LITTLE BEE
O ar de Singapura não apenas tocava a pele; ele a agredia. Era uma mão de umidade espessa, pesada e invisível que grudou em mim assim que saí do táxi, rastejando sob as alças finas do meu vestido preto e colando a seda às minhas costas como uma segunda camada indesejada de suor. Respirar era uma tarefa difícil. Cada inspiração trazia o cheiro de asfalto fumegante após a chuva e a doçura podre de orquídeas maduras demais penduradas na cerca. Eu odiava isso. Odiava a umidade que transformava meu cabelo em uma bagunça caótica. Odiava o fato de estar aqui, parada em frente a um portão que parecia a entrada de um inferno de concreto moderno, em vez de estar na minha cama.
Mas, acima de tudo, eu odiava os sapatos. Tia Mimi os chamava de "elegantes". Eu os chamava de instrumentos de amputação. O salto esquerdo já tinha ido embora, vítima do meu encontro com um patinete elétrico dez minutos atrás, deixando-me equilibrada como uma versão bêbada e econômica da Cinderela.
Meu celular vibrou na minha mão, agressivo e persistente. "Selene!" A voz da minha tia era estridente, uma frequência projetada para perfurar tímpanos. "Onde você está?! Primeira villa à direita! Os clientes já estão chegando e você está desaparecida!"
"Estou aqui", murmurei, limpando uma gota de suor que escorria pelo meu pescoço. "Estou no portão."
"Entre! Agora! E, pelo amor de Deus, espero que você esteja com uma aparência decente. Isso não é sua faculdade, isso é a elite."
"Eu pareço..." Olhei para o meu pé esquerdo descalço, tentando escondê-lo atrás da minha panturrilha direita. "...uma sobrevivente."
Desliguei antes que ela pudesse gritar de novo. Respirei fundo, tentando acalmar a pulsação que martelava na minha garganta. A villa surgiu diante de mim. Não, aquilo não era uma villa. Era um templo ao narcisismo. Uma estrutura massiva de vidro escuro e concreto frio engolindo o céu noturno. Não havia calor naquelas janelas, apenas luzes afiadas e clínicas cortando a escuridão.
Aproximei-me do segurança. Ele era corpulento, com o terno apertado demais no pescoço, suado e totalmente indiferente à minha presença. O olhar dele deslizou sobre mim. Lento. Pegajoso. Dos meus ombros nus, passando pelo meu decote, até as minhas coxas, onde o vestido terminava. Senti-me suja, como se ele tivesse me tocado com a língua, não com os olhos. "Convite?" A voz dele era seca, desinteressada.
Entreguei-lhe o envelope creme. Até o papel gritava dinheiro. Pesado, texturizado, com as iniciais RT gravadas em dourado brilhando sob a luz dos postes. Cheirava a sândalo e algo mais forte, metálico. Cheirava a poder. O segurança olhou para o papel e depois para mim. Ele assentiu. O portão abriu com um zumbido eletrônico baixo, como a boca de uma fera me convidando a entrar.
O barulho me atingiu assim que pisei no pátio. O grave vibrava pelo chão, subindo pelas minhas pernas e instalando-se no meu peito. Tum. Tum. Tum. Rítmico, hipnótico, ensurdecedor. O pátio estava lotado. A piscina brilhava em um azul não natural, centrada por uma fonte em forma de dragão negro cuspindo água no ar. Havia gente por toda parte. Mulheres em vestidos que custavam mais do que minha mensalidade, justos e brilhantes como plástico. Homens em ternos sob medida, copos de uísque nas mãos, os olhos escaneando o ambiente atrás da próxima vítima ou do próximo negócio.
Era tudo um circo brilhante e falso. Senti aquela coceira familiar na nuca. Meu instinto de sobrevivência acordou, gritando uma única palavra: CORRA. Mas minhas contas, aqueles demônios de papel esperando na minha mesa, sussurravam: Fique. Sorria. Aguente.
Mancando, fui até o bar ao ar livre, escondendo habilmente meu pé descalço na sombra profunda de um banco alto. O balcão de mármore estava frio sob minhas palmas, o único alívio nesta noite pegajosa. "Champanhe?" O barman apareceu na minha frente. Um jovem com olhos cansados e o sorriso treinado de um boneco. "A menos que você tenha algo que apague a vergonha e traga de volta saltos perdidos... é, pode ser", suspirei. "Me dê o champanhe."
Ele não entendeu a piada. Nem piscou. Apenas deslizou uma taça de cristal na minha direção. Levantei-a. O vidro estava coberto de condensação, frio contra meus dedos quentes. O primeiro gole era ouro líquido, forte, efervescente, amargo. Desceu pela minha garganta, deixando um rastro de coragem falsa. Fechei os olhos por um segundo, deixando a música me envolver, tentando ignorar a dor no pé e o nó no meu estômago.
E então parou. A música não parou. A conversa não parou. O ar parou. A atmosfera mudou em uma fração de segundo. Foi como se alguém tivesse sugado todo o oxigênio ao meu redor. A temperatura caiu. Senti antes de ouvir qualquer coisa. Os pelos dos meus braços se arrepiaram, um por um, em um aviso doloroso. Um calafrio desceu pela minha espinha, lento e ameaçador, forçando a umidade de Singapura ao esquecimento. Havia alguém atrás de mim. Não alguém. Algo.
O perfume me atingiu primeiro. Não era a colônia dos garotos ao meu redor. Aquilo era escuro. Pesado. Ele cheirava a tabaco caro, couro gasto e chuva que ainda não caiu, aquele cheiro eletrizante de ozônio antes de uma tempestade. Ele cheirava a perigo. "Você."
Uma palavra. Dita calmamente, em um barítono profundo que não chegou aos meus ouvidos, mas vibrou direto nos meus ossos. Não era um convite. Era um veredito.
Virei-me lentamente, segurando a haste da taça com tanta força que achei que ela quebraria. A taça era meu único escudo. E então eu o vi. Minha respiração travou na garganta, aguda e dolorosa. Ele estava parado ali, como uma mancha escura naquele mundo brilhante. Ele era alto. Alto demais. Sua sombra caiu sobre mim, me engolindo inteira. O cabelo escuro foi jogado para trás sem cuidado, não estava penteado, mas selvagem, como se ele tivesse acabado de passar os dedos por ele em frustração. Algumas mechas caíam sobre sua testa.
Ele vestia uma camisa preta. Mangas dobradas até os cotovelos, revelando antebraços mapeados com veias e tatuagens que desapareciam sob o tecido. A camisa estava desabotoada. Um botão. Dois. Três. O suficiente para ver a pele bronzeada, a definição dos músculos mudando a cada respiração. Mas os olhos... Os olhos eram o que me prendiam. Eram escuros. Quase pretos. Dois abismos vazios de calor, vazios de humanidade. Eles olhavam para mim com uma intensidade que fazia meus joelhos fraquejarem. Ele não estava me olhando como a uma mulher. Estava me olhando como a um alvo.
"Com licença?" Minha voz falhou. Limpei a garganta e levantei o queixo. Eu não mostraria medo a ele. Eu não podia. Ele se aproximou. Ele estava no meu espaço pessoal agora. Seu perfume, aquela mistura inebriante de tabaco e poder, encheu meus pulmões, nublando minha razão.
"Eu disse", repetiu ele, sua voz como um trovão rolando do fundo da terra, "fora". Ele inclinou a cabeça levemente para o lado, me estudando. Seu olhar deslizou dos meus olhos para a minha boca, depois pelo meu pescoço, sobre minha clavícula, até o meu decote. Não era um olhar sexual. Era o olhar de um açougueiro avaliando a qualidade da carne. "Não tenho paciência", sussurrou, "para garotas convidadas para 'entretiver' os convidados."
O sangue subiu ao meu rosto. O calor da raiva misturou-se ao frio do medo. Ele achava que eu era uma acompanhante. Ele achava que eu era uma das pagas. Ele olhava para mim com tanto desprezo, tanta superioridade, que meu medo evaporou, substituído por puro despeito.
"Desculpe..." A palavra saiu lenta, melosa, venenosa. Dei um passo em direção a ele, entrando na zona dele, desafiando o destino. "...papai..." Eu vi. Suas pupilas dilataram. Apenas por um segundo, o preto engoliu qualquer íris que estivesse visível. Um músculo no maxilar dele contraiu. Na mosca. "...mas não sei quem você pensa que eu sou", finalizei, olhando direto naqueles olhos mortos e lindos.
O silêncio que se seguiu foi mais pesado que o ar ao nosso redor. "Eu sei exatamente o que você é", murmurou ele. Sua voz estava mais rouca do que antes. Ele abaixou o olhar. Lentamente. Tortuosamente lento. Senti aquele olhar como um toque físico. Como se ele estivesse traçando um dedo quente pela minha pele. Ele voltou aos meus olhos. "Mercadoria descartável", disse ele.
Mercadoria descartável. Essas duas palavras pairaram no ar entre nós, pesadas e tóxicas. Senti meu estômago revirar, mas não de vergonha. De raiva. Aquela raiva fria e afiada que limpava minha mente enquanto minhas palmas suavam. Ele achava que podia me quebrar com duas palavras? Ele achava que eu encolheria, baixaria a cabeça e pediria desculpas por respirar o mesmo ar que Sua Majestade?
Eu ri. Não foi uma risada educada. Foi um som seco e agudo que surpreendeu até a mim. O sarcasmo era minha armadura. Eu a vesti como uma segunda pele, protegendo a pouca dignidade que me restava com apenas um sapato. "Interessante", falei arrastado, sem recuar um centímetro, mesmo que todos os meus instintos gritassem para fugir do predador à minha frente. "Então, você é esse tipo de homem." Inclinei a cabeça, fingindo analisá-lo com o mesmo desprezo clínico que ele usava comigo. "Aquele que deduz o valor de uma mulher com base na altura do salto, que, aliás, estou sem, e na profundidade do decote?"
Os olhos dele se estreitaram. A escuridão neles ficou mais densa. Ele não estava acostumado com isso. Ele estava acostumado com o medo. Estava acostumado com "Sim, senhor" e "Imediatamente, senhor". Minha audácia o atingiu como um tapa. "Que original", continuei, baixando a voz para um sussurro destinado apenas a ele. "Qual é o próximo passo no seu roteiro, papai? Você saca aquela carteira de couro grossa e pergunta quanto custa uma hora da minha humilhação? Ou você é barato demais até para isso?"
Silêncio. Silêncio absoluto e mortal. O maxilar dele se apertou. Vi a linha afiada do músculo flexionar em sua bochecha, logo abaixo do osso. Um tendão em seu pescoço ficou tenso. Era um aviso. O som silencioso de um pavio sendo aceso.
E então ele riu. Mas aquele som... Deus. Aquilo não foi uma risada. Foi um ruído escuro e rouco subindo das profundezas da garganta dele, um som que prometia violência. Não chegou aos olhos. Os olhos permaneceram mortos. "Você tem coragem", disse ele calmamente. Sua voz era como veludo enrolado em uma lâmina de faca. Ele deu um passo em minha direção. Sua sombra me engoliu completamente. "Eu respeito isso", murmurou, "mas desprezo a desobediência."
Ele levantou a mão. Achei que ele fosse me bater. Não pisquei. Mas a mão dele não foi para o meu rosto. Foi para o meu ombro, os dedos se curvando em uma garra, prontos para me agarrar e me jogar fora como um saco de lixo. "E você tem um ego do tamanho desta villa", disparei, meu coração batendo como um pássaro selvagem na gaiola das minhas costelas. "Eu ignoro isso."
Ele estava a um milímetro de me tocar. Eu podia sentir o calor irradiando de sua palma. E então as portas do salão se abriram com um estrondo.
"SELENE!"
A voz era estridente, em pânico, cheia de horror. A bolha de tensão em que estávamos parados estilhaçou-se em pedaços. A mão dele congelou no ar, logo acima da minha clavícula. Ele não se moveu, não recuou. Ele apenas, estranhamente devagar, virou a cabeça na direção da origem do som.
Minha tia Mimi estava correndo em nossa direção. Saltos batendo no mármore, rosto pálido sob camadas de base impecável, olhos arregalados de terror. "Oh, meu Deus! Sr. Tan!" Ela parou na nossa frente, ofegante, as mãos tremendo enquanto ajeitava o blazer. "Sinto muito! Por favor, me perdoe!" Ela olhou para mim, depois para ele, depois para a mão dele ainda perigosamente perto do meu pescoço. "Essa é minha sobrinha. Selene. Ela... ela veio ajudar com a montagem. Ela não é..." Tia engoliu em seco, sua voz baixando para um sussurro cheio de vergonha. "Ela não é uma das garotas. Sabe... não é para entretenimento."
O silêncio retornou. Ele não se moveu. Ele nem sequer olhou para minha tia. Lentamente, ele arrastou o olhar de volta para mim. Sua mão baixou, mas ele não deu um passo atrás. Ele permaneceu no meu espaço pessoal, uma parede alta e escura. Seus olhos me escanearam novamente. Mas desta vez, o olhar era diferente. Não era apenas desprezo. Era... cálculo. Como se ele tivesse acabado de perceber que a presa que queria esmagar era, na verdade, uma espécie rara e venenosa.
"Sua sobrinha?" perguntou ele. Sua voz era enganosamente calma, plana, sem emoção. Tia assentiu, muitas vezes.
"Sim. Sim, senhor. Estudante de arte. Apenas ajudando."
Senti aquele impulso maluco e autodestrutivo de falar de novo. De cutucá-lo mais uma vez. Olhei nos olhos dele. Naquela escuridão. "Imagine só, papai", sussurrei, baixo o suficiente para que apenas ele e o diabo pudessem ouvir. O canto da boca dele tremeu. "Educada", continuei, doce e tóxica, "legalizada... e definitivamente não estou na sua folha de pagamento."
O tempo parou. Mimi soltou um pequeno som de engasgo. E ele... Sua expressão mudou. A lasca de controle que ele segurava como um escudo rachou. O canto de seu lábio se levantou em um sorriso lento, perigoso e predatório. Ele mostrou os dentes. Não era um sorriso de diversão. Era o sorriso de um lobo que acabara de sentir o cheiro de sangue.
"Interessante", disse ele, arrastado. Finalmente, ele se virou para Mimi, mas eu ainda sentia o peso do foco dele em mim, como se ele tivesse pintado um alvo na minha testa. "Fique com ela." Não foi uma sugestão. Foi o comando de um rei. Mimi piscou, confusa.
"Com licença?"
"Não como ajuda", continuou ele, sua voz ficando mais profunda, mais escura. "Como funcionária. Quero ela por perto."
Meu coração disparou. Não de felicidade. Mas por um aviso puramente primal que congelou o sangue nas minhas veias. Isso não era uma oferta de emprego. Isso era uma armadilha. "Mas, Sr. Tan... ela não tem experiência..." tentou Mimi. Rafael a cortou com um olhar. "A menos que você queira aquele bônus que discutimos, é claro."
chantagem. Chantagem pura, simples e elegante. Mimi fechou a boca. Ela assentiu mais rápido do que ele terminou a frase, vendendo-me pela promessa de zeros extras em um cheque. "Claro, Sr. Tan. Selene..." Ela se virou para mim, a voz falsamente alegre, mas os olhos gritando cale a boca e obedeça. "Selene, querida, vá vestir um uniforme. O Sr. Tan tem razão."
Eu queria gritar. Eu queria dizer não. Mas olhei para minha tia. Vi o medo em seus olhos. Ela precisava desse emprego. Engoli meu orgulho. Tinha gosto de cinzas. Virei-me para sair, para escapar da órbita dele. Mas não consegui dar um passo sequer.
"Não tão rápido." Sua voz me paralisou. Mimi já tinha corrido para a cozinha, deixando-nos sozinhos. De novo. Apenas eu e a fera de Armani.