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O carro cheirava a batatas fritas de fast-food que tinham desistido da vida três condados atrás e ao aromatizador de ar de lavanda que sua mãe insistia que “neutralizava odores”.
Não neutralizava. Só fazia as batatas fritas cheirarem como se estivessem se esforçando demais.
Lila Gray sentou-se com os joelhos levemente puxados para dentro e os cotovelos colados ao corpo, como se pudesse se fazer menor e menos notável para seus próprios nervos. Seu celular vibrou novamente na palma da mão.
MÃE: Mande mensagem quando chegar.
MÃE: Mande uma foto do seu dormitório.
MÃE: Não esqueça de limpar as superfícies.
MÃE: E não deixe sua bebida sem supervisão. Nem o refrigerante.
MÃE: Me ligue.
Lila encarou a última mensagem até as palavras ficarem um pouco embaçadas. Ela piscou com força e jogou o celular com a tela para baixo sobre a coxa, como se isso fosse impedir sua existência.
Seu pai dirigia com as duas mãos no volante, ombros tensos e o maxilar fazendo aquele movimento que parecia estar mascando um chiclete invisível. Ele não tinha dito muita coisa desde que saíram da rodovia e pegaram a estrada de pista simples, cercada por pinheiros escuros que estreitavam o céu.
Era fim de verão, mas a floresta fazia o ar parecer mais frio, como se não desse a mínima para o que o calendário dizia.
Uma placa de madeira surgiu, gasta pelo tempo, mas bem conservada:
BEM-VINDO A NORTHBRIDGE
LAR DA NORTHBRIDGE UNIVERSITY
POR FAVOR, DIRIJA DEVAGAR — PASSAGEM DE ANIMAIS
Seu pai reduziu a velocidade a passos de tartaruga, como se a placa tivesse feito uma ameaça pessoal a ele.
“Viu?”, disse sua mãe, do banco do passageiro, imediatamente triunfante. “Animais selvagens.”
A mãe de Lila virou-se no banco para olhá-la como se estivesse apresentando provas em um tribunal. “É isso que eu queria dizer. Você precisa ter cuidado.”
“De esquilos?”, murmurou Lila.
“De tudo.” Sua mãe esticou o braço para trás e deu um tapinha no joelho de Lila. Não era reconfortante; parecia mais conferir se a fruta estava madura. “Você está com seu spray de pimenta?”
“Está na minha mala.”
“Em qual mala?”
Lila inspirou pelo nariz. Ela conseguia sentir a ansiedade se acumulando atrás das costelas, como se estivesse construindo um ninho. “Na mochila. A preta.”
“E o seu...”
“Mãe”, disse Lila, rápido demais. Depois, mais baixo, porque os nós dos dedos de seu pai ficaram brancos no volante. “Eu estou bem.”
A boca da mãe se abriu e logo se fechou. Ela olhou pela janela para as árvores. “Eu sei. Eu só...” Ela parou, então tentou de novo, em tom prático: “Eu só fico preocupada.”
Lila não disse o óbvio: Você se preocupa como se fosse um hobby. Como se fosse ganhar um troféu por isso.
Em vez disso, ela observou a cidade aparecer, escondida na beira da floresta como se tentasse não ser notada. Cafés, livrarias e pequenos prédios de tijolos com cestas de flores penduradas. Uma lanchonete com um letreiro neon que dizia EATS como se fosse uma ameaça. Estudantes caminhavam pelas calçadas em grupos, usando camisetas da faculdade e carregando caixas, travesseiros e aquele tipo de empolgação que fazia o estômago de Lila dar um nó.
A Northbridge University surgia além da cidade como se tivesse sido plantada ali de propósito: prédios de pedra, janelas em arco, gramados verdes demais para serem reais e faixas balançando nos postes com as cores da escola.
Na entrada, voluntários com camisetas brilhantes acenavam para os carros enquanto gritavam instruções uns por cima dos outros.
“Mudança segue em frente, desembarque à esquerda, estacionamento à direita — não, direita — senhora, você não pode parar aqui — senhor, continue andando!”
Seu pai abriu a janela. “Onde eu...”
“Nome do dormitório?”, gritou o voluntário.
Sua mãe se inclinou para fora. “Briar Hall!”
O voluntário apontou de forma tão agressiva que parecia uma vingança pessoal. “Faixa da esquerda, continue, ligue o pisca-alerta, descarregue rápido!”
O celular de Lila vibrou de novo. Ela não olhou. Manteve os olhos no campus à frente, nas árvores altas que emolduravam a estrada, nos estudantes rindo como se tivessem inventado a faculdade.
Seu pai encontrou a faixa da esquerda e seguiu em frente lentamente. Carros faziam fila no meio-fio. Pais discutiam com o GPS. Um frigobar passou rolando em um carrinho, com um calouro perseguindo-o como se fosse um animal de estimação fugitivo.
“Pisca-alerta”, lembrou sua mãe.
Seu pai ligou com a resignação de um homem colocando música para o próprio funeral.
Eles pararam em frente ao Briar Hall. O prédio era de tijolos antigos, com hera subindo por um lado e janelas que pareciam observar as pessoas, julgando as escolhas de vida de cada uma. Uma faixa pendia sobre a entrada: BEM-VINDO TURMA DE 20—! Os últimos dígitos estavam dobrados.
O estômago de Lila deu uma volta lenta e desagradável.
“Chegamos”, disse sua mãe, como se estivessem chegando a um posto avançado remoto.
“Chegamos”, repetiu seu pai, um pouco mais baixo.
Lila abriu a porta do carro e foi imediatamente atingida pelos sons: gritos, risadas, portas de carro batendo, rodas no asfalto, alguém tocando música alta demais em uma caixa de som que distorcia o baixo.
Ela pisou no meio-fio e o mundo girou levemente — não fisicamente, mas emocionalmente, como se seu cérebro estivesse tentando processar o fato de que ela tinha realmente conseguido. Ela estava ali. Ela estava partindo.
Sua mãe já estava fora, mexendo no porta-malas e apontando. “Certo, você leva a roupa de cama, eu levo os produtos de higiene, seu pai pode levar a...”
“Eu posso levar as coisas pesadas”, disse seu pai rapidamente, como se carregar caixas o impedisse de sentir o peso da situação.
Lila pegou sua mochila e uma bolsa de lona. Seu celular vibrou dentro do bolso da mochila. Ela conseguia senti-lo como um batimento cardíaco.
Um estudante com uma camiseta de voluntário apareceu ao lado deles. “Oi! Bem-vindos! Número do quarto?”
Lila olhou para o papel preso ao seu pacote de chaves. “Uh. 312.”
“Terceiro andar!”, respondeu o voluntário alegremente. “O elevador está... brincadeira, está quebrado. As escadas são por ali.”
Lila ficou estática. “Está... quebrado?”
O voluntário sorriu como se aquilo fosse apenas um traço adorável da personalidade do prédio. “É histórico.”
O pai de Lila fez um som que poderia ter sido uma risada se não tivesse morrido pela metade.
Eles entraram em um saguão que cheirava a produtos de limpeza e carpete velho. A escadaria era estreita e lotada de pessoas carregando caixas, como se estivessem participando de uma corrida de obstáculos não remunerada.
Sua mãe tomou a frente, porque é claro que tomaria, e Lila a seguiu, contando os degraus para se distrair.
No patamar do segundo andar, alguém que descia passou esbarrando nela, e Lila sentiu um perfume — sabonete, suor, algo penetrante como pinho — e logo a pessoa se foi, movendo-se rápido demais para que ela pudesse identificar.
Sua pele se arrepiou.
Ela disse a si mesma que era só o calor. A multidão. O fato de sua ansiedade estar fazendo sua habitual performance artística.
Terceiro andar.
Seu pai parou do lado de fora do quarto 312, mudando o peso da caixa. “Ok. Este é... o seu quarto.”
A mão de Lila apertou a chave. A chave parecia pequena demais para a grandeza daquele momento.
Ela abriu a porta.
O quarto já estava meio conquistado.
Um lado do pequeno espaço era uma explosão de cores: luzes de fada penduradas como uma rede, pôsteres colados de forma torta, uma manta felpuda jogada sobre uma cama bem arrumada. Um miniquadro branco na parede estava decorado com desenhos e uma mensagem em letras grandes:
BEM-VINDA, COLEGA DE QUARTO!!!
Abaixo dele, uma garota estava em cima da cadeira da escrivaninha, tentando alcançar o alto para prender outro fio de luzes. Ela usava uma regata preta e calça jeans rasgada, com o cabelo preso em um coque bagunçado que dava a impressão de que ela tinha lutado contra ele e perdido. Ela segurava um rolo de fita entre os dentes, como um pirata com um charuto.
Ela se virou com o som da porta, e seu rosto inteiro se iluminou.
“AI MEU DEUS”, disse ela, soltando a fita na palma da mão e pulando da cadeira com a confiança de alguém que nunca considerou o constrangimento como um fator na vida. “Você chegou! Você é real! Graças a Deus, eu estava morrendo de medo de me mandarem, tipo, alguém que faz curso de flauta.”
Lila piscou. “O que há de errado com quem toca flauta?”
“Ou são serenas demais ou secretamente maldosas”, disse a garota, como se aquilo fosse ciência. Ela estendeu a mão. “Sou Harper Lane. Sua colega de quarto, sua guia, seu animal de suporte emocional...”
Lila apertou a mão dela, pega de surpresa pelo calor de Harper, como se fosse um jato repentino de luz solar. “Lila.”
Harper sorriu. “Lila. Fofo. Firme. Como uma garota que consegue carregar as próprias compras.”
Lila olhou para a bolsa de lona que afundava em seu ombro. “Consigo. Por pouco.”
Os olhos de Harper passaram por ela até chegar aos seus pais, e seu sorriso mudou para um modo educado. “Oi! Pais! Sou a Harper. Prometo que não sou uma serial killer.”
Sua mãe deu a Harper um sorriso contido que dizia: Estou anotando o seu rosto. “Olá, Harper. É um prazer conhecê-la.”
Harper assentiu seriamente. “Com certeza. Adoro conhecer as pessoas que criaram minha colega de quarto. Icônico.”
O pai de Lila tossiu como se estivesse tentando não rir.
Sua mãe começou imediatamente a escanear o quarto em busca de problemas, como um sistema de segurança. “Ah. Vocês já decoraram.”
Harper juntou as mãos. “Sim. Porque se eu não criar um ambiente, eu vou dissociar.”
Lila colocou sua bolsa na sua metade do quarto, que estava vazia, exceto por um colchão nu e uma escrivaninha que parecia ter sobrevivido a três guerras.
Harper se aproximou, a voz baixando de forma conspiratória enquanto os pais de Lila começavam a desempacotar as caixas. “Ok, primeiras impressões. Sua mãe tem a energia de ‘vou ligar para o reitor’.”
A boca de Lila contraiu. “É bem por aí.”
“E seu pai tem a energia de ‘vou te ajudar a mudar o sofá de lugar e depois chorar no carro’.”
A boca de Lila contraiu de novo, mas dessa vez sentiu algo puxar atrás dos olhos. “Também é bem por aí.”
Harper suavizou um pouco a expressão. Depois, animou-se novamente como se se recusasse a deixar a sinceridade durar mais de dois segundos. “Ótimo! Nós vamos nos dar bem. Já consigo perceber porque você tem cara de poker face. Esse é o meu tipo de rosto favorito.”
Lila pegou o celular, porque ele estava vibrando de novo e ela não conseguia fingir que não sentia. A tela de bloqueio estava cheia de notificações.
MÃE: Já desfez as malas?
MÃE: Me ligue.
Lila digitou: Cheguei. A colega de quarto é legal. Estou ocupada desfazendo as malas.
Três pontinhos apareceram imediatamente. Sua mãe escrevia mais rápido do que qualquer adolescente merecia.
Lila enfiou o celular no bolso antes que a próxima onda de pânico chegasse em forma de mensagem.
Os olhos de Harper brilharam. “Ok. Enquanto seus pais fazem aquela coisa de tentar controlar o caos, deixa eu te dar o guia de sobrevivência essencial de Northbridge.”
Lila levantou uma sobrancelha. “Isso vai envolver crime?”
“Pode envolver crime emocional”, disse Harper, gesticulando como se estivesse apresentando um parque temático. “Northbridge University: a terra do café superfaturado, do encanamento assombrado dos dormitórios e de professores que acham que sua ementa é um texto sagrado.”
Sua mãe parou de dobrar uma toalha. “Assombrado?”
Harper sorriu inocentemente. “Metaforicamente.”
O pai de Lila inclinou-se para ela e murmurou: “Eu gostei dela.”
Lila murmurou de volta: “Claro que gostou.”
Harper baixou a voz novamente. “Ok, mas falando sério, o que importa: o café da manhã do refeitório é comestível se você não olhar para ele. Tem uma cafeteria fora do campus chamada Witchlight — não vá lá, a menos que queira gastar oito dólares em espuma. A biblioteca é o lugar onde os sonhos vão para morrer.”
Lila acenou com a cabeça como se estivesse fazendo anotações.
“E”, disse Harper, prolongando a palavra, “a maior lenda do campus é… Caleb Raine.”
Lila parou com uma pilha de camisetas nas mãos. “Quem?”
A expressão de Harper tornou-se reverente, do jeito que as pessoas ficam ao falar de celebridades ou desastres. “Você não sabe quem é Caleb Raine?”
“Eu estou aqui”, disse Lila, olhando para o relógio, “há quarenta e cinco minutos.”
“Justo. Ok.” Harper subiu na cama como se estivesse se acomodando para contar histórias de fantasma. “Caleb Raine é o bad boy do campus. Não aquele bad boy divertido que ‘esquece seu aniversário’. É o tipo que, quando você ouve o nome dele, seus órgãos pedem uma medida protetiva.”
Lila bufou, apesar de si mesma. “Parece dramático.”
“É dramático”, disse Harper. “Ele está no terceiro ano. Ninguém sabe qual é o curso dele porque ele nunca fala com ninguém, exceto… seu grupinho de amigos assustadores.”
“Amigos assustadores?”
Harper assentiu com firmeza. “Tipo, bem assustadores. Bonitos no geral. Assustadores especificamente.”
Lila tentou imaginar. Um cara com reputação. Todo campus tinha um. Geralmente era um atleta alto que era rude com as garotas, dirigia rápido demais e achava que ser grosseiro era ter carisma.
Harper continuou, encantada por estar com a palavra. “Dizem que ele se envolveu em três brigas no campus em um único semestre. Uma delas foi no centro acadêmico. O boato diz que ele arremessou um cara através de uma porta.”
A cabeça da mãe dela se ergueu num solavanco. “Através de uma porta?”
O sorriso de Harper tornou-se angelical novamente. “Supostamente.”
“Isso é…” Lila começou, e então parou. Ela olhou para Harper. “As pessoas simplesmente… dizem isso?”
“Elas dizem muitas coisas.” Harper deu de ombros. “Mas todos concordam em uma coisa: não tire ele do sério.”
Lila dobrou uma camisa com uma precisão desnecessária. “Ok. Então ele é violento. Ótimo.”
Harper inclinou-se para frente, com os olhos brilhando. “Mas aqui está a parte estranha. Os cachorros surtam quando ele passa.”
Lila parou novamente. “O que isso quer dizer?”
“Tipo, latem como se tivessem visto o diabo”, disse Harper. “Minha prima está no segundo ano e jura que o corgi de apoio emocional dela tentou morder o tornozelo dele.”
Lila encarou. “Talvez ele só não goste de cachorros.”
“Não”, disse Harper, balançando a cabeça como se Lila não estivesse entendendo o ponto. “Não é como ‘ah, ele odeia cachorrinhos’. É tipo… animais conseguem sentir que algo está errado.”
O estômago de Lila se contraiu sem motivo lógico. Ela não gostou disso. Ela não gostou do jeito que os pelos dos seus braços se arrepiaram, como se estivessem reagindo a uma mudança de temperatura.
Ela forçou uma risada. “Ou os animais percebem que ele é um idiota.”
Harper apontou. “Isso também é possível. E, sinceramente, eu respeito um cachorro com padrões.”
A mãe de Lila apertou os lábios. “Se há um aluno que é violento, a universidade deveria…”
“Mãe”, disse Lila rapidamente, e os olhos de Harper brilharam com diversão. Lila manteve o tom de voz leve. “Provavelmente é exagero.”
O olhar de sua mãe permaneceu atento. “Você precisa ter cuidado.”
“Eu sempre tenho cuidado”, mentiu Lila.
Seu pai empurrou uma caixa para baixo da cama de Lila, como se tentasse fazer algo útil com seus sentimentos. “Existe um número de segurança do campus? Deveríamos salvá-lo no seu celular.”
A garganta de Lila apertou. “Pai.”
Ele olhou para cima, com os olhos brilhando demais. “Só para… caso você precise.”
Harper observava, subitamente mais quieta. Então ela pigarreou e pulou da cama. “Ok! Chega de papo sobre assassinato. Vamos fazer algo divertido. Tipo… um tour de orientação. Ou perseguir o refeitório.”
A mãe de Lila pareceu aliviada por ter um plano. “Sim, deveríamos ver onde serão as aulas dela.”
Lila queria dizer Eu nem sei quais são as minhas aulas ainda, mas não tinha energia para lutar contra a maré. Ela prendeu o cabelo, pegou seu cartão de acesso e seguiu seus pais e Harper para o corredor.
O grupo de turistas já estava se reunindo do lado de fora do Briar Hall, liderado por uma veterana alegre com um megafone e o tipo de sorriso que sugeria que ela não acreditava em negatividade.
“Bem-vindos, novos alunos!”, ela gritou. “Eu sou Maddy, a líder de orientação de vocês. Se se perderem, sigam o som da minha voz ou o cheiro do medo!”
Harper inclinou-se para o ouvido de Lila. “Essa é você. Você cheira a medo.”
“Eu cheiro a desodorante”, sussurrou Lila de volta.
“Desodorante de medo.”
Eles se juntaram ao grupo de calouros. Os pais pairavam como satélites ansiosos, tirando fotos de tudo: a placa do dormitório, a parede de tijolos, o chão. Alguém estava filmando o filho andando em linha reta como se fosse uma filmagem histórica.
O tour começou pelo pátio central. O gramado principal de Northbridge era amplo e bem cuidado, com caminhos de pedra que o cortavam como veias. Alunos relaxavam em cobertores, jogando frisbee, fingindo não estarem estressados.
Maddy gritava fatos curiosos. “À esquerda de vocês está o Whitaker Hall, construído em 1893, e dizem que é assombrado pelo fantasma de um professor que nunca devolveu seus livros!”
Harper aplaudiu sarcasticamente. “Nós amamos um vilão acadêmico.”
Lila tentou focar nos detalhes físicos — o jeito que o sol batia na pedra, o som dos tênis no caminho, o cheiro de grama cortada — porque se deixasse sua mente vagar, ela correria direto para o pânico.
Eles passaram pelo centro acadêmico, onde uma fonte espirrava água silenciosamente. Maddy apontou. “Aqui é onde a maioria das organizações estudantis se reúne! E sim, às vezes a segurança do campus precisa separar discussões sobre o orçamento dos clubes.”
Um cara atrás deles murmurou para o amigo: “Não são só essas discussões. Lembra da coisa do Caleb ano passado?”
A cabeça de Lila virou antes que ela pudesse impedir, como se sua curiosidade tivesse dentes.
Os olhos de Harper se arregalaram. Ela murmurou sem som: Caleb.
O amigo do rapaz bufou. “Cara, não diz o nome dele como se estivesse invocando o espírito dele.”
Outra garota entrou na conversa, rindo e falando sério ao mesmo tempo. “Sério, não diz. Ele vai te ouvir.”
Lila inclinou-se para Harper, sussurrando: “As pessoas acham que ele é o Voldemort?”
Harper sussurrou de volta, empolgada: “Basicamente. O Voldemort gostosão.”
Eles passaram pelo prédio de ciências. Um trio de alunos atravessou o caminho à frente deles, rindo alto, e um cachorro pequeno na coleira trotou ao lado deles — algum tipo de golden doodle, com o rabo balançando.
O cachorro parou abruptamente.
Suas orelhas se achataram. A cabeça do bicho virou em direção ao lado mais distante do pátio. Ele soltou um latido agudo que assustou todos por perto.
“Ai meu Deus”, o dono do cachorro riu nervosamente, puxando a guia. “Buddy, o que…”
O cachorro latiu de novo, mais frenético, puxando para trás como se quisesse se afastar de alguma coisa. Suas unhas arranharam o caminho de pedra. O dono se agachou, tentando acalmá-lo. “Ei, ei — o que foi?”
Lila sentiu sua pele arrepiar.
Ela ainda não tinha visto nada, mas a reação se espalhou pela multidão em ondulações sutis — pessoas virando, olhando, cabeças se inclinando em direção ao mesmo ponto invisível, como girassóis seguindo a luz.
O aperto de Harper aumentou no antebraço de Lila. Não o suficiente para machucar. O suficiente para dizer olha.
O olhar de Lila varreu o pátio.
E lá estava ele.
Ele estava parado perto da sombra de um carvalho alto, meio passo fora do caminho, como se não precisasse pertencer ao fluxo das pessoas. Mais alto que a maioria dos estudantes ao seu redor. Ombros largos sob um moletom escuro, apesar do dia quente. Seu cabelo era escuro, levemente bagunçado, como se ele tivesse passado as mãos muitas vezes por ele, por frustração.
Seu rosto não era bonito daquele jeito polido de modelo de capa de revista.
Era… marcante. Traços duros. Uma cicatriz tênue cortando uma das sobrancelhas. Outra cicatriz mais fina perto do maxilar, pálida contra a pele bronzeada. Ele parecia alguém que já tinha se envolvido em brigas e não considerava isso nada incomum.
Ele não estava sorrindo.
Nem um pouco.
Sua postura irradiava uma quietude tensa, como um fôlego retido. Como uma pessoa a um pequeno empurrão de perder o controle.
E então ele olhou para cima.
Seus olhos se fixaram em Lila com uma precisão perturbadora — como se ele estivesse ciente dela antes mesmo que ela olhasse para ele.
Por um momento, o mundo se resumiu ao espaço entre eles.
Os pulmões de Lila esqueceram sua função.
O cachorro latiu novamente, alto e em pânico, forçando tanto que seu peitoral se deslocou. O dono xingou baixo e puxou o cão para mais perto.
Ao redor de Lila, alguém sussurrou: “É ele.”
Alguém murmurou: “Eu te falei que os cachorros odeiam ele.”
A voz de Harper estava bem no ouvido de Lila, quase inaudível. “Caleb Raine.”
Caleb não reagiu aos sussurros. Ele não reagiu ao cachorro perdendo o juízo.
Ele apenas encarava Lila como se tentasse resolver um problema que tinha acabado de surgir em sua vida.
Lila se forçou a respirar. Um suspiro. Dois.
Ela ergueu o queixo, principalmente porque seu corpo se recusava a fazer qualquer outra coisa que parecesse medo. Seu pulso batia na garganta como um aviso.
O olhar dele caiu — brevemente — para a boca dela, e depois voltou para os seus olhos.
O estômago de Lila deu uma volta novamente, e desta vez não tinha nada a ver com a ansiedade sobre a faculdade.
O que há de errado comigo?, ela pensou, mas o pensamento não se firmou, porque a expressão dele mudou — apenas levemente — para algo mais sombrio. Algo como irritação. Ou surpresa. Ou ambos.
Ele deu um passo para trás, entrando mais na sombra.
O cachorro latiu como se estivesse tentando rasgar a realidade ao meio.
Os olhos de Caleb prenderam os de Lila por mais um segundo — tempo o suficiente para parecer deliberado, como uma marca impressa na memória — então ele se virou e foi embora, atravessando a grama em direção à borda distante do campus, onde as árvores ficavam mais densas e a floresta começava.
Ele não olhou para trás.
Lila percebeu que suas mãos estavam cerradas em punhos ao lado do corpo.
Os dedos de Harper afrouxaram em seu braço. “Então”, sussurrou Harper, com a voz trêmula de empolgação. “Não é um mito.”
Lila engoliu em seco. Sua boca estava seca. “Não”, ela conseguiu dizer, porque essa palavra era tudo o que ela tinha.
A voz de Maddy ecoou pelo megafone novamente, alegre e alheia. “E aqui está o centro de saúde do campus — lembrem-se, saúde mental é saúde!”
Lila mal a ouviu.
Ela observava o ponto onde Caleb tinha desaparecido, a linha das árvores engolindo-o como se estivesse esperando por ele.
E, em algum lugar profundo em seu peito, sob o pânico em camadas e a novidade de tudo aquilo, uma pequena e afiada curiosidade cintilou — brilhante o suficiente para ser perigosa.
Ela voltou para o tour antes que alguém pudesse ler isso em seu rosto.