Capítulo 1
POV: Swayze
Ela nunca pensou que acabaria aqui.
Mal conseguindo pagar as contas, servindo mesas em uma cidade de quinta categoria na Louisiana. Tudo o que lhe restava na vida era Ryker, seu filho de três anos, e como qualquer um que tem filhos sabe, é uma relação instável com uma criança pequena.
Sem mencionar os shorts curtos demais, que subiam por entre as nádegas, que o restaurante a obrigava a usar. A blusa branca era de um tecido fino que a forçava a usar uma camiseta por baixo. O nome MEGAN’S estava escrito nas costas em letras pretas e grandes.
Como não havia concorrência para comer em um raio de sessenta quilômetros, ela imaginou que a aparência não importava. O lugar precisava inegavelmente de um pouco de cuidado, e com a correria do restaurante e a forma como expulsavam os funcionários assim que o turno acabava, era difícil fazer qualquer limpeza extra. Nada de horas extras… nunca.
Embora, ela agradecesse a Deus, porque poderia ter sido pior… e já tinha sido.
Tinha sido o quinto lar deles no último ano e meio, finalmente se estabelecendo em algum lugar onde sabia que ele não a encontraria. Mas era isso o que ela pensava após cada mudança, e na maioria das vezes, ele chegava perto o suficiente para alcançá-los.
Com sorte, desta vez daria certo e ela conseguiria ficar escondida. Chega de amizades acidentais ou de revelar seu sobrenome verdadeiro. Ela poderia se acalmar e ter uma vida normal — talvez.
Os lugares que ela escolheu antes eram cidades maiores, pensando que passaria despercebida, mas quanto mais gente, maiores as chances de se conectar com alguém.
Mais gente para te ver. Mais oportunidades de ser pega. Ela decidiu tentar um lugar pequeno desta vez, e Pine Valley nem parecia estar no radar de ninguém.
Swayze caminhou até a janela, onde Oscar deslizou o prato dela sob a luz quente. “Aqui está, irmã”, disse ele. “Pedido pronto.”
Swayze pegou o prato com uma mão e o ketchup da bandeja atrás do balcão com a outra. “Valeu, Oscar.”
Oscar era seu colega de trabalho favorito no Megan’s. Ele era reservado e sabia como lidar bem com os moradores da cidade. Ele lembrava Swayze de um Jack Black hispânico, sem as piadas, mas ela nunca contou a ninguém porque parecia um pouco julgadora. Não que isso importasse em Pine Valley, porque parecia ser o lema da cidade.
Venha julgar com a gente.
As outras garçonetes tinham a idade próxima à de Moisés e, de qualquer forma, não pareciam gostar muito dela. Tonya era a que ela menos gostava, pelo fato de que parecia sempre estar com um limão na boca e encontrava pequenas coisas para implicar com Swayze. Além disso, ela cheirava a cigarros e Vaseline.
Pensando bem, ninguém naquela cidade pequena parecia gostar dela. Ela achava que a culpa era dela mesma. Eles a tinham convidado para a igreja e para eventos comunitários, mas ela nunca ia.
Fazer novos amigos nunca foi fácil para Swayze, e mudar para uma cidade onde você não conhece ninguém é difícil. Como você diz a alguém, depois que te convidam dez vezes, que não pode ir? Seria arriscado demais. Então, as suspeitas disparariam, e todos saberiam o que pensavam dela.
Ela realmente era problema.
Se ele nos encontrar de novo —
Ela não pensaria nisso; sua ansiedade já tinha sofrido o bastante. Manter a cabeça baixa, os olhos voltados para baixo e as pernas fechadas era a chave para ser anônima. Ninguém tinha permissão para entrar em sua casa, e ela mantinha a conversa fiada no mínimo.
Ela se virou para levar o prato da Sra. Mable e notou seu gerente parado em uma de suas mesas. Não podia ser coisa boa, porque ele estava com aquele olhar de taturana nas sobrancelhas, gesticulando com as mãos. Ótimo…
“Aqui está, Sra. Mable. Seus ovos mexidos com ketchup.”
“Oh, obrigada, querida”, disse ela, tomando um gole de café com as mãos trêmulas. “Você é uma moça bonita. Eu costumava ter pernas assim no meu tempo.”
Na maioria dos dias, a Sra. Mable nem sabia que dia era, e Swayze precisava ajudá-la a chegar ao carro porque ela esquecia onde tinha estacionado. Ela parecia estar melhor na última semana. Embora estivesse morrendo de calor com aquele cardigã no calor de junho.
Ela nunca aparecia sem uma permanente feita recentemente e suas calças passadas com vinco. Swayze passava a maior parte dos dias tentando conversar um pouco quando podia, porque o marido dela tinha morrido de velhice alguns anos antes, e a solidão grudava nela como um dia ruim.
Swayze tinha se acostumado a se sentir sozinha, mas pelo menos ela tinha seu filho com ela.
Um estrondo de trovão fez tanto a Sra. Mable quanto Swayze pularem. “Dizem que vai tempestade daqui a pouco. Achei melhor almoçar antes que comece a chover em cima de mim”, disse a Sra. Mable.
“Acho que temos uma hora ou mais”, disse Swayze.
“Swayze.”
Ela olhou para o gerente, que exibia uma expressão aborrecida, somando-se à carranca permanente em seu rosto. Dobbs não tinha perfil de gerente, e em qualquer outro lugar isso não teria dado certo, mas ele parecia conhecer todo mundo na cidade, e isso funcionava para o dono de oitenta e cinco anos, que Swayze nunca tinha conhecido.
Ela nunca tinha conhecido um gerente que falasse com seus funcionários na frente de todos. Quem deu o curso de gestão do Dobbs? Precisavam encontrar um novo instrutor.
Ela caminhou até a mesa, notando o pedido que balançava no punho de Dobbs, e a expressão no rosto do casal de idosos disse a Swayze tudo o que ela precisava saber. “Sim, senhor.”
“Os Sweeny estão muito chateados porque você cobrou o café deles duas vezes.”
Sério? Swayze olhou para o casal; o homem encarava a toalha de mesa xadrez vermelha e branca, e a mulher empinou o nariz. Eles eram clientes frequentes que vinham duas vezes por semana, pediam a mesma coisa toda vez e nunca deixavam gorjeta.
Ela nunca esqueceria a primeira vez que conheceu os Sweeny, porque tinha derramado café na mesa deles e limpado instantaneamente com o pano que pendia de seu avental.
Pouco depois de Swayze se afastar, a Sra. Sweeny insistiu que ela não tinha limpado direito e fez o serviço ela mesma.
Tudo foi ladeira abaixo depois disso.
Swayze não se importava se eles voltassem ou não.
“Isso é porque a Sra. Sweeny pediu outra xícara”, disse Swayze, apontando para a placa pendurada no caixa.
Nada de café grátis.
“Eu não fiz tal coisa”, disse a Sra. Sweeny.
Swayze mordeu a língua, tentando segurar a enxurrada de palavrões que subia pela garganta. Essa mulher está seriamente me chamando de mentirosa? Com seus cinquenta anéis de ouro na mão ossuda e uma BMW estacionada lá fora que custa mais do que o restaurante em que eles estavam jantando — por causa de um dólar e dez centavos?
A campainha da porta tocou, e passos pesados vieram atrás, parando em uma das mesas, mas Swayze não conseguiu cumprimentar ninguém. Ela estava à beira de estrangular os Sweeny.
“Por que eu inventaria isso?”, Swayze perguntou. “Eu fui fisicamente buscar outra para ela—”
“Swayze, posso falar com você um minuto?”, perguntou Dobbs.
Eles já não estavam falando?
Swayze seguiu a figura atarracada de Dobbs para fora, até a brisa úmida. Um relâmpago brilhou à distância sobre um campo qualquer, e o cheiro de chuva estava cada vez mais forte. Independentemente do tempo, o calor do verão fez o suor surgir instantaneamente na testa de Swayze, e ela o limpou com as costas da mão.
Dobbs franziu os lábios finos, afastando da testa os poucos fios de cabelo que lhe restavam. “Já conversamos sobre isso, Swayze. Os Sweeny são influentes nesta cidade. Eles são uma família fundadora. O que ela diz é lei.”
Swayze suspirou, apoiando o peso em seus tênis Keds brancos e surrados. “É difícil lembrar quem recebe tratamento especial por aqui.”
Dobbs colocou as duas mãos nos quadris largos, puxando nervosamente o cinto preto fino que não ajudava muito a segurar suas calças cáqui gastas. “Agora, escute aqui, nós não damos tratamento especial nesta cidade.”
“Sim, dar café grátis para uns e não para outros é tratamento especial”, disse Swayze.
Dobbs contraiu os lábios em uma linha fina. “Eu sou o chefe aqui, e estou te dizendo para não cobrar mais pelo café extra. Esta é a primeira advertência.”
Primeira advertência? Swayze não tinha nenhuma vantagem porque era nova e precisava do emprego para sustentar seu filho. Swayze apertou seu rabo de cavalo castanho e assentiu. “Ok. Posso voltar agora?”
Dobbs fez um gesto para ela ir em direção à porta.
Suspirando, Swayze empurrou a porta e entrou. Um sussurro abafado tomou conta do restaurante, mas ninguém parecia notar Swayze. Ela não sabia sobre o que estavam sussurrando, mas, honestamente, estava irritada demais para se importar.
Um par de homens mais velhos estava sentado no final do balcão, olhando em direção à mesa onde ela supôs que Kaden King estivesse sentado. Pelo menos parecia ele de costas, e ele costumava aparecer por volta daquela hora todos os dias.
Kaden King dava arrepios em Swayze com sua carranca furiosa e olhos escuros. O cara parecia nunca ter tido um dia bom na vida. A vida dele não podia ser tão ruim assim, podia? Comparado ao que ela tinha passado, nada parecia difícil demais de superar.
Swayze pegou um cardápio do suporte, passando pelos sussurros e olhares para parar na mesa.
Ela colocou o cardápio, tirou seu bloco e caneta do avental e tirou a tampa com a boca. “Como você está hoje?”
Terrível, com certeza.
Quando ela olhou para o homem que supôs ser Kaden, não era ele.
Kaden King era bonito, mas ela já tinha passado dessa fase depois do segundo dia de trabalho. Seu suposto irmão, talvez, era de uma beleza rústica.
O tipo de beleza que você vê em um filme de velho oeste ou um daqueles filmes de caipira. O tipo que tira o seu fôlego. O tipo que te mete em muita confusão, especialmente se você está tentando ficar no anonimato.
A boca de Swayze secou ao vê-lo, recostado sem esforço na mesa, um braço envolto no encosto do assento, o outro segurando seu cardápio. Aqueles olhos verdes claros eram brincalhões, mas intensos. O foco que ele tinha faria o coração de qualquer mulher heterossexual disparar.
Se a aparência não bastasse, e aqueles olhos verdes não estivessem sugando completamente os pensamentos da cabeça dela, a voz dele soava como chocolate amargo, do tipo que dizem que faz bem, embora ainda seja doce e cheia de calorias.
“Bem”, disse ele, inclinando-se para frente em um cotovelo, observando-a. “Se eu soubesse que havia algo novo aqui na cidade, teria voltado muito antes.”
Um calor rastejou pelos ombros dela e formigou até os dedos dos pés. Ela tinha certeza de que Kaden não tinha dito uma palavra sobre ela, porque a maior parte da cidade ainda estava tentando decifrá-la e parecia pouco receptiva de qualquer maneira. Se Kaden fosse irmão dele, como ela supôs.
Ela tentou impedir sua imaginação fértil de conjurar a imagem de como ele seria se estivesse de pé. Será que ele era tão alto quanto ela imaginava? Aqueles ombros largos eram algum indicativo de quão forte ele seria segurando-a?
Ou o quão grandes eram as mãos dele…
“Eu sou Montgomery”, disse ele.
“Swayze”, disse ela, evitando contato visual e a mão estendida dele. Era demais olhar para ele. Ela não se mudou para Pine Valley para encontrar um homem, mas sim para fugir de um.
Quando ele não abaixou a mão, ela olhou para ele, notando algo familiar em seu rosto. Ela tinha certeza absoluta de que nunca tinham se conhecido pessoalmente, mas ele parecia familiar.
Ele levantou uma sobrancelha pesada e olhou para sua mão estendida. O cara não estava aceitando a resistência dela como uma dica. Ela se inclinou para frente e pegou a mão dele, notando como os calos dele pareciam contra sua palma macia.
“O que posso te trazer hoje?”
Montgomery sorriu para ela, com os olhos descendo lentamente para o cardápio em suas mãos e voltando para o rosto dela.
Ele lambeu os lábios, que eram carnudos, do tipo que você não consegue impedir sua mente de imaginar em você. Seu boné de beisebol virado para trás revelava sua testa quadrada perfeita e olhos penetrantes, e ter aquele maxilar forte junto? Parecia injusto para ela. Uma mecha de cabelo castanho escuro espreitava da frente de seu boné em uma onda espessa. De onde veio esse homem? De Marte? De Asgard? De Krypton?
“Suponho que o Oscar ainda esteja aqui?”, perguntou ele.
Ela assentiu sem olhar para cima.
“Então vou querer um cheeseburger com fritas. Diga a ele que é para Montgomery King — ele saberá como eu quero.”
King. Bingo. Não havia como esse homem não ser parente de Kaden. Ela queria perguntar se eram irmãos ou primos, mas falar significava olhar para cima, e isso significava a chance de ter uma conversa que ela tinha certeza de que conteria balbucios.
Ela anotou o pedido, rezando para que seus dedos se apressassem, porque sair da linha de visão dele parecia a melhor coisa a fazer.
“Sem aliança de casamento”, disse Montgomery.
Ela encontrou seu olhar, seu polegar alcançando a parte interna do dedo anelar para tocar o anel que ela não usava mais. Montgomery pareceu notar seu movimento, mas isso não o impediu de lhe dar um sorriso torto.
“Não”, disse ela.
Foi tudo o que conseguiu pensar em dizer. Ela precisava cair na real. Mesmo uma noite casual que abalasse seu mundo ameaçaria sua nova vida em uma cidade pequena. Se todo mundo falava dela, isso significava que todo mundo sabia seu nome.
Tudo o que seria preciso é ele passar por ali procurando por ela, e ela tinha certeza de que a cidade o levaria direto para sua casa.
Montgomery estudou o rosto dela com o mesmo sorriso que não tinha saído de sua boca. Swayze queria dizer a ele que era solteira e que precisava de um alívio de estresse do tipo fálico, mas não podia. As palavras você é tão rústico e perfeito estavam presas na garganta, repetindo sem parar em sua cabeça, mas ela tentou empurrá-las para trás com o resto de seus pensamentos impróprios.
Os ombros largos dele naquela camiseta Carhartt deveriam ser proibidos. Será que Dobbs se ofenderia se ela colocasse uma placa de Proibido camisetas justas na porta?
“Então isso significa que posso te levar para sair—”
“Montgomery.”
Swayze se virou para a voz áspera atrás dela. Lá estava Kaden King em carne e osso, com sua carranca suja e olhos castanhos endurecidos no ponto, não que ela esperasse algo diferente.
O tom dele fez a pele de Swayze se arrepiar. Era evidente que Kaden não fazia parte de seu fã-clube em Pine Valley. Se ela não sabia antes, agora sabia. O olhar de nojo que ele lançou na direção dela provou que ela estava certa.
Swayze notou a leve mudança no ambiente. Todas as mesas focaram neles. “Bem, se não é meu irmão mais velho, Kaden. Bom você ter aparecido. As notícias realmente viajam rápido por aqui.”
Os passos pesados de Kaden se aproximaram de Swayze até que ela sentiu a presença dele ao seu lado. “O que diabos você está fazendo de volta na cidade?”
Ai, que boas-vindas calorosas.
“Oh, você sabe, só voltando para ajudar meu irmão mais velho com a fazenda.”
Kaden bufou. “Não preciso da sua ajuda. Você aparece depois de cinco anos com esse sorriso estúpido no rosto para ajudar? Não preciso disso, e não quero.”
Montgomery deu de ombros, e a tensão escorreu de suas costas. “Que pena que eu não me importo. Eu sou dono de metade do negócio e estou de volta para ajudar. Você vai superar isso com o tempo.”
“E você já está tentando pegar alguma garota”, ele bufou. “Faz sentido. Touros e garotas. É só nisso que você é bom. Garotas dos outros, aliás.”
Caramba, quem foi que irritou o Kaden esta manhã?
Touros e garotas? Ela sabia que ele parecia familiar. Havia uma pequena biblioteca no centro, na praça, onde ela levava Ryker às vezes. A foto dele estava colada nas paredes com artigos de jornal e faixas.
Ele era algum tipo de herói de cidade pequena ou algo assim.
Um famoso peão de rodeio.
Swayze imaginou que isso não importava para Kaden, aparentemente.
Ela queria sair sem ser rude, então se virou para tentar anotar o pedido dele, mas a voz dele a parou. “Você não precisa ir embora porque o Grinch está aqui. Nem está perto do Natal. Leve sua bunda de volta para a fazenda; eu te encontro lá depois que eu comer.”
Swayze apontou para a cozinha. “Vou colocar seu—”
“E de todas as garotas da cidade, você vai atrás da nova que obviamente está fugindo de alguma coisa.”
Ei, agora chega. Swayze se virou para Kaden, que não parecia incomodado por ela poder ouvir, mas Montgomery foi mais rápido que ela ao dizer algo.
“Claro que você pensaria isso. Ela te contou isso? Ou você está apenas presumindo, como todo mundo aqui faz?”
Kaden se inclinou para frente, com os dois punhos apoiados na mesa. “Não é isso—”
“O que há de errado com você então?”, perguntou Montgomery. “Você gosta dela ou algo assim?”
Kaden contraiu o maxilar. “Não—”
“Então me deixa perguntar a ela—”
“Ele tem razão”, disse Swayze. Ambos os irmãos olharam para ela. Ela esperava que não pudessem ver as lágrimas acumuladas nos cantos dos olhos. “Não é uma boa ideia. Vou levar seu pedido.”
Ela levou o cardápio e o pedido até Oscar, atrás da janela da cozinha. Ela podia sentir os olhos dele nela enquanto desaparecia na esquina em direção aos banheiros. Aparentemente, a cidade inteira achava que ela era algum tipo de fugitiva. Ela não conhecia nenhuma fugitiva aos vinte e sete anos; ela achava que aquilo se chamava mudar de vida. Mas quem diabos perguntou para ela, não é mesmo?
Quando ela voltou para o salão, notou que eles estavam discutindo de novo. Montgomery nunca se levantava nem perdia a paciência, por mais ríspido que Kaden parecesse.
Ela supôs que esse tal de amor fraternal era superestimado em qualquer lugar.
Kaden não interrompeu seu ataque verbal abafado quando ela deixou a bebida de Montgomery na mesa, mas isso não impediu Montgomery de sorrir e observá-la se afastar.
Sua postura descontraída não era algo a que ela estivesse acostumada. Não importava que seu jeito "não tô nem aí" a atraísse, ou talvez tivesse mais a ver com o jeito que os olhos dele a faziam sentir um calor pelo corpo todo.
Quanto menos pessoas com quem ela interagisse, melhor.
Swayze evitou os irmãos o máximo que pôde pelo resto do turno, saindo às pressas antes que eles pagassem, mas deixando a conta na mesa. As duas caminhonetes enormes estacionadas no estacionamento improvisado tinham que ser deles.
Ela já tivera dinheiro suficiente para comprar esse tipo de coisa antes, mas tudo lhe fora tirado. Foi um golpe tão inesperado que ela ficou tonta; agora, ela agradeceria por uma lata-velha que a levasse de um ponto A ao ponto B.
Quando fugiu de casa, ela deixou tudo para trás: seu Mazda, a maioria de seus pertences e roupas. Ela empacotou tudo o que o filho possuía, junto com o básico para si mesma, e comprou duas passagens de ônibus para Kansas City, a cidade grande mais próxima.
Erro número um.
Pelo menos suas pernas entraram em forma nos últimos três meses, com ela andando por toda parte. A cidade era muito pequena, mas espalhada, e alguns dias eram mais difíceis que outros. Pelo menos nas outras cidades havia táxis e Uber. Swayze não se importava muito em andar, mas odiava quando o tempo virava, ficava frio e ela tinha que arrastar o filho por aí.
Ela encontrou uma mulher que morava a poucas ruas da lanchonete para cuidar de Ryker quando trabalhava. Tinha sido um parto encontrar alguém para cuidar dele.
Swayze chegou até ela dez minutos depois, rezando para chegar em casa antes da chuva. Ryker saiu voando pela porta antes que ela pudesse cumprimentar Lena.
“E aí, gata, e aí”, disse Lena.
Swayze sorriu para ela, tentando segurar a frustração do dia. Lena parecia ser a única pessoa na cidade que a tolerava. Era óbvio que ela não era do sul, com seu jeito rápido de falar e suas raízes italianas.
Ela se casou com um lenhador durante a faculdade e voltou para a cidade natal com ele, mas nunca pareceu se importar com a vida na cidade pequena. Ela era baixa, escondia-se sob roupas largas, mas parecia pequena, com um sorriso e uma personalidade enormes. Ela nunca parecia ter um dia ruim, ou pelo menos não demonstrava. “Como ele esteve hoje?”
“Mamãe. Lena disse para ir lá fora!” Ryker fez bico com seus lábios pequenos e olhou através de seu cabelo loiro despenteado para a mãe. Ele ainda usava sua capa do Batman que se recusava a tirar, a menos que fosse para tomar banho, há dias. “Você ouve o avião?”
Lena riu e tentou manter o cabelo longe do rosto com o vento que aumentava. “Ele teve tanta energia hoje que comeu tudo o que eu tinha na dispensa.”
Swayze conhecia essa sensação. Ela se sentia sobrecarregada com sua lista de compras há meses, mas venderia um rim para garantir que seu homenzinho comesse. “Obrigada por cuidar dele. Ele tirou uma soneca?”
Ela assentiu. “Sim, ele tirou, por cerca de uma hora e meia. O tempo está ficando feio lá fora. Não estou com o caminhão hoje, mas posso ligar para alguém para te dar uma carona?”
“Não”, disse Swayze. “A previsão do tempo disse que temos mais meia hora. Ficaremos bem. Eu trabalho no turno do almoço amanhã também.”
Lena assentiu. “Tudo bem, flor. A gente se vê lá.”
Swayze segurou a mão de Ryker e começou a descer a estrada em direção a casa. Sua casa era um duplex pequeno a quatro milhas em direção à ferrovia. Era uma casa humilde, com certeza, mas silenciosa e com dois quartos.
“Como foi o seu dia, garotão?”
Ryker apontou para a carreta que vinha pela estrada. “Caminhão, mamãe! É um caminhão grande!”
“Eu estou vendo o caminhão”, disse Swayze.
Ryker continuou, apontando para árvores aleatórias e tentando se soltar dela enquanto caminhavam. Ela podia sentir o asfalto através de seus Keds gastos a cada passo, mas Ryker precisava de roupas maiores, e isso vinha primeiro.
O trovão rugiu novamente, o que fez Ryker se agarrar à perna de Swayze, e a chuva começou a cair sobre eles. Swayze praguejou baixinho, amarrando a capa do Batman sobre a cabeça dele para mantê-lo seco. Swayze apressou o passo para levá-los para casa, mas, com uma criança de quinze quilos no colo, isso provou ser mais difícil do que valia a pena. Quem se importava se sua camiseta branca estava encharcada até o sutiã e ela parecia um rato afogado?
O ronco do motor de um caminhão ecoou ao lado deles, e Swayze puxou Ryker para trás, olhando para a enorme caminhonete preta.
O coração de Swayze falhou uma batida quando Montgomery abaixou o vidro, inclinando-se para dar uma boa olhada nos dois. “Não quis te assustar, querida. Quem temos aqui?”
Swayze olhou para os olhos castanhos esperançosos de Ryker e para a capa do Batman enrolada em sua cabeça. Ele precisava ficar longe de qualquer figura masculina até que ela pudesse garantir que estivessem seguros onde estavam. Ela não queria que ele criasse qualquer tipo de apego a um homem e que ele não ficasse por perto, ou teriam que se mudar de novo.
Ele já tinha sofrido o bastante.
“Meu filho. Posso ajudar em algo?”
Montgomery desviou o olhar de Ryker para encontrar o olhar gélido de Swayze. Se ela precisasse ser fria para fazê-lo recuar, ela faria.
Ele deu uma risadinha contida, e o som pairou contra a pele dela, arrepiada pelo frio, através da cabine do caminhão. O homem, ao que parecia, não se importava com a cara que ela fazia para ele.
“Bom, eu queria te perguntar por que sair comigo seria uma má ideia, mas aí vi você andando com esse corpinho lindo e pensei em te oferecer uma carona, já que vai começar a chover canivetes aqui fora.”
Corpinho lindo? Quem esse cara achava que era?
Bufando, ela puxou sua bolsa de brechó para o ombro e olhou para a estrada vazia. “Moramos logo ali na frente; estamos bem. Obrigada.”
“Ora, eu sei que você está mentindo, porque não tem onde morar a menos de cinco quilômetros daqui, e você já andou cinco hoje de manhã. Você caminha dez quilômetros por dia, sério?”
O constrangimento subiu pelo corpo dela. Para falar a verdade, ela tinha andado muito mais do que isso com turnos dobrados. Ela tinha certeza de que ele pensava o pior dela, porque que tipo de pessoa não tinha um veículo em uma cidade como esta?
E ter o filho pequeno andando junto? Ela tinha certeza de que isso era o assunto da cidade. “Estamos bem. Obrigada.”
Swayze começou a caminhar em direção ao duplex, desejando que aquele homem fosse para casa e a deixasse terminar o caminho em paz, mas o caminhão rastejou ao lado deles. “Eu não conseguiria me perdoar se algo acontecesse com vocês. Ou se vocês ficassem presos nessa tempestade que—”
“Temos pelo menos meia hora antes de começar a cair o mundo, Montgomery”, disse Swayze.
Montgomery inclinou-se para olhar pelo para-brisa. “Mont”, disse ele. “Você pode me chamar de Mont, e odeio estragar a sua surpresa, gata, mas vai começar a cair a qualquer minuto. Entra. Eu juro que levo vocês direto para casa.”
“Esse é um caminhão grande também, mamãe!”
“Viu? Até seu filho quer dar uma volta.”
“Eu não conheço você”, ela finalmente disse.
Mont a encarou por um momento, estacionou o caminhão no acostamento e saiu. Ah, não. Swayze pegou Ryker no colo novamente e o segurou perto. Independentemente de sua natureza amigável, ela não conhecia aquele homem. Ele contornou o veículo, pairando facilmente sobre Swayze.
Este homem era alto, exatamente como ela imaginara na lanchonete. Tudo o que uma garota sonha em um homem, até a covinha no lado esquerdo do rosto barbudo. As botas de trabalho que já viram dias melhores e o jeans rasgado provavam sua teoria de que ele trabalhava ao ar livre.
Ficou óbvio, depois da discussão no Megan’s, que ele era dono de metade do rancho com Kaden, mas ele esteve fora competindo em rodeios. Ela conseguia imaginá-lo montando touros com aquele jeito lento e sulista. Você podia olhar para as marcas de expressão no rosto bronzeado dele e saber que ele era um homem de verdade.
Swayze se odiou por isso, mas conseguia facilmente se imaginar cedendo a esse homem.
“Não quero te assustar”, disse ele. “Sou Montgomery King, e cresci por aqui. Estive fora por um tempo. E você é Swayze...?”
Swayze era seu nome do meio, não o nome que ela costumava usar, mas ela com certeza absoluta não ia dar seu sobrenome de novo. Isso tinha terminado em uma mudança na última vez.
Ela hesitou por hábito; mentir nunca foi fácil para ela. “Miller”, disse ela.
Mont deixou seu nome rolar pela língua. “Swayze Miller”, disse ele, os olhos estudando-a. “Não combina com você. Não soa certo.”
Ela o encarou com um olhar inexpressivo. “Desculpe? Foi o nome com que nasci.”
Mont inclinou a cabeça para o lado, cruzando os braços grandes sobre o peito. “Pena que não acredito nisso, mas não vou ser intrometido, não é da minha natureza.” Ele se curvou levemente para olhar Ryker, o que fez o coração dela vibrar como um motor. “E aí, amigão.”
“Ryker, não amigão”, corrigiu ele.
Mont abriu um sorriso para ele, e Swayze não pôde deixar de esboçar um sorrisinho.
“Ah, então esse é o homem da sua vida que te faz sorrir. Eu sabia que alguém tinha que fazer”, disse Mont. “Ninguém vive de cara feia o tempo todo.”
Ela não vivia de cara feia o tempo todo. Caramba, ela costumava ser uma garota cheia de vida. “Eu não fico de cara feia — muito.”
Mont ergueu uma sobrancelha, inclinando-se para trás nos calcanhares para dar uma olhada nela, o que a fez se remexer. Ela não estava vestida para impressionar com seus shorts curtos e Keds. Ela parecia uma Sookie Stackhouse barata, e os respingos de chuva molhavam sua camiseta mais a cada segundo.
“Pare com isso”, ela sibilou.
Montgomery deu um sorriso de lado. “Parar com o quê?”
“De olhar para mim”, disse ela, ajeitando o filho que se remexia em seu colo. Ela precisava encerrar a conversa antes que ele começasse a aprontar na frente daquele estranho.
Mont piscou para ela, deixando seus nervos em frangalhos. “Gostei do que estou vendo”, disse ele. “Agora, pula para dentro do caminhão, já que agora nos conhecemos.”
“Sério? Eu não conheço você—”
“Viva um pouco”, disse ele. “Só me deixe te dar uma carona, e se você me odiar depois, eu... bem, é melhor eu não fazer promessas que não posso cumprir.”
“Isso foi muito esperançoso”, ela disse.
“O tempo está correndo”, disse Mont.
Um carro passou e buzinou para Mont, que acenou de volta. “Se eu for, você vai me deixar em paz?”
Mont pensou a respeito, acariciando o queixo. “O máximo que eu puder, mas você sabe, o Megan’s é o único lugar para comer na cidade, e como você trabalha lá—”
Aquilo não a levaria a lugar nenhum. Swayze abriu a boca para dizer a ele não, obrigada, pela última vez, quando uma tempestade começou a encharcá-los.
“Chuva!” Ryker gritou.
Ela suspirou, derrotada. “Está bem, é logo ali na estrada.”
Mont sorriu devagar, estendendo a mão ao lado dela para abrir a porta. O cheiro de feno, sândalo e homem a deixou arrepiada, e ela não queria admitir, mas fazia tempo que não reagia a um homem daquela maneira. Fazia tempo que não deixava um homem chegar a menos de um metro dela.
Ela sentiu pena do couro bom em que suas coxas estavam grudadas, porque ela estava encharcada só pelo minuto que passaram ali.
Swayze não tinha uma cadeirinha para Ryker porque teve que deixá-la para trás, então ela o prendeu no cinto enquanto ele estava sentado em seu colo.
Mont entrou um segundo depois, ligando o motor. O rádio tocava Sam Hunt no último volume, e o ar-condicionado atingiu o rosto de Swayze. Ela sentiu alívio ao sentar ali, tentando ao máximo ignorar o quão pitoresco ele parecia com a chuva escorrendo por sua camisa e braços, colando-se a ele como tinta.
“Então”, Mont começou a descer a estrada, desligando o ar da pele fria dela. “Você mora no duplex que o Roger Jones possui, certo?”
É claro que ele já sabia onde ela morava. Pelo jeito que todos no restaurante o encararam, ela tinha certeza de que a informação era muito fácil de conseguir.
Ele tinha acabado de chegar hoje, ela supôs, pelo ataque verbal do irmão, mas nada mais a surpreendia.
Ela o manteve sob vigilância enquanto seguiam pela estrada. “Então, garotão, seu nome é Ryker?”
“Ryker”, disse ele, apontando pela janela. “Olha aquele passarinho, mamãe!”
Swayze não pôde deixar de sorrir e afofar o cabelo dele. Ele tinha sido uma criança selvagem desde o nascimento, nunca queria dormir, só mamava no peito e recusava a mamadeira de qualquer pessoa. A simples ideia de ficar sentado fazia a criança entrar em crise.
“Você gosta de pássaros?”, Mont perguntou. “Tenho um campo cheio deles. Você vai ter que vir vê-los algum dia. Se sua mamãe se soltar um pouco, é claro.”
Swayze nunca pensou que alguém precisaria dizer para ela se soltar, porque ela sempre fora de espírito livre e amava a liberdade. Ela tinha sido a garota "deixa a vida me levar" do ensino médio, aquela que sempre topava uma viagem de carro na faculdade — mas ela mudou. As coisas definitivamente mudaram para ela depois que sua mãe morreu.
“Ah, é? De acordo com seu irmão, você provavelmente não é bem-vindo naquele campo.”
Mont deu um sorriso para ela. “Ah, não estou muito preocupado com o Kaden.”
Aparentemente, não.
Swayze olhou para Mont, inclinado para trás confortavelmente com a palma da mão descansando no volante, sorrindo. Ele não fazia ideia do que o esperava se ele a encontrasse.
Por mais divertido que passar um tempo com ele e conhecê-lo parecesse, simplesmente não poderia acontecer. A vida de seu filho estava em jogo.
“Isso não vai acontecer”, disse Swayze.
Mont fez um ruído com os dentes e balançou a cabeça, inclinando-se para frente ao virar na entrada de sua casa. Eles compartilhavam um duplex com uma mulher mais velha que parecia estar nas últimas e perdendo a audição. O que era bom, já que Ryker era barulhento na maior parte do tempo, e prepará-lo para sair era comparável a tocar gado.
Mont estacionou o caminhão e virou-se para ela. “Veremos sobre isso.”
Swayze suspirou, soltando o cinto de segurança e segurando a mão de Ryker antes de abrir a porta, mas Mont já tinha saído do lado do motorista e ido abrir para ela.
Ela saiu de seu caminhão grande para a chuva, e ele pegou Ryker antes que ela pudesse alcançá-lo, jogando-o no ar enquanto ele gemia de tanto rir.
Algo apertou seu peito com a visão dele com um homem. Ela tentava fazer o papel de mãe e pai, mas era difícil.
“Obrigada”, disse ela enquanto ele colocava Ryker no chão.
Mont encontrou seus olhos, examinando seu rosto em busca do que ela não sabia. Inclinando-se para frente, ele afastou algo do rosto dela, mas ela se esquivou.
Isso o divertiu e o fez sorrir mais. “Temperamental, não gosta de ser tocada ou ajudada. Não vai me dar uma chance. Isso vai ser mais difícil do que pensei.”
Swayze caminhou em direção à varanda da frente de seu duplex, observando Ryker correr em direção à cadeira dobrável ao lado da porta.
Ela se virou para ver Mont atrás dela. “Escute — você parece ser legal, mas não vai acontecer. Eu não vim para cá para isso—”
“Para o quê?”, ele perguntou. “Para viver um pouco, ou para dar uma chance a um cara? Ou estamos falando de se apaixonar?”
Swayze não conseguiu se segurar, deixou a cabeça cair para trás e riu. Fazia tempo que não ria assim. Quando trouxe o rosto de volta, ela enxugou uma lágrima perdida.
“Você não acha que poderia se apaixonar por mim?”, Mont perguntou. “Prove.”
“Ah.” Ela balançou a cabeça. “Conheço esse truque, e não vai funcionar. Obrigada pela carona. Tenho que ir agora.”
Mont a ignorou. “Quando você trabalha de novo?”
“Não jogue pedras”, disse Swayze, apontando para Ryker. “Isso é uma informação confidencial.”
Mont sorriu. “Vou descobrir.”
Ela não esperava menos. Swayze suspirou porque, honestamente, não havia nada que ela pudesse fazer para impedi-lo de ir ao restaurante.
“Aposto que você faz os turnos do almoço”, disse ele. “Na maioria dos dias. Então, acho que vejo você amanhã.”
“Não intencionalmente”, disse ela.
Mont assentiu, ajeitando seu boné. “Não, muito intencionalmente”, disse ele. “Vou dar um jeito. Sou útil para essas coisas.”
Swayze olhou para o chão, seus Keds batidos comparados às botas de trabalho dele, gastas, porém caras. Será que ele não percebeu o quanto ela estava quebrada? Desesperada pela sobrevivência? Se ele percebeu, não se importou. O triste é que, se eles tivessem se conhecido em outras circunstâncias, ela teria saído com ele.
Mas essas circunstâncias não eram realidade, e ela precisava manter seu filho e a si mesma vivos.
“Tchau, Montgomery”, disse ela, esperando que ele aceitasse sua resistência e fosse embora.