Chapter 1 ✼ Nia
A sopa queimou minha língua. Observei meu irmão gêmeo se servir de novo.
“Quente”, gemi, abanando a boca com a mão.
Minha língua e metade do meu lábio ficaram dormentes na hora. Bebi um gole do copo de Norynne. Minha irmã mais nova me lançou um olhar que deixaria Medusa orgulhosa. O azul-glacial brilhou por trás das longas mechas negras que tinham escapado de sua trança.
Dei de ombros, um pedido de desculpas silencioso para a diabinha seis anos mais nova que eu.
Ela me deixou viver.
Por pouco.
“Norynne, pegue água fresca. A Nia vai precisar de muito mais se continuar sonhando acordada desse jeito”, meu irmão zombou, enfiando mais carne em sua goela insaciável. O apetite dele sempre foi fora do comum, mas Nathan agora era um tanque. Ao contrário de mim, ele comia por dois.
Ele sorriu, passando a mão pelo cabelo preto, bagunçado pelo vento — curto, mas enrolado como o meu. Gêmeos bivitelinos, mas imagens espelhadas. Uma alma, dois corpos. Inseparáveis e indestrutíveis.
Exceto por sopa quente, talvez.
“Nia, termine logo e cuide da louça”, mamãe avisou, trocando Nedwin. O pacote de alegria de nove meses — e o último da ninhada.
Assim que ela se virou, Nathan mostrou a língua.
Lancei a ele um olhar horrorizado: Para com isso ou vai apanhar. As mãos pesadas da mamãe não eram brincadeira. Sozinha com cinco filhos, ela precisava ser durona. Especialmente com Norynne, a monstrinha que tinha enchido o copo e se sentado a uma distância de um braço de mim.
“Tá bom, eu mesma vou buscar”, murmurei.
Nathan levantou num pulo. “Não, Nia — não. Toma.”
Ele empurrou a água para mim e pegou minha tigela no mesmo movimento. Peguei o copo, mal percebendo o caldo balançando perigosamente perto da borda.
“Ei. Para de ficar viajando”, ele murmurou, seus olhos azul-gelo provocando.
“Valeu…”, sussurrei. Mais para mim mesma do que para ele. Afundei de volta na cadeira.
Nathan recostou-se, estudando-me de forma afiada, como se pudesse ver coisas que eu ainda nem tinha compreendido. “Você está agindo estranho hoje.”
Apenas dei de ombros.
“A Nia é sempre estranha”, Norynne disse sem expressão. Um fato da vida, como o nascer do sol.
“Quero dizer, mais do que o normal”, Nathan rebateu, virando uma careta para nossa irmã mais nova. “E você, Norynne… treze anos com jeito de trinta. Cristo, não seja uma velha ranzinza tão amarga.”
Eles discutiram por um tempo. Eventualmente, Norynne chamou ele de novato e o assunto morreu.
Normalidade. Mas hoje, parecia vazio.
O calor da sopa já tinha passado há muito tempo, mas algo dentro de mim permanecia inquieto. Um peso estranho pousava sobre minha alma, arrastando-me para profundezas que eu não compreendia. Procurei pelo que havia de errado. Não encontrei nada.
Finalmente, Nathan pegou a tigela onde eu apenas empurrava os vegetais. Ele terminou o resto e a colocou de lado.
“Eu cuido da louça. Você vai até a Layra. Faz isso por mim?”
Ele colocou a mão no meu ombro e ergueu meu queixo com a outra. O toque dele era familiar. Minha âncora. Sorri com gratidão. Um pouco de ar fresco me faria bem.
Nathan deu um beijo no topo da minha cabeça e puxou Norynne. “Você vai secar, tampinha. Castigo por ter roubado minha maçã no almoço.” Ela deu um soco nas costelas dele, riu e pegou o pano grosso.
A cadeira arrastou pelo chão, mal coberto de palha, enquanto eu me levantava. Joguei dois troncos extras na lareira para espantar o frio da noite. Limpei a mesa rapidamente e varri as migalhas para o balde pequeno. Pronto.
“Nia.” Mamãe apontou para o balde de restos. “Leve isso para os porcos quando for levar o pão para sua irmã Layra. E traga os cobertores desta vez! Eles ainda estão lá.”
Mordi o lábio. “Vou tentar.”
“Sincera, pelo menos.” Ela deu um sorriso de lado para o pequeno Nedwin e soprou uma "framboesa" na barriga redonda dele. “É isso que importa. Numa família, a gente precisa conseguir confiar um no outro.”
Eu vi pelo canto do olho. Um brilho sombrio no olhar de Nathan. Ele já não era mais um garoto que obedecia cegamente. Ultimamente, ele vinha batendo de frente com a mamãe cada vez mais. Algo tinha acontecido entre eles. Eu ficava fora disso, mas sentia o ressentimento abrindo um abismo. Um segredo afastando os dois.
A risada alegre de Nedwin me seguiu até a porta, mas não alcançou a noite. O vilarejo estava envolto em silêncio. Nem mesmo o gado se mexia. Estranho.
“Droga. O pão.”
Suspiro. Alguns passos para fora e já esquecendo as coisas. Envergonhada, despejei os restos no cocho dos porcos, voltei e abri a porta devagar.
“…não comece com isso de novo, Nathan.” A voz da mamãe soava exausta.
“Mas ele tinha que estar aqui há menos de dois anos, ou o Nedwin não existiria”, Nathan sibilou de volta. Sua voz era baixa, exigente. “Não pense que eu não percebi que nossos nomes começam com ‘N’. Todos nós — exceto a Layra…”
Eu congelei na porta.
Nathan estava diante da mamãe. Ele era mais alto que ela agora, ombros largos, postura tensa. “Por que ele nunca apareceu? Onde diabos ele está?”
Mamãe passou a mão freneticamente pela bochecha. Ela parecia mais triste do que irritada. “Nathan!”
“Ele não liga para a gente? Ele ao menos sabe que a gente existe?”, ele latiu, agitado.
Norynne colocou a mão nas costas de Nathan, mas ele estava longe, perdido em seus pensamentos. Imparável. Não naquele assunto.
Mamãe girou, uma mão protegendo Nedwin, que olhou para ela, assustado com o aumento do tom de voz. A outra mão apontou um dedo de aviso para Nathan. O olhar dela ficou duro.
“Você não sabe de nada. E meu—” Ela se interrompeu, engoliu em seco e se colocou na sua altura máxima. Intimidadora era uma palavra muito grande para descrevê-la, e ainda assim insuficiente. A luz da lareira refletia em seus olhos, fazendo-os brilhar como se ela fosse fogo por dentro.
“Meu marido… e minhas decisões não são da sua conta”, ela rosnou, o maxilar travado. “Quando você tiver sua própria… família, talvez você entenda.”
Ela forçou a última frase como se lhe causasse dor física.
Nathan tremeu. “Eu nunca deixaria minha esposa e meus filhos para trás. Em hipótese alguma”, ele murmurou sombriamente — como um voto sagrado.
Por alguns batimentos cardíacos, eles apenas se encararam.
“Ele está morto?”, a voz de Nathan cortou a sala.
Mamãe não respondeu. Suas narinas dilataram e seus olhos refletiram todo o desejo agonizante que ela suportava em silêncio todos os dias. Como os olhares que ela lançava à distância quando pensava que não era vista. Mas Nathan só via que ele não estava ali. Não com ela. Não com a gente.
Ele estava vivo. E isso tornava tudo pior.
Respiração pesada. Silêncio cortante.
O choro baixo de Nedwin quebrou o feitiço que pairava sobre a pequena cabana. Mamãe piscou, pegou-o com os olhos marejados e o embalou.
Lá fora, uma coruja piou.
“Então ele está morto para mim”, Nathan rosnou. Ele passou por mim batendo o pé. A porta bateu com uma força que fez as vigas tremerem.
Caminhei até uma Norynne silenciosa, peguei o pano dela e joguei sobre meu ombro. Ajeitei sua trança preta e segurei seu rosto em minhas mãos. Apesar de sua força, seus grandes olhos azul-glacial buscavam uma âncora nos meus, que eram azul-gelo.
“O Nathan ama a gente. Ele vai voltar quando esfriar a cabeça.”
A expressão dela endureceu. Ela arrancou o pano da minha mão e o jogou na bancada ao lado dela. “Ótimo. E quem vai me ajudar com a louça agora?”
Norynne nunca falava muito. Mas o que ela dizia, muitas vezes, partia meu coração. Fiz carinho no cabelo dela e fui até a mamãe.
“Ele não quis dizer isso”, sussurrei, mal audível ao lado dela. Não tinha certeza de por que precisei dizer. Mas ela precisava ouvir. Hoje. Agora. Se não do Nathan, então de mim.
Mamãe assentiu e me deu um sorriso torturado que revelou mais de sua alma do que ela jamais admitiria abertamente. E, por um segundo, vi a mulher que nos criou. Aquela que costumava rir muito.
“Vou levar o pão para a Layra agora. Quer que eu leve o Nedwin?”
Ela balançou a cabeça e apertou o pequeno contra o peito.
“Mamãe?”
O olhar dela suavizou quando ela desviou a atenção do fogo para mim.
“O Nathan te ama tanto que a sua dor se torna a dele. O que quer que esteja entre vocês dois… conserte, por favor. Antes que ele sufoque com isso.”
Ela colocou a mão na minha bochecha. “Quem dera fosse tão simples.”
Dei um beijo saudoso na bochecha dela, coloquei um cobertor sobre seus ombros e saí.
O vento de outono mordeu meu nariz como aviso, puxando meu vestido e as folhas da grande faia. Normalmente, assim que os animais nos ouviam chegando, eles grunhiam ou faziam barulho. Esta noite? Tudo permanecia assustadoramente silencioso.
“Nathan?”
Sem resposta.
Esfreguei meus braços e ouvi o silêncio. Embora eu não visse ninguém, não parecia vazio. Estava esperando. Meu coração bateu um pouco mais rápido enquanto eu dava um passo hesitante em direção ao portão. Outro. Respirei com os lábios entreabertos para fazer silêncio, procurando por perigo. Nada. Cada passo cuidadoso, cada movimento sob tensão crescente.
Um farfalhar atrás do canto do chiqueiro me fez congelar.
Agarrei o pão como se fosse um escudo, pressionei-o contra o peito e me movi lentamente em direção à cerca bruta. Os porcos estavam amontoados. Acima de mim, uma nuvem passou sobre a lua quase cheia e, em algum lugar na imensidão das planícies além da floresta, o vento assobiou agudo.
Quase soou como um uivo.