Viagem Escolar: O Grupo dos Populares, Parte 1

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Resumo

Quando Hioki é inesperadamente convidado para se juntar a um grupo de quatro garotos bonitos na viagem da escola, ele fica ansioso com o que pode acontecer. Para sua surpresa, a viagem se torna muito mais agradável do que ele jamais imaginou, talvez graças a Watarai, que parece estar sempre cuidando dele. À medida que Hioki começa a abrir seu coração para o gentil e bondoso Watarai, algo por trás daquela doçura começa a surgir. O que antes parecia uma simples gentileza, lentamente começa a se transformar em algo parecido com obsessão. Uma história de coming-of-age BL que começa com uma viagem escolar, onde a beleza encontra a normalidade e o afeto se aprofunda em algo muito mais complicado.

Gênero
Romance/Drama
Autor
☁️
Status
Completo
Capítulos
13
Classificação
n/a
Classificação Etária
16+

Capítulo 1

Personagens

Hioki (uke) — Não consegue lidar com o fato de estar em uma turma diferente de seus amigos próximos. Watarai (seme) — Quer ser amigo de Hioki, mas não sabe como.

Hotta, Nakasato, Morisaki, Tsujitani, Ino — Membros do mesmo clube que Hioki.

(O que eu deveria fazer…?)

Em meio à gritaria da sala de aula, encarei o papel com os horários na minha mesa. Não era como se eu tivesse um prazo hoje. Também não estava preocupado com as aulas de amanhã.

Desviei o olhar para o quadro-negro e reli as palavras escritas ali. "Viagem Escolar – Seleção de Grupos"

Um longo suspiro escapou de mim.

Sim, bem agora, a turma estava decidindo os grupos. Seria para a suposta viagem escolar inesquecível da nossa vida.

Não era exatamente o momento para ficar viajando nos horários.

Não é como se eu não tivesse amigos.

É só que meus amigos mais próximos acabaram em outra turma.

Esta turma está cheia de pessoas com quem mal converso. (Por que eles fazem a viagem escolar em junho…?)

Outro suspiro.

Outubro teria sido perfeito. Até lá, todo mundo já se conheceria melhor.

Aparentemente, o cronograma mudou este ano.

Os professores realmente superestimam as habilidades sociais dos alunos do ensino médio.

Fazer amigos próximos do zero em tão pouco tempo? Impossível. Pelo menos para mim.

Para ser sincero, eu até pensei em não ir.

Mas a minha professora ficava me olhando. Ela devia estar preocupada por eu não ter entrado em nenhum grupo, e isso já estava me dando nos nervos.

Se eu não fosse, meus pais provavelmente perguntariam se aconteceu algo na escola. Por isso, risquei logo essa opção da lista.

— … O quê?

Levantei o olhar — bom, levantei mais ou menos — para o garoto em pé meio ao meu lado. — Hioki, ainda não escolheu um grupo? Quer entrar no nosso?

O garoto abriu um sorriso largo ao dizer isso.

Se me lembro bem, o nome dele era Hotta. Acho que estudamos no mesmo ensino fundamental. Mas nunca fomos tão próximos.

— Na verdade, eu não—

— Então está resolvido! Vem!

Ei, ei, pelo menos me deixa terminar de falar.

E por que eu? Quem mais está no grupo?

Eu tinha um milhão de perguntas, mas Hotta não estava ouvindo. Ele agarrou meu braço e me arrastou em direção ao grupo dele. Provavelmente eram seus amigos.

— E aí, galera! O Hioki vai entrar no nosso grupo também! — …

Eu ainda não aceitei nada. E espera aí…

Eles estavam me dando aquele olhar de "Quem diabos é esse?". Não que eu conhecesse algum deles também.

— Ei! Eles não estão me dando boas-vindas coisa nenhuma! Por que você me trouxe pra cá?! — Como assim? Todo mundo concordou.

— Concordaram o cacete!

Sem conseguir suportar o clima estranho, eu puxei o braço de Hotta dessa vez. Sussurrei minha reclamação perto do ouvido dele.

Mas a resposta que ele deu não foi nada do que eu esperava. Concordaram? Onde é que parece que eles concordaram?

— Eu já perguntei isso, mas por que eu—

— Ei, já que está decidido, posso colocar o seu nome aqui?

Ninguém nesse grupo escuta os outros?

Soltei o braço de Hotta e me virei para a voz.

O garoto segurando a folha com os nomes do grupo olhou rapidamente para as nossas mãos. Depois, fixou os olhos em mim.

Era alguém com quem eu mal tinha conversado. O nome dele era... hã—

— Watarai, certo? Tem problema se eu entrar? — Eu mal consegui dizer isso.

Errar o nome dele deixaria as coisas ainda mais estranhas. Graças a Deus acertei.

Bem, na verdade, eu nem tinha certeza se tinha acertado. — ……… Ah, sim. Sou o Watarai. Prazer em te conhecer.

Depois de uma pausa estranha e pesada, Watarai respondeu e desviou o olhar rapidamente. Parece que eu não causei uma boa impressão.

Talvez eu devesse ter sorrido ou algo assim.

— Ao lado do Watarai está o Nakasato. E ao lado dele está o Morisaki.

Enquanto Watarai escrevia meu nome, Hotta apresentou os outros dois.

Nakasato me cumprimentou com um sorriso amigável e aberto. Morisaki soltou um "E aí" casual e voltou a olhar para o celular na mesma hora.

Ei, é sério? Você vai ficar jogando no celular assim? Vai acabar sendo confiscado.

Com medo de sermos pegos, eu mudei de posição de forma sutil para bloquear a visão da professora. Assim, escondi o Morisaki.

Foi um pouco forçado, mas pelo menos meu grupo estava decidido.

Morisaki finalmente guardou o celular, então soltei um pequeno suspiro de alívio. Peguei uma cadeira vazia ali perto.

Eu ouvia a conversa dos quatro meio por alto. Olhei para a frente da sala de aula e encontrei os olhos da nossa professora. Ela parecia visivelmente aliviada.

Desculpe por preocupá-la, sensei.

Sendo sincero, ainda estou ansioso para ver como isso vai terminar.

Quando me virei para o grupo de novo, meus olhos acabaram se encontrando com os de Watarai. Lembrei de como nossa primeira conversa tinha sido estranha, então dei um sorriso pequeno e educado dessa vez.

Para minha surpresa, ele não desviou o olhar como antes. Ele piscou de leve e sorriu de volta.

Acho que ele tem umas mudanças de humor... provavelmente.

Estávamos falando sobre nossos clubes e como não queríamos fazer a prova na próxima aula. Eram coisas que não tinham nada a ver com a viagem. Foi quando a voz da professora ecoou pela sala de aula.

— Certo! Como todos já têm seus grupos, agora vocês vão formar grupos para o tempo livre do segundo dia. Esses grupos devem ser mistos, ok?

Por um momento, a sala de aula ficou em silêncio.

Depois, veio um coro de resmungos e reclamações. Era de se esperar.

Uma rápida olhada para o lado mostrou que os quatro pareciam igualmente descontentes. Seus rostos praticamente diziam "Não, obrigado" em letras garrafais.

Morisaki resmungou "Isso é uma merda" e se apoiou em Watarai. Cara, a atitude e o linguajar desse cara são péssimos.

Pelo visto, a turma mais velha causou algum tipo de problema no tempo livre do ano passado. Então agora temos que formar grupos mistos para "manter uns aos outros na linha".

Sério, tudo fica mudando para o nosso ano.

— Ok, andem logo e decidam — a professora disse antes de sair para pegar os guias da viagem na sala dos professores.

No instante em que ela sumiu, as reclamações explodiram pela sala.

Em meio ao barulho, eu podia ouvir vozes dizendo coisas como "O que a gente faz?".

Sinceramente, eu não dava a mínima.

Pensei que simplesmente seguiria qualquer grupo que o Hotta e os outros escolhessem. Ou qualquer um para o qual fossem convidados.

Mas então…

Comecei a notar algo. Nós estávamos sendo observados.

Alguns grupos de garotas estavam dando olhares furtivos. Não, estavam encarando a gente. Encarando de verdade.

E então a ficha caiu.

É claro que elas estavam.

Olhei de relance para os quatro sentados ao meu lado.

Este grupo… é. Todos eles são bonitos. Altos também. Inteligentes? Quem sabe.

Mas, no geral, eles definitivamente eram de primeira linha.

O que só me fez questionar ainda mais: o que diabos eu estou fazendo nesse grupo?

— Ei, Nakasato-kun, o grupo de vocês já se juntou com alguém?

Uma garota que com certeza parecia ser do grupo das populares falou com a gente. Seu olhar desviou para Watarai e Morisaki mais de uma vez.

Ah, entendi. Então aqueles dois são os alvos.

— Ainda não — Nakasato respondeu com seu sorriso relaxado de sempre. — Estávamos pensando em nos juntar com quem sobrasse.

Ele não emendou um "Então vamos nos juntar", em vez disso esperou a resposta dela. Mesmo que ele provavelmente já soubesse exatamente o que ela iria dizer.

Um cara bem astuto, na verdade.

— Então—! Por que vocês não fazem grupo com a gente? Por favorzinho?

Outra garota espiou por trás da primeira, soltando a frase esperada. — O que acham? — Nakasato perguntou, olhando em volta.

— Por mim tudo bem — disse Hotta.

— É só para a parte do tempo livre, né? Tanto faz — Morisaki acrescentou. — … Hum, é. Pode ser — Watarai murmurou depois de uma leve pausa.

Quando os olhos de Nakasato se voltaram para mim, eu apenas disse: — É, tranquilo.

Depois de ouvir as respostas de todos, ele assentiu e se virou para as garotas novamente. — Ok, então. Vai ser divertido.

— Obrigada! Vamos nos divertir! — elas disseram. Voltaram para seus lugares com sorrisos radiantes, dando risadinhas animadas.

— Estão super a fim da gente — murmurei.

Depois que as garotas saíram, Nakasato falou em um tom que só a gente conseguia ouvir. Seus olhos se moveram para Watarai e Morisaki.

— Vocês dois são populares mesmo. — Cala a boca. Que nojo.

— Ei, talvez elas estejam de olho no Hotta.

— Tá bom. Pode ser em você, Nakasato.

— Eu já me sinto deprimido só de pensar no tempo livre. — Um pouco cruel, não acha?

Enquanto eu estava sentado lá, escutando a conversa de fora, Morisaki de repente olhou na minha direção.

— Talvez elas estejam a fim do Hioki.

Nem pensar.

Eu não tenho nem certeza se elas notaram que eu existo. Abri a boca para negar, mas—

— Isso com certeza não é verdade. — Watarai respondeu antes de mim.

Fechei a boca e concordei com a cabeça.

Bem... ele está certo. Mas por algum motivo dói mais ouvir isso de outra pessoa. Acho que o Sr. Temperamental é assim mesmo.

— Então, o que vamos fazer no tempo livre? — Vamos só alimentar os cervos o dia todo.

— Talvez a gente nem vá ao lugar dos cervos.

— Então vamos só passear pelos templos ou algo assim. — Você parece um velho.

Pelo jeito, eles já estavam pensando em formas de evitar interagir com as garotas. Ficar meio de fora da conversa na verdade foi bom. Não precisei pensar muito.

Enquanto eu divagava, a professora voltou segurando uma pilha de guias de viagem. Nosso destino: a região de Kansai.

O mesmo do ensino fundamental.

A única diferença desta vez eram as pessoas.

Espero que nada de estranho aconteça.

… Embora, se algo mudasse, isso também poderia ser um pouco interessante.

Guardando esse pequeno pensamento comigo, levantei-me para voltar ao meu lugar. Estávamos reunidos ao redor da mesa de Watarai, então os outros três se levantaram também. Watarai, sempre imprevisível, acenou de leve para mim. — Até mais.

Acenei de volta e comecei a andar. Sério, o que esse cara está pensando?

───

Ainda estava um pouco frio de manhã cedo.

Antes que eu percebesse, o dia havia chegado. O primeiro dia da viagem escolar.

Vesti um cardigã e me abaixei na entrada para amarrar os cadarços. — Esqueceu alguma coisa? Carteira, lenços de papel... pegou seus óculos também?

Minha mãe se aproximou. Seus chinelos batiam no chão enquanto ela checava minha bagagem. — Você guardou tudo o que precisa, né? — ela perguntou de novo, olhando para a minha mala.

— Eu olhei ontem à noite. Está tudo certo. — Então tá bom. Se cuida e divirta-se. — Tá, tô indo.

Abri a porta da frente, puxando minha mala atrás de mim em direção ao carro. Minha irmã universitária estava lá, guardando algumas coisas no porta-malas.

— O que você está fazendo?

— Ah, esqueci de tirar umas sacolas do outro dia. Coloca essa no banco de trás. — Entendi.

Levantei minha mala para trás e a coloquei aos meus pés.

Mas em vez de sentar lá, dei a volta e entrei no banco do passageiro. Eu gosto do banco do passageiro, a vista é melhor.

Assim que travei o cinto de segurança, a porta do motorista se abriu e minha irmã entrou. — Valeu pela carona.

— Aham, sem problema.

Ela também colocou o cinto e começou a mexer no GPS.

Acho que ela não se lembrava de onde era minha escola. O que é justo, já que ela estudou em uma diferente.

O carro começou a se mover.

Por algum motivo, me senti um pouco nervoso.

A viagem da nossa casa até a escola leva cerca de quarenta minutos.

Eu costumo ir de ônibus ou de bicicleta. Mas quando tenho muita bagagem ou quando está chovendo muito, ela

me leva de carro.

Também tem um estacionamento para os pais no campus. Vantagens de morar no interior, eu acho.

— Falando nisso — minha irmã disse enquanto esperava um pedestre atravessar —, você disse que nenhum dos seus amigos próximos está na sua nova turma, né? Você vai ficar bem?

Então ela estava preocupada, afinal de contas.

— É... Fui chamado por um grupo, então vou ficar bem. Nenhum deles parece ser má pessoa. — Embora, eu tenha acrescentado mentalmente, alguns deles têm uma boca e atitudes bem rudes.

— Hum — ela murmurou e depois disse: — Me manda umas fotos mais tarde. — Se eu lembrar — respondi, olhando pela janela.

───

Tirei minha bagagem do carro e fechei a porta, caminhando até o lado do motorista. Minha irmã abaixou o vidro e se inclinou para fora.

“Beleza, divirta-se!”

“Obrigado pela carona.”

“Me manda mensagem quando chegar, tá bom?”

Ela disse isso, fechou o vidro, acenou e foi embora.

Eu acenei de volta até o carro dela sumir de vista. Depois, peguei meu celular.

Havia uma notificação de mensagem nova. Provavelmente era do grupo que o Hotta e os outros criaram só para essa viagem.

Eu toquei para abrir.

[Hotta]: “Já cheguei. Onde vocês estão?” Enviada há uns dez minutos.

[Eu]: “Tô indo para o pátio da escola agora.”

Depois de responder à mensagem do Horita, guardei o celular no bolso. Segurei a alça da minha mala e comecei a andar para o pátio da escola onde todos deviam se encontrar.

“Hioki! Bom dia!”

Só alguns passos depois, alguém me chamou por trás com uma voz familiar. Antes mesmo de eu me virar, um colega apareceu do meu lado. Era o Tsujitani, um garoto do meu ensino fundamental que também é do mesmo clube que eu no ensino médio.

“Cara, eu tava tão preocupado em esquecer algo que nem consegui dormir”, ele disse.

“Minha mãe também ficou perguntando se eu tinha esquecido alguma coisa... mas falando sério, você não tava é muito animado pra dormir?”

“Haha! Pior que é verdade!”

A risada alta dele de manhã era contagiante, e eu não pude deixar de rir também. Ah, era tão relaxante. Era uma sensação de familiaridade que eu não sentia há um tempo.

Enquanto eu aproveitava a sensação, o Tsujitani começou a falar. “Meu grupo tá cheio de idiotas esquecidos, fala sério—” mas de repente ele mudou de assunto, como se lembrasse de algo.

“A propósito, quem tá no seu grupo?” “Ah, isso...”

Eu já esperava essa pergunta. Fui falando os nomes um por um.

“Eita, eu mal falei com alguém além do Horita... Por que esse grupo?” “Eu também queria saber...”

“Então o Hioki finalmente entrou pro esquadrão dos extrovertidos, hein?” “Não, de jeito nenhum.”

Ele limpou lágrimas imaginárias como se estivesse chorando. Eu dei um tapa de leve no ombro dele mandando parar com isso, e ele me devolveu um “foi mal” com um sorriso.

Quando terminamos de colocar o papo em dia, já tínhamos chegado ao pátio da escola. Eu queria continuar conversando, mas lembrei que já tinha respondido ao Horita. Então me despedi do Tsujitani ali mesmo. Falar com um velho amigo de novo me deu uma pequena injeção de ânimo.

Olhei em volta para as pessoas se reunindo aos poucos e comecei a procurar o Horita. Talvez os outros já estivessem lá também. Eles seriam fáceis de achar com aquele tipo de presença. Pensei isso com um sorriso sem graça, mas decidi que seria mais rápido só olhar o celular.

Antes que eu pudesse desbloquear a tela, uma sombra caiu sobre mim. “Bom dia.”

“...Bom dia.”

Olhei para cima e vi o Watarai, que tinha me cumprimentado. Ele estava lá com o Nakazato, que ainda parecia estar dormindo em pé. Eu os cumprimentei de volta.

“O Horita e os outros estão logo ali”, o Nakazato disse. Ele apontou com o queixo, com as mãos ainda nos bolsos por causa do frio.

Segui o olhar dele e vi o Horita e o Morisaki perto do canteiro de flores. Então era lá que eles estavam.

“Vamos lá”, o Watarai disse e começou a andar. O Nakazato e eu fomos atrás, acompanhando o passo dele.

“Eu sou péssimo pra acordar de manhã”, o Nakazato resmungou esfregando os olhos. “Acha que eu dou conta?”

“Desde que pelo menos uma pessoa acorde na hora, você vai ficar bem”, o Watarai disse. Ele me deu um olhar que claramente dizia que eu era essa pessoa, o que me fez suspirar por dentro.

“Não, eu também sou péssimo de manhã.”

“Mesmo estando num clube de esportes?” “Isso não me faz ser uma pessoa matutina.”

Claro, eu estou num clube de esportes. Mas isso não significa automaticamente que sou bom em acordar cedo. Quando eu disse isso, o Nakazato e o Watarai trocaram olhares e fizeram caras meio preocupadas.

“O quê?”, eu perguntei. Pelo visto, o Horita e o Morisaki também eram péssimos de manhã. Então, cinco de cinco membros. Não tinha uma única pessoa matutina entre nós.

“Bom, é uma viagem escolar. Vamos estar num ambiente diferente, então alguém com certeza vai acordar cedo”, eu disse usando uma lógica qualquer. Lancei um olhar para eles que dizia: faz sentido,

né? E os dois concordaram com a cabeça como se pensassem "é, talvez".

Chegamos perto do Horita, que parecia animado e mal podia esperar pela viagem. O Morisaki ainda estava com cara de sono. O Watarai logo disse: “Nosso grupo tá ferrado de manhã”, compartilhando nossa conversa de antes. Os dois nos deram um olhar vazio de

pura falta de esperança. Claramente, ninguém ali tinha qualquer motivação para resolver o problema.

Enquanto eu ouvia pela metade aquele papo furado deles, a voz aguda do coordenador ecoou pelo pátio.

“Atenção, pessoal! Quando o grupo todo estiver junto, o líder deve se apresentar ao professor da turma! Turma 1, Grupo 1, façam fila aqui!”

Meus ouvidos até zumbiram. O cara estava usando um megafone. Ele podia pelo menos baixar um pouco o volume.

Depois de ouvir as instruções, o Nakazato deu um suspiro de preguiça. Ele entregou a mala dele para o Horita e se arrastou até o professor para se apresentar. Ele era o nosso líder. Nosso grupo era o número sete.

Enquanto ele estava fora, o resto de nós começou a formar a fila.

“Eu fico no final”, eu disse, deixando os outros irem primeiro. Mas o Watarai me falou: “Você devia ir na frente, é por ordem de altura”. Então eu passei para a frente dele. Mas a gente só tinha uns poucos centímetros de diferença.

O diretor começou com: “Hoje fomos abençoados com um céu claro...” e continuou falando. Eu ouvi com atenção no primeiro minuto, mas logo fiquei entediado. Desviei os olhos dele e olhei para o meu relógio. Só tinham passado dois ou três minutos. Faltavam pelo menos mais cinco.

Pensei: o Morisaki já deve estar no celular uma hora dessas. Por puro tédio, eu dei uma olhada discreta para trás. E dito e feito, ele estava tocando na tela com muita habilidade sem ser pego. Como

é que ninguém nota ele?

Quando me virei de volta para a frente, meus olhos encontraram os do Watarai. A expressão dele dizia: Qual é a boa?

É, faz sentido. Se alguém se vira do nada no meio do discurso, é bem suspeito.

Eu não podia simplesmente dizer "Ah, só tava checando se o Morisaki estava no celular". Então dei um sorriso sem graça, balancei a cabeça e olhei para a frente de novo.

“Que porra foi essa...”, eu ouvi o Watarai murmurar atrás de mim. Mas eu fingi que não ouvi e foquei no diretor, que provavelmente ainda estava só na metade do discurso.

Por favor, não faz isso demorar tanto quanto uma assembleia geral da escola. Foi o que pensei, rezando em silêncio para acabar logo.

“Turma 1, vão pros seus ônibus!”

Ao chamado do professor, o lugar todo de repente se encheu de barulho e movimento. Nosso grupo também saiu da formação e começou a conversar.

“Isso demorou demais! Minhas pernas tão doendo.” “Pode crer. Eu só quero sentar logo.”

O Horita estava reclamando, e o Morisaki parecia tão de saco cheio quanto ele. Eu também estava cansado e queria entrar logo no ônibus. Mas como a gente era da Turma 5, ainda tínhamos que esperar um pouco.

“E aí, como vão ficar os lugares no ônibus?”

“Ah, é mesmo. A gente sabe o número do ônibus, mas não decidimos quem senta onde.” “Nós vamos ficar bem no fundo, né? Dividir três e dois?”

“Vamos tirar no pedra, papel ou tesoura, é mais fácil.”

O assunto mudou para os assentos, o que a gente ainda não tinha decidido. Para ser justo, concordamos em resolver num jogo rápido. Fizemos uma rodinha e nos preparamos para jogar, quando o Morisaki de repente soltou: “Ah... espera.”

Todo mundo olhou para ele com uma cara de: e agora?

“Alguém vai acabar sentando do lado de uma garota, certo? Eu não quero isso.” Ele disse com uma cara clara de desconforto.

Do lado de uma garota, hein.

Nossos lugares marcados ficavam no lado direito bem no fundo. Eram três assentos na última fileira e dois na frente. O grupo das garotas ficava no lado esquerdo. Elas tinham dois assentos na última fileira e dois na frente. Ou seja... um de nós teria que sentar do lado de uma menina.

“Ah, fala sério, você só percebeu isso agora? É por isso que eu disse pra todo mundo sentar na mesma fileira lá no fundão!”

“É, mas aí não ia dar pra gente se ouvir direito.”

“Então só aguenta firme dessa vez.” “Beleza, então você senta do lado da garota.” “O quê? Por que eu?”

A essa altura, eu não fazia ideia de quem estava falando o quê. Tinha virado uma discussão idiota que só amigos próximos poderiam ter.

Para ser justo, sentar cinco na mesma fileira ia deixar difícil conversar de uma ponta à outra.

Eu não tinha falado nada até agora. Estava só vendo eles discutirem, mas estava na cara que aquilo não ia dar em nada. Então eu abri a boca.

“Eu fico com esse assento. O do meio lá no fundo.”

Mesmo com todo mundo gritando ao mesmo tempo, minha voz de algum jeito cortou o barulho. A bagunça parou na mesma hora. Os quatro se viraram para mim com olhares que diziam:

Sério?

Balancei a cabeça para tentar deixar claro que o problema estava resolvido. “Então eu vou sentar do lado do Hiyoki”, o Watarai disse do nada.

Achei que a gente ia jogar pedra, papel ou tesoura para o resto, mas em vez disso ele se ofereceu. Eu dei uma olhada para ele.

Percebendo meu olhar, o Watarai inclinou a cabeça um pouco e perguntou: “Tudo bem?” Não me importava muito quem ia sentar onde, então eu concordei.

“Então eu fico com o assento da janela do lado desse”, o Horita disse.

“Acho que sobra pra mim e pro Nakazato as duas cadeiras da frente”, o Morisaki completou.

Depois que o Watarai falou, o Morisaki e o Horita decidiram logo seus lugares também. No fim, tudo se resolveu numa conversinha rápida.

Bem nessa hora, a voz do professor soou no momento perfeito. “Turma 5, podem ir!”

Entregamos nossas malas para a equipe da empresa de ônibus e subimos. Colocamos nossas mochilas no bagageiro de cima e nos sentamos.

Quando me sentei, a garota do meu lado me deu um olhar torto. Era um olhar que basicamente dizia: “Eca, é você?”

Foi mal não ser o cara bonitão que você estava esperando.

Me sentindo sem graça, cheguei um pouco para o lado do Watarai.

Mas o que devia ser “um pouco” acabou sendo demais. Eu acabei esbarrando nele.

“Desculpa”, murmurei.

Ele pareceu entender a situação e disse: “Pode se encostar em mim se quiser.”

Se você é tão generoso, talvez pudesse trocar de lugar comigo... É claro que eu não falei isso. Eu só respondi “Valeu” e deixei por isso mesmo.

Depois que fizeram a chamada, o ônibus começou a andar.

Sendo bem sincero, eu já estava meio que querendo ir para casa. Mas a viagem tinha acabado de começar.

Com o ônibus todo barulhento desse jeito, era impossível dormir. Isso mesmo sabendo que eu apagaria em segundos se tentasse.

Por curiosidade, olhei para a direita para ver o que os outros estavam conversando. Eles pareciam bem empolgados com algum app de filtro de câmera.

Só para constar, celulares eram permitidos na viagem desde que a gente usasse de boa. Tudo bem usar no ônibus ou no tempo livre, mas era proibido nas reuniões da manhã e coisas assim.

O que significava que se o Morisaki tivesse sido pego antes, o celular dele teria sido confiscado.

Já que os celulares estavam liberados agora, achei que podia ver um vídeo e peguei o meu.

Mas antes que eu pudesse desbloquear, alguém à minha direita falou. “Ei”, o Watarai disse.

Abaixei meu celular e olhei para ele. “Que foi?”

“Você conhece esse aqui? O app de reconhecimento facial que diz com qual animal você parece.”

Ele apontou para a tela do celular enquanto falava isso. Diagnóstico de animal? Mas que diabos é isso?

“Nunca ouvi falar.” “Testa aí, Hiyoki.”

Balancei a cabeça negando. Mas o Watarai mudou para a câmera frontal mesmo assim e me puxou pelo ombro, fazendo meu rosto preencher a tela.

Pelo jeito os outros se interessaram também, já que os três ficaram olhando.

Quando meu rosto apareceu na tela, um gráfico começou a girar em volta da minha cabeça. Ele mostrava os nomes de vários animais um atrás do outro.

Eu devia ficar com cara de paisagem para isso? Ou dar um sorriso?

No fim das contas, fiquei sem expressão por alguns segundos. Até que a animação parou e uma palavra pulou na tela, junto com um ícone fofo de animal:

“Cara de gato.”

Eu li as palavras que apareceram na tela. O Watarai também se curvou para dar uma olhada.

“Hiyoki, você tem cara de gato.”

“Ah... é, dá pra entender. Seus olhos são um pouco puxados.”

“Quando você sorri, seus olhos ficam menores. Isso também é bem coisa de gato.” “Sua personalidade combina também.”

Eles só ficaram dizendo “é verdade, é verdade”. Eu devia ficar feliz com isso?

“E vocês? O que vocês tiraram?”

Perguntei por curiosidade, e todos balançaram a cabeça. Pelo visto, eu tinha sido o primeiro a tentar.

“Beleza! O próximo é o Watarai”, o Nakazato disse, apressando o cara sentado do meu lado. Então, um por um, eles fizeram o teste.

Os resultados foram:

Watarai → Cara de raposa Morisaki → Cara de lobo Nakazato → Cara de cervo Hotta → Cara de dragão

Aparentemente.

O único que gerou dúvidas foi o resultado do Hotta. Todo mundo achou que ele teria cara de cachorro. “Esse negócio não tá quebrado?”

“O Hotta é totalmente da família dos cachorros.” “Tenta de novo, dessa vez com um sorriso.”

“Qual é, parem de reclamar e apreciem a minha cara majestosa!”

Talvez ele tenha latido assim porque ninguém concordou com ele.

Eu nunca tinha reparado muito no rosto das pessoas. Mas se ele ficasse quieto, acho que entraria na categoria “bonito de boca fechada”. Afinal, os traços dele são bem marcantes.

No final, decidiram refazer o teste com rostos sorridentes, exatamente como Hotta sugeriu. Nós iríamos na mesma ordem de antes. Eu estendi a mão para pegar o celular do Watarai.

Mas enquanto Watarai mexia na tela, ele disse de repente: "Ah."

"Espera, parece que esse negócio consegue reconhecer rostos de fotos normais também."

Aparentemente, o aplicativo também podia analisar fotos comuns. Isso significava que você podia carregar uma imagem da galeria em vez de tirar uma na hora.

Eu pensei: "Hã, que legal." Mas o grupo decidiu tirar novas selfies sorrindo de qualquer jeito.

Como era impossível os cinco caberem em uma só foto devido à disposição dos assentos, nós nos dividimos. Ficaram três atrás e dois na frente.

Watarai esticou seu braço longo para segurar o celular. Morisaki e eu nos inclinamos dos dois lados para caber no enquadramento.

"Um pouco mais perto", ele disse.

Nós já estávamos perto o bastante, mas talvez ele fosse exigente com o enquadramento. Ele me puxou ainda mais para perto pelo ombro.

Parecia perto demais. Mas como Morisaki ao nosso lado estava mais ou menos à mesma distância dele, eu apenas deixei rolar.

"Beleza, vou tirar."

A tela piscou por um momento, e a foto foi processada.

O resultado foi o mesmo de antes. Os mesmos nomes de animais apareceram. Então o negócio é consistente, hein.

Depois de verificar nossos três resultados, Watarai mexeu um pouco na tela. Em seguida, disse: "Igual a antes", e passou o celular para os dois na frente.

Por algum motivo, a expressão dele parecia um pouco satisfeita.

Enquanto esperávamos os resultados deles, perguntei algo que não saía da minha cabeça. "Ei, as pessoas não dizem mais 'xis'?"

"'Xis'? O que é isso?"

O que eu quis dizer foi que Watarai não tinha falado "Diga xis" antes de tirar a foto.

Quando expliquei isso, tanto Watarai quanto Morisaki pararam por um segundo para processar. Depois, eles caíram na gargalhada.

"Ah, eu esqueci! Geralmente eu só tiro sem dar nenhum sinal." "Espera, você é um daqueles caras do 'xis'?"

Eu disse: "Bem, algumas pessoas fazem contagem regressiva tipo '3, 2, 1' também". Eles riram ainda mais. "Cara, isso é coisa de cabine de purikura!"

A risada deles era contagiante. Eu me peguei rindo junto com eles.

"Ei, não deixem a gente de fora da diversão",

Nakazato disse lá da frente. Ele se virou e devolveu o celular para Watarai depois de terminarem o próprio teste de selfie.

"Foi mal, foi mal", Watarai disse, ainda rindo enquanto pegava o aparelho.

"De qualquer forma, parece que o meu sorriso deu o resultado Cachorro!" "Viu? Eu te avisei."

"Hotta é totalmente um cara do tipo cachorro."

Ao ouvir isso, Watarai e Morisaki trocaram um olhar cúmplice.

Hotta ainda parecia não estar convencido. Mas quando Nakazato mudou de assunto — "Então, do que vocês estavam rindo?" — e ouviu a história, ele caiu na gargalhada também. Sua cara mal-humorada de antes tinha

desaparecido completamente.

É... quando ele sorri, ele realmente parece um cachorro.

Antes que percebêssemos, o ônibus chegou à estação. Estava animado como sempre.

Aparentemente, nossas malas seriam enviadas antes para a pousada. Então, estar apenas com nossas mochilas

nos fez sentir mais leves, tanto física quanto mentalmente.

Enquanto esperávamos o trem-bala chegar, Hotta resmungou: "Tô morrendo de fome". Seu olhar estava fixo em uma loja que vendia marmitas.

Checando o relógio, já passava das 11:30.

Nós tínhamos bebido alguma coisa, mas não comíamos nada desde o início da manhã. Agora que ele tocou no assunto, eu podia sentir meu estômago roncando também.

"Vocês vão receber suas marmitas no trem, então aguentem firme até lá", disse um professor por perto. Ele aparentemente tinha ouvido a nossa conversa.

Era o professor conselheiro da Turma 3. Ele tinha apenas dois ou três anos de profissão. Era jovem e popular entre os alunos por ser fácil de conversar.

"O que tem no cardápio?" "Tem sobremesa?"

"Falando nisso, o trem ainda não chegou?"

A cena de sempre: um bando de garotos do ensino médio perturbando um professor por diversão.

Hotta e os outros o bombardearam com perguntas sobre o almoço e a programação. Embora o professor continuasse dizendo "Chequem o itinerário de vocês", ele ainda respondia às

perguntas deles de qualquer forma.

Eu olhei para o painel eletrônico acima de nós. Então, um anúncio soou pelos alto-falantes.

Assim que a equipe de limpeza terminou, começamos a embarcar no trem-bala um após o outro.

Checando os números dos assentos na minha passagem, nós nos sentamos no mesmo arranjo de 3 e 2 do ônibus.

Dessa vez, eu peguei um assento na janela. Isso melhorou o meu humor na mesma hora.

"Ei, eu posso... deixar isso aberto?"

Talvez eu tivesse esquecido o meu vocabulário no ônibus. Mas eu apontei para a persiana e perguntei ao Watarai do meu lado.

"Você não precisa perguntar, mas claro. Se ficar muito claro, eu falo alguma coisa. Por quê, você gosta de olhar lá fora?"

"Sim, eu gosto."

Ele parou no meio do movimento enquanto tirava algo da mochila e virou para mim. Quando eu sorri e respondi, ele congelou por um segundo antes de murmurar rapidamente,

"...Entendi", e desviar o olhar.

Já que eu tinha recebido permissão, abri a persiana até o fim. Me encostei no assento, observando pela janela.

Campos de arroz e fileiras de casas passavam borrados mais rápido do que qualquer carro ou trem que eu já tinha andado. Eu não sabia explicar muito bem por que gostava de olhar para fora. Eu só gostava.

"Peguei as marmitas!"

Bem quando eu estava pensando que a paisagem começava a parecer apenas florestas e montanhas,

Nakazato voltou segurando cinco caixas de almoço nos braços.

"Que tipo de marmita?"

"Não tenho certeza, parece uma mistura de coisas." "Ah, uma marmita Bakumatsu então."

"...Você quer dizer uma marmita Makunouchi, certo?"

"Putz, você falou tão sério que eu nem percebi." "Não vá começar um xogunato por conta própria."

Enquanto todos pegavam suas marmitas com o Nakazato, Hotta colocou a cabeça para frente. Ele acabou sendo zoado pelos outros.

Nós todos trocamos olhares e caímos na gargalhada.

Ainda assim, agora eu até queria saber qual seria o gosto de uma "marmita Bakumatsu".

Eu abri a minha e olhei dentro.

Arroz, peixe branco frito, vegetais cozidos. Sim, era uma clássica marmita Makunouchi. Eu rasguei o lencinho umedecido e limpei minhas mãos.

"Eu odeio konnyaku. Você quer, Watarai?" "Não obriga— ei, não joga isso na minha caixa do nada!" "Vou mandar um tomate também."

"Não tá ajudando."

Ao meu lado, eles tinham começado a trocar comida.

Bem, na verdade, era mais como o Morisaki empurrando suas sobras para o Watarai.

Enquanto os dois ficavam discutindo, eu peguei meus hashis e juntei as mãos. "Hum, hora de comer", murmurei, dando uma mordida no omelete enrolado. Estava bom.

Diferente do almoço do Morisaki, não tinha nada que eu não gostasse. Então, eu continuei comendo rápido. No meio do caminho, Watarai me entregou umas cenouras, dizendo que tinha recebido demais do Morisaki. Ele provavelmente não gostava delas. Mas eu não disse nada e apenas aceitei.

Antes que eu percebesse, eu já tinha terminado de comer. Quando o professor conselheiro passou recolhendo as caixas vazias, joguei a minha no saco de lixo. Depois tomei um gole de água e soltei um pequeno suspiro.

Olhando pela janela, notei a paisagem mudando. Ainda havia muito verde, mas prédios começavam a aparecer aqui e ali. O céu estava completamente limpo. A luz do sol que entrava pela janela estava quentinha.

Ah... estou ficando com sono.

Se eu dormir agora, vou ser um desastre de manhã. Esse grupo já é caótico o bastante. Mesmo eu dizendo a mim mesmo para ficar acordado, minhas pálpebras estavam ficando pesadas. Tentei achar algo para focar para não cochilar. Mas aí o Watarai notou.

"Com sono?" ele perguntou.

Eu concordei com a cabeça honestamente.

Ele sorriu e disse: "Eu te acordo quando a gente chegar. Você pode dormir."

Eu queria dizer que ficaria acordado. Mas, sinceramente, eu estava cansado demais.

"Valeu", murmurei, ajeitando meu assento e fechando os olhos.

Watarai e Morisaki continuaram conversando sobre alguma coisa. Porém, as vozes deles viraram apenas um zumbido agradável de fundo.

Não demorou muito para eu pegar no sono.

Senti meu corpo sendo balançado. A minha consciência começou a voltar. Acho que a gente já tinha chegado.

Abri lentamente minhas pálpebras pesadas, mas tudo ainda estava embaçado. Mesmo estando acordado, parecia que eu ainda estava meio sonhando.

"Ei, Hioki. Qual é, acorda", a voz do Watarai chegou até mim.

Pisquei algumas vezes para focar a minha visão embaçada.

Quando finalmente consegui ver direito, olhei para o Watarai. Ele tinha me acordado. Eu disse com a voz um pouco rouca: "Valeu."

"Acho que agora eu entendo por que você não funciona de manhã", ele disse. "Pois é, é bem feio, né?"

O resto do grupo provavelmente testemunhou toda a minha luta para acordar. Eles me deram olhares de pena. Horita e Nakazato se viraram para a frente para se arrumarem para descer.

Mas eles não precisavam ter assistido a tudo isso.

Tomei um gole da minha garrafa de água para molhar a garganta. Depois, olhei pela janela.

A paisagem verde de antes tinha sumido. Tudo lá fora agora era construído e estruturado pelo homem.

"Seu cabelo tá bagunçado",

Watarai disse assim que viu que eu estava totalmente acordado. Depois, ele esticou a mão e arrumou a parte de trás da minha cabeça.

Ah, entendi. É provavelmente esse tipo de coisa que o torna popular. Toquei no mesmo lugar que ele tinha arrumado e agradeci baixinho.

Quando o shinkansen parou, nosso professor conselheiro começou a dar as orientações. Todos começaram a sair em fila para a plataforma.

Eu me levantei e senti meu corpo duro e estalando. Me espreguicei um pouco.

Quando eu me espreguicei, um som involuntário de "nnngh" escapou da minha garganta. Cobri a boca rapidamente, morrendo de vergonha.

Aparentemente, só o Watarai, que estava perto, tinha ouvido. Ele se virou e disse gentilmente: "Tudo bem, eu não ouvi nada."

Morto de vergonha, arrumei minha mochila. Dei um tapinha leve nas costas dele enquanto começávamos a andar.

Era junho, comecinho do verão. Mas quando saímos da estação, o céu nublado e a falta de sol deixaram o clima um pouco frio.

Já passava das 15h. A partir daqui, nosso plano era assistir a uma apresentação de Noh e depois ir para a pousada.

Nós voltamos para o ônibus.

Pensando bem, o primeiro dia foi quase inteiro gasto viajando. Isso é meio triste, considerando que ainda contava como parte da viagem escolar.

O próximo destino ficava a cerca de uma hora de distância.

Por algum motivo, o assunto no ônibus virou o dialeto de Kansai. Não apenas Kansai, mas como os dialetos em geral eram bem legais. Nossa cidade natal era rural. Mas não era muito conhecida por ter sotaques fortes.

"O que vocês acham que 'hokasu' significa?" "Deixar alguma coisa em paz?"

"Cozinhar a vapor?"

"Não. Significa 'jogar fora'."

Nakazato tinha pesquisado e transformou isso num quiz. "Caramba, eu com certeza vou começar a usar isso."

"Você vai esquecer até amanhã", alguém rebateu.

Igual criancinhas aprendendo palavras novas, a gente ficava animado com cada termo estranho de Kansai.

Nós continuamos fazendo perguntas uns aos outros. Em algum momento, isso virou um treino de como pechinchar usando o dialeto.

A viagem de ônibus até o teatro Noh pareceu curta. Talvez porque já tivéssemos passado muito tempo viajando antes.

Nós descemos e entramos no local.

Na entrada, havia exposições de figurinos e objetos usados nas peças de Noh. Eles pareciam pesados.

Pensando nisso, eu segui o grupo para dentro.

O palco tinha formato de L. Ele não era centralizado como eu tinha imaginado.

Eu esperava algo parecido com o palco de um ginásio. Então o formato me surpreendeu um pouco. Puxei o assento de uma cadeira dobrável e me sentei.

Horita sentou do meu lado. Eu estava bem na ponta, bem perto do palco.

Não do palco principal. Mas perto da cortina por onde os artistas entrariam.

Alguém que parecia ser o gerente do teatro subiu ao palco. Ele veio nos cumprimentar e dar uma breve explicação sobre o Noh.

Com uma risadinha, ele disse: "Vai ser mais rápido apenas assistir do que explicar". E então saiu do palco após outra breve fala de encerramento.

Esse tipo de ritmo... É, o nosso diretor realmente poderia aprender com isso.

Quando as luzes da plateia diminuíram, as luzes do palco se acenderam.

Da cortina ao meu lado, algumas pessoas carregando instrumentos saíram.

Assim que eles assumiram suas posições, a música começou. Uma mistura de vozes cantando e instrumentos tradicionais encheu o ar.

O som dos instrumentos japoneses era surpreendentemente relaxante.

───

Quando a apresentação terminou, aplausos encheram o salão. As luzes voltaram a acender.

A pessoa que parecia ser o gerente do teatro pisou no palco de novo, e os

artistas apareceram por trás das cortinas. Ele adicionou explicações mais detalhadas ao que tinha dito no começo.

Enquanto ele falava, anotei alguns pontos principais. Fiz isso na seção de notas do meu guia de viagem.

Horita me viu escrevendo e sussurrou: "Você é tão sério." Eu respondi com um sorriso irônico: "Só tenho a sensação de que vão nos fazer escrever um relatório sobre isso depois."

"Ah— é verdade!" Horita disse, parecendo um pouco em pânico. Mas ele estava com muita preguiça de pegar seu guia agora, então perguntou: "Posso ver suas anotações depois?"

Eu balancei a cabeça confirmando. Pensei que, quando mostrasse a ele, faria ele me pagar um lanche.

Depois que as explicações terminaram, alguns alunos foram escolhidos de cada turma. Eles se revezaram para fazer perguntas.

Quando o último terminou, o supervisor do ano fez um breve discurso. Todos nós nos levantamos e agradecemos aos anfitriões antes de começarmos a sair de nossos lugares, um por um.

Perto da entrada barulhenta, ouvi alguém gritando do lado de fora: "Ei, está chovendo!" Então finalmente começou. Eu já suspeitava que o tempo fosse fechar.

Tentei lembrar se tinha colocado um guarda-chuva dobrável na minha mochila. Talvez correr para o ônibus fosse mais rápido.

Pensando nisso, troquei meus sapatos.

Ficar parado na entrada atrapalharia as outras pessoas. Então, saí para baixo da marquise para esperar pelo Horita e os outros.

Eu podia ouvir a chuva, mas estava escuro. Por isso, não conseguia perceber se estava muito forte.

Algumas pessoas já estavam correndo em direção aos ônibus. Talvez a chuva estivesse bem forte.

Dei um passo para fora do abrigo para verificar. Esse foi o meu erro.

Gotas de chuva atingiram meu rosto.

Uma delas acertou bem no meu olho. Ai. Eu rapidamente olhei para baixo e congelei.

Quando esfreguei meu olho, tive um mau pressentimento. "Minha lente caiu."

As palavras baixinhas que murmurei para mim mesmo foram abafadas pela chuva.

Minha visão é péssima, mas eu não estava em pânico. Perder uma lente não é o fim do mundo. O problema é que meus óculos estavam na mala... e ela já tinha sido mandada para a pousada.

Eu não esperava precisar deles, então os guardei. Eu estava ferrado.

Quando abri meu olho esquerdo, o mundo parecia distorcido e irregular.

Como meu grau é forte, a diferença entre um olho corrigido e o outro não é enorme. É desorientador.

Sinceramente, eu queria apenas tirar a do olho direito também. Mas aí eu não conseguiria ver nada.

A pior situação imaginável.

Enquanto eu estava ali, me desesperando em silêncio, Watarai me chamou. "O que foi? Você ficou emocionado ou algo assim?"

"Não, minha lente caiu."

Talvez por ter me visto esfregar os olhos, Watarai pareceu confundir isso com choro. Ele se inclinou em tom de provocação.

Mas eu não estava com humor para brincadeiras agora.

A diferença entre meus olhos estava me deixando tonto. Foi então que uma ideia me veio à mente.

"Watarai, você tem um guarda-chuva?" "Sim. Você não?"

"Não, então... posso dividir o seu?" "Claro."

Isso era mentira. Na verdade, eu tinha um guarda-chuva dobrável perfeitamente bom na minha mochila. Mas, por enquanto, pelo menos eu não ia me molhar.

Em seguida, expliquei que a visão irregular estava me deixando desconfortável.

Watarai, que aparentemente tinha uma visão perfeita, inclinou a cabeça com um olhar confuso. Mesmo assim, ele concordou.

"Então, eu meio que quero tirar a outra lente também." "Se você fizer isso, você realmente não consegue ver nada?"

"Só umas formas borradas, mais ou menos... Mas está escuro, então basicamente nada." "Entendi."

Certo, então ele tinha entendido essa parte.

Agora vinha o pedido arriscado. Era algo que poderia soar estranho.

"Mais um favor: enquanto a gente caminha, posso... segurar em alguma coisa?" "...Hã? Como assim?"

Foi aí que eu me lembrei. Watarai podia ser meio temperamental.

Pensando bem, durante nossa primeira apresentação, ele provavelmente teve a pior impressão possível de mim.

Talvez eu tivesse escolhido a pessoa errada para pedir. Ainda assim, decidi explicar e ir em frente.

Eu disse a ele que não conseguia ver direito o que estava à frente, a menos que chegasse perto. Falei que poderia esbarrar nas coisas ou não ver onde parar nas faixas de pedestres.

Então, perguntei se podia segurar na mochila ou talvez na manga dele enquanto andávamos. "...Entendi. Claro."

Será que era um "claro" sincero? O rosto dele não entregava nada.

Quando eu disse: "Se você não quiser, posso pedir para outra pessoa", ele apenas abriu o guarda-chuva. Disse "Vamos", como se nem tivesse me ouvido.

Tudo bem para mim, se ele não se importasse.

"Espera, preciso tirar a outra lente", eu disse, parando-o. Tirei com cuidado a lente direita e embrulhei ambas em um lenço de papel.

Nesse momento, Horita, Nakazato e Morozaki se aproximaram com um guarda-chuva grande.

Aparentemente, eles tinham conseguido com alguém no teatro. Embora eu não tivesse certeza se acreditava nisso.

Então foi por isso que demoraram tanto.

Enquanto eu mexia no lenço, Morozaki olhou e perguntou: "O que você está fazendo?" Antes que eu pudesse responder, Watarai explicou toda a situação por mim.

Ele disse que as lentes de contato dele caíram porque ele chorou de tanta emoção.

Até parece. Uma história completamente diferente. Eu suspirei, enfiando o lenço embrulhado no meu bolso. Não valia a pena explicar, então apenas disse: "É isso aí", e fiquei ao lado do Watarai.

Quando cheguei perto o bastante, consegui meio que ver os rostos deles forçando bastante a vista, apertando um pouco os olhos. Todos pareciam estar pensando: "Que saco." Provavelmente.

"Vamos logo com isso,"

nosso professor da turma insistiu. Então nos dividimos em grupos — Watarai e eu, e depois Horita, Nakazato e Morisaki — e começamos a andar pela chuva.

Parecia bem apertado para os três debaixo daquele guarda-chuva grande. Mas como eu não conseguia ver nada atrás de mim mesmo, desisti de tentar olhar.

O ponto de ônibus ficava do outro lado da rua, depois de uma curta caminhada. Segurei na alça da mochila do Watarai para não me perder dele. Prestei atenção onde pisava para não incomodar. Mas, pelo visto, Watarai não gostou que puxassem a mochila dele.

"Assim é melhor,"

ele disse e pegou a minha mão em vez disso.

Se eu fosse uma garota, provavelmente teria me apaixonado por ele ali mesmo.

A distância entre nós diminuiu mais do que quando eu estava segurando a mochila dele. Fiquei imaginando se não era estranho para ele andar daquele jeito. Mas, na verdade, parecia mais firme e seguro, então não falei nada.

Quando paramos na faixa de pedestres, eu meio que esperava que os três atrás de nós começassem a zoar. Mas eles não disseram nada.

Talvez o senso de espaço pessoal deles seja apenas quebrado. Igual quando tiraram aquela selfie em grupo no ônibus.

Quando finalmente entramos, Watarai não soltou a minha mão até que os dois estivessem sentados. Sério, que cara legal. Valeu mesmo, cara.

Tenho certeza de que as pessoas estavam encarando, se perguntando o que estava acontecendo. Mas com a minha visão embaçada, eu não conseguia notar. E, sinceramente, fiquei grato por isso.

Se eu estivesse enxergando bem, provavelmente teria morrido de vergonha.

"Obrigado. Você me quebrou um galhão," eu disse.

"Você vai precisar de ajuda mesmo depois que chegarmos na pousada, né? É meio cedo para me agradecer," ele respondeu.

"Ah... é verdade. Mesmo assim, obrigado." "Disponha."

Pelo visto, ele planejava cuidar de mim mesmo depois que chegássemos lá.

Eu não tinha pensado tão longe. Então minha resposta saiu toda preguiçosa e sem graça. Watarai riu disso e concordou com a cabeça, parecendo satisfeito.

Os outros três subiram, e o ônibus começou a se mover de novo.

Eu não conseguia ver muita coisa. Mas pelos pedaços de conversa — coisas como "Eca, minhas roupas estão nojentas" ou "Espero que minha mochila esteja bem" — parecia que todos tinham se encharcado.

Como não ouvi Morisaki reclamar, ele provavelmente estava sentado no meio. Horita e Nakazato deviam estar de cada lado.

Sem ter para onde olhar, fechei meus olhos por tédio.

Então Watarai sacudiu meu ombro, dizendo: "Não vá dormir, é um saco te acordar." "Só estou descansando os olhos, estou bem," eu respondi.

Sério mesmo, eu queria que ele parasse de me sacudir. Se ele esbarrasse na garota sentada à minha esquerda — aquela cuja opinião sobre mim já estava no fundo do poço — eu seria feito em pedaços.

Eu segurei a mão esquerda com a qual ele estava me sacudindo. Apertei para baixo, como se dissesse para parar com aquilo.

A minha intenção era soltar na mesma hora, mas Watarai apertou de volta. Então eu só pensei, bem, que seja, e deixei por isso mesmo.

Enquanto conversava com os outros, ele começou a esfregar minha mão de forma distraída. Ele entrelaçou nossos dedos, basicamente brincando com ela.

Fazia cócegas. Virei para encará-lo, mas o rosto dele estava virado para o Nakazato. Então percebi que ele nem sabia que estava fazendo isso.

Fechar os olhos apenas deixava meus outros sentidos mais aguçados, o que parecia estranho. Então eu os abri de novo e encarei o interior embaçado do ônibus.

Por favor, só me deixem colocar meus óculos de volta logo.

───

"Bem-vindos e obrigado por virem,"

uma voz elegante nos cumprimentou. Mas quando olhei para a origem, não consegui distinguir o rosto dela de jeito nenhum.

Provavelmente a recepcionista. Ela e os funcionários alinhados ao seu lado pareciam silhuetas sem rosto para mim.

Mesmo depois que descemos do ônibus, Watarai ficou ao meu lado. Ele continuava segurando minha mão, me guiando com cuidado até lá dentro.

Sinceramente, ele não tinha sido nada além de atencioso. Eu estava mais do que grato.

Dentro do grande salão, o supervisor do ano estava explicando a programação. Falou os horários do jantar, quando o banho grande abriria e assim por diante.

O banho, hein... Eu tinha esquecido totalmente de me preocupar com isso.

Em casa, conheço a disposição do banheiro de cor. Então, mesmo sem ver, consigo me virar bem. Mas aqui, é um lugar completamente novo. E não é um banho privado, mas sim um público.

De jeito nenhum eu poderia pedir a alguém para me ajudar tanto assim.

Imaginei a mim mesmo andando nu, cambaleando ao longo da parede para me equilibrar... Patético. Quase o bastante para me fazer chorar.

Bem, pelo menos dessa vez está claro, não como a rua escura de antes. Talvez fique tudo bem. "Venham pegar as chaves dos seus quartos~"

o professor chamou.

Ao sinal, os líderes de cada grupo começaram a se mover. Nakazato voltou, balançando as chaves do quarto na mão.

"Os nomes dos quartos são todos de flores, pelo jeito." "Flores?"

"Sim, o nosso é girassol." "Girassol..."

"Meio que me lembra o jardim de infância."

Ele disse isso enquanto lia o nome gravado no chaveiro. Ele estava certo. Realmente trazia de volta memórias do jardim de infância. Naquela época, o nome do meu grupo era de animais, no entanto.

"Todo mundo pegou as chaves? Então vamos direto para o salão de banquetes~" "Espera, o quê?"

Espera, um minuto.

Nós não vamos para os quartos primeiro?

Pelo visto, eu tinha viajado enquanto pensava na situação do banho. Perdi completamente a parte em que disseram que iríamos direto para o jantar em seguida.

Minha visão ruim já era irritante o bastante. Então eu apertei os olhos, tentando localizar o nosso professor.

Como esperado, sem sorte. Eu não conseguia ver nada.

Então Watarai perguntou: "Devo ir avisar o professor para você?"

Eu balancei a cabeça sem pensar. Depois de confirmar, ele caminhou na direção do professor.

"Onde o Watarai vai?"

Morozaki perguntou, observando as costas dele enquanto ele ia para lá.

Expliquei que ele foi pedir permissão para eu pegar meus óculos. Morozaki disse: "Ah, saquei", e depois chamou o Nakazato.

Depois que expliquei a situação para o Nakazato e o Horita, eles concordaram, entendendo. E Nakazato me entregou a chave do quarto.

Que caras legais.

Logo em seguida, Watarai voltou. Então nos separamos do grupo e saímos do salão principal juntos.

───

Nós andamos por um corredor silencioso onde tocava uma música de fundo suave. Claro, nossas mãos ainda estavam unidas.

Depois de ficar em lugares barulhentos e lotados o dia todo, o silêncio repentino parecia estranho.

"Obrigado por tudo hoje", eu disse. Não queria que o silêncio entre nós ficasse constrangedor. "Não se preocupe com isso. Eu também..." Watarai perdeu a voz. "...Na verdade, deixa para lá."

"O quê?"

"Nada."

Ele fechou a boca antes de terminar a frase. Quando eu disse: "Agora fiquei curioso", ele apenas ficou em silêncio. Acho que isso significava para não perguntar mais.

Eu não estava a fim de forçá-lo a falar. Então mudei de assunto. "Será o que vamos ter para o jantar."

"Provavelmente comida japonesa", ele disse, parando de andar.

Parecia que tínhamos chegado ao nosso quarto. A placa na porta dizia Girassol.

Não que eu pudesse ver direito, na verdade. Mas Watarai inseriu a chave que estava segurando e abriu a porta com um clique.

O cheiro fraco de tatame exalou.

Na entrada, Watarai parou e disse: "Eu espero aqui." Eu agradeci e tentei soltar a mão dele —

mas ele não a soltou na mesma hora.

Por um breve momento, ele deu um aperto gentil na minha mão. Depois a soltou relutante. O que foi isso? Algum tipo de técnica de flerte?

Pensando nisso, tirei meus sapatos e pisei no tatame. Um pouco mais para dentro, encontrei cinco malas enfileiradas.

Usando as cores como pista, eu encontrei a minha.

Por precaução, conferi a etiqueta de nome de novo. Depois, abri a mala até a metade.

Não dava tempo de abrir tudo. Então, enfiei a mão no bolso pequeno onde eu lembrava que o estojo do meu óculos deveria estar.

Meus dedos roçaram na textura familiar — achei. Puxei o estojo para fora, abri e coloquei meus óculos.

Finalmente, a visão clara do mundo voltou.

Soltei um suspiro de alívio — mas só por um segundo.

Depois, fechei a mala depressa. Voltei para onde Watarai estava esperando perto da porta.

“Desculpe a demora”, eu disse, dando um passo à frente para calçar os sapatos. E então—

Sabe como o chão de tatame fica escorregadio quando você está de meias?

Pois é. Isso mesmo.

Esse pensamento passou pela minha cabeça um segundo tarde demais.

Eu tropecei para frente com o impulso da pressa. Foi aquele tipo de momento "ah, não" onde você já sabe o que vai acontecer, mas não consegue evitar.

Se Watarai não estivesse lá, eu teria dado de cara na porta. Teria quebrado meus óculos e provavelmente começado a sangrar por todo lado.

Como nada disso aconteceu e a dor foi mínima, eu logo percebi algo. Watarai tinha me segurado a tempo.

A vergonha me atingiu em cheio. Eu queria sumir. Eu poderia até chorar. (Não vou, mas mesmo assim.)

“D-desculpa, e... valeu.”

Eu não conseguia nem olhar para ele. Então, só segurei no braço dele para me apoiar e levantei. Tudo o que consegui fazer foi ficar encarando o chão.

Deus, se o Senhor estiver ouvindo, por favor me apague da existência. Na verdade, apague a memória dele também já que estamos nisso.

Enquanto eu me afogava em humilhação, Watarai de repente segurou minha bochecha. Ele ergueu meu rosto.

Outro momento de comédia romântica. Por favor, chega. Já deu para mim.

“Você não se machucou, né?”

“Eh—ah, sim, estou bem, obrigado”, eu soltei de um jeito formal sem pensar.

Watarai esfregou minha bochecha de leve. Ele estava checando se eu tinha algum arranhão.

A única coisa que doía era o lugar onde os óculos tinham apertado meu nariz. Fora isso, eu estava bem.

Sinceramente, o maior problema era que eu tinha chegado ao meu limite emocional. Tudo o que eu conseguia fazer era olhar para ele sem reação.

Por favor, me perdoe por existir.

Ele piscou uma vez e depois deu uma risadinha suave. “Heh.”

Soltando meu rosto, ele disse: “Vem, vamos nessa”. Ele segurou a porta aberta, esperando eu calçar os sapatos.

Espera.

Será que eu... falei essa última parte em voz alta?

Entrando em pânico por dentro, eu corri para amarrar os cadarços.

Assim que eu saí, Watarai trancou a porta e começou a andar. Eu o acompanhei ao lado dele.

“Hum... você pode esquecer o que aconteceu lá atrás?” “Não.”

Resposta instantânea.

Então sim, eu com certeza falei em voz alta.

Julgando pelo tom dele, acho que a única coisa a fazer agora era esperar o incidente virar história antiga. Ou talvez subornar ele durante o tempo livre de amanhã.

Apesar de que, considerando o quanto ele tinha me ajudado hoje, eu provavelmente já devia uns três favores a ele.

Como não tinha chance de apagar a memória dele, eu só suspirei e disse: “Por favor, pega leve comigo”.

Ele sorriu. “Pode deixar.”

───

Quando entramos no salão principal, parecia uma mistura de um banquete com um tradicional

quarto japonês. Tinha várias mesas redondas como em uma festa de casamento, cada uma cheia de vários pratos estilo buffet.

Só de ver os pratos giratórios no centro da mesa já fiquei um pouco animado.

Parecia que a comida tinha acabado de ser servida. Ninguém tinha começado a comer ainda; todo mundo continuava conversando.

“Ah, que bom, vocês chegaram bem na hora. Grupo do Nakazato, a mesa de vocês é ali”, alguém disse, apontando para os nossos lugares.

Nosso professor representante nos notou e chamou.

Depois de agradecer a ele — inclusive pela ajuda com meus óculos — eu fui em direção à mesa redonda. Nakazato e os outros estavam sentados lá.

Quando Nakazato nos viu, ele sorriu e acenou.

“Desculpe a demora”, eu disse enquanto me sentava. Os três ficaram encarando direto o meu rosto.

“O quê?” Eu me inclinei um pouco para trás. Embora, como eu estava sentado, isso não fez muita diferença.

“Você meio que passa uma vibe diferente agora.” “Você parece mais novo.”

“Você tem cara de quem seria assaltado.”

Esses comentários foram bem pesados. Eu realmente pareço tão estranho assim?

“É, tá bom”, eu murmurei, franzindo a testa.

“Ah, não, não foi isso que a gente quis dizer! Desculpa! Eu quis dizer que—você está fofo.” Nakazato tentou consertar rápido.

Mesmo sendo chamado de fofo, eu não sabia como reagir. Eu deveria apenas dizer obrigado?

Hotta concordou com a cabeça. Até Morisaki — a pessoa que disse que eu seria assaltado — também concordou. É, essa foi com certeza sincera.

A conversa mudou dos meus óculos para a mesa giratória. Começamos a girá-la um pouco de brincadeira. De repente, a voz do coordenador do ano ecoou pelo microfone.

“Certo pessoal, ótimo trabalho no primeiro dia da viagem escolar! Sei que estão cansados da viagem toda, mas aproveitem a comida. Vamos dar o nosso melhor amanhã também! Agora, juntem as mãos— Itadakimasu!”

O salão se encheu com o coro de “Itadakimasu”. Depois vieram o barulho de pratos e conversas animadas.

“Ei, vamos fazer um brinde.” “Sim, boa ideia.” “Bora.”

“O que a gente vai beber?”

Segurando o copo na mão, Hotta deu uma sugestão.

Como nenhum de nós tinha colocado a bebida ainda, nós escolhemos. Pegamos as garrafas de refrigerante de cola, suco de laranja e chá oolong da mesa redonda.

Hotta escolheu cola. Nakazato e Morisaki se serviram de suco de laranja.

Watarai, sentado do meu lado, abriu a garrafa de chá oolong e começou a servir.

“Eu quero esse também”, eu disse, esticando a mão para pegar a garrafa. Ele parou no meio e disse: “Me passa o seu copo”.

Eu entreguei para ele. “Valeu”, eu disse.

“Mm”, ele respondeu suavemente enquanto colocava o chá no meu copo.

Quando todo mundo estava pronto, Hotta, que tinha dado a ideia, perguntou: “Todos prontos?”. “Espera”, Morisaki disse, segurando o celular. Pelo visto ela ia gravar um vídeo. Quando ela concordou com a cabeça e disse “Pronto”, Hotta gritou animado,

“Kanpai~!”

Nós todos acompanhamos. Batemos nossos copos juntos fazendo um som claro.

Até parecia uma festa de bebedeira. Não que eu já tenha ido a uma de verdade.

Enquanto eu bebia meu chá oolong, Watarai e Nakazato pediram a Morisaki: “Manda esse vídeo pra gente”.

“Tá, vou jogar lá no grupo”, ela disse. Ela mexeu no celular antes de guardar no bolso.

“Valeu”, os dois responderam. Depois todo mundo voltou a comer.

“Provavelmente é para o story dela”, Hotta, sentado do meu lado, explicou. Ele percebeu que eu estava olhando sem entender nada.

“Tipo um clipe no Daylog.”

Acho que a minha cara deixou óbvio que eu não sabia o que estavam fazendo. “Ah, isso tá bem na moda”, eu disse.

“Espera, Hiyoki, você não tem Daylog? Me passa a sua conta.” “Eu quero saber também.”

“Eu também! Manda o seu QR code pra gente.”

Ouvindo Hotta e eu conversando, Watarai e os outros pegaram os celulares também. Eles estavam pedindo o meu arroba.

“Eu não tenho”, eu disse. “Eu não uso o Daylog.”

Os quatro congelaram por um momento. Depois me lançaram um olhar como se eu tivesse dito algo inacreditável.

Deve ter outros estudantes do ensino médio que não usam o Daylog. Tipo eu.

“Então vamos criar uma conta para você quando voltarmos pro quarto”, Watarai sugeriu. Os outros três entraram na onda com um “É, boa ideia!”.

Parecia chato discutir. Então eu só concordei com a cabeça. “Beleza. Mas o que vocês costumam postar?”

Enquanto comiam ou mexiam nos pratos, todo mundo fez “Hmm...”. Estavam tentando pensar em como responder.

Aí Morisaki falou primeiro.

“Coisas como aquele vídeo do brinde agora pouco. Ou as selfies que tiramos no ônibus”, Morisaki disse.

“Ou quando vamos viajar. Momentos assim são perfeitos para tirar um monte de fotos”, Hotta acrescentou.

“Também não precisa ser só de pessoas”, Watarai disse. “Você disse que gosta de paisagens ao ar livre, né, Hiyoki?”

Cada um me contou o tipo de coisa que costuma postar.

Eu conseguia facilmente imaginar o feed deles cheio de momentos brilhantes e animados.

Quando Watarai falou de fotos de paisagens, achei que parecia bem divertido. Era algo que eu até poderia gostar de postar.

O apetite de garotos não é brincadeira. Em pouco tempo, quase toda a comida da mesa redonda tinha sumido para os nossos estômagos.

Finalmente, a sobremesa foi servida — fatias de melão.

Espetei o garfo em uma e coloquei na boca, pedaço por pedaço. Acho que sou um daqueles caras que "sempre tem espaço para a sobremesa".

Nakazato disse: “Ufa, já estou cheio”. Ele deixou metade da sua parte, então eu peguei de bom grado.

Quando terminamos a sobremesa, eu tomei o último gole do meu chá oolong. Foi quando o chefe do ano pegou o microfone e deu um passo à frente.

“Todo mundo já terminou de comer? Como falei quando chegamos, agora nós vamos nos dividir em

grupos de turma para o rodízio do banho. Por favor, não vão confundir os seus horários! Certo então... gochisousama deshita!”

“Gochisousama deshita~!” todos nós repetimos juntos.

Depois de juntarmos as mãos para encerrar a refeição, os alunos começaram a levantar um por um.

Como não tinha instruções do tipo “Turma 1 primeiro”, a saída logo ficou cheia. “Vamos esperar esvaziar um pouco”, Nakazato sugeriu.

Eu recostei na minha cadeira, deixando a sensação de barriga cheia bater.

Talvez eu tenha comido demais. Mas estava tão bom que eu nem liguei.

Enquanto estávamos sentados esperando a multidão diminuir, as pessoas que passavam chamavam os quatro. “Ei, Nakazato, vocês ainda estão aí?”

“Hotta, para onde você vai no tempo livre de amanhã?”

“Morisaki, vi o seu story. O seu grupo parece estar se divertindo muito!” “Watarai, em qual quarto você está? A gente pode ir dar uma volta lá?”

Ver todas essas pessoas — tanto caras quanto garotas — vindo falar com eles me deu vontade de escapar cedo pro quarto.

Eu puxei minha cadeira para trás de fininho para colocar uma certa distância entre nós.

Logo em seguida, alguém bateu no meu ombro.

Olhei para cima e vi Tsujitani e Ino parados ali.

Ino é do mesmo ensino fundamental que eu. Nós éramos do mesmo clube também.

“E aí! Como você tá?” “Ainda recebendo ordens de todo mundo?”

“Ei, não fala como se eu fosse capacho de alguém”, eu retruquei.

Eu dei um soco de leve no estômago de Ino e disse: “Qual é, cara”.

“Clássica energia de Kansai”, Tsujitani riu. Enquanto isso, Ino segurava a barriga e dizia: “Mano, acabei de comer, não me bate agora”, rindo mesmo assim.

Aí eu lembrei de contar para eles sobre perder minhas lentes na chuva. Os dois riram. Eles disseram: “Então é por isso que você está de óculos agora”.

Tsujitani deu uns tapinhas na minha cabeça, dizendo: “Dia difícil, hein?”. Ele agia como se estivesse me consolando. Ino se juntou a ele, bagunçando meu cabelo com mais força ainda.

Eu queria que eles parassem. Meus óculos estavam quase caindo.

“Ah droga, sou da Turma 1, tenho que me preparar para o banho.” “Eu também. Meu grupo já foi na frente. Até mais!”

Eles acenaram e disseram: “Conta tudo lá no clube depois”, antes de saírem correndo para a saída. Eu acenei de volta para as figuras deles que iam diminuindo. Depois me virei e vi que Nakazato e os outros também estavam se levantando para sair, após terminarem suas próprias conversas.

Enquanto eu ajeitava meu cabelo bagunçado, eu levantei também.

Quando começamos a andar, Watarai chegou do meu lado e perguntou: “Quem eram aqueles caras?”. “Amigos do clube”, eu respondi.

“...Hã”, ele murmurou. E então começou a bagunçar a parte de trás da minha cabeça. Acho que meu cabelo ainda estava desarrumado.

Mas ele parecia meio mal-humorado.

Enquanto eu me perguntava sobre isso, peguei minha mochila no saguão. Fui em direção ao quarto com os outros.

Quando chegamos na porta, Nakazato enfiou a chave. Mas ele virou para o lado errado, sacudindo ela fazendo barulho.

“Você é péssimo nisso”, Morisaki provocou.

“Cala a boca!”, Nakazato esbravejou. Foi bem na hora que a fechadura deu um clique e a porta abriu.

Como eu ia ser o último a entrar, acabei dando uma olhada na placa de madeira perto da porta. A palavra “Himawari” (Girassol) estava entalhada ali. Tinha um pequeno girassol gravado logo abaixo.

“Fofo”, eu murmurei, e entrei.

Depois de trancar a porta, eu me abaixei para desamarrar os cadarços. De repente, fui atingido por um flashback de mais cedo, quando voltei para pegar meus óculos.

A coisa número um absoluta que eu não queria lembrar agora.

Eu sentei, fingindo que estava com dificuldade com os cadarços caso alguém estivesse olhando. Fiquei esperando o calor no meu rosto sumir.

Todo mundo começou a desfazer as malas.

Decidi fazer o mesmo. Qualquer coisa para evitar pensar em Watarai.

Quando terminei de desfazer as malas, comecei a escrever no diário de viagem. Anotei meus pensamentos sobre o dia.

— Ei, Hiyoki — Morisaki chamou da cadeira da varanda, balançando o celular com preguiça. — Sua conta — ele disse.

Ah, é verdade. Tínhamos prometido criar uma conta no daylog mais cedo. Eu tinha esquecido completamente.

— Vou fazer isso assim que terminar aqui — eu disse. Preenchi as duas últimas linhas do meu diário. Estava oitenta por cento cheio. Já era o bastante.

Guardei meu estojo e o diário. Depois, peguei meu celular. Assim que fiz isso, os quatro se amontoaram ao meu redor.

Desbloqueei a tela e comecei a baixar o app do daylog.

— Você realmente nem tinha isso instalado? — Morisaki perguntou, sem acreditar. Eu o ignorei. Quando o download terminou, toquei no ícone.

Uma interface bonita e limpa apareceu: Vamos criar uma conta!

Apertei em Criar nova. Digitei meu e-mail e senha de um jeito que os outros não pudessem ver. Então, apertei em Confirmar.

— Tudo pronto — eu disse, mostrando a tela para eles. — Mostra seu QR code pra gente — Morisaki pediu.

Eu não fazia ideia de como fazer aquilo. Olhei para cima pedindo ajuda e encontrei os olhos de Nakazato.

Ele sorriu e disse: — Aqui, me dá isso. Ele abriu o QR code para mim num instante.

— Deixa nessa tela — ele falou, me devolvendo o celular.

Todos levantaram seus celulares, um por um. Eles escanearam meu código. — Beleza, pode fechar agora — Nakazato disse, então saí da tela.

A página da minha conta nova apareceu. Sem foto de perfil, sem nome. Totalmente em branco. Notei um pequeno "4" embaixo de seguidores e um aviso de notificação.

Abri a lista de seguidores. Vi as contas dos quatro lá. Então, segui todos de volta.

Por curiosidade, toquei no perfil de Watarai. Seguidores: 12.000.

Que porra é essa?! Isso é loucura.

Fui checar os outros também:

Hotta — 5.000 seguidores. Nakazato — 8.000.

Morisaki — 15.000.

Minha cabeça doeu.

As postagens deles eram exatamente o que tinham dito antes. Fotos com amigos, comida, paisagens. Cada post tinha centenas ou milhares de curtidas.

— Vocês são praticamente celebridades.

— Que nada — Nakazato riu. — Tem muita gente normal com tudo isso. — Posta umas coisas também, Hiyoki. Você vai ganhar seguidores — Hotta disse.

— Não, eu tô de boa só vendo as de vocês.

Pensando bem... por que eu criei isso mesmo?

Fechei meu celular e o coloquei na mesa.

Bem naquele momento, bateram na porta. Toc, toc. O som repentino me deu um susto.

Hotta se levantou e foi abrir.

Ouvi eles trocando algumas palavras. Depois ele voltou.

— É a vez da nossa turma usar o banho — ele disse. Ele apontou para o que eu presumi ser o balneário. Então, a batida foi de um aluno da turma antes da nossa.

Pegamos nossas mudas de roupa e saímos do quarto. Seguimos pelo corredor em direção ao banho grande.

Passamos por alunos com roupas de ginástica no caminho. Pelo visto, o pijama oficial era o agasalho da escola. Assim ficava fácil saber quem era do nosso colégio.

Os yukata que vimos nos quartos não eram permitidos.

Passamos por baixo da cortina do banho masculino. Entramos no vestiário. Todo mundo jogou as roupas nas cestas e começou a se despir.

Tirei meus óculos. Eu estava quase tirando a camiseta quando Watarai falou.

— Hiyoki, você tá de boa com o banho?

Pelo jeito que ele falou, quase parecia que eu odiava tomar banho.

Eu sabia o que ele realmente queria dizer. Ele queria saber se eu ficaria bem com a minha visão embaçada. Então, eu corrigi mentalmente e respondi:

— Sim, eu vou ficar bem. — Não vai tropeçar.

— ...Vou dar o meu melhor — eu disse.

Puxei a cabeça da camiseta meio tirada. Coloquei a roupa na cesta.

Mesmo que sejamos todos garotos, ficar nu na frente dos outros ainda me incomoda. Não é porque sou magrelo ou inseguro com meu corpo. É só vergonhoso, simples assim.

Tirei o resto das roupas rapidinho. Peguei minha toalha e entrei na área de banho.

Sentei num banquinho. Girei o registro do chuveiro para lavar o cabelo. Verifiquei se a água estava numa temperatura boa. Coloquei um pouco de xampu na mão e fiz espuma. Olhei em volta. Não que eu conseguisse enxergar muita coisa de qualquer forma.

O banho público era maior do que eu esperava. Quase como uma fonte termal. Esfreguei a cabeça, massageando o xampu no couro cabeludo. Devo ter usado demais. A espuma já estava quase caindo nos meus olhos. Estiquei a mão às cegas para ajustar a água. Mas devo ter girado o registro para o lado errado. Um jato de água gelada caiu em cima de mim.

— Uau! — eu gritei. Puxei meu banquinho para trás com um estrondo alto. O cara do meu lado disse: — O que você tá fazendo?

Pela voz, era o Morisaki.

— Você pode mudar isso pra água quente?

Eu pedi às cegas, sem conseguir abrir os olhos. Ouvi o rangido do registro girando. Logo o calor voltou.

— Foi por isso que perguntei se você tava bem mais cedo — a voz de Watarai veio do outro lado. Grato pelo resgate, enxaguei a espuma. Coloquei o chuveirinho de volta no gancho. Sinceramente, girar pro lado errado não foi um problema de visão. Eu só fiz burrice mesmo.

Depois de limpar a água do rosto e recuperar o fôlego, agradeci a Watarai e Morisaki. Eles pareciam apenas formas humanas vagas para mim. Desculpe se confundi as pessoas.

— Tudo bem — Watarai disse. — Ah, e me espera quando terminar.

Ele começou a lavar o cabelo e o corpo. Eu ia recusar. Sabia que ele provavelmente ia querer me guiar de novo. Mas ele acrescentou: — É sério, eu estaria ferrado se você escorregasse.

Como eu não podia garantir que isso não ia acontecer, calei a boca. Peguei o condicionador.

Quando terminei de me lavar e esperei, ouvi uma voz dizer: — Desculpe a demora.

Pela visão embaçada, vi uma mão se esticando. Eu a segurei, e Watarai começou a andar. — Parece que tô de babá — Morisaki provocou do lado. Mas tudo que eu podia fazer era seguir. Era melhor do que andar tropeçando sozinho e me segurando nas paredes.

Quando chegamos perto o bastante, finalmente consegui ver a borda de mármore da banheira. — Valeu, pode soltar agora — eu disse.

Assim que ele soltou minha mão, mergulhei as pernas na água e afundei.

Estava um pouco quente, mas a sensação era ótima. Ouvi um barulho de água do meu lado. Provavelmente eram Hotta e Nakazato.

— Ei, Hiyoki, como você faz nas aulas de natação? — Hotta perguntou. — É, boa pergunta — outra pessoa falou.

Olhei para a forma humana vaga que presumi ser o Hotta e respondi:

— Ah, no ensino fundamental minha visão era melhor. Então eu ainda conseguia me virar sozinho. Mas não vou a piscinas no meu tempo livre.

— É, o ensino médio não tem aulas de piscina — um deles disse. — E quanto ao mar?

— Eu vou à praia, mas não nado. — Sorte. Queria ir pra praia também. — O verão tá chegando. Vamos combinar. — Acham que dá pra ir só por um dia? — Vamos passar a noite.

Eles já estavam fazendo planos para uma viagem à praia. No começo, achei que era só entre os quatro. Mas aí alguém disse: — Hiyoki, você traz os fogos de artifício. Então acho que fui incluído também.

Fiquei surpreso. Eu achava que as coisas voltariam ao normal depois da viagem escolar.

Enquanto eu estava perdido nas lembranças, pensando em quanto tempo fazia que eu não ia ao mar. Uma voz perguntou de repente: — Vocês são alunos do ensino médio?

Era a voz de um homem mais velho. Provavelmente outro hóspede que estava ali.

Nossa escola não tinha alugado a pousada inteira. Então, claro que havia outras pessoas por ali.

— Sim, estamos aqui para a nossa viagem escolar.

— Ha! Vocês comem bem, garotos? De onde vocês são?

Ele riu com vontade e deu um tapa no meu ombro. Doeu um pouco.

Os quatro, provavelmente sem querer lidar com o homem, responderam sem muito ânimo. Disseram coisas como "É, isso aí" e "Estamos nos divertindo".

Eu concordei com a cabeça também. Só estava tentando passar por aquilo. E então, de repente, aconteceu.

— Você tem que comer direito e criar uns músculos, garoto! Você é tão magricelo. Como vai proteger uma garota desse jeito?

— Ahn...

Quando falou "magricelo", o velho de repente cutucou minha barriga.

Dei um pulo de susto. Eu já tinha achado ele um pouco espaçoso demais antes. Mas isso já era demais.

E que porra ele quis dizer com "magricelo"?

Aí, a mão dele roçou sem querer na minha lateral. Um som baixinho de "nn—" escapou da minha boca antes que eu pudesse evitar.

Eu cobri a boca depressa, mas já era tarde.

Parem com isso! Esse tipo de coisa mata totalmente o clima!

Eu não conseguia ver o rosto deles direito. Não fazia ideia de como os outros quatro reagiram. Pelo menos isso me poupou um pouco de vergonha.

Mas eu sabia que ia ser estranho quando voltássemos pro quarto. Nada estava dando certo pra mim hoje.

— Opa! Foi mal, foi mal! Fez cócegas, né?

O homem riu alto de novo. Deu outro tapa forte no meu ombro. Pelo jeito, ele não fez por mal.

— Tô de boa — respondi rápido. Tentei afastar meu corpo para colocar uma certa distância entre nós. Mas antes que eu pudesse me mover, alguém agarrou meu braço.

— Bom, a gente já vai indo. Com licença — Watarai disse com educação. — Tá certo então! Divirtam-se! — o homem respondeu.

Ainda segurando meu braço, Watarai se levantou do banho. Ele foi em direção ao vestiário. Os outros três foram atrás, dizendo "Valeu, senhor", enquanto saíam da água espirrando.

Curvei um pouco a cabeça na direção de onde o homem estava. Eu ainda estava sendo puxado. Na verdade, eu queria ter ficado no banho por mais tempo...

No vestiário, nos enxugamos rápido. Colocamos as roupas de baixo e as de ginástica. — Você tá legal?

Enquanto eu secava o cabelo, Watarai perguntou do meu lado. Ele já estava vestido.

Ele devia estar falando do que tinha acabado de acontecer. Lembrar daquilo fez meu rosto esquentar um pouco.

— Não esperava ser assediado — resmunguei. — É, nem brinca.

— E eu nem sou tão magricelo assim. — Ah, foi isso que você tirou da história?

Aquilo era mentira.

Eu só queria aliviar o clima. Então fiz uma piada sobre isso.

Parei de enxugar o cabelo. Fui até o balcão com os secadores de cabelo. Foquei em secar o cabelo em silêncio.

Hotta bateu no meu ombro. Ele disse que eles iam sair primeiro. Eu concordei com a cabeça e liguei o secador de novo.

Talvez eu tenha viajado demais tentando não pensar em nada. Quando desliguei o secador, meu cabelo estava totalmente seco.

Passei os dedos por ele. Depois, passei um tônico e um hidratante rapidinho. Peguei minhas coisas e saí da área de banho.

Eu não queria colocar os óculos de novo logo depois de passar o hidratante. Mas, como eu não queria outro acidente, segurei os óculos um pouco afastados do rosto enquanto andava.

No caminho para o quarto, um professor me parou e perguntou: — Todo mundo da Turma 5 já terminou? Respondi "Sim" por instinto. Sinceramente, eu não fazia ideia. O vestiário estava misturado com os alunos da Turma 6.

Quando cheguei ao meu quarto, peguei na maçaneta. Eu estava prestes a entrar quando alguém me chamou por trás.

— Hiyoki-kun.

Me virei e olhei um pouco para baixo. Havia duas garotas paradas ali.

Eram as mesmas que tinham falado comigo. Foi quando estávamos formando nossos grupos de atividades livres.

As duas usavam máscaras. Provavelmente não queriam mostrar o rosto sem maquiagem.

— O que foi? — perguntei.

Elas ficaram inquietas por um tempo. Não disseram nada.

Bem quando pensei em entrar no quarto, uma delas finalmente falou.

— Por que você tava de mãos dadas com o Watarai-kun hoje? — ...Hã?

— Quero dizer, vocês estavam de mãos dadas! No ônibus e logo depois que a gente chegou na pousada também... A voz dela foi sumindo, ficando cada vez mais baixa. Eu murmurei: — Ah... isso.

— Eu tenho uma visão ruim. Ele só tava me ajudando.

— Mas... mas vocês ficaram de mãos dadas o tempo todo no ônibus! Ele não tava te ajudando nessa hora, né?

— Não sei dizer. Talvez o Watarai só estivesse afim. — Ele é assim com todo mundo?

— Até com o Morozaki-kun?

— Eu não sei. Acho que os dois são meio carinhosos com as pessoas. E mesmo se ele estivesse segurando a mão de outra pessoa, eu não prestaria muita atenção.

Comecei a falar mais rápido. Queria terminar a conversa o mais depressa possível. Por favor, me deixem ir logo.

As duas garotas trocaram olhares e disseram "Hum". Depois, acrescentaram de um jeito alegre: — Entendi! Desculpe perguntar de repente! Vamos nos divertir amanhã, tá? Elas acenaram e voltaram correndo para o quarto delas.

Garotas apaixonadas realmente passam por muita coisa. Foi o que pensei enquanto segurava a maçaneta e entrava. — Você tá atrasado. Aconteceu alguma coisa de novo?

— Não, só encontrei uns amigos e conversei um pouco.

Quando entrei, Watarai me olhou com uma expressão um pouco confusa. Decidi não comentar sobre a conversa com as garotas.

Me sentindo totalmente esgotado, joguei minhas coisas do lado da mala. Peguei minha escova de dente e fui para a pia.

O som shako-shako da escovação preenchia o banheiro silencioso.

Tinha sido um primeiro dia caótico. Mas eu tinha um mau pressentimento de que amanhã seria ainda mais difícil.

Depois de enxaguar a boca e guardar a escova de dentes, virei-me para sair — e esbarrei no Morozaki.

“Ai”, eu disse, esfregando o nariz. Ele me empurrou suavemente de volta para a pia. “O quê?” Eu o encarei — ele é um pouco mais alto do que eu.

“É aqui que se tira fotos, não é?” “Fotos?”

“Para o daylog.”

Ele levantou o celular para o espelho. “Vou tirar uma”, ele disse. Então eu instintivamente fiz um sinal de paz para o espelho.

Nossa, essa luz é muito forte.

Não teve nem som de clique. Então continuei segurando a pose até ele dizer: “Pronto”. Então diz isso antes, cara.

Tentei sair da pia de novo, mas Morozaki me parou mais uma vez. E agora?

Ele chamou os outros três. Logo, nós cinco estávamos espremidos no banheiro minúsculo

— lotado demais.

“Saiam um instante. Façam uma fila por altura”, instruiu Morozaki. Aparentemente, ele tinha uma ideia específica para a foto.

De trás para frente ficou: Morozaki, Watarai, Hotta, eu e Nakazato.

Foi baseado na nossa medição de altura de abril. Talvez as coisas tivessem mudado desde então — tanto faz.

“Vou tirar”, ele disse de novo. Fiz outro sinal de paz por reflexo.

Os outros apenas inclinaram os corpos ou viraram o rosto de leve. Eles pareciam modelos de verdade, enquanto eu me sentia como um fã aleatório tirando foto com celebridades.

Mais uma vez, não consegui perceber quando terminou. Fiquei congelado sorrindo e fazendo o sinal de paz, até Nakazato rir e dizer: “Já foi”.

Se já terminou, avisa!

“Como você sabe quando acabou?” eu perguntei. “Hmm... Eu só sinto?”

Resposta completamente inútil.

Quando Morozaki finalmente disse: “Deu tudo certo”, todos nós saímos do banheiro.

O quarto parecia visivelmente mais fresco. Faz sentido, já que espremer cinco caras naquele espaço minúsculo era quente demais.

Quando eu estava prestes a guardar a caixa da minha escova de dentes, alguém agarrou meu braço e me parou.

Acho que finalmente entendi como é a sensação desse tipo de toque.

Quando me virei, Watarai estava segurando o celular e disse: “Eu quero tirar uma foto com você também”.

Então acabei voltando para o banheiro de novo.

Diferente do Morozaki, ele usou a câmera frontal em vez da traseira.

“A iluminação é melhor no banheiro”, ele disse. Embora eu não tenha entendido muito bem o que ele quis dizer. Tipo... a força ou algo assim?

Watarai colocou um braço em volta do meu ombro e se aproximou. Ele estava tentando encontrar a melhor posição para o enquadramento.

Eu só tenho um tipo de pose, então apenas fiz um sinal de paz e esperei. Bem quando ele disse “Vou tirar”, a tela piscou por um momento.

Com a câmera frontal, é mais fácil saber quando a foto é tirada, eu pensei. Mas então ele perguntou se podíamos tirar mais algumas.

Ele me mostrou algumas poses: apenas inclinar a cabeça sem o sinal de paz, piscar um olho, tirar os óculos — coisas assim.

Depois de várias fotos, ele as verificou no celular. “Posso voltar agora?” eu perguntei.

Ele abaixou a mão que estava sobre a boca e disse: “Sim, valeu”.

De volta ao quarto de tatame, os futons já estavam arrumados —

três na esquerda, dois na direita, todos com as cabeças voltadas para o meio. “Ah, vocês arrumaram eles? Valeu.”

“De boa”, disse Hotta, que estava mexendo no celular na extremidade do lado para três pessoas.

Finalmente, guardei a caixa da escova de dentes e me joguei de costas em um dos futons do lado para duas pessoas.

Eu meio que escolhi meu lugar sem perguntar, mas tudo bem. Cara, estou exausto.

Achei que não conseguiria dormir já que cochilei no trem-bala, mas parece que isso não será um problema.

Sentindo que estava pegando no sono, tirei os óculos e os deixei perto do travesseiro. Fiquei olhando sem expressão para o teto.

“Ei, não durma ainda. Eu ainda quero conversar mais”, disse Nakazato, cutucando minha bochecha. “Mm... sobre o quê?”

“Qual é, é uma viagem escolar — hora de falar sobre amor!”

Então é sobre isso.

Virei-me para procurá-lo, coloquei meus óculos de volta,

e vi que, em vez de estar ao meu lado, Nakazato tinha pegado o lugar do meio no lado para três pessoas.

Hotta abaixou o celular e perguntou: “Hiyoki, você tem namorada?” Watarai e Morozaki, claramente interessados, vieram para os nossos futons também.

“Ah, desculpe decepcionar, mas não.”

“Pera, você não tinha uma no ensino fundamental?” “Isso provavelmente é um mal-entendido.”

“Hã? Você e o Hotta foram para a mesma escola no ensino fundamental?” disse Watarai, surpreso. Acho que ele não sabia. Não que eu tivesse mencionado.

“Sim”, respondeu Hotta. “Mas nunca fomos da mesma turma.”

“Só tinha duas turmas, então isso é meio que um milagre”, eu disse com uma risada.

“Então, sobre o que era esse mal-entendido?” perguntou Morozaki, voltando ao assunto. Comecei a vasculhar minhas memórias do ensino fundamental.

“Quando eu estava ouvindo os problemas de uma amiga próxima, alguém entendeu errado e espalhou o boato de que estávamos namorando”, expliquei.

“Ah, isso acontece muito”, um deles disse.

“Então, como você esclareceu o mal-entendido?”

“Eu não cheguei a ‘esclarecer’. A garota que eu estava ajudando acabou ficando com a pessoa que ela realmente gostava. Então paramos de sair depois disso. Todo mundo provavelmente achou que nos afastamos naturalmente.”

“Ah, sério? Eu achava que vocês só tinham ido se afastando até agora.” “Uau, então vocês eram tipo um casal falso famoso?”

“Não, foi só que a pessoa que espalhou o boato fez a coisa explodir por conta própria.”

Dei de ombros e disse: “Enfim, minha vez acabou. E quanto a vocês — nenhum de vocês tem namorada agora?”

Todos responderam que já estiveram em relacionamentos antes, mas agora estavam solteiros.

“De todas as ex-namoradas, a situação do Morozaki foi a mais louca”, disse Nakazato. “Sim, eu fiquei sinceramente chocado quando ouvi sobre isso”, Hotta acrescentou.

“Ah? Agora fiquei curioso”, eu disse, olhando para lá.

Morozaki fez uma cara de quem não queria ter nada a ver com a conversa. “Eu não quero falar sobre isso”, ele murmurou.

“Se você não vai, eu vou”, disse Nakazato com um sorriso, inclinando-se para a frente.

“Olha, ele terminou recentemente, mas Morozaki estava namorando uma mulher mais velha. Acho que ela estava no segundo ano da faculdade? Eles se conheceram por DMs no Daylog...”

Nakazato começou a contar a história com entusiasmo demais.

Resumindo, parecia que ele tinha se envolvido com uma garota super grudenta e mentalmente instável.

Aparentemente, ela mandava mensagens constantes. Ela o proibia de falar com outras garotas e até controlava quando ele podia sair. Isso realmente mexeu com ele.

Comecei a entender por que Morozaki parecia não gostar tanto de garotas.

“Agora que eu penso nisso, as fotos dela também eram cheias de filtros”, ele resmungou. “Então, hã... como você conseguiu terminar com ela?”

“O amigo do meu irmão resolveu isso”, ele disse sem emoção.

Resolveu? Isso soou super suspeito.

Talvez eu deva pedir para trocar de grupo enquanto ainda posso.

Vendo minha expressão, Nakazato riu e disse: “Não, não, não é assim”.

“O irmão do Morozaki tem um amigo que parece muito intimidador. Então eles só fingiram que ele era um cara perigoso e arranjaram o término através dele.”

“Ela estava chorando muito”, Hotta acrescentou.

“Eu não sei se deveria sentir pena dela ou o quê... mas parece que foi tenso.”

“É, só fico feliz que tenha acabado”, disse Morozaki, caindo em seu futon. Então ele virou a cabeça para nós e acrescentou,

“Se estamos falando sobre ser intenso, Watarai é tão ruim quanto.” “A ex dele?” eu perguntei.

“Não, ele.” “Sério mesmo?”

Quando olhei para Watarai, ele só deu de ombros. “Eu sou normal.”

“Ele não é intenso, exatamente”, disse Nakazato. “É mais como... super ciumento.”

“A ex dele disse que ele é tão calmo que chega a dar medo”, Hotta acrescentou baixinho.

Os dois começaram a sussurrar sem realmente abaixar a voz,

e pelo jeito que falavam, parecia que Watarai é do tipo que gosta de cuidar de tudo para a pessoa com quem ele está.

Pensando bem, já havia sinais disso. Eu sempre achei que ele fosse só o tipo prestativo.

“Também teve essa avaliação de uma adolescente dizendo: ‘Ele faz você entender errado de propósito’.”

“Não falem de mim como se eu fosse a avaliação de um produto.”

Nakazato disse isso brincando, mas aparentemente era verdade.

E é... eu meio que conseguia ver por que alguém diria isso.

“Minha história acabou”, disse Watarai, olhando para Nakazato e Hotta. “A vez de vocês.”

“O quê? Isso foi curto demais”, eles protestaram. Mas ele claramente não queria falar mais.

“Hotta, você recebeu uma declaração no Dreamland, certo?” “Sim. Me pegou totalmente de surpresa.”

Parecia uma daquelas histórias românticas. Incentivado por Nakazato, Hotta começou a falar.

“Estávamos saindo em um grupo misto de umas seis pessoas. No final do dia, depois do desfile, quando a música de encerramento começou a tocar. Ela me chamou para um lugar um pouco afastado dos

outros e se declarou.”

“Ah é, eu ouvi dizer que tem um boato. Se você se declarar em um certo ponto do Dreamland, seu amor vai se tornar realidade.”

“Isso é idiotice”, murmurou Morozaki.

Romance de conto de fadas não era bem a praia dele.

“Bem, eu meio que me deixei levar pelo clima, então disse sim”, Hotta continuou.

Eu conseguia entender isso. Parques temáticos têm esse tipo de magia. Talvez esse boato tivesse alguma verdade, afinal.

“Mas...”, Hotta continuou, “eu não sei se é porque ela achava que era uma princesa ou o quê. Ela sempre queria ir a cafés super fofos, e era grudenta demais. Então eu terminei com ela.”

“É... você precisa de alguém cujos gostos combinem com os seus”, eu disse.

“E a pior parte é que você só descobriu isso depois que começaram a namorar. Isso é uma droga”, Nakazato acrescentou.

Só de imaginar isso me deu arrepios.

Hotta enterrou o rosto no travesseiro e gemeu: “Nunca mais”. Então eu estiquei a mão e dei uns tapinhas na cabeça dele.

Quando a história de Hotta acabou, nós quatro nos viramos para Nakazato. Pessoalmente, eu achava que ele era o mais propenso a ter uma história louca. Ele percebeu nossos olhares, bufou e começou.

“Eu estava namorando minha amiga de infância.” Ah. Surpreendentemente normal.

Bem quando eu achei que tinha sido sem graça, ele disse: “Ela me traiu”.

...O quê?

Ele realmente passou por algo tão dramático no ensino médio? Acho que meus instintos estavam certos — ele era a bomba-relógio. Aparentemente, o cara com quem ela traiu era o professor particular dela da faculdade.

Sério, isso parece cena de novela.

“Eu deveria saber”, ele disse. “Ela de repente parou de me deixar ir ao quarto dela. Começou a esconder o celular... tudo isso.”

“Como você descobriu?”

“Ela desabou a chorar um dia e confessou.” “Que inferno.”

É isso que “falar sobre amor” deveria ser?

Sempre imaginei que seria muito mais leve e cheio de risadinhas do que isso.

Enfim, antes que os três afundassem mais no dano emocional, tentei mudar o assunto para outro lugar.

“Ah, beleza, então... qual é o tipo de vocês?”

Talvez eu devesse ter escolhido algo completamente diferente. Mas pelo menos assim, ninguém sai machucado.

Eles começaram a se revezar respondendo de novo, um por um.

Parecia que essa conversa noturna da viagem escolar não ia acabar tão cedo.

───

As vozes ao meu redor começaram a desaparecer —

ou talvez fosse só porque eu estava caindo no sono.

Enquanto eu ouvia, minha cabeça começou a balançar. Minhas palavras ficaram mais curtas.

Eu mal falava mais. Apenas murmurava “é” ou “mm” quando alguém dizia algo. Meus óculos já tinham sido tirados e deixados perto do travesseiro.

“Então, Hioki, de que tipo de garota você gosta?” “....”

“Hã? Ele pegou no sono?” “Hioki, está com sono?”

“...mm.”

“Cara, você dorme muito. Você até desmaiou no trem-bala.” “...mm.”

“Ele só está dizendo ‘mm’ agora.”

Alguém continuava tentando falar comigo,

mas meu corpo estava pesado demais até para abrir a boca.

Na minha mente, murmurei boa noite em silêncio. E então minha consciência foi embora.