Capítulo 1
Desmond Coyle
— Eu sei, Coyle, mas não posso ficar cobrindo sua bunda toda vez — Justin rosna, a voz já quase engolida pelo barulho das esmerilhadeiras e o guincho do aço sendo cortado. As luvas ainda nem estão nas minhas mãos, as pontas dos dedos em carne viva desde ontem, os nós dos dedos com crostas. Mesmo assim, eu as enfio rápido, como se isso fosse fazer o tempo voltar.
— Não foi culpa minha — resmungo, o maxilar travado, já me preparando para o próximo golpe. — A Nanny chegou atrasada de novo e o Leon estava…
— Tá bom, tá bom, tá bom — Justin me corta com um gesto, já caminhando em direção ao andaime, o rosto vermelho sob o capacete. — Eu sei que o que a Lizzie fez foi uma merda, cara, mas você precisa dar um jeito. Já cobri seu turno três vezes essa semana. Você sabe como o John fica.
Sei muito bem. O John fica com aquele tremor no olho, como se estivesse decidindo qual de nós dois vai demitir primeiro, depois finge que esqueceu meu nome na hora de distribuir os turnos do fim de semana.
A verdade é que, desde que a Lizzie — minha esposa, ex-esposa, seja lá o que ela é agora — juntou suas coisas e sumiu como fumaça, estou correndo atrás do próprio rabo. Uma mão trocando fraldas, a outra tentando segurar firme o maçarico. Tentando dar comida pro Leon, trocá-lo, acalmá-lo e deixá-lo com alguma babá que não cobre mais que o meu aluguel e não se importe com vômito no sofá.
Estou fazendo malabarismo com fios desencapados e tudo está prestes a cair.
Não posso perder esse emprego. Não posso pagar alguém decente pra cuidar dele. Não posso pagar quase nada, na real, a não ser continuar aparecendo — mesmo que chegue dez minutos atrasado, com sono, meio vestido e fedendo a leite em pó e suor de ontem.
Justin não está errado. Mas ainda assim dói ouvir.
— Você acha que eu não quero resolver essa merda? — disparo, mais alto do que pretendia. Ele para, olha por cima do ombro.
— Eu acho que você está se afogando, Des. E se não parar de fingir que não está, vai levar o resto de nós junto.
Ele diz isso como um amigo. O que quase torna tudo pior.
A vida nem sempre foi assim, sabe? Houve um tempo em que achei que tinha dado sorte, como se o mundo finalmente tivesse decidido me dar uma chance em vez de mais um soco no estômago. Quando casei com a Elizabeth — a Lizzie —, ela era tudo pra mim. Minha namorada do colégio, a garota com quem eu dirigia pela cidade no meu Ford caindo aos pedaços, janelas abertas, o rádio chiando música antiga, as pernas dela no painel, rindo como se o mundo não pudesse nos alcançar.
Eu olhava pra ela e pensava: é isso. É isso que as pessoas querem dizer quando falam em bênção. Idiota, eu sei, olhando pra trás, mas na época parecia real. Casamos novos. Todo mundo em Ironvale casa cedo. É quase uma regra não escrita — crescer rápido, se estabelecer mais rápido ainda, começar uma família antes que o mundo perceba que você não tem grana pra isso. As pessoas aqui não perdem tempo com nada. Se apaixonam como quem bate o ponto: rápido, comprometido, sem fazer perguntas.
Ironvale já foi próspera, naquela época. Não pra gente, não de verdade, mas nossos pais contavam as histórias — homens saindo das fábricas cobertos de pó de aço, os bolsos cheios, as costas eretas, como se a cidade fosse movida a músculo e trabalho duro. Os soldadores já foram reis. Meu velho ainda fala como se fossem. Ele mantém o maçarico antigo pendurado acima da bancada como se fosse um altar, diz que aquilo nos alimentou melhor do que qualquer diploma de faculdade.
Mas a cidade murchou. As fábricas fecharam. Os homens arrumaram seus armários e saíram com caixas em vez de orgulho. Agora só restam duas indústrias funcionando, e eu estou em uma delas — um dos poucos sortudos que ainda podem queimar metal pra viver. Dá pra sentir o desespero em cada cara que bate o ponto — como suor misturado com medo. Porque todos nós sabemos a verdade: tem uma fila de homens do lado de fora de Ironvale só esperando que alguém como eu vacile, falte um dia a mais, irrite o chefe errado. Eles pegariam meu emprego antes mesmo do meu armário esfriar.
Não posso me dar ao luxo disso. Não com o preço da fórmula do Leon, não com as consultas médicas, não com o aluguel subindo mesmo numa cidade morrendo. Cada minuto de atraso, cada turno que eu arrasto feito sonâmbulo, eu escuto os lobos nas minhas costas. E a parte mais fodida? Eu achava que nunca ia acabar assim. Pensava que eu e a Lizzie seríamos a exceção — os que conseguiam sair ou fazer dar certo. O casal que não ia se tornar amargo e quebrado como todo mundo por aqui. Mas sonhos não valem nada quando a podridão começa.
E a podridão começou devagar. Silenciosa. Como ferrugem debaixo da tinta — você não percebe no começo, não quando ainda está dirigindo e tudo parece normal. Eu era feliz. Burro, cego e feliz pra caralho. É isso que mais me irrita agora — como eu me sentia bem enquanto tudo já estava desmoronando pelas minhas costas.
Começou com pequenas coisas. O celular dela acendendo mais do que o normal, e ela rindo de mensagens que não me deixava ver. "É só um amigo", dizia, toda doce e casual, como se eu estivesse sendo bobo por perguntar. Depois vieram as saídas. Idas ao posto de gasolina que de repente duravam uma hora. Compras no mercado sem as compras. E mesmo assim, eu não juntei os pontos. Por que juntaria? Eu estava mergulhado demais. Apaixonado demais. Cansado demais. Trabalhando turnos duplos, chegando em casa fedendo a fogo e aço, e toda vez que eu entrava e a via no sofá com o Leon no peito, tudo parecia valer a pena. Como se eu estivesse fazendo algo certo.
Puta merda, nossa vida sexual nem tinha ido pro buraco. Não como as pessoas diziam que ia depois do bebê. Eu ainda ficava louco por ela. Ainda ficava duro só de vê-la passar usando uma das minhas camisetas, ainda me esgueirava atrás dela na cozinha pra agarrar aquele rabo perfeito, ainda acordava algumas manhãs só pra transar devagar enquanto o babá eletrônico chiava no criado-mudo. Ela dava desculpas aqui e ali — dor de cabeça, estresse do bebê —, mas nada que gritasse "sinal vermelho". Não até o dia em que tudo estourou.
Ela estava cochilando no sofá, encolhida como sempre, a boca meio aberta, um braço caído sobre os olhos. Eu estava no chão brincando com o Leon, empilhando blocos e fingindo que sabia o que estava fazendo, quando o celular dela vibrou na mesinha de centro. Não pensei muito. Curiosidade, só isso. Estiquei a mão, esperando alguma conversa com a mãe dela ou um meme idiota da irmã.
O que eu vi foi uma foto. Uma imagem em alta definição, sem erro, de um pau que não era o meu. Duro, cheio de veias, posado como se fosse um maldito ensaio fotográfico.
E não era o meu.
Fiquei ali parado por um segundo, piscando. A sala ficou quieta, mesmo com a TV ligada. O Leon balbuciou, esticou a mão pra pegar um bloco, e eu só fiquei olhando pra tela como se ela fosse mudar se eu encarasse com força suficiente. Como se eu pudesse voltar no tempo alguns segundos e fazer uma escolha diferente — pegar uma cerveja, deixar pra lá.
Mas aquele momento partiu minha vida em duas.
Antes que eu pudesse me conter, abri a conversa. Vi semanas de mensagens. Sexts. Planos. Coisas que fizeram meu estômago embrulhar e o peito afundar. E então olhei pra ela — ainda dormindo, respirando devagar, tranquila como se nada no mundo estivesse errado — e juro que não senti nada. Nem raiva, nem tristeza. Só vazio.
A traição não veio toda de uma vez. Não como um soco no estômago, nem como um grito no escuro. Chegou devagar. Dias depois. Se infiltrando como fumaça por baixo da porta, enchendo o cômodo quando eu não estava olhando.
No começo, fiquei quieto. Guardei pra mim. Engoli como água com ferrugem, deixei revirar no estômago. Finji que não tinha visto o que vi, que não sabia o que sabia. Beijei a testa dela quando ela se levantou pra tomar café. Segurei o Leon enquanto ela tomava banho. Jantamos na mesma mesa. Mas meus olhos não eram mais cegos. Estavam caçando. Registrando os detalhes.
Na semana seguinte, tudo começou a se encaixar como peças de um quebra-cabeça ruim. Algumas manhãs, ela saía do quarto com o cabelo todo bagunçado, mas não de sono. Não do jeito que eu conhecia, de quando eu tinha passado as mãos por ele na noite anterior. Um dia, tinha uma marca de mordida no pescoço dela — pequena, quase tímida. Não fui eu que fiz. Nem lembrava da última vez que a tinha tocado naquela semana, pra falar a verdade.
Eu a testei também. Parei de procurá-la à noite, parei de me enroscar nela, parei de puxar a camisa dela pra cima debaixo das cobertas. E ela não se importou. Não reclamou. Nem piscou. Foi aí que caiu a ficha — ela não estava sentindo falta. Não precisava de mim.
Porque estava conseguindo de outro.
No começo, eu não sabia quem ele era. Só mais um babaca sem rosto com um pau grande o suficiente pra mandar foto e uma mão macia o bastante pra fazê-la rir por mensagem. Mas naquele sábado — chuvoso, abafado, o bebê manhoso e agarrado em mim como se eu fosse a única coisa que o mantinha vivo — eu perdi a cabeça. Não aguentei mais.
Eu a enfrentei.
Eu vinha carregando o peso daquilo por dias, deixando se assentar no peito como escória. O tipo de coisa pesada que você só percebe quando começa a mudar sua respiração. Esperei até o Leon dormir e a casa ficar quieta — sem desenhos na TV, sem mamadeira na pia, só o som do ventilador de teto cortando o silêncio.
Joguei tudo na mesa. As perguntas. As peças que eu já tinha juntado. Há quanto tempo. Quem diabos ele era. Se ela o amava. Não estava gritando. Não estava implorando. Só ali parado, o maxilar travado, as mãos fechadas ao lado do corpo como se quisessem socar alguma coisa, mas soubessem que não deviam.
Ela respondeu como se estivesse lendo uma lista. Como se já tivesse dito aquilo em voz alta na cabeça umas cem vezes, talvez até ensaiado.
Ele a tratava melhor. Era mais gentil. Delicado com as palavras, lento com as mãos. Não a pegava com força quando chegava em casa. Não agarrava o rabo dela no corredor com graxa ainda nos dedos. Tinha mais dinheiro. Um emprego confortável, provavelmente alguma coisa com tecnologia que não deixava queimaduras nos braços nem pó de metal nos pulmões. Tinha tempo. Tempo pra perguntar como tinha sido o dia dela. Tempo pra levá-la pra sair.
Ela disse que estava cansada — cansada de viver de migalhas, de contar moedas no mercado, de usar calças de gestante depois de dar à luz porque todo o resto ia pro bebê. Cansada de ser mãe antes de ter a chance de ser qualquer outra coisa.
Disse que se arrependia de ter se casado comigo tão nova.
Como se toda a nossa história fosse só um desvio no caminho pra alguém melhor.
E disse isso sem piscar. Sem lágrimas. Sem hesitar. Como se eu fosse uma fase que ela tinha superado. Um erro que finalmente teve coragem de consertar.
E então arrumou as malas. Saiu devagar, como se quisesse ter certeza de que eu a veria ir embora. A bolsa pendurada no ombro, sem olhar pra trás. Sem um beijo pro bebê. Nem um segundo olhar.
Ela deixou tudo pra trás, menos a si mesma.
E tudo o que eu pude fazer foi ficar ali parado e deixá-la ir.
O Leon tinha só três meses. Mal conseguia se sentar sozinho, só um bichinho molinho que ainda cheirava a leite e sono, completamente indefeso. Sem palavras de verdade. Só balbucios, choros e aquele sorrisinho banguela que arrebenta seu peito se você olhar por muito tempo.
E ela saiu como se ele nem existisse. Como se não fosse filho dela.
Acho que, entre o vômito nas camisetas e as mamadas de madrugada, ela arrumou tempo pra arranjar outro homem. Um com mais dinheiro. Mais paciência. Uma casa maior. Talvez um carro mais bonito. Talvez um jeito mais suave de falar. E, pelo que ela generosamente me ofereceu naquele sábado, aparentemente ele também tinha um pau melhor.
Não é incrível?
Agora eu me viro. Não tenho tempo pra raiva, não tenho espaço pra ser nada além de acordado e ralando. Trabalho quando posso, pego todos os turnos que me oferecem, mesmo que minhas costas estejam gritando, mesmo que eu esteja funcionando com três horas de sono interrompido e o café que sobrou da noite anterior.
Creche? Isso é piada. Não dá pra pagar nem se eu quisesse. Cobram como se estivessem colocando o filho na faculdade. Então eu ligo pras babás de um grupo do Facebook — garotas que mal saíram do ensino médio, cobrando vinte paus pra meio cuidar dele enquanto ficam no celular. Algumas são boas, claro. Algumas até tentam. Mas nenhuma delas é ela. Nenhuma é eu.
Toda manhã é uma roleta-russa. A babá vai aparecer? Vai desistir em cima da hora? O Leon vai chorar o tempo todo que eu estiver fora? Vai comer? Ela vai trocá-lo? É uma roda de preocupação que não para. Eu o deixo, e o levo no peito o turno inteiro, imaginando os piores cenários e dizendo pra mim mesmo pra calar a boca e soldar.
Comida é o de menos. Jogo junto o que der — feijão enlatado, macarrão instantâneo, salsicha fria cortada em pratos de papel. Às vezes como as sobras do Leon. Às vezes nem como. Algumas noites, sento na mesa da cozinha depois que ele dorme, olhando pra uma lata de feijão com uma colher na mão e me perguntando como diabos minha vida virou isso.
Mas não posso parar. Não posso vacilar. Não posso desabar, por pior que fique. Porque se eu perder o emprego, perco meu filho. E já perdi demais.
Ninguém vem me salvar.
Então eu coloco as luvas. Calo a boca.
E volto pro trabalho.
Mais um dia, mais uma rodada na roleta — será que a babá aparece, ou vou ter que queimar mais meio turno levando o Leon comigo pro trabalho e torcer pra ninguém perceber?
Achei essa ontem à noite. Uma garota, disse que se chamava Brielle. Pareceu firme no telefone — não deu risadinhas a cada duas frases, não perguntou se eu tinha lanchinhos estocados ou se podia trazer uma amiga. Disse que tinha experiência com bebês. Falou como se já tivesse pelo menos um pé fora dos vinte. É só isso que preciso. Alguém que não dê pra trás, que apareça e mantenha meu filho vivo até eu voltar.
Não pedi foto. Ela não ofereceu, e eu não perguntei. Não parecia do tipo que fica pescando elogios. A voz era firme. Um pouco cansada, mas puta merda, quem não está cansado?
Dou uma olhada no relógio. Já passou das 7h20. As botas de trabalho estão calçadas, cadarços soltos, pronto pra entrar no modo "vamos embora" no segundo em que ela chegar, mas o segundo não chega. Sinto no estômago, aquele aperto, o medo subindo pela espinha como uma mão gelada. É assim que sempre começa — com um "talvez". Depois, um "não apareceu". E aí, meio turno perdido e um supervisor puto respirando no meu cangote.
O Leon já está trocado e alimentado, balbuciando no cobertor no meio da sala, mastigando a orelha de um cachorro de pelúcia meio detonado. Está de bom humor agora, mas o relógio não para. Tenho vinte minutos pra chegar no canteiro, e pelo menos quinze deles são na estrada. Cada segundo que ela não bate na porta é mais um prego no meu pé.
Meu apartamento é uma bosta — último andar, sem isolamento, corrente de ar pelas janelas, e a escada range como se fosse desabar. Sem interfone, sem porteiro. Só você, uma fechadura que emperra e um olho mágico todo arranhado, como se alguém tivesse riscado de tédio.
E então, finalmente, às 7h30 em ponto, alguém bate na porta.
Não é o tipo de batida que você recebe de algum vizinho chapado pedindo cigarro ou de alguém enfiando panfletos debaixo da porta. É rápida, firme. Sem hesitação.
Chego perto da porta, ainda esperando o de sempre — algum moleque meio acordado de moletom, olhos vermelhos do vapor de qualquer merda que fumou até as 2h da manhã, parecendo que mal lembra da conversa que tivemos.
Me aproximo do olho mágico. Está todo arranhado, mas dá pra ver uma silhueta. Alta. Cabelo solto. Moletom fechado até o pescoço. Parada ali, com um leve balanço no corpo, como se tentasse ficar parada, mas não conseguisse. Tem que ser ela.
Destranco a fechadura, giro a maçaneta, a porta emperra como sempre — tenho que puxar um pouco — e então abro.
E—
Puta que pariu.
Tá bom, então.
Meu cérebro simplesmente… dá um curto-circuito por um segundo.
Ela está ali, enquadrada naquele batente lascado como se nem pertencesse a um lugar tão caindo aos pedaços. Como se o ar ao redor dela fosse mais limpo. Cabelo preto, longo e brilhante, que pega a pouca luz do corredor e reflete como cetim. Olhos azuis — claros, vivos, do tipo que acerta você no peito quando te olham de frente. E alta. Quase do meu tamanho, mas chega perto — um e oitenta, talvez um e oitenta e cinco de bota. Pernas que não acabam. Mas não é só a altura. É o jeito que ela se porta. Coluna ereta. Um pouco hesitante, sim, mas não frágil.
Magra, sim. Corpo esguio dentro daquele moletom. Mas dá pra ver que é do tipo que mata em silêncio — macia nos lugares certos. O peito dela…
Caralho. Ela é gostosa pra caralho.
Não é o tipo que você passa e esquece. Não, é o tipo que faz sua boca secar, faz você piscar duas vezes e rezar pra seu cérebro se recompor antes de começar a encarar como um tarado.
Me pego no meio de imaginar como seria enterrar o rosto entre aqueles peitos, e é aí que a voz dela corta de novo.
— Oi… você é o Desmond Coyle? — ela diz, suave, mas firme. A voz tem uma textura — doce, um pouco rouca, tímida como se não gostasse de ser a primeira a falar, mas fala se precisar.
Pisco. Duas vezes.
Puta merda, se controla.
— É… sou. Desmond. Coyle — consigo dizer, a voz falhando como se tivesse esquecido como se fala.
Ela sorri. Não é um sorriso grande. Só o suficiente pra me fazer sentir um idiota por gaguejar.
— Eu sou a Brielle. A gente conversou ontem? Sobre cuidar do seu filho.
Certo. Certo.
A babá. Aquela que eu precisava, que implorei pro universo me mandar. E o universo me mandou isso?
Agora estou tentando lembrar se mencionei que moro sozinho. Tentando me recordar se peguei os brinquedos do Leon do sofá ou se ainda tem uma fralda suja no lixo perto da porta. Devia convidá-la a entrar. Dizer algo normal.
Mas minha boca ainda está tentando processar o fato de que essa deusa acabou de se apresentar como minha babá. Como se fosse uma piada que o universo está armando pra me ferrar.
— É… entra, então — digo, dando um passo pro lado, a voz ainda presa entre o "estou de queixo caído" e o "estou com tesão". Ela passa perto, e eu sinto o cheiro dela.
Cheira a limpo. Não é perfume, não é aquele spray corporal que a Lizzie usava — uma merda floral que te sufocava num quarto fechado. Não, a Brielle cheira a sabonete barato. Coisa de posto de gasolina, talvez, ou de loja de um real. Fresco, simples, sem frescura. O tipo de cheiro que você só percebe quando está perto. Honesto. Como se tivesse se lavado e vindo direto pra cá. Não é ruim. Até que é… reconfortante.
Ela entra, os olhos varrem o lugar rápido — carpete gasto, ventilação quebrada, uma pilha de garrafas secando perto da pia. Nenhum julgamento no rosto. Só calma, atenta.
E então ela vê o Leon, deitado no tapete no meio da sala, mastigando a ponta do brinquedo de girafa, chutando as pernas como se estivesse fazendo aeróbica de bebê.
Sem esperar por uma deixa ou conversa fiada, ela vai direto até ele e se agacha ao lado. Se move suave, cuidadosa, como se já tivesse feito isso umas cem vezes.
— Oi, amiguinho — diz, a voz toda macia e quente, como açúcar no chá.
Então olha pra mim, um joelho ainda no chão, as mãos apoiadas nas coxas.
— Posso pegar ele no colo?
Não são só as palavras — é como ela diz. Como se soubesse que não deve presumir. Como se respeitasse o espaço entre estranho e criança, mesmo num apartamento de merda onde tudo parece grudado.
E por um segundo, fico só parado, olhando. Ela perguntou. Nenhuma babá jamais perguntou. Elas só o pegam como se fosse uma boneca ou agem como se ele fosse um estorvo. Mas ela está esperando.
Assinto.
Ela sorri de novo — menor dessa vez, quase imperceptível —, mas é o tipo de sorriso que faz seu coração dar um pulo mesmo assim.
Então estende as mãos pro Leon, com cuidado, as palmas sob os bracinhos dele, erguendo-o devagar e firme. Ele solta um grunhido baixinho, depois dá uma risadinha. Uma gargalhada de bebê, gorgolejante e clara, como se já tivesse decidido que ela é legal.
Pigarreio, esfregando a nuca. — Hm — começo, a voz falhando como sempre quando tento não soar como um babaca —, você não falou muito de si mesma no telefone. Só quero ter certeza de que sabe mesmo lidar com ele, só isso.
Ela não se abala. Não fica na defensiva nem me lança aquele olhar magoado como se eu a tivesse acusado de algo.
Apenas assente, ainda segurando o Leon como se ele não pesasse nada, como se fizesse isso há anos. — Claro, Sr. Coyle. — A voz é suave de novo — sincera, sem tentar me enrolar. Só direta. — Tenho vinte e cinco anos. Não tenho filhos, mas já fiz muito bico de babá. Principalmente com bebês e crianças pequenas. Já trabalhei pra uma família com três crianças com menos de cinco anos — um caos, mas me ensinou a ter paciência.
Ajusta o Leon no colo como se fosse a coisa mais natural do mundo. Ele encosta a cabeça no ombro dela e suspira, já se acomodando.
— Sei trocar fralda, dar mamadeira, dar banho se precisar. Preparar comida. Já fiz pernoite também. Sei lidar com golfadas, explosões de cocô e febre de bebê. O senhor não precisa se preocupar.
Cruzo os braços, encosto no batente da porta. — Muita gente diz isso. Depois se assusta na primeira choradeira.
Ela levanta uma sobrancelha — não de um jeito arrogante, nem sarcástico. Só calma. — Não me assusto fácil.
O Leon solta um murmúrio baixinho, a cabeça ainda enterrada no ombro dela.
— Você fuma?
— Não.
— Bebe?
— Não quando estou trabalhando. Nem muito quando não estou.
— Tem alguém que você planeja trazer aqui?
Ela pisca. — Tipo um namorado?
Dou de ombros. — É. Ou um desfile de amigos. Roommates. O que for.
Ela balança a cabeça. — Não. Seria só eu e o Leon. Eu não… não sou muito de sair ultimamente.
Tem algo ali. No jeito que ela diz. Quieto. Cortado. Guardo isso pra depois, mas não insisto.
— Tá bom — digo, finalmente soltando o ar —, você tem celular? Pra caso eu precise falar com você durante o turno?
Ela passa o Leon pra um braço só e puxa um Android barato do bolso do moletom. Tela trincada. Não comento nada.
— O número é o mesmo que eu liguei ontem — diz, destravando pra conferir.
Assinto. — Beleza.
Fica um silêncio por um segundo. Estranhamente confortável. O Leon solta um ronco de bebê.
— Quer que eu te mande atualizações? — ela pergunta.
Olho pras minhas botas, depois de volta pra ela. — Se ele fizer cocô nas roupas ou começar a vomitar, sim. Senão, só mantenha ele vivo.
Ela sorri de novo. Não um daqueles sorrisos falsos, de dentes à mostra, que as pessoas dão quando estão se esforçando demais. É pequeno, gasto. Um pouco cansado, um pouco sabido. Como alguém que já passou por poucas e boas e não espera que a vida lhe dê nada de mão beijada — mas aparece mesmo assim.
— Consigo fazer isso — diz, a voz firme. Confiante, mas não arrogante. Só segura.
Assinto uma vez, seco. — Tá bom.
Dou um passo pra trás, pego as chaves no gancho perto da porta e dou mais uma olhada nela. O Leon já está praticamente derretido no peito dela, uma mãozinha gordinha agarrada no tecido do moletom como se já a tivesse reivindicado. Sortudo do caralho.
— Volto às sete — digo, alcançando a maçaneta. — A mamadeira está pronta na geladeira, fraldas e lenços estão na cesta embaixo da mesinha de centro. Roupas extras no armário do corredor, segunda prateleira. Se ele começar a chorar e não parar, verifica a barriga. Às vezes ele fica com gases. Esfrega as costas dele.
Ela assente como se estivesse decorando tudo. — Entendi.
— Manda mensagem se for emergência — acrescento, abrindo a porta pela metade. — Senão, não enche meu saco. Trabalho com coisa pesada. Não posso ficar checando mensagem a cada cinco minutos.
— Eu entendo.
— Te pago quando voltar. Em dinheiro. A não ser que você queira por Venmo ou alguma merda dessas — mas não conte com isso, mal uso.
— Dinheiro tá bom. — Ela passa o Leon de um lado pro outro com cuidado, balançando-o um pouco. Ele murmura, os olhinhos já meio fechados. — O senhor quer que eu anote o que ele come, quando dorme?
Pisco. Isso… é ir além. Nenhuma das outras nem perguntou.
— Se tiver tempo — resmungo. — Não é como se eu fosse registrar num aplicativo de pais, mas é bom saber se ele estiver mais manhoso que o normal.
— Tá bom. Vou anotar.
Mais um instante. Olho pras minhas botas, depois de volta pra ela.
— Se precisar de qualquer coisa — qualquer coisa mesmo —, me liga. Não espera.
— Pode deixar.
Fico ali parado um segundo a mais do que deveria. Só observando. Ela não se intimida. Não fica inquieta nem estranha. Só segura o Leon como se tivesse nascido pra fazer exatamente aquilo. Ele solta outro suspiro de bebê, e sinto algo apertar no peito.
Sacudo a cabeça pra afastar o pensamento.
— A porta tranca por dentro. Se alguém bater, não abre a não ser que conheça a pessoa.
Ela dá um sorrisinho de canto. — Acha que sou nova em apartamento de merda?
Dou uma risada seca. — Tá certo.
E com isso, finalmente abro a porta de vez e saio pro corredor. O ar lá fora está parado. Cheira a peixe requentado de novo.
Dou uma última olhada pra trás. Ela já está indo em direção ao sofá, o Leon aconchegado nela como se já tivesse feito isso mil vezes.
Pela primeira vez em semanas, não sinto que estou saindo pro dia com as tripas na mão.