Roller Rink🌶️
Ione Everbloom
Sudarolis, 1984
Chamavam aquilo de “o Bizarro Luxurioso” porque “foder em público numa pista de patinação” não soava tão bem. Na primeira vez que entrei, quase escorreguei num pacote de camisinha e caí de cara no colo de um Minotauro. O que, em Luxuria, era a maneira correta de se apresentar. O ar estava pesado de feromônios, e as luzes neon distorciam cada superfície num sonho febril de rosas, turquesas e azuis pulsantes e maldosos. No centro de tudo aquilo — patins nos pés, saia curta, lábios besuntados de brilho labial de cereja — estávamos todas competindo pelo título de vadia mais imprudente e que se foda.
Amanhã seria a Cerimônia de Atribuição. O fim de uma vida, o início de outra, e cada ninfa em Luxuria estava determinada a aproveitar a última gota de liberdade. Antes de sermos encaixotadas e enviadas para qualquer centro de reprodução que tivesse ganhado o privilégio de ter nossos corpos. Eu podia fingir que estava acima disso, mas a verdade é que eu desejava o caos tanto quanto qualquer outra ninfa.
Eu patinava porque era a única coisa que me fazia sentir no controle. Que me deixava leve e livre por um segundo que fosse. Mas esta noite, Luxuria estava saturada de turistas que vieram para a cerimônia. Cada macho babando para provar o último suspiro de alguma ninfa. Eu estava lá para patinar, talvez para foder, mas principalmente para me lembrar de quem eu era — ou tinha sido — antes de me tornar uma mercadoria com pulsação.
Encontrei Bea encolhida em uma cabine, com os olhos vermelhos e vidrados, e o braço de um sátiro em volta de seus ombros, de forma protetora. No começo, ela não me viu; estava encarando um panfleto brilhante, piscando como se as palavras pudessem mudar de lugar sozinhas.
Bati na cabine com um baque, lançando um olhar duro para o sátiro. “Tudo bem, Bea?”
Bea não respondeu de imediato. Ela empurrou o sátiro com um movimento de pulso e deslizou o panfleto pela mesa grudenta. “Olha essa merda”, disse ela, com a voz sem emoção.
Olhei para baixo. Era o programa oficial da Cerimônia de Atribuição, brilhante e em tons pastéis, com o rosto de cada ninfa alinhado em fileiras, como num anuário do inferno. Lá estava minha foto, olhos verdes grandes e um sorriso tão forçado que eu quase podia ouvir a ameaça do fotógrafo: “Mostre os dentes ou vou te fazer refazer”. Ao lado, minha especialidade: Produção de Brilho, com uma pequena silhueta de unicórnio. Fofo. Procurei por Bea. Sua foto estava inexpressiva, nada impressionada, com o cabelo um emaranhado de musgo murcho. Sua especialidade: Criação de Sátiros. Mas, abaixo, havia uma lista — recomendações, vagas, ou o que quer que chamassem para os criadores que fariam lances por nós amanhã.
Dizia: Primário: Criação de Goblins, Secundário: Criação de Orcs, Criação de Sátiros.
“Você pegou goblin como sua recomendação principal?”
Ela arrancou o panfleto da minha mão, amassando a ponta brilhante. “Eu fiz os créditos extras. Eu fiz os porra dos estágios. Como uma ninfa tira nota máxima em Sátiros 202 e ainda fica presa com uma recomendação para goblins?”
O sátiro parecia querer dizer algo reconfortante, mas achou melhor não e, em vez disso, ofereceu a ela um chiclete.
“Dizem que é apenas uma sugestão”, falei, mas nós duas sabíamos que aquilo significava a diferença entre almofadas e estar acorrentada numa cela. Nenhuma das instalações era ótima, mas bebês goblins nasciam com dentes.
A mandíbula de Bea tensionou. “Você conseguiu sua preciosa produção de brilho de unicórnio.”
“Eu vi. Nada de ser mastigada para mim.” Sorri, mas o sorriso pareceu frágil.
Ela soltou uma risada ríspida e escondeu o rosto nas mãos. “Você é uma vaca mesmo”, murmurou, mas vi a curva do seu sorriso por entre os dedos. “Espero que você pegue um unicórnio com um micro-pinto.”
“O azar é o seu”, respondi, “eu gosto de micro-pintos.”
O sátiro finalmente criou coragem para colocar o braço em volta dela novamente. Desta vez, ela deixou. Perguntei-me se ele a veria de novo depois de amanhã, ou se sequer lembraria do nome dela quando o próximo lote de ninfas chegasse. Provavelmente não. Era assim que as coisas funcionavam em Luxuria.
Uma comoção na outra ponta da pista chamou minha atenção. Algum turista coitado superestimou sua habilidade na patinação e colidiu com um trio de ninfas, fazendo corpos e membros voarem como um buquê de pinos de boliche com tesão. O DJ, sem perder o ritmo, cortou a música e anunciou: “Limpeza no corredor quatro!”, enquanto a multidão uivava.
Eranthe escolheu aquele exato momento para se jogar na cabine feito uma bola de canhão. Um borrão de cabelo verde-floresta e meias neon, aterrissando com força suficiente para fazer o chiclete voar da boca do sátiro. Ela se espalhou pelo colo de Bea.
“Absolutamente não!”, gritou Eranthe, arrancando o panfleto da mão de Bea. “Nada de pavor existencial até pelo menos amanhã. Hoje à noite, vamos patinar, comer pizza e ter nossas entranhas reorganizadas no Embrace. Esse é o itinerário.” Ela olhou para o sátiro, que estava ali namorando abertamente o decote dela. “Você também, Tesão. Você vem junto.”
Bea gemeu, mas Eranthe já tinha segurado seu braço e a puxava para levantar. “Eranthe — porra — dá para parar? Estou falando sério. Eu peguei goblins. Eles se reproduzem em enxames.”
Eranthe revirou os olhos, mas pude ver o brilho de dor. “Amiga, você não entende? Os deuses querem que fiquemos juntas. Eu sou goblins, você é goblins. É o destino. Seremos colegas de quarto no inferno.”
Ela jogou o panfleto por cima do ombro, onde atingiu o rosto de um turista que passava.
Ri pelo nariz e as segui para a pista. O DJ tinha aumentado o som e as luzes piscavam em uma glória epilética. Entramos na pista de patinação como um trio, serpenteando entre os grupos de turistas e ninfas presos em vários estágios de preliminares. Eranthe liderava, fazendo curvas fechadas em oito. Bea vinha atrás, emburrada, mas disposta.
Demos algumas voltas antes de Bea começar a relaxar, com os quadris se movendo no ritmo da batida.
O DJ colocou “Nymphs Just Wanna Have Fun” para tocar e a pista inteira soltou gritos de euforia. Eranthe segurou nossas duas mãos e nos girou para o turbilhão, seu corpo um borrão de neon e músculos. Bea começou com pequenos chutes rígidos, mas pelo refrão, já estava patinando de costas, mostrando o dedo do meio para os turistas que a assediavam. Eu me deixei levar, com o vento no rosto e o cabelo voando atrás de mim como uma bandeira de vitória. Havia uma espécie de imortalidade naquilo: por três minutos e quarenta e dois segundos, éramos intocáveis, inatribuíveis, cem por cento vivas.
Todo turista no lugar pareceu notar a gente ao mesmo tempo. Vi o momento em que os olhos deles travaram no nosso trio, famintos e todos querendo um gostinho. Um orc com uma regata apertada, pele verde brilhando de suor, entrou no meu caminho. Parecia ter nascido para fazer supino com ninfas enquanto tentava me fechar. Abaixei-me, girei e, no último segundo — nem sei o que deu em mim — deslizei por entre as pernas dele.
Ele soltou um ganido e eu apareci atrás dele, patinando de costas apenas o suficiente para ver seu rosto mudar do choque para uma espécie de respeito relutante e excitado.
Mandei uma piscadela por cima do ombro. “Desculpa, grandão! Eu não curto orcs!”
Bea me lançou um olhar: “Exibida”. Eu respondi: “Você ama”. Ela amava. Eu conseguia notar. Seus olhos estavam brilhantes, suas bochechas coradas com mais do que apenas vergonha.
Dei as mãos — eu na esquerda, Eranthe na direita, Bea no meio — e demos uma volta da vitória. Aquilo era o que tinha de melhor. Não goblins, não orcs, nem mesmo os porra dos sátiros. Nós. Agora mesmo.
Mal tínhamos completado o circuito quando um aglomerado de turistas colidiu à frente. Um emaranhado de membros e orgulho masculino excitado batendo no chão liso.
Disparei pela pista e por uma saída lateral, quase perdendo um elfo que tinha se esborrachado na parede tentando evitar a colisão. A pista de patinação se misturava perfeitamente ao fliperama — mesmo neon, mesmo chão grudento. Passei voando por uma fileira de máquinas de skee-ball e quase perdi o equilíbrio quando uma ninfa gritou, pois um lobisomem a atingiu por trás. Eles nem quebraram o ritmo enquanto eu passava zunindo.
Olhei para trás, só por um segundo, para ver Bea e Eranthe se levantando e mandando um par de calouros lobisomens para o inferno.
Esse foi o meu erro.
Eu não vi a parede de pelo e músculos até estar bem em cima dela.
Correção: dele.
Um minotauro — o maior que já tinha visto. Ombros largos como um celeiro e construído como se pudesse arar um campo inteiro só com o pau. Ele vestia uma camisa de flanela surrada com as mangas dobradas e um macacão desbotado. Seus chifres curvavam-se suavemente e uma mecha espessa cobria a maior parte de seu rosto.
Eu deveria ter batido nele em cheio. Mas, em vez de colidir, duas mãos enormes me pegaram, uma na minha cintura e a outra embaixo do braço, e apenas... me levantaram. Como se eu não pesasse nada. O mundo inteiro girou por uma fração de segundo, a música da pista desaparecendo nos acordes iniciais de “Heaven Is a Place on Earth”. Eu estava suspensa, totalmente indefesa, encarando os olhos cinzentos mais profundos e sonhadores que eu já tinha visto.
Ele sorriu. Foi algo lento e impossível. “Calma aí, querida”, disse ele, com um sotaque suave. “Está tentando quebrar a barreira do som ou apenas as minhas costelas?”
Eu ainda estava pairando fora do chão, meus patins balançando. Eu podia sentir o calor de sua mão na minha pele, minha saia de tule tremulando atrás de mim enquanto ele se movia com o meu impulso.
Tentei fazer minha boca funcionar. “Uh. Desculpa. Não estava olhando.” Eu estava encarando seus olhos. “Não te vi.”
Ele me colocou no chão, devagar e com cuidado, para que eu não perdesse o equilíbrio. “Você está bem?”
Acenei, sentindo minhas bochechas arderem. “Sim. Só...” Arrisquei um olhar para baixo. Ele ainda me segurava pela cintura, com o polegar grande pressionando a cavidade acima do meu quadril. O espaço entre nós era de talvez três moléculas.
Ele me soltou, finalmente, mas não sem antes dar um leve aperto. Minhas coxas ficaram dormentes. Enquanto patinava para trás, atordoada, ouvi o refrão começar acima de mim — Heaven is a place on earth — e, por um segundo, soube exatamente o que a cantora queria dizer.
Um grupo de touros reunidos em torno de uma das máquinas de fliperama o chamou. Algo que não consegui ouvir por causa da música. As orelhas do touro peludo tremeram, girando em direção ao seu companheiro, mas ele não se virou imediatamente. Seu olhar permaneceu em mim por mais uma batida, duas, três —
“Você viu aquele engavetamento?” Eranthe apareceu ao meu lado, um pouco ofegante.
Acenei, sem confiar na minha voz.
Bea patinou até o meu outro lado, seguindo minha linha de visão com um interesse predatório. Um sorriso lento se espalhou pelo seu rosto. “Ooh... Quem é o colírio?”
Balancei a cabeça, começando a formular uma resposta — algo desdenhoso, algo que não revelasse como meu coração ainda estava disparado — mas Eranthe me cortou.
“Como ela saberia?”, ela riu, passando o braço pelo meu. “Você sabe que Ione não curte minotauros!”
Certo. Porque eu não curtia. Minotauros eram... bem, eles eram dotados como touros. Literalmente.
“É”, eu disse, forçando uma risada que saiu aguda demais. “Gosto de ficar inteira.”
Mas mesmo enquanto eu dizia isso, mesmo enquanto Eranthe nos guiava de volta para a pista principal, não consegui me impedir de olhar para trás mais uma vez.
Ele ainda estava observando.
Entrei na pista com foco renovado, me jogando em manobras mais elaboradas. Toda vez que eu passava pela entrada do fliperama — e eu definitivamente não estava planejando minha rota para passar por lá mais vezes, isso seria ridículo — eu podia vê-lo. Ainda lá. Ainda observando. Ele tinha se movido para apoiar-se na parede agora, seus companheiros absorvidos no jogo enquanto ele acompanhava meus circuitos com atenção total.
Na minha terceira volta, abandonei qualquer fingimento. Executei uma patinação para trás perfeita, girando para ficar de frente assim que deslizei pelo fliperama. Exibida. Mas eu não conseguia me impedir.
A quinta volta trouxe manobras mais elaboradas — um giro que se transformava em patinar de costas, depois para frente de novo, minha saia neon tremulando a cada movimento. Suas orelhas estavam totalmente eretas agora, girando para me seguir mesmo quando sua cabeça permanecia imóvel.
Na sétima volta, arrisquei tudo. Cruzei meu olhar com o dele deliberadamente e lancei-lhe um sorriso, adicionando um pequeno aceno.
Ele se endireitou imediatamente, nem sequer fingindo prestar atenção aos amigos. Suas orelhas se voltaram para frente com um interesse inconfundível, e mesmo do outro lado da pista, pude ver a forma como todo o seu corpo enorme se orientou em minha direção.
Meu estômago deu outro daqueles frios complicados.
“Ione!”, a voz de Eranthe cortou meus pensamentos. Ela estava acenando da borda da pista, gesticulando em direção à lanchonete. “Hora da pizza!”
Patinie até lá, com a mente ainda meio ocupada pela consciência do pelo marrom e da atenção constante seguindo meus movimentos.
Eranthe e Bea já estavam servindo fatias de pizza nos pratos, soltando pragas sobre o queijo quente demais. Fazendo qualquer coisa para não pensar em amanhã.
Mas mesmo quando me joguei na cabine ao lado delas, meus olhos encontraram o touro do outro lado da pista.
Eu o observei retribuir o olhar e me perguntei que porra eu estava fazendo.