Prologue
🔥 PRÓLOGO — Blade
(Quatro Anos Atrás)
Casas ricas mentem.
Elas tentam disfarçar a podridão com pisos de mármore, corrimãos polidos e retratos de famílias que fingem não se odiar por trás de suas aparências.
Mas o medo?
O medo é honesto.
O medo fede.
E esta noite, Charles Ashcroft está se afogando nele antes mesmo de eu ter cruzado a soleira.
Ele abre a porta e a cor abandona seu rosto como se estivesse fugindo da cena.
“B—Blade.”
Esse não é o meu nome.
Esse é um aviso que seu cérebro está tentando dar ao seu corpo.
Entro sem esperar permissão. Um homem como ele não é mais dono de nada nesta casa. Nem mesmo do ar que o sufoca.
“Eu pensei que o clube mandaria outra pessoa”, ele coaxa.
“Eles mandaram.”
Fecho a porta atrás de mim.
“Eu sou quem eles enviam quando querem que o trabalho seja bem feito.”
Ele estremece com o meu tom. Ótimo.
O medo aguça a obediência.
Ele balbucia algo sobre quarenta mil, um carregamento perdido, a quem o dinheiro pertence —
Como se eu já não tivesse decorado cada detalhe da sua ruína.
Ele sai apressado para buscar o dinheiro, seus sapatos escorregando no chão polido.
Eu não sigo.
Ratos correm mais rápido quando o gato não está perseguindo.
Observo a decoração — cara, elegante, totalmente desperdiçada em um homem tão patético.
Se o envelope dele estiver incompleto, começarei pela arte. Ou pelo cachorro, se ele tiver um. As pessoas gritam mais alto quando você é criativo.
Então eu ouço.
Passos suaves e descalços na escada.
Não de medo.
Não de cautela.
Apenas viva — e caminhando direto para as presas sem perceber.
Ela aparece.
Cleo Ashcroft.
Uma camisola de seda que adere ao corpo como se quisesse confessar seus segredos por ela.
O tecido de marfim é fino o suficiente para ser um pecado por si só.
A luz a atinge, delineando seu corpo de uma maneira que me faz instintivamente calcular:
quão fácil seria levantá-la, quão rápido ela cederia, quão lindamente ela quebraria.
Ela não é um farol.
Ela é um problema.
Ela congela quando me vê — não de medo, ainda não — mas como se seu cérebro tivesse acabado de soar o primeiro alarme e não tivesse decidido se deve correr ou gritar.
Seu pai aparece atrás de mim, a voz rachando de terror.
“Cleo. Lá para cima. Agora.”
Ela obedece, mas seus olhos encontram os meus no caminho.
E por um momento suspenso, vejo a curiosidade brilhar neles.
Curiosidade.
Sobre mim.
Isso é perigoso.
A curiosidade faz as pessoas se machucarem.
Serem mortas.
Serem imobilizadas sob mim enquanto decido que versão de mim elas poderão conhecer.
Ela se vira, o cabelo roçando a alça da camisola, a seda sussurrando contra sua pele como um convite que ela não enviou, mas que eu ouvi mesmo assim.
Meu maxilar trava.
Não porque eu a quero.
Mas porque não gosto de querer nada que não estou aqui para levar.
Ashcroft retorna, tremendo, um envelope segurado entre dois dedos como se fosse radioativo.
“A-aqui. Cada centavo.”
Normalmente eu o abriria na frente dele.
Contaria nota por nota.
O faria suar tanto a ponto de pingar no carpete.
Mas o perfume dela ainda está no ar — algo quente, limpo, suave — e eu preciso ir embora antes que eu a siga escada acima e estrague minha própria noite.
Pego o envelope, os olhos ainda nas sombras para onde ela desapareceu.
“É bom que esteja tudo aqui”, digo, a voz arrastando-se fria pela sala.
“Porque se faltar—”
Dou um passo para perto o suficiente para que ele sinta o calor emanando de mim.
“—Eu vou arrancar o resto de você. Lentamente. Um pedaço por cada libra faltando.”
Ele balança a cabeça com tanta força que acho que vai quebrar o próprio pescoço.
Saio sem dizer mais uma palavra, mas na metade do caminho parei.
A luz do andar de cima ainda está acesa.
Há uma silhueta fraca atrás da cortina.
Ela.
Cleo Ashcroft.
Garota suave em uma casa cheia de mentiras.
Eu não deveria olhar duas vezes.
Eu não hesito por ninguém.
Mas algo em mim a marca da mesma forma que marco os homens antes de desmontá-los.
E o pensamento é instantâneo, feio e absoluto:
Se o pai dela ficar em dívida novamente, não virei buscar dinheiro.
Eu virei buscar ela.
Não como moeda de troca.
Não como castigo.
Porque algumas coisas não são negócios.
Algumas coisas são instinto.
E o meu é simples:
Ela ainda não sabe disso —
mas ela já é minha.