é um bom sinal.
Nada bom.
Finalmente, o Sr. Carrow diz:
“Você vai conhecê-lo quando chegar lá.”
Ele.
Meu coração falha novamente.
“Ele?”
Repito, com a voz falhando.
“Exatamente. Os Elite Dorms operam com quartos mistos.”
Meu cérebro para de funcionar.
Misto.
Dividir o quarto com um garoto.
Um estranho.
Um garoto rico, da elite, de família tradicional.
Alguém que provavelmente acha que pessoas como eu são um estorvo.
Abro a boca, pronta para discutir, mas a Sra. Lane me corta:
“Esta é a única vaga disponível. Por favor, seja grata por termos conseguido garantir que você continue alojada aqui.”
Grata.
Claro.
Minhas mãos se fecham em punhos, com as unhas cravadas nas palmas.
Um minuto inteiro de silêncio paira entre nós.
Então, a Sra. Lane me dispensa. “Pode ir arrumar suas coisas. Apresente-se ao Quarto 407 ao meio-dia.”
Levanto-me com pernas que mal me sustentam.
Ao chegar à porta, o Sr. Carrow acrescenta casualmente, como se isso fosse suavizar o golpe:
“Ah, só mais uma coisa.”
Travo.
“Seu novo colega de quarto é… academicamente exigente. Mas talentoso.”
Uma pausa estranha.
“Não deixe que ele te intimide.”
Algo frio percorre minha espinha.
Viro-me lentamente. “Eu… o conheço?”
O silêncio deles responde antes mesmo das palavras.
O Sr. Carrow pigarreia.
“O nome dele é…”
Meu coração martela.
O ar para na minha garganta.
O tempo desacelera.
Por favor, não. Por favor, não. Qualquer outra pessoa. Alguém…
“—Alister Kane.”
O mundo se estreita em uma única e horrível constatação:
Estou me mudando para um quarto
com meu pior inimigo
o garoto que me humilhou
o tirano de ouro da academia
meu rival acadêmico
a pessoa que jurei evitar a todo custo.
Alister Kane.
Meu novo colega de quarto.
Minha visão escurece nas bordas.
“Com efeito imediato”, repete a Sra. Lane.
Apoio-me contra o batente da porta, com os dedos trêmulos.
Vou morar com ele.
Este dia acaba de se tornar o começo do fim.
Ou — que Deus me ajude — o começo de algo muito, muito pior.