Turno da Noite

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Resumo

Julien Vasseur é um Capitão da Brigada Criminal de Paris que vive pela lógica e pela ordem. Mas sua rotina meticulosa é quebrada quando ele começa a acordar com lapsos de memória, lama nas botas e evidências de crimes que não recorda ter cometido. Enquanto Paris é assombrada por um vigilante meticuloso apelidado de "O Zelador" — que elimina criminosos que a justiça falhou em prender —, Vasseur se vê perseguindo a si mesmo. O que começa como o medo da loucura logo se revela algo muito mais sinistro: um Caderno Preto com sua própria letra, uma pasta azul do governo e uma mulher fria chamada Madame Saint-Clair. O Estado precisa de monstros para manter a ordem, e Vasseur foi o escolhido. Agora, ele deve decidir entre salvar sua alma ou salvar a vida do único amigo que lhe resta.

Status
Em Andamento
Capítulos
1
Classificação
n/a
Classificação Etária
18+

Capítulo 1: O Minuto Antes

O despertador não tocou. Julien Vasseur abriu os olhos às 05:59, um minuto antes do estalo mecânico que acionaria a campainha. O quarto estava imerso naquele cinza granulado que precede o amanhecer de novembro em Paris. Havia um gosto metálico no fundo da garganta, como se tivesse chupado uma moeda velha durante o sono.

Levantou-se. O assoalho de madeira estalou sob o peso do corpo, o único som no apartamento da Rue Monge além do gotejar rítmico da torneira da cozinha. Ele a consertara na semana anterior. A borracha da vedação era nova. Ainda assim, a gota caía a cada quatro segundos, uma metrópole de tortura chinesa em miniatura.

No banheiro, o espelho devolveu a imagem de um homem de trinta e oito anos que parecia ter sido desenhado a carvão e depois parcialmente apagado. Olheiras profundas, pele pálida, a linha do maxilar tensa. Vasseur passou a mão pelo rosto. A barba estava feita.

Ele parou, a mão suspensa no ar.

Não se lembrava de ter se barbeado na noite anterior. Sua rotina era imutável: barba pela manhã, banho quente, café preto, rádio, rua. Passou os dedos novamente pela pele lisa, sentindo o cheiro residual de loção adstringente, misturado a algo mais acre, talvez suor seco. Devia ter feito isso automaticamente antes de deitar. O cansaço pregava peças, eliminava as arestas da memória de curto prazo. Era uma explicação lógica. Vasseur gostava de lógica.

Vestiu a camisa branca, engomada na lavanderia chinesa da esquina, e o terno cinza-chumbo. O coldre de couro rangeu ao acomodar a Manurhin MR 73 sob a axila esquerda. O peso da arma era a única âncora que impedia seu corpo de flutuar naquela manhã indefinida.

Desceu as escadas. O elevador estava quebrado, como de costume. Lá fora, Paris era uma fotografia subexposta. A chuva fina transformava o asfalto em um espelho negro e oleoso, refletindo os néons amarelados dos cafés que começavam a abrir. O cheiro era o de sempre: diesel, tabaco úmido e pedra molhada.

O Citroën CX da Brigada não pegou na primeira tentativa. O motor tossiu, engasgou e morreu. Vasseur esperou dez segundos, olhando para o limpador de para-brisa inerte. Tentou de novo. O carro vibrou, resignado.

A chamada veio pelo rádio quando ele atravessava a Pont Neuf. Código 18. Homicídio. Impasse des Deux-Anges, no 10º Arrondissement.

— Vítima conhecida dos serviços — chiou a voz da operadora, distorcida pela estática. — É o Morel.

Vasseur não sentiu nada. Nem repulsa, nem interesse. Morel era um cafetão de terceira categoria que operava na região da Gare de l’Est. Um roedor no ecossistema da cidade. A sua morte era apenas uma questão de saneamento.

Estacionou mal, bloqueando a entrada de uma garagem. A chuva aumentara, batendo no teto do carro como cascalho. Ao sair, sentiu uma pontada aguda no ombro direito, uma dor muscular profunda, como se tivesse carregado sacos de cimento por horas. Ignorou. O corpo era apenas um veículo; rangia, falhava, exigia manutenção.

A cena do crime era um beco sem saída, ladeado por paredes de tijolos cobertos de fuligem e cartazes de concertos de rock rasgados. Dois uniformizados fumavam sob a marquise de uma loja fechada, protegendo-se da água. Eles endireitaram a postura quando viram Vasseur.

O corpo de Morel estava sentado contra a parede, as pernas esticadas, como um bêbado descansando. A cabeça pendia para o lado.

Lemoine já estava lá, agachado, iluminando o cadáver com uma lanterna de mão. O jovem inspetor vestia um trench coat bege que parecia grande demais para seus ombros estreitos. Ele se levantou ao ouvir os passos de Vasseur na poça d'água.

— Capitão — cumprimentou Lemoine. Havia uma vibração estranha em sua voz, algo próximo da empolgação.

Vasseur acenou com a cabeça e se aproximou. A luz da lanterna revelou o trabalho.

Morel não tinha o rosto desfigurado. Não havia sinais de luta. Suas mãos estavam limpas, sem pele sob as unhas. O corte na garganta era uma linha vermelha precisa, cirúrgica, que ia de orelha a orelha, seccionando a carótida e a traqueia com uma economia de movimento aterrorizante. O sangue havia encharcado a camisa de seda barata e formado uma poça simétrica entre as coxas da vítima, mas não havia respingos nas paredes.

Quem fez aquilo sabia onde ficar para não se sujar.

— Nenhuma testemunha — disse Lemoine, acendendo um cigarro e oferecendo o maço a Vasseur. O capitão recusou. — Ninguém ouviu nada. Ninguém viu nada. O legista diz que aconteceu entre duas e quatro da manhã.

Vasseur olhou para o relógio de pulso. O ponteiro dos segundos estava parado no doze. Deu dois toques no vidro. O mecanismo voltou a tiquetaquear, hesitante.

— A carteira está aí? — perguntou Vasseur.

— No bolso interno. Dinheiro intacto. Relógio de ouro no pulso. Não foi roubo.

Vasseur agachou-se. O cheiro de sangue fresco se misturava ao odor de lixo apodrecido do beco. Ele observou os olhos abertos de Morel. O terror neles parecia congelado, mas não havia surpresa. Era o olhar de alguém que reconheceu o fim quando ele chegou.

— Morel foi solto há três dias — comentou Lemoine, soltando a fumaça para o lado. — Vício de forma no inquérito. O juiz anulou a prisão preventiva. Ele riu na cara dos guardas quando saiu.

— Eu sei — disse Vasseur. Ele se lembrava da raiva surda que sentira ao ler o relatório da soltura. Uma raiva que ele engolira, arquivara e suprimira.

— Bom, parece que alguém não achou graça — continuou Lemoine, chutando uma pedrinha para longe. — É o terceiro este mês, Capitão. O estuprador de Belleville, o traficante de ópio em Chinatown, e agora o Morel. Todos soltos por tecnicalidades. Todos executados sem deixar rastro.

Vasseur levantou-se. A dor no ombro pulsou novamente, sincronizada com o latejar em sua têmpora.

— É um assassino, Lemoine. Não um justiceiro.

— Com todo o respeito, Capitão... olhe para isso. — Lemoine apontou para o corte limpo. — Isso não é obra de um psicopata babando. É higiene pública. Quem quer que seja, está limpando a sujeira que o tribunal joga de volta na rua. Muita gente na delegacia está chamando esse cara de O Zelador. Estão quase abrindo uma garrafa de champanhe.

— Se eu ouvir alguém chamá-lo assim, vai para o relatório — disse Vasseur, a voz fria e cortante como o vento que entrava no beco. — O Estado detém o monopólio da violência. Se perdermos isso, somos apenas animais com roupas.

Lemoine baixou os olhos, mas o sorriso cínico permaneceu no canto da boca.

— Claro, Capitão. Apenas comentando o clima geral.

Vasseur afastou-se do corpo. Precisava de ar. Caminhou até a entrada do beco, onde a chuva caía com mais força. Olhou para suas próprias botas de couro preto. Estavam sujas de lama.

Franziu a testa. Ele tinha vindo de casa para o carro, do carro para a calçada. Onde teria pisado em lama daquela cor, um ocre argiloso, típico dos canteiros de obras da periferia ou dos parques mal cuidados?

Tentou refazer os passos da noite anterior. Jantar: sanduíche de presunto, sozinho na cozinha. Leitura: um relatório sobre tráfico de armas. Cama: às 23h00. Sono: sem sonhos.

Então por que a lama? E por que a exaustão que parecia pesar em seus ossos como chumbo derretido?

Enfiou as mãos nos bolsos do sobretudo para se aquecer. Seus dedos roçaram em algo pequeno e frio no bolso direito.

Puxou o objeto.

Era uma cápsula de bala deflagrada. 9mm.

Ele olhou para o objeto na palma da mão, brilhando sob a luz amarela do poste. Ele usava um revólver .357. A polícia usava .38 ou .357. Morel fora degolado, não baleado. Aquela cápsula não deveria estar ali. Não no seu bolso.

Uma vertigem súbita o atingiu. O som da chuva desapareceu por um segundo, substituído por um zumbido elétrico agudo. A luz do poste piscou, apagou-se e reacendeu com um estalo.

— Capitão? — A voz de Lemoine parecia vir de muito longe.

Vasseur fechou a mão, escondendo a cápsula. O zumbido cessou. O som da chuva voltou, torrencial.

— Estou bem — disse ele, a voz rouca. — Chame a perícia. Isole a área. Quero o relatório na minha mesa até o meio-dia.

— Sim, senhor.

Vasseur caminhou de volta para o carro. A cidade parecia mais escura do que antes, as fachadas dos prédios inclinando-se ligeiramente sobre ele. Entrou no Citroën e jogou a cápsula no porta-luvas, fechando-o com força.

Ligou o motor. No rádio, uma voz monótona anunciava a previsão do tempo: chuva contínua para toda a semana.

Ele olhou para o retrovisor. Seus olhos pareciam os de um estranho. Por um breve instante, teve a certeza absoluta de que o reflexo piscou antes dele.

Engatou a primeira marcha e arrancou, deixando para trás o beco, o cadáver e a sensação incômoda de que a noite anterior ainda não havia terminado.