Memories
Ben
Eu não me lembro se o correto para uma boa dose de uísque são três ou quatro dedos. De qualquer forma, sirvo uns cinco dedos para mim enquanto Veronica bufa atrás de mim, obviamente puta porque não estou ajudando.
Que se foda ela e as malas dela. Ela que faça as próprias malas, que carregue as malditas bolsas e que as enfie no cu antes que eu ajude a colocar tudo dentro da Mercedes que compramos no último Natal, depois que ela deu perda total na Range Rover porque bebeu vinho demais.
Meu Deus, minha esposa é horrível. Nefasta. A própria essência do mal.
Eu poderia pedir compaixão aos poucos amigos que me restaram depois de casar com essa mulher, mas eles me diriam que a odiavam desde o início. Até minha família, que basicamente arranjou o casamento já que o sócio do meu pai é tio da Veronica, troca olhares secretos, como se também soubessem que ela é repugnante. Felizmente, meu pai descobriu que o tio da minha esposa estava desviando dinheiro na mesma época em que encontrei o pinto do nosso piscineiro na boca da minha esposa. Minha família aceitou a notícia do divórcio muito melhor por causa disso.
Eu deveria saber que acabaria assim. Inferno, parte de mim sempre soube que essa farsa de casamento estava destinada ao desastre desde o primeiro dia. Eu nunca a amei de verdade. Na minha cabeça, ela era uma escolha ruim que minha família aprovou. Pode soar fraco e patético, e meio que é, mas quando você é ignorado e mandado para internatos a vida toda, você só quer aprovação. Culpo o fato de ser jovem e não entender totalmente o que o casamento envolveria.
Eu não entendi do que teria que abrir mão.
Olho para o meu reflexo na janela que dá para o Central Park e me observo com atenção enquanto levo o copo aos lábios. Camisa social branca amassada? Confere. Gravata de seda frouxa pendurada em cada lado do meu peito? Confere. Viro de lado e ainda consigo ver a marca rosa no meu maxilar onde a Veronica me deu um tapa há cinco minutos, os contornos dos dedos dela ainda na minha pele. Piscio enquanto estudo aquilo, hipnotizado pelas formas e pelo tom verde dos meus olhos contra o vidro escuro por causa do céu nublado lá fora. Passo a mão no rosto, sigo a marca, apalpo o maxilar e subo para o meu cabelo escuro e cacheado que precisa de um corte.
“Você podia ajudar”, Veronica rosna, jogando leggings caras em uma das malas abertas. Suas unhas vermelhas brilhantes, compridas como garras, brilham sob a luz. Deus, como eu odeio essas unhas. “Você é a razão de eu estar indo para a cabana dos meus pais, Benjamin.”
Suspiro e tomo um gole, virando pelo menos três dedos do copo de uma vez. “E eu te disse que você podia ficar. Eu não quero essa porra de casa.”
“Os advogados vão cuidar disso”, ela diz. “Você vai sair. Eu vou sair. Nós vamos vender. Nós concordamos.”
Viro as costas para a janela e lanço um olhar furioso para ela. Péssima ideia.
Seus olhos azuis ficam vidrados, escurecendo até quase o preto, e ela pisa forte, vindo em minha direção e pegando um porta-retratos de uma mesa próxima. Caro. Com borda de ouro. Defensivamente, levanto os braços enquanto ela me bate com ele, com tanta força que seu cabelo longo e escuro vai para todos os lados. Mechas dele estão no meu rosto. Só no terceiro golpe percebo que é a nossa foto de casamento. O vidro racha e ela o joga de lado. Ouço o vidro estilhaçar completamente no chão a alguns metros de distância enquanto aquelas unhas malditas arranham a pele do meu pescoço. Não sinto nada da dor que ela inflige, o álcool já entorpecendo meus sentidos.
Pensando bem, faz muito tempo que não sinto nada.
Segurando seus pulsos, eu a empurro de volta para a cama, com um olhar surpreso e arregalado no rosto dela. “Você me empurrou!” ela grita.
“Eu empurrei você para longe de mim, na cama.” Passo a mão no pescoço e olho para o sangue nos meus dedos. “Apenas vá, Veronica. Nenhum de nós quer isso. Pare de tornar tudo difícil. Eu nunca te traí fisicamente. Quem fez isso foi você.”
Ela zomba de mim e levanta uma sobrancelha junto com o lábio. “Fisicamente?”
“Para.”
“Foi com ela?”, ela pergunta. “Vocês têm se falado? Porque se têm, isso muda as coisas, Ben. Estava no nosso acordo pré-nupcial que você não poderia entrar em contato com aquele lixo. Eu vou descobrir e vou levar suas merdas também.”
“Cala a boca!”, eu grito, apontando o dedo na direção dela. “Nunca mais mencione ela. Eu cumpri minha parte do trato desde o dia em que nos casamos. Nunca liguei para ela. Como você pediu. Nunca mandei mensagem. Nunca mandei e-mail. Nunca mandei um maldito pombo correio, Veronica.” Cuspo o nome dela como veneno. Literalmente. Uma gota de saliva sai da minha boca quando digo. “Eu fiz tudo o que você pediu. Bloqueei ela e todos os nossos amigos em comum nas redes sociais e nunca investiguei nada. Você era minha esposa. Eu tentei!” Bato no meu peito. “E você não vai falar dela desse jeito. Ela nunca fez porra nenhuma para você.”
Veronica dá um sorriso maligno. “Você pensou nela? Quando estávamos juntos?”
Sim. Toda santa vez que eu entrava na minha esposa. Eu fechava os olhos e transava com a Courtney na minha mente, rezando para que exista um universo paralelo onde eu estivesse realmente transando com ela, onde fôssemos felizes, e eu nunca tivesse casado com a Veronica para agradar minha família.
“Sua mente nunca esteve em mim, então não aja como se fosse melhor que eu.”
“Ah, eu não preciso fingir, Ben. Eu sei que sou melhor.” Ela levanta da cama e ajeita o suéter, empinando o nariz pago para tentar me olhar de cima. “Eu nunca deveria ter casado com você. Eu merecia um provedor melhor.”
Estreito os olhos, confuso. Acho que algumas centenas de milhões não são o bastante. Quem diabos ela quer?
“Tenho certeza de que você vai encontrar alguém para suprir suas necessidades financeiras, Veronica, mas não existem tantos bilionários que aguentariam você dando para metade dos funcionários.”
Ela funga e se vira para jogar mais alguns itens na mala. Eu supervisiono, sem virar as costas para ela de novo. Não quero ter meu crânio rachado hoje.
Assisto enquanto ela esvazia quase todo o armário, chama o carregador para trazer um carrinho de bagagem e coloca seus cosméticos em duas malas só para eles. Durante todo o tempo, tomo o que resta da minha bebida e agradeço aos céus por nunca termos tido filhos. Não que não tenhamos tentado, mas o universo teve o bom senso de não nos abençoar com prole para disputar. Nosso divórcio já será um banho de sangue tentando achar furos nos pré-nupciais. Crianças teriam aumentado o estresse. Não quero laços com essa mulher assim que a tinta nos papéis estiver seca. Vê-la no casamento ou nas festas de aniversário de uma criança seria um novo inferno que fico feliz em evitar. Não teremos netos em comum.
Quando ela termina de fazer as malas, me mostra o dedo e joga o cabelo mais uma vez antes de ir embora. Só então pego uma pá e uma vassoura e recolho o que sobrou do porta-retratos. Desta vez, jogo a foto inteira no lixo junto com o vidro.
Depois que termino, ando pelos cômodos da casa, tocando nos itens que vamos vender. Não há um único item pelo qual eu sinta algum apego. Nenhuma obra de arte que eu sequer aprecie. Pego taças de vinho pelas quais não sinto conexão nem guardo boas lembranças de jantares passados. Até o sofá parece rígido e sem uso enquanto afundo nas almofadas, abaixando a cabeça enquanto encaro meu copo vazio. Eu poderia servir outro, mas isso só me daria uma dor de cabeça a mais na minha situação atual.
Se ao menos eu nunca tivesse casado com a Veronica. Se ao menos eu nunca tivesse colocado minha família em primeiro lugar. Se eu tivesse me colocado em primeiro lugar e feito o que eu queria, eu poderia ter sido feliz.
Eu poderia ter tentado com a Courtney.
Courtney Millrose era minha namorada na faculdade. Nós nos conhecemos em Brown, onde ambos cursávamos economia. Ela era de uma cidade pequena no Maine, aquele tipo de garota de classe média, vizinha do lado, com cabelos loiros avermelhados e sardas. Eu vinha do dinheiro da Filadélfia, com ternos sob medida. Cresci em iates quando não estava na mansão sombria da minha família, passada de geração em geração. Era uma história tão velha quanto o tempo, e nossos amigos em comum nos comparavam ao Príncipe William e à Princesa Kate.
Minha família só a via como comum e um obstáculo que eu deveria superar para ser bem-sucedido.
Eu escolhi errado. Eu a deixei. Com uma carta. Quem diabos escreve cartas hoje em dia? Eu escrevi quando a deixei, duas semanas antes do meu casamento com a Veronica. Eu transei com a Courtney até aquele momento porque não conseguia deixá-la ir. Sabia que era cruel com ela, mas não conseguia ser cruel comigo mesmo ao deixá-la. Depois da nossa última noite juntos, beijei sua testa enquanto ela ainda dormia e deixei aquela maldita carta no criado-mudo. Sei exatamente como isso soa na minha cabeça porque penso nisso todos os dias desde então.
Por que uma carta? Com a tecnologia de hoje, parecia mais seguro. Sem mensagens para a Veronica achar no meu celular. Sem corrente de e-mail que eu sabia que ela monitorava. Que esposa da Geração Z acha que seu noivo está escrevendo cartas?
Claro, a Courtney poderia ter escaneado e tornado público, mas eu sabia que ela não faria. Me mata saber que ela sofreu aquela dor em privado, mas eu sabia que seria *privado*. O sofrimento *dela*. Ela seguiria em frente e provavelmente casaria com um bom rapaz do Maine. Talvez alguém como o namorado dela do ensino médio, que tinha acabado de começar a gerenciar o mercado local. Ela planejava ser corretora, mas faria isso de casa para poder ajudar a mãe com a avó idosa. É o tipo de pessoa que ela é. Ela morde o lábio e faz o trabalho duro. Eu entrei em Brown com o dinheiro dos meus pais. Ela entrou por ter as notas e as melhores redações. Ela é forte.
Diferente de mim. Eu já fui fraco e facilmente influenciado por dinheiro e prestígio. Eu sei essas coisas sobre mim mesmo.
Respiro fundo e passo a mão pelo cabelo. Essa porra de tristeza acaba agora. Cansei de ser o gerente de fundo de hedge privilegiado que colhe os frutos do trabalho duro de todo mundo. Cansei de ser o filho de Howard Wittington e vou começar a ser Benjamin Wittington, um homem que trabalha duro por mérito próprio, coloca a vida nos eixos e começa a ser o homem que deveria ser.
Começa com o que eu deveria ter feito há mais de quatro anos. Não vai resolver meus problemas. Nem acho que ela vai me ouvir. Mas vou tentar. Estou virando uma página nova e, assim como os Alcoólicos Anônimos, isso exige fazer as pazes com as pessoas que machuquei ao longo do caminho, os cadáveres que deixei espalhados pelo campo de batalha da minha vida mimada e luxuosa.
Eu devo a ela um pedido de desculpas muito grande.