Capítulo 1
CAPÍTULO 1 ~ Sedna
O mar está estranho.
Sinto isso da mesma forma que outra mulher sentiria uma mão deslizando pelo seu pescoço no escuro: repentino, íntimo, impossível de ignorar.
Estou de pé no convés de ré do UMA Resilient durante a vigília da alvorada, com o casaco abotoado até o queixo contra o vento, quando o oceano sob nós se esquece de como se comportar. A ondulação se aplana como se alguém tivesse passado um ferro quente sobre ela. O vento morre no meio de um suspiro. As cristas das ondas desaparecem tão rápido quanto uma expiração.
Cada marinheiro no convés paralisa junto comigo. Todos nós aprendemos a ouvir esse silêncio.
O Tenente Margrave é o primeiro a falar, com a voz baixa. “Capitã?”
Não respondo.
A pressão responde instantaneamente, surgindo contra as minhas costelas como um segundo batimento cardíaco. Meu, e ainda assim, não. É vasto, faminto e sabe de algo que eu não sei.
Eu o empurro para o lado. Para baixo.
Como fiz durante toda a minha vida.
Mas ele não responde de imediato. Não como costumava fazer. Ele revida.
Puxo o ar e solto lentamente.
Então eu sinto ele.
Não um navio. Ainda não. Apenas a forma de uma corrente que não deveria estar ali, movendo-se pela água como a barbatana de um tubarão.
Hadryan Cartalin.
Três anos caçando o infame Capitão Pirata, acordando com sal na língua e o nome dele nos meus dentes, e agora o próprio oceano está apontando o caminho.
“Capitã?” Margrave tenta novamente.
Passo os olhos pelo horizonte. Parece vazio. Mas sinto o navio dele, The Covenant, por lá — da mesma forma que eu sentia tempestades no peito quando criança. Um aviso escrito nos ossos.
“Novo curso”, digo, e minha voz soa como a de outra pessoa — mais dura, mais fria, inevitável. “Girem dez graus. Norte-noroeste. Com todas as velas que puder carregar. Forcem até que as vergas estalem, se for preciso.”
Margrave hesita apenas o tempo suficiente para ver que não estou brincando.
O tambor bate. Pés troam pelo convés. A lona floresce acima de nós como asas repentinas.
Agarro o corrimão e encaro a névoa pálida que começou a se formar à nossa frente, espessa e deliberada.
Ele se esconde, esperando. Por mim? Por uma presa?
Não importa.
Desta vez, ele é meu.