Encontros de Alfas

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Resumo

Encontrada ainda bebê dentro de um cesto à deriva no rio, ela cresceu entre humanos sem jamais se sentir completamente parte daquele mundo. Desde cedo, a floresta a chamava — não como um lugar, mas como uma presença viva. Sempre que seus pés tocavam a terra úmida, sempre que o vento atravessava as árvores, uma voz despertava dentro dela. Uma voz antiga, selvagem… e familiar. Tudo muda quando ela cruza o caminho de alguém que desperta nela algo diferente de tudo o que já sentiu. Um laço imediato, profundo e inexplicável. Ele não é apenas um encontro — é o eco de uma promessa antiga, um vínculo que transcende o tempo e a escolha. Enquanto segredos sobre sua origem começam a emergir e a floresta se torna cada vez mais presente, ela entende que não foi encontrada por acaso. Entre o chamado do instinto, a força do amor predestinado e a linha tênue entre dois mundos, ela precisará aceitar quem realmente é… antes que o destino decida por ela.

Gênero
Fantasy
Autor
Leeh_Silv@
Status
Completo
Capítulos
34
Classificação
n/a
Classificação Etária
18+

Capítulo 01

Não importava o quanto minhas emoções estivessem abaladas — eu sabia que, se corresse para a mata, tudo ficaria bem. A terra, o vento, a água… tudo me acalmava de alguma forma. E havia também a voz. Aquela que às vezes me fazia pensar que eu era louca.

Hoje era um desses dias.

Eu estava feliz. Minha formatura seria amanhã, e eu precisava correr, gastar a alegria, mostrar à floresta tudo o que eu sentia. Mostrar a quem sempre esteve comigo.

Ouvi de longe minha mãe gritar. Havia preocupação em seu tom:

— Anna, está tarde, minha filha.

Mas eu nunca tive controle sobre minhas emoções.

— Prometo voltar cedo, mãe! — respondi, já correndo o mais rápido que podia.

Quando alcancei o coração da floresta, parei ofegante, descalça. Senti a terra molhada entre meus dedos, a brisa gelada carregada de cheiro de vida. Eu poderia jurar que sentia as flores crescendo, as raízes se movendo, a própria floresta respirando comigo. Estava prestes a falar com uma planta quando a voz ecoou em minha mente:

"CUIDADO."

Nunca entendi de onde essa voz vinha, mas de uma coisa eu tinha certeza: ela era esperta. Pedi silêncio e inspirei fundo. Além dos aromas que eu conhecia tão bem, um cheiro estranho invadiu meus sentidos. Um cheiro novo. Pesado.

Me escondi entre as árvores. Por viver ali, eu sabia exatamente onde pisar, como pisar, como desaparecer. Não era humano. As patas batiam pesadas contra o chão da floresta. Era um animal. E estava ferido. O cheiro de sangue confirmou isso.

Então ele surgiu.

Nunca tinha visto nada igual. Parecia um cachorro… mas muito maior. Grande demais. Forte demais. Ele cambaleou e caiu. Quando ergueu a cabeça, seus olhos encontraram os meus. No mesmo instante, a voz falou novamente dentro de mim:

"COMPANHEIRO"

Companheiro? — pensei.

Pedi silêncio outra vez. A dor de cabeça veio forte, como sempre quando a voz insistia. Fechei os olhos e respirei. Quando os abri, ele ainda me observava. Mesmo na escuridão, consegui vê-lo com clareza: pelagem preta como a noite, olhos tão escuros quanto o breu. Não senti o cheiro dele — apenas de outros iguais a ele… e sangue. Muito sangue.

Desviei o olhar e me aproximei do ferimento. Passei a mão com cuidado. Ele se contraiu. Era uma ferida aberta no abdômen.

— Está doendo? — sussurrei.

Ele rosnou baixo.

— Aguenta. Já volto.

Corri até um ponto próximo e peguei uma farpa de madeira, cânhamo para fechar o ferimento e um punhado de erva-baleeira, para evitar inflamação. Voltei rápido. Lavei a ferida com água de um riacho próximo. Ele rosnou mais forte.

— Fica quieto — murmurei, olhando firme para ele.

Ele entendeu.

Fechei o curativo com cuidado, espremi a erva sobre o machucado e cobri com uma folha larga de bananeira. Quando terminei, ele ergueu a cabeça. Passei a mão em sua pelagem. Estranhamente, o medo não existia.

Ouvi então a voz da minha mãe ecoar pela floresta:

— Anna, cadê você, menina?

O animal também ouviu. Ergueu a cabeça na direção do som.

— Preciso ir — falei baixinho. — Espero que fique bem e beijei a sua testa.

Corri em direção à luz da lanterna. Em poucos minutos, alcancei minha mãe.

— Menina, não some assim! — disse ela, com a mão no coração.

— Desculpa, mãe… me empolguei.

Olhei para trás. Um sorriso de canto surgiu em meus lábios.

É bom ajudar quem precisa.

— Vamos — ela disse. — Você está toda suja.

Tomei um banho e capotei amanhã Trix ia estar na porta de casa com sua euforia.

"COMPANHEIRO. COMPANHEIRO. COMPANHEIRO."

Acordei assustada, sentando de repente na cama, jurando ter ouvido um uivo ecoar pelo quarto. Meu corpo estava suado, um calor estranho me dominava. Febre? Não podia ficar doente. Não hoje. Hoje era minha formatura.

Antes que eu pudesse pensar melhor, minha mãe bateu na porta:

— Filha, sua amiga chegou.

Beatrix entrou como um furacão, transbordando alegria em níveis absurdos.

— Anna, eu tenho um babado ALTÍSSIMO pra te contar!

— Bom dia, Beatrix… — murmurei, bocejando e esfregando os olhos. — Que babado é esse?

— Então! Tivemos aquele problema com o salão de festa, né? E íamos acabar comemorando naquele lugar mequetrefe… — ela fez uma pausa dramática. — Mas alguém salvou nossa formatura!

Ela começou a rodopiar pelo meu quarto, me deixando quase tonta.

— Tá… — me sentei na cama. — Quem foi essa pessoa?

Beatrix estendeu as duas mãos no ar, como se o nome fosse surgir entre elas:

— Nada mais, nada menos que Magnus Darkmoor. O maior ricasso dessa cidade. Dono de metade dela.

Franzi a testa.

— Tá, mas o que o Magnus fez?

— Ele liberou o salão de festas do castelo dele! Aquela mansão gigantesca que dá pra ver da janela do seu quarto!

Virei o rosto e encarei a janela. Sempre vi aquele castelo no alto, silencioso e imponente. Nunca imaginei que fosse dele — na verdade, nunca sequer tinha visto o rosto daquele homem.

— Uma van vai buscar a gente às oito da noite — continuou Beatrix. — Então bora! Levanta! Vamos comprar nossas roupas!

Fui praticamente arrastada para o banho. Me vesti rápido: um vestido rosa com bolinhas brancas, tênis branco, cabelo preso em um rabo de cavalo com uma fita vermelha. Passei rímel e gloss às pressas. Não deu tempo de caprichar — Beatrix já me apressava impaciente.

Saímos quase correndo.

No centro da cidade, Beatrix puxou um papel do bolso e abriu animada. Era uma lista com várias lojas. Ela marcou a primeira com um risco decidido.

— Aqui — disse ela sorrindo. — Nossa missão começa agora.