Prólogo
Meu coração martelava contra as costelas quando dei um solavanco, despertando do sono com um arquejo. Os restos do sonho ainda se agarravam a mim, viscosos e insistentes, recusando-se a soltar o aperto. Suor frio encharcava minha pele, e cada respiração ardia como se eu tivesse emergido rápido demais de águas profundas.
A escuridão pressionava por perto, pesada e vigilante. Sombras se estendiam pelas paredes de pedra, curvando-se onde não deveriam, e cada rangido da casa enviava um tremor pelo meu corpo. Estiquei a mão instintivamente em busca da luz, com os dedos trêmulos...
...e congelei.
A percepção me atingiu como pisar em um lago congelado e sentir o gelo rachar sob meus pés. Aquilo não era um sonho. A visão ainda ecoava em meus ossos, nítida e inegável. Um aviso. O tipo concedido apenas quando o destino já começou a agir. O reino estava em perigo. Eu estava em perigo, e não seria a única a sentir isso.
O dom, este maldito, se espalharia. Sempre era assim. Atrairia atenção, chamaria aqueles que ficavam à espreita por tais coisas, que caçavam o desequilíbrio como outros caçavam presas. Em minha direção... Em direção ao que eu carregava.
Balancei as pernas para fora da cama, com os pés descalços tocando o chão de pedra fria. A noite estava estranhamente quieta, como se o próprio mundo estivesse prendendo a respiração. Cada som parecia amplificado. O sussurro das folhas roçando a janela, o tique-taque lento e deliberado do relógio, medindo segundos que eu não possuía mais.
Uma coruja piou ao longe, um som baixo e lúgubre. Um presságio. Vesti-me rapidamente, com movimentos aguçados pela necessidade, não pelo pânico. Botas de couro. Uma capa de verde-esmeralda profundo, presa firme sobre meus ombros. Este tinha sido meu lar, meu santuário. Eu o amara intensamente, confiando que ele resistiria. Mas o amor não detém o que caça na escuridão.
Ajoelhei-me aos pés da cama diante do baú de madeira. Sua superfície era esculpida com sigilos tão antigos que se desgastaram sob gerações de mãos; não eram decoração, mas proteção. Promessas sobrepostas a restrições. Magia feita para perdurar intacta, esperando em vez de dormir. As linhagens do meu sangue estavam gravadas no veio da madeira, cada marca feita por alguém que acreditara que aquele lugar seria seguro.
Tracei as marcas uma vez, gravando cada curva e sulco na memória. Apoiei a palma da mão sobre a tampa. A madeira estava morna sob minha pele, viva do jeito silencioso das coisas ligadas a um propósito. Por um momento traiçoeiro, pensei em abri-lo, pensei em pegar o que estava guardado e inacabado e levar comigo noite adentro.
Ainda não, eu disse a mim mesma. Algumas verdades só sobrevivem porque se espera por elas. As proteções se agitaram apenas com minha intenção. Um zumbido leve e constante reconhecendo a escolha, em vez de resistir a ela. O baú permaneceu selado, paciente como a linhagem que o guardara.
Peguei apenas o que importava. Um pequeno punhal jazia sobre o tecido dobrado dentro da minha bolsa de viagem, com o cabo encaixando na minha palma como se tivesse sido moldado apenas para mim. O presente da minha avó. Uma magia antiga repousava em sua lâmina, quieta e fiel, contente em ser carregada em vez de usada. Levantei-me, deixando o baú intocado. Não olhei para trás. Algumas salvaguardas só funcionam se houver confiança nelas.
O ar lá fora estava cortante e frio o suficiente para morder, trazendo o cheiro úmido de musgo e pinho. Entrei na noite sem cerimônia, virando em direção à floresta que se erguia, escura e densa, além do caminho de pedra. Seus galhos ancestrais se entrelaçavam como dedos fechados esperando.
Eu corri. Raízes e pedras ameaçavam meus passos enquanto eu juntava as saias e fugia, com a capa estalando atrás de mim. Galhos rasgavam tanto o tecido quanto a pele enquanto eu avançava pela vegetação rasteira, a floresta se fechando ao meu redor com uma familiaridade que doía mais do que o conforto. A floresta me conhecia.
Ela se movia enquanto eu passava, sussurrando avisos que eu não podia mais me dar ao luxo de ouvir. Em algum lugar atrás de mim, algo se moveu. Silencioso demais para ser coincidência, deliberado demais para ser sorte. Os Night Wraiths também tinham sentido. O eco da profecia ainda ressoava pela terra, alto o suficiente para acordar o que deveria ter permanecido dormindo.
Meus pulmões ardiam. Meu coração trovejava. O medo aguçou o mundo até que ele se reduzisse apenas a respiração e movimento. À frente, as árvores rarearam. Uma clareira se abriu diante de mim, banhada por um luar prateado tão brilhante que parecia irreal. A esperança surgiu, súbita e perigosa. Se eu pudesse alcançá-la, se pudesse atravessar aquele campo aberto...
Uma mão se fechou sobre minha boca. Meu grito morreu contra uma palma que cheirava a terra e aço enquanto eu era puxada para trás, em direção à sombra. O pânico explodiu dentro de mim, selvagem e ofuscante. Lutei, chutando e me contorcendo, até que o mundo voltou ao foco e vi o rosto dele.
Eoghan.
O reconhecimento atingiu mais forte do que o medo. Um velho amigo dos meus pais. Um guardião. Um confidente. Alguém em quem confiei a vida inteira. Meus pensamentos giravam, tentando encontrar sentido. Ele viera para me deter? Para me arrastar de volta antes que fosse tarde demais?
Tentei falar, avisá-lo, explicar o que já havia começado, mas o pânico travou minha voz, congelando a razão junto com a respiração. A profecia fora alta demais. Poderosa demais. É claro que outros a tinham sentido. Eoghan pressionou um dedo nos lábios, com os olhos afiados de urgência, e então apontou para a clareira. Segui seu olhar e meu sangue gelou.
Guardas do palácio se moviam pela luz prateada, com armaduras brilhando enquanto sua atenção varria a linha das árvores. Se eu tivesse dado mais um passo, eles teriam me visto. Olhei para Eoghan, buscando em seu rosto, falando sem palavras.
Você está aqui para me ajudar.
Ele não respondeu. Apenas envolveu-me com os braços e o mundo se quebrou. A floresta desapareceu num solavanco violento enquanto a realidade se dobrava sobre si mesma. O espaço se retorceu e se rasgou; a sensação não era nada parecida com caminhar. Era mais como cair de lado através do hálito e da luz, através de algo mais antigo do que a linguagem. O ar queimava e meu estômago despencou. Meus ossos vibravam como se atingidos por som em vez de movimento.
Durou apenas alguns segundos. Quando meus pés tocaram o chão firme, meu corpo se rebelou. Caí de joelhos, vomitando até não restar nada, com o gosto de cobre ácido em minha língua. O mundo girava, estranho e errado.
“Desculpe”, sussurrei, forçando-me a ficar de pé.
Eoghan estava parado diante de mim, com uma expressão talhada pela tristeza. Naquele momento, entendi o que ele tinha tirado de mim, mesmo enquanto salvava minha vida. Tudo. Meu lar. Meu povo. A terra que conhecia meu nome.
Saber o que é o certo e escolher esse caminho traz seu próprio luto. Instalou-se em mim como um longo crepúsculo de inverno, silencioso e inflexível, pressionando dedos frios sob minhas costelas. Moveu-se pela minha alma como uma maré lenta, arrastando tudo o que era terno de volta para a escuridão, onde até a esperança aprendia a sussurrar.
“Você precisa ficar escondida”, disse Eoghan suavemente. “Você precisa ficar em segurança.”
“Eoghan”, perguntei, com o pavor se enroscando no fundo do meu estômago, “o que devo fazer?”
“Você não pode saber”, respondeu ele, com a dor refletindo a minha em seus olhos. “Se eu ficar, você será descoberta. Você saberá quando chegar a hora, mas não antes disso.”
Ele deu um passo para trás, já escapando do meu alcance.
“Por enquanto”, disse ele, com a voz embargada, “você permanecerá aqui.”
Ele olhou para mim uma última vez.
“No reino dos Humanos.”
E então ele se foi. A floresta, esta nova floresta desconhecida, permanecia silenciosa ao meu redor. Nenhuma proteção zumbia sob minha pele. Nenhuma magia antiga respondia à minha respiração. As estrelas acima eram nítidas, distantes e indiferentes. Pressionei uma mão trêmula contra o peito e me voltei para dentro, guardando o pouco que restava. Porque eu sabia, com uma certeza dolorosa... O destino não tinha me perdido. Ele apenas tinha me seguido.