I
"Maya."
O nome dela saiu baixo, com a voz rouca. "Você tem o hábito de rir com outros homens como se eles a divertissem?"
Ela se endireitou, erguendo o queixo. "Você tem o hábito de humilhar sua esposa diante de um salão de baile inteiro?"
"Humilhar?" Ele soltou uma risada baixa e incrédula — o som de um homem que raramente ouvia essa palavra aplicada a si mesmo. "Você acha que eu fiquei ali vendo Ashcombe cochichar com você e achei divertido?"
"Eu fui educada. Como qualquer anfitriã deve ser."
Os olhos dele brilharam. "Você estava radiante. Todo idiota naquele recinto viu isso. E ele..." O maxilar dele se contraiu. "Ele olhou para você como se tivesse conquistado esse direito."
Algo na expressão dela suavizou — e então faiscou novamente. "E que direito você conquistou, William, para ditar a maneira como eu sorrio?"
Ele deu um único passo à frente. Ela manteve sua posição, embora todos os seus instintos a avisassem para recuar.
"Eu sou seu marido", disse ele, cada palavra baixa e definitiva, como se estivesse marcando território. "O único homem na Inglaterra ou no mundo inteiro que tem direito ao seu sorriso — ou à sua rebeldia."
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Sala de Retirada, Baile de Novaton, Nottinghamshire — 1883
Em uma sala iluminada por ambição, o segredo mais bem guardado de Maya Prescott era um besouro. Seu caminhar paciente e decidido pela palma de sua mão era sua rebelião silenciosa — contra o farfalhar da seda, o sussurro dos títulos e o olhar avaliador de cada moça casadoura em Nottinghamshire.
Pela enésima vez, ela desejou não estar ali. Sua cama — e seu travesseiro muito macio — pareciam uma alternativa bem melhor do que aquela reunião.
"Só mais um momento", ela murmurou para ele.
"Como você consegue ser tão composta?" gritou uma debutante envolta em brocado rosa-concha, fazendo uma pantomima perfeita de aflição. "Eu vou dar um grito se ele me chamar para dançar!"
Com um movimento ágil, Maya protegeu seu confidente de seis patas.
"Só a Maya mesmo para estar catalogando flores numa hora dessas", riu Victoria, ajeitando seu ramalhete de rosas de seda.
"E ogros", disse Rachel com um sorriso afetado, lançando um olhar direto para Maya. "Não se esqueça dos ogros."
Maya apenas sorriu, colocando uma mecha solta atrás da orelha. Aquela expressão calma e imperturbável irritava suas companheiras muito mais do que qualquer resposta atravessada.
Cordelia passou apressada em cetim rosa, sua anágua sibilando com determinação. "Depressa! Sua Graça chega dentro de uma hora!"
O anúncio silenciou o recinto. Leques de ébano e penas de avestruz pararam. Os olhos ganharam um brilho novo e analítico.
"Ele não tem os olhos mais cativantes do mundo?" suspirou uma moça em faille azul.
"'Cativantes' é pouco", declarou outra, com a voz sonhadora. "Eles são penetrantes — acredito que ele consiga devendar a alma da gente com um olhar."
Lady Clara Penbrook deu um arrepio delicado. "Eu não saberia dizer. Nunca fui corajosa o suficiente para olhar diretamente para ele."
"Corajosa?" alguém bufou. "É esse o nome que estamos dando agora?"
"Você ri", retrucou Clara, "mas você não estava na festa da casa dos Hartley no mês passado. Eu esbarrei acidentalmente nele no corredor—"
"Ele nem pediu desculpas, tenho certeza", outra interrompeu. "Ele provavelmente olhou bem através de você."
"É exatamente isso." A voz de Clara baixou. "Ele deu um sorriso. Aquele sorriso lento e perverso. E então ele se inclinou — ele é tão alto, sabe — e disse, bem claro: 'Bu'."
Um suspiro coletivo.
"Eu gritei", ela admitiu tristemente. "Gritei de verdade. E saí correndo."
A sala desfez-se em risadas.
"Eu teria feito o mesmo", alguém ofereceu gentilmente.
"Você teria desmaiado", outra corrigiu.
"Dá no mesmo."
"Esqueçam o Duque", disse uma moça com olhos espertos, abanando-se preguiçosamente. "Alguém viu Lord Waverly hoje à noite? Dizem que ele voltou para a cidade."
"Lord Waverly!" Um suspiro sonhador ecoou pelo grupo. "Aqueles olhos azuis. Como centáureas ao sol."
"E aquele cabelo — como palha fiada. Ele parece um anjo travesso."
"Um anjo casado", alguém observou.
"O casamento nunca o impediu de se divertir", disse outra de forma sombria, e as moças desmancharam-se em risadinhas cúmplices.
"Ouvi dizer", comentou uma moça em amarelo-prímula, inclinando-se de forma conspiratória, "que Sua Graça certa vez apostou cinquenta mil libras em uma única noite no White's. E ganhou."
Um murmúrio de reverência se seguiu.
"Cinquenta mil!" alguém suspirou. "A propriedade inteira do meu pai não vale metade disso."
"Seu pai não é um duque", veio uma voz fria. "E ele não tem a arrogância para arriscar tudo isso."
Uma limpeza de garganta deliberada. As moças se viraram. Lady Sophia Harton estava de pé, como alabastro em tule lilás, sua silhueta definida e sua cintura apertada até uma linha implacável por um espartilho. Seus olhos azuis varreram o recinto com um cálculo polido.
"Dizem que Devin não se mistura, não dança, mal fala", ela continuou. "Quando ele olha para você, é como se você nem estivesse lá."
"E, ainda assim, todas as mães na Inglaterra continuam jogando suas filhas para cima dele", outra observou.
"Porque a indiferença de um duque ainda é um reconhecimento de um duque", disse Sophia com suavidade. "Mesmo que ele a esnobe na sua cara."
Ela se virou então, seu olhar encontrando Maya com uma precisão infalível. "Um Duque deve se casar dentro de sua própria classe. Um rosto bonito significa pouco sem um dote de valor apropriado." Seus olhos demoraram-se nas curvas de Maya, na cascata de seu cabelo castanho-dourado. "Esperar o contrário é como desejar algo ao vento."
As palavras pairaram no ar. Algumas risadinhas nervosas. Olhares baixos.
Maya manteve seu sorriso. "Então, suponho, Lady Sophia, que seja uma sorte eu não precisar de título nem de aprovação para me manter de pé."
O leque de ébano de Sophia fechou com um estalo. Por um momento, o silêncio foi absoluto.
Então o momento passou. As conversas voaram para outros assuntos como borboletas, incapazes de pousar por muito tempo em algo desconfortável.
"Você sabia", murmurou alguém, "que ele quase se casou uma vez. Anos atrás. Uma herdeira — Lady Eleanor, alguma coisa."
O nome caiu como uma pedra em águas calmas.
"O que aconteceu?"
"Ela morreu." A voz da garota baixou. "Consumo, dizem. Levou-a em questão de meses."
Um silêncio estranho caiu sobre o grupo. Até as fofoqueiras mais vorazes pareciam sentir que haviam entrado em terreno sagrado.
"Ele nunca fala sobre isso", outra acrescentou baixinho. "Nunca."
"Que horror", alguém suspirou. "Amar alguém e perdê-la desse jeito."
"Quem falou em amor?" a voz de Sophia cortou, mas faltava sua habitual rispidez. "Ele era um duque. Ela era uma herdeira. Foi um arranjo, nada mais."
Mas as palavras soaram vazias, até para ela mesma. O silêncio que se seguiu estava carregado de pensamentos não ditos.
Os dedos de Maya apertaram seu besouro. Um noivado. Uma morte. Um homem que nunca falava sobre isso.
Aquilo explicava algo. Não tudo — mas algo. A solidão que ela vislumbrara ao amanhecer. O jeito como ele cavalgava sozinho, com sua atenção totalmente voltada para o caminho à frente. Um homem fugindo de algo, ou correndo em direção a algo, ou talvez apenas tentando ultrapassar seus próprios fantasmas.
"Não vejo por que todo esse alvoroço", declarou uma moça de queixo proeminente, quebrando o feitiço. "Se Sua Graça tentasse falar comigo, eu daria um gelo nele. Para ver como ele gosta de ser ignorado por uma vez."
Um batida de silêncio. Então alguém deu uma risadinha.
"Você, Alice?" uma amiga riu. "Você, que ficou paralisada como uma estátua na caçada de Farthingale quando ele passou cavalgando? Você nem respirou."
"Eu estava — eu estava apenas surpresa —"
"Você choramingou", outra garota entregou alegremente. "Choramingou de verdade. Eu ouvi."
O queixo de Alice se ergueu. "Uma dama não choraminga."
"Uma dama também não ignora duques por quem ela está apaixonada desde os catorze anos", alguém murmurou.
As risadas aumentaram.
"Sua Graça, o Duque de Devin!"
O anúncio do mordomo-chefe cortou o ar.
A transformação foi instantânea. Leques tremularam, saias sibilaram e uma tempestade de anáguas se espremeu pela porta — uma multidão de corpos ansiosos avançando em direção ao paragon que chegava.
A tempestade deixou para trás apenas o eco das risadas e uma figura solitária diante do espelho.
Maya endireitou a coluna, reunindo a compostura que os outros confundiam com arrogância. O recinto, agora vazio de conversas, parecia quase santificado em sua quietude.
"Finalmente", ela sussurrou, mais para o silêncio do que para qualquer alma, "um fragmento de paz."
Mas seu alívio foi breve. Pois do salão de baile abaixo subiu a baixa sinfonia da música e aquele burburinho distinto — uma onda de admiração marcando a entrada do homem cujo nome adoçava todas as línguas.
O Duque de Devin havia chegado.
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Do topo da grande escadaria de mármore, Devin observou a multidão lá embaixo com a clareza fria de um estrategista observando um campo de batalha falho. Os candelabros de Luís XIV pendiam como cascatas de diamantes despedaçados do teto dourado, sua luz caindo sobre vestidos de seda e gravatas engomadas. Risadas — frágeis e brilhantes como champanhe — ondularam pela multidão.
Os convidados se abriram para ele como se um maestro invisível tivesse sinalizado seu movimento. Ele desceu, com as mãos cruzadas atrás das costas. Seu paletó de gala vestia seus ombros sem um único vinco.
"Sua Graça", veio a primeira saudação ofegante de um cavalheiro rechonchudo, "uma honra vê-lo entre nós novamente. Londres ficou mais pobre com sua ausência."
Devin inclinou a cabeça.
A risada jovial de Sir Thomas Farnsworth hesitou, incerto se tinha sido reconhecido ou dispensado.
"Ha! Modéstia não lhe cai bem. Os clubes estão terrivelmente entediantes sem a sua companhia. Até o White's começou a discutir política."
Devin aceitou uma taça de champanhe de um lacaio que passava, deu um gole lento e seguiu para a multidão.
Perto dali, uma figura esguia em cetim azul-gelo se virou. Lady Clarissa Whitmore o observou por cima da guarda de madrepérola de seu leque.
"Sua Graça. Você chega tarde o suficiente para sugerir relutância, mas cedo o suficiente para ser notado. Um verdadeiro ato de equilíbrio."
O polegar de Devin traçou a borda de sua taça. Que chatice. Ele deu um gole lento, olhos sustentando os dela por cima da borda. Abaixou a taça. Não disse nada.
Um sorriso fraco atravessou seus lábios. "E como vai sua reforma? Ou você a abandonou por ser pouco lucrativa?"
"Se a virtude gerasse dividendos", disse ele, seu olhar tempestuoso passando por ela para a multidão, "eu seria dono do Banco da Inglaterra."
A risada dela foi lírica. "Ah, mas a riqueza nunca foi sua deficiência."
Antes que Devin pudesse retrucar, Lord Waverly apareceu ao seu lado. "Ainda colecionando corações partidos, Devin? Ou sua mãe conseguiu te assustar a ponto de você considerar o matrimônio?"
Devin mudou o peso do corpo. Uma única sobrancelha se ergueu.
Waverly sorriu. "E aqui está você, em seu próprio baile. As senhoras estão fora de si. Ouvi a Srta. Grafton declarar que você se parece com um deus grego, só que com menos misericórdia."
Devin fechou seu relógio de bolso dourado com um estalo e guardou-o. "A Srta. Grafton deveria mirar mais alto. Ou mais baixo. Qualquer uma das opções seria mais interessante."
Waverly soltou uma risada ruidosa.
Lord Thornton juntou-se a eles, alto e de cabelos escuros. "Você poderia tentar ser civilizado por uma noite. A Duquesa Viúva já está em pé de guerra."
Os lábios de Devin se curvaram no canto. "Eu sou civilizado." Ele ergueu sua taça em direção à multidão e bebeu.
"Falou como um homem encurralado pela admiração", disse Waverly.
O olhar de Devin varreu o recinto — vestidos diáfanos, olhos ambiciosos, o farfalhar da seda e dos leques. Ele girou um ombro. Um sorriso fraco e gelado tocou seus lábios. "A adoração é uma transação. Ela espera um retorno que não tenho interesse em pagar."
Risadas romperam de ambos os homens.
A Duquesa Viúva aproximou-se, seus diamantes brilhando como sinais de comando. "Devin, pare de fingir desinteresse. Lady Penbrook trouxe sua filha."
A mão de Devin na taça se apertou. Seu maxilar mudou de posição. "Ah, sim. Aquela com a risada que poderia acordar os mortos?"
Waverly bufou em sua bebida. A mão de Thornton bateu no ombro de Devin.
"Devin!" a Duquesa sibilou, fechando seu leque com um estalo. "Seja educado."
Ele fez uma reverência superficial. Quando se endireitou, seus ombros subiram em um encolher de ombros quase imperceptível.
Enquanto ela se afastava, Lord Thornton murmurou: "Você tenta a Providência, meu velho amigo. Um dia sua língua lhe custará caro."
Devin observou a multidão. Ele deu outro gole no champanhe, lento, com a garganta trabalhando. Provavelmente.
Nota do Autor:
Wagered to the Duke é um romance histórico de ritmo lento e focado nos personagens. A abertura demora-se deliberadamente na atmosfera, no comedimento e na tensão social antes que a tempestade comece. Se você está aqui por diálogos afiados, desequilíbrio de poder, desejo conquistado e emoções que fervem muito antes de incendiar — você está no lugar certo.