CICATRIZES E SANGUE

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Resumo

Liora vaga por um cais poluído com nada além de uma prancheta e uma fúria justificada. Ela é uma cientista oceânica — jovem, brilhante e inconvenientemente destemida. Marco a nota instantaneamente. O perigoso rei do cartel que governa a costa com sangue e dinheiro a observa como se ela fosse algo que ele quer provar, machucar, possuir. Uma criatura suave e ardente que ele quer enjaular com as mãos. O desafio dela apenas o excita. Os insultos dela apenas aprofundam a sua fome. O fogo dela o faz imaginar como seria a rendição dela sob o seu corpo. Mas o homem que ele usa para intimidá-la — o executor silencioso e marcado que ele chama de "minha besta" — é aquele para quem ela olha com algo que Marco nunca recebeu: piedade. Fúria. Proteção. Cael foi reduzido a ossos e obediência. Ele não reage. Ele não resiste. Ele não existe fora das ordens de Marco. Até que Liora o vê. Até que ela chama Marco de fraco por machucar um homem que não consegue levantar a mão para se defender. Até que ela se coloca entre a queimadura de cigarro e o chicote com nada além de seu corpo trêmulo e uma voz que se recusa a se curvar. Marco torna-se obcecado em possuí-la. Os homens ficam aterrorizados com a mudança em sua besta. E Cael — a criação de Marco, a arma de Marco — começa a observar a garota que sangra por ele com algo perigoso agitando-se por trás de seus olhos. Liora quer salvá-lo. Marco quer arruiná-la. E a besta... a besta está começando a querer algo pela primeira vez em sua vida. Algo que pode destruir a todos eles.

Status
Completo
Capítulos
38
Classificação
5.0 3 avaliações
Classificação Etária
18+

Rainbows of Dust

A névoa da manhã se agarrava ao litoral como uma mortalha cinzenta e úmida. Liora Verdi ajeitou a alça de sua maleta de amostras, sentindo suas botas buscarem apoio nas pedras escorregadias cobertas de algas. À sua esquerda, o mar respirava — um suspiro profundo e rítmico que geralmente a acalmava. Hoje, parecia um estertor de morte.

Seu mapa hidrográfico, à prova d'água e anotado com sua letra miúda e precisa, indicava um pequeno ponto de escoamento ali, perto da fábrica de conservas abandonada Scogli Neri. O projeto de seu professor sobre o acúmulo de microtoxinas costeiras precisava de dados básicos de locais supostamente "limpos". Este deveria ser um deles.

O cheiro a atingiu primeiro. Não o aroma salgado e de algas de uma costa saudável, mas um tom doce e químico, enjoativo, como fruta podre sobre gasolina. Ela parou, as narinas dilatadas. "Ah, isso não é bom", murmurou ela para as gaivotas indiferentes.

A evidência era visceral. Uma linha de maré de morte marcava o ponto mais alto — dezenas de peixes pequenos, com as escamas foscas, as bocas abertas em um protesto silencioso. A água em si tinha um brilho iridescente, um prisma maligno sobre as ondas suaves. Não era um grande vazamento. Era um sangramento lento e deliberado.

"Propriedade privada."

A voz era grossa, carregada com o cascalho de um fumante e uma autoridade que não pertencia àquele lugar. Liora não se assustou. Ela terminou de rabiscar uma nota sobre as características visuais da mancha de tensoativo e, então, virou-se lentamente.

Três homens estavam em um semicírculo aberto, bloqueando seu caminho de volta para a estrada de terra. Eles não eram pescadores. Suas botas eram novas demais e suas jaquetas escuras eram pesadas demais para aquele frio úmido. Aquele que falou, um homem com pescoço de touro e uma cicatriz cortando sua sobrancelha, mantinha a mão perto do quadril, onde o volume de uma arma estava mal escondido.

O olhar de Liora passou por eles, seus grandes olhos castanhos como café não perdendo nada. Ela prendeu seu caderno debaixo do braço. "O oceano", disse ela, sua voz clara sobrepondo-se ao barulho das ondas, "é uma propriedade chocantemente pública. Artigo 87 da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, caso queiram saber. A coluna de água, o leito marinho... é um bem comum. Isso aqui", ela gesticulou com sua garrafa de amostra para os peixes mortos, "é uma cena de crime. Vocês estão envenenando uma comunidade bêntica inteira. O *Parablennius gattorugine* não teve a menor chance."

O homem de pescoço de touro, Gino, piscou. Ele esperava medo, gagueira, talvez lágrimas. Ele recebeu uma aula de taxonomia. O homem à sua esquerda, um mais jovem com traços afiados chamado Rico, não conseguiu conter um riso surpreso.

"O *quê* não teve chance?", perguntou Rico, o divertimento enrugando seus olhos.

"O peixe-blênio. O pobre e feio peixinho que estava apenas tentando cuidar da própria vida em seu buraquinho nas rochas antes que o lixo químico do seu chefe lhe desse uma crise existencial seguida de falência hepática", disse Liora, seu tom mudando para uma falsa simpatia. Ela se ajoelhou, ignorando-os, e mergulhou sua garrafa de amostra na água contaminada. "Sabe, eu diria que a estupidez ecológica aqui é de tirar o fôlego, mas honestamente, os fosfatos que vocês estão despejando provavelmente estão causando florações de algas que estão literalmente roubando o ar da água. Então, é mais como um sufocamento."

A confusão de Gino estava se transformando em raiva. "Você precisa ir embora. Agora."

Liora levantou-se, tampando a garrafa. "Ou o quê? Vão me ameaçar com mais metais pesados dissolvidos? Sua técnica de intimidação tem a mesma sutileza do seu plano de gestão de resíduos — bruta, tóxica e, no fim das contas, autodestrutiva." Ela o olhou de cima a baixo. "Essa jaqueta é sintética. Quando os microplásticos dela acabarem nos peixes que vocês provavelmente ainda comem, eles vão liberar ftalatos direto no seu sistema. Aproveite a disrupção hormonal, grandão."

Rico agora estava rindo abertamente, cutucando o terceiro homem, um gigante silencioso chamado Toto. "Ela é engraçada. E fala bonito."

Liora voltou seu olhar devastador para Rico. Ela era pequena e curvilínea, com a pele oliva dourada e o cabelo preto preso em um coque bagunçado, mas elegante, deixando cachos soltos emoldurando um rosto em forma de coração. Sua expressão era de pena acadêmica. "Engraçada? Estou diagnosticando o homicídio de um ecossistema. Vocês são apenas os espectadores desinformados, espalhando provas por todo lado." Ela apontou para as botas deles. "Vem aquele brilho iridescente na lama? É a pegada de hidrocarbonetos de vocês. Literalmente. Meu laboratório pode rastrear essa lama direto até os tanques de armazenamento de vocês. Vocês não são apenas bandidos; são bandidos incompetentes. É quase triste."

O rosto de Gino ficou vermelho. "Você não tem ideia de com quem está falando."

"Me ilumine", rebateu Liora, colocando as mãos na cintura. "Deixe-me adivinhar. Gerência intermediária para uma gangue insignificante de distribuição de carcinógenos em terra firme? A ambição é tão... pequena. Poluir um mar que sobreviveu por milênios por quê? Alguns euros a mais? É o equivalente fiscal de incendiar a própria casa para se manter aquecido por uma noite. Bravo. Uma aula magistral de pensamento a curto prazo."

Toto, o silencioso, resmungou: "O chefe não vai gostar disso."

"O seu chefe", disse Liora, jogando sua maleta de amostras sobre o ombro e começando a andar, forçando-os a recuar para não serem atropelados, "é claramente um imbecil ambiental e estratégico. Despejar aqui? Com os padrões de correnteza? Em duas semanas, isso vai parar na praia daquele resort novo que pertence ao primo daquele senador. Aí vocês terão problemas de verdade. Não apenas uma garota com uma garrafa d'água."

Ela passou por eles com a cabeça erguida. Os homens, momentaneamente atordoados pelo ataque verbal, deixaram-na dar três passos antes que Gino voltasse à realidade. "Parem ela!"

Rico se moveu para bloquear seu caminho, mas não estava convicto. Ele estava ocupado demais admirando o fogo nos olhos dela. "Vamos lá, *signorina*. Não dificulte as coisas. Só nos dê as amostras, hum? Nós te pagamos um café."

Liora olhou para a mão que ele estendeu. "Com quê? Dinheiro que cheira a benzeno e arrependimento? Não, obrigada. Meus padrões para café são mais altos do que meus padrões para responsabilidade corporativa, e vocês estão falhando em ambos." Ela se desviou dele.

Foi então que uma quarta figura surgiu da sombra da doca de carga da velha fábrica. Ele se movia com uma graça silenciosa e predatória que faltava aos outros. Marco Salvatori não era um homem grande, mas carregava uma densidade de presença que silenciou o ar. Ele estava vestido com roupas casuais escuras e impecáveis, um contraste acentuado com a decadência industrial ao seu redor. Seus olhos, de um cinza-pederneira frio, observaram a cena: seus homens, desarmados por palavras, e a jovem que era uma tempestade de desafio em botas de borracha.

"Algum problema, Gino?", a voz de Marco era suave, quase melódica.

"Ela está pegando amostras, chefe. Diz que estamos envenenando a... comunidade bêntica."

O olhar de Marco se fixou em Liora. Foi um olhar abrangente, um agrimensor avaliando um novo lote de terra surpreendente e valioso. Ele viu a inteligência feroz no rosto dela, a sensualidade inconsciente de sua boca cheia, mantida em uma linha teimosa, as curvas que suas roupas práticas de campo não conseguiam esconder. Ele viu beleza, sim, mas, mais do que isso, viu uma qualidade bruta e indomada que era totalmente estranha ao seu mundo de lealdade comprada e submissão encenada. Um sorriso lento e intrigado tocou seus lábios.

Liora encontrou seus olhos sem vacilar. "Você deve ser o arquiteto desta tragédia ecológica. Parabéns. Seu legado será medido em peixes mortos e taxas elevadas de câncer. Um verdadeiro pioneiro."

Marco deu uma risada. Foi um som seco e áspero. "Você tem uma língua afiada para uma garota com um balde."

"É uma garrafa de Niskin, e ela está coletando evidências", corrigiu ela. "E eu não sou uma garota. Sou a pessoa que vai registrar um relatório tão detalhado que o ministério do meio ambiente vai usá-lo para fechar as operações de vocês."

Ele deu um passo à frente, e seus homens ficaram tensos. Marco os ignorou, seus olhos bebendo-a. "Qual é o seu nome?"

"Justiça", disse ela secamente, depois corrigiu com um tom sarcástico. "Bem, temporariamente. Até que a burocracia a enterre. Mas serei uma pedra no seu sapato até lá."

"Liora", forneceu Rico, prestativo, tendo visto o nome na maleta dela.

Ela lançou a ele um olhar de desprezo. "Obrigada por demonstrar os protocolos de segurança. Nota dez."

Marco saboreou o nome. *Liora*. Combinava com ela. Luz. Mas ela era toda tempestade. "Liora. Você não entendeu. Isso não é uma negociação. As amostras ficam. Você... pode ir embora. Por enquanto."

"Ou?"

"Ou você fica também. Em uma capacidade muito menos confortável." O significado era claro, seu tom desprovido de ameaça óbvia, o que tornava tudo ainda mais arrepiante.

A mente de Liora correu. Ela estava em desvantagem numérica, sem armas e isolada. Mas entregar as amostras parecia entregar a verdade. Ela apertou a maleta com mais força. "Você pode ficar com esta garrafa. Mas os dados já estão sincronizados em um servidor na nuvem. O gênio já saiu da lâmpada de hidrocarbonetos, Marco."

Seus olhos brilharam com ela usando seu nome. Ela tinha ouvido dos lábios de Rico. Ela era rápida. "Um servidor na nuvem", ele refletiu. "Que moderno." Ele gesticulou com desdém. "Fique com a garrafa. Os dados não significam nada sem alguém para interpretá-los. E você, *bellissima*, estará ocupada com outras coisas."

Antes que ela pudesse processar as palavras, Gino deu um passo à frente e arrancou a maleta de amostras de suas mãos. Liora reagiu por instinto, chutando com o salto de sua bota o peito do pé dele. Ele grunhiu de dor, sua pegada afrouxou, e ela agarrou a maleta. Foi uma luta corajosa, mas inútil.

Marco observava, fascinado. O desafio dela não era para inglês ver. Era elemental. As mulheres em seu mundo eram polidas, complacentes, pagas para simular paixão ou medo. Aquilo era real. Aquilo era uma criatura selvagem encurralada que se recusava a acreditar que a gaiola existia. Ele sentiu algo que não sentia há anos — não apenas luxúria, mas uma necessidade profunda e obsessiva de possuir aquele espírito, de vê-lo dobrar e finalmente quebrar apenas para ele. Aquilo seria uma conquista. Aquilo seria poder.

"Chega", ele disse, a palavra única cortando a confusão.

Todos congelaram. Liora respirava pesadamente, uma mecha de cabelo preto caída sobre seu rosto furioso e belo.

Marco aproximou-se dela lentamente, como se faria com um animal assustado e perigoso. Ele estendeu a mão e, gentilmente, quase com ternura, afastou o cabelo do rosto dela. Ela puxou a cabeça para trás como se estivesse queimada.

"Tanta chama", ele murmurou, mais para si mesmo do que para ela. "É um desperdício com peixes."

"É um desperdício com homens que veem o mundo como uma coisa para ser possuída e arruinada", ela cuspiu.

Ele sorriu, um sorriso genuíno desta vez, cheio de uma fascinação terrível. "Veremos." Ele se virou para seus homens. "Tragam-na. Com cuidado. Se ela tiver um único hematoma, eu saberei a quem perguntar."

"Chefe", disse Gino, esfregando o pé, a voz baixa com um aviso. "Isso é... uma complicação desnecessária. Ela não é daqui. As pessoas vão procurá-la. Uma estudante."

O sorriso de Marco desapareceu quando ele se virou para Gino. "Eu te pago para avaliar riscos, Gino? Ou eu te pago para seguir ordens?"

Gino baixou os olhos. “Às ordens, chefe.”

“Bom.” O olhar de Marco voltou para Liora, que o encarava com um ódio tão puro que era quase fascinante. “Ela não é uma complicação. É um projeto novo. O mais interessante que tenho em muito tempo.”

Rico e Toto se moveram para cercar Liora, mas suas mãos hesitaram. Eles tinham sido insultados e ridicularizados, e ainda assim não conseguiram reunir sua brutalidade habitual. As palavras dela, sua beleza e sua pura audácia tinham aberto um espaço de estranho respeito.

“Não me toquem”, disse Liora, com a voz trêmula não de medo, mas de uma raiva incandescente. “Eu sei andar. Quero ver onde mora o imbecil que não sabe descartar lixo industrial direito. Aposto que o design de interiores é ‘estilo lixão tóxico’.”

Marco riu, um som de diversão genuína que arrepiou seus homens mais do que qualquer explosão de raiva. Ele já estava obcecado.

Enquanto a levavam para longe da costa envenenada, Liora deu uma última olhada no mar iridescente. A luta tinha acabado de mudar de cenário. E ela não tinha a menor intenção de se render.

Eles não a levaram para um carro, mas para cima de uma escadaria de metal enferrujado presa à lateral da fábrica abandonada. O interior foi um choque. A decadência era apenas fachada. Atrás de uma porta pesada e sem identificação, havia um mundo de concreto polido, iluminação baixa e móveis minimalistas caros. O ar era filtrado e cheirava a produtos de limpeza cítricos e dinheiro, um contraste gritante com a morte química do lado de fora.

O escritório de Marco era uma caixa de vidro com vista para o galpão principal, que agora funcionava como um centro logístico estéril. Homens com camisas impecáveis moviam paletes do que parecia ser material de limpeza industrial, mas o olhar treinado de Liora notou a rotulagem inconsistente e o manuseio excessivamente cuidadoso. Aquele era o centro de comando.

Gino abriu a porta do escritório. Marco já estava lá dentro, servindo duas taças de um líquido âmbar de um decanter de cristal. Ele não levantou os olhos.

“Deixem-nos.”

Seus homens hesitaram. Rico lançou um olhar para Liora, um pedido de desculpas silencioso, antes de puxar a porta. O clique da tranca foi definitivo.

Liora ficou logo após o limiar, com as costas retas e o cheiro do mar e da rebeldia ainda impregnado nela. Ela observou a sala: as janelas do chão ao teto com vistas eletronicamente escurecidas da enseada contaminada, as prateleiras com o que pareciam ser primeiras edições originais, uma pequena escultura brutalista que provavelmente custava mais do que a verba anual de pesquisa da sua universidade. Era o covil de um homem que se via como um conhecedor, um rei em seu castelo de veneno.

Marco se virou, estendendo uma taça. “Um drinque. Para o choque.”

“O único choque é a minha falta de surpresa com seu gosto para decoração”, disse ela, sem se mover. “Estéril, caro e totalmente sem alma. Combina com você.”

Ele sorriu, colocando a taça sobre a mesa vasta e vazia, apoiando-se nela. Ele a estudou, seu olhar exercendo uma pressão física. “Você se importa com o oceano”, disse ele, não como uma pergunta, mas como um diagnóstico clínico. “Profundamente. Não é apenas um trabalho. É uma… paixão.”

“É a vida”, corrigiu ela, com a voz fria. “Um sistema infinitamente mais complexo e valioso do que você poderia compreender. E está morrendo por causa de parasitas gananciosos e míopes que acham que uma margem de lucro vale uma zona morta.”

Ele jogou a cabeça para trás e riu, um som suave e encantado que arrepiou os braços dela. “Um parasita! Ah, essa é boa. Direto. Honesto.” Seus olhos cinzentos brilharam. “Você é corajosa, Liora. Uma coragem estúpida e perigosa. Pessoas corajosas me fascinam. Todos os outros são tão… transacionais.”

“Fascine-se com isso”, ela retrucou, fazendo um gesto obsceno com a mão.

Ele apenas riu, desencostando da mesa e diminuindo a distância entre eles. Ele se moveu com uma elegância controlada e fluida que era inquietante. Ele parou a trinta centímetros, perto o suficiente para ela sentir seu perfume — sândalo e algo metálico. Ele estendeu a mão, seus dedos tentando traçar a linha do maxilar dela.

Liora se esquivou como se tivesse levado um choque. “Não me toca.”

O ar na sala mudou. A diversão nos olhos de Marco não desapareceu, mas se solidificou, endurecendo em algo mais sombrio e possessivo. Uma centelha de fome pura e crua. Ela não estava com medo. Não do jeito que ele estava acostumado. Ela estava repelida, enfurecida. Aquilo era uma novidade. Aquilo era um desafio.

Houve uma batida hesitante na porta. A voz de Gino, tensa, soou. “Chefe? Posso falar?”

Marco não tirou os olhos de Liora. “Entre.”

Gino entrou, fechando a porta rapidamente. Ele evitou olhar para Liora. “Chefe, ela é uma civil. Uma manifestante. Uma estudante. O celular dela está aqui, o departamento dela terá suas últimas coordenadas... Isso é uma complicação desnecessária. Isso atrai atenção. Do tipo errado.”

O sorriso de Marco era fino, gelado. “Você está se repetindo, Gino. E você está enganado.” Ele finalmente desviou o olhar, cravando-o em seu tenente. “Ela não apenas invadiu o local. Ela não apenas pegou amostras. Ela ficou no meu cais, na frente dos meus homens, e me chamou de idiota. Ela me desafiou. Publicamente.” Seus olhos voltaram para Liora, saboreando seu rosto furioso e belo. “Isso não a torna uma complicação. Isso a torna *minha*.”

A palavra pairou no ar filtrado, pesada e absoluta.

A respiração de Liora falhou. Não de medo, mas por uma onda vulcânica de raiva tão potente que lhe tirou o ar. *Minha*. A arrogância daquilo, a redução puramente animal de uma pessoa a uma posse, despertou algo feroz nela.

“Sua?” A palavra foi um sussurro, depois uma lâmina. “Eu não sou um objeto para ser possuído. Eu sou uma pessoa. E você é uma sujeira.”

Ela girou nos calcanhares e marchou em direção à porta, sua mão alcançando a maçaneta de aço elegante.

Ele estava lá antes dela. Ele não correu; ele simplesmente se moveu, interceptando seu caminho, seu corpo servindo como uma barreira casual e imóvel contra a porta. Ele se inclinou, sua voz um murmúrio apenas para ela. “E onde você pensa que vai, pequena garota do oceano?”

“Para casa. Para fazer meu relatório. Para ver seu mundo queimar de uma distância segura e legal.” Ela tentou passar por ele. Ele se moveu, bloqueando-a.

“Não posso deixar você ir”, disse ele, seu tom quase casual. “Ainda não. Estamos apenas começando nosso… diálogo.”

“Isso não é um diálogo! É um sequestro!” Ela empurrou o peito dele. Era como empurrar uma estátua de mármore. Ele não se mexeu, mas seus olhos escureceram de prazer com o toque dela, mesmo sendo agressivo.

“Semântica.” Ele segurou o pulso dela, com firmeza, mas ainda sem machucar. “Você vai aprender as minhas definições.”

“Me solta!” Ela puxou o braço, torcendo-se no aperto dele.

“Gino”, chamou Marco, com os olhos fixos na luta de Liora. “Rico. Ela precisa entender a nova realidade.”

A porta se abriu. Gino e Rico entraram, com expressões sombrias. Toto surgiu atrás deles.

“Não torne isso mais difícil, *signorina*”, implorou Rico suavemente.

Liora viu a resignação nos rostos deles, a obediência. Isso alimentou seu desespero. Quando Gino agarrou seu braço, ela explodiu.

Ela não era treinada, mas era inteligente e furiosa. Ela cravou a ponta de sua bota na canela de Gino. Ele xingou, cambaleando. Quando Rico avançou, ela usou o impulso para girar, seu cotovelo acertando o esterno dele em um golpe doloroso e certeiro. Ele ofegou, dobrando-se.

“Cristo, ela é uma fera!” Rico arfou.

Ela tentou correr para a porta aberta, mas o corpo enorme de Toto bloqueou a passagem. Ela freou bruscamente, seus olhos procurando outra saída. Não havia nenhuma.

“Chega de brincadeira”, disse Marco, com a voz carregada de um prazer sombrio. Ele não tinha se movido da porta, um espectador do caos que ela provocava.

Gino, mancando, e Rico, ainda segurando o peito, convergiram para ela. Ela lutou como se estivesse possuída. Suas unhas marcaram quatro linhas vermelhas na bochecha de Gino. Ela chutou. Ela mordeu o ar perto da mão de Rico quando ele tentou agarrá-la. Seus xingamentos eram uma torrente criativa e multilíngue.

“Seu *lattina di immondizia tossica* sem espinha! Me solta! Sua mãe deve chorar pelo desperdício de oxigênio que você é! *Figlio di una puzzola*!”

Marco observava, fascinado. O espetáculo daquela mulher pequena e curvilínea, com os cabelos escuros soltos do coque, o rosto corado de raiva, resistindo a dois de seus homens endurecidos apenas com pura vontade e unhas afiadas... era a coisa mais eletrizante que ele via em anos. Aquilo era real. Aquilo era cru. Era um espírito indomável, e a ideia de ser o único a finalmente quebrá-lo, de fazer aquele fogo queimar apenas para ele, enviou uma descarga de poder absoluto através dele. Ele riu, um som baixo, quente e de genuína diversão.

“Cuidado, rapazes. Ela tem espírito. Eu gosto disso.”

Finalmente, Gino conseguiu prender os dois braços dela pelas costas em um abraço de urso, levantando-a do chão. Ela se debatia, suas botas chutando o ar. “ME SOLTA!”

Rico ficou à frente dela, ofegante, levantando as mãos em um gesto apaziguador. “Calma. Apenas calma.”

Marco finalmente se moveu. Ele caminhou devagar, um predador se aproximando da presa capturada. Ele parou a centímetros dela. Ela estava suspensa, indefesa, mas seus olhos ardiam com um ódio imbatível. Ele estendeu a mão e, desta vez, ela não conseguiu se esquivar. Ele tocou o rosto dela, seu polegar traçando a curva alta da maçã do rosto, limpando um pouco de sujeira vinda do cais.

Ela recuou, um movimento de nojo que percorreu todo o corpo. “Tira as mãos de mim.”

“A partir de agora”, disse ele, sua voz caindo para um murmúrio íntimo e terrível que silenciou a sala. Seu polegar roçou o lábio inferior dela. Ela tentou virar o rosto, mas ele segurou seu maxilar, de forma gentil, porém firme. “A partir deste momento… você… é minha, linda garota do oceano. Seu fogo é meu. Sua bravura é minha. Sua boca linda e inteligente é minha. Você vai aprender o que isso significa.”

Ele se inclinou, seus lábios quase roçando a orelha dela. “E a primeira lição é a rendição. Mas vamos levar o nosso tempo. Eu quero aproveitar a luta.”

Ele fez um sinal para Gino. “Leve-a para a ala leste. O quarto azul. Tranque a porta.”

Enquanto Gino a carregava, ainda lutando, em direção à porta do escritório, Marco chamou por ela, com a voz alegre novamente. “Continuaremos nossa conversa sobre o oceano em breve, Liora! Descobri que, de repente, estou muito interessado no assunto!”

A última coisa que ela viu ao ser levada foi o rosto dele, iluminado por uma alegria possessiva e obsessiva. A porta do escritório se fechou, mas o eco de suas palavras permaneceu, uma promessa arrepiante no ar estéril.

*Você é minha.*