NO FIO DO BISTURI
O cheiro metálico de sangue e soro fisiológico enchia meus pulmões, um perfume familiar que geralmente me mantinha centrada. Mas hoje, o ar na Sala de Operações 4 parecia pesado, como se estivesse pressionando minha pele. Eu estava lá parada, com os pés latejando dentro dos meus tênis gastos, escondidos sob propés azuis estéreis. Meus dedos estavam profundamente inseridos na cavidade torácica de um homem de cinquenta anos, sentindo o batimento fraco e rítmico de um coração que tentava desistir dele.
"Aspirador", eu ordenei, sem olhar para cima.
O chiado da máquina preencheu a sala silenciosa. Eu podia sentir o suor se acumulando na base da minha coluna sob o meu pesado avental cirúrgico. Eu não tinha tempo para o cansaço. Não tinha tempo para o fato de ter comido apenas um pedaço de torrada nas últimas vinte e quatro horas. Trabalhei com a precisão de um mestre relojoeiro, suturando a aorta rompida. Cada ponto era uma batalha contra o inevitável. Movi a agulha através do tecido delicado, com a minha visão focada apenas em um mundo de carmesim e aço. Naquela sala, eu era a única coisa entre aquele homem e a cova.
"Calma", sussurrei para mim mesma, com a voz abafada pela máscara azul.
"Os sinais vitais estão caindo, Dra. Sterling", chamou o anestesista, com a voz tensa e nervosa.
"Eu estou vendo. Me dê mais luz agora."
Ignorei a dor nas costas. Ignorei o ronco baixo do meu estômago. Minutos pareceram horas enquanto eu lutava pela vida de um estranho. Finalmente, o ritmo voltou. O bipe constante e rítmico do monitor encheu a sala, soando como música.
"Ele está estável", eu disse, soltando o ar enquanto a tensão na sala se dissipava. "Fechem-no. Preciso checar meus pacientes pós-operatórios."
Tirei minhas luvas ensanguentadas e saí para a sala de higienização. Quando a água fria atingiu minhas mãos, deixei minha cabeça cair, encarando os redemoinhos carmesins desaparecendo pelo ralo.
"Outro milagre para a conta?"
Eu dei um solavanco ao ver Jade encostada no batente da porta. Ela segurava dois copos de café da lanchonete que cheiravam a borracha queimada. Ela olhou para o meu avental desfiado, seus olhos cheios daquela pena que eu tanto odiava.
"Estou bem, Jade", menti, com a voz rouca. Coloquei uma mecha rebelde de cabelo castanho de volta no meu coque bagunçado. "Só uma ponte longa."
Jade se aproximou, pressionando um copo quente contra a minha mão. "Você está pálida, Thea. Parece que não come há dias. O Liam realmente trouxe o jantar como prometeu ontem à noite?"
Desviei o olhar, sentindo uma pontada familiar e protetora no peito. "Ele está ocupado, Jade. Está trabalhando até tarde naqueles portfólios de investimento na Moretti Industries. Ele está fazendo isso pela nossa futura casa."
Jade suspirou, um som de pura frustração. "Ele está fazendo isso por si mesmo. Você pagou as parcelas do carro dele no mês passado. Você é uma das melhores cirurgiãs desta cidade e, mesmo assim, usa sapatos com buracos. Não faz sentido."
"É um investimento", sussurrei, embora as palavras parecessem cinzas na minha boca. "Tenho que ir. Meu pai precisa de mim."
Não esperei que ela respondesse. Eu não podia. Atravessei o saguão do hospital, meus olhos capturando a enorme tela de televisão montada na parede de mármore. Um âncora de jornal falava sobre a imagem de um arranha-céu preto e elegante.
"A Moretti Industries adquiriu oficialmente o último porto de carga independente da cidade hoje", anunciou o âncora. "O CEO Dante Moretti permanece longe dos olhos do público, mas sua influência continua a remodelar nosso horizonte. Alguns o chamam de salvador da cidade, enquanto outros temem a sombra que ele projeta."
Fiquei encarando a tela. Não havia fotos dele, apenas a silhueta de um homem de terno escuro entrando em um comboio de carros. Um grupo de enfermeiras estava parado perto, cochichando.
"Ouvi dizer que ele é tão bonito", uma delas riu, agarrando sua prancheta. "Mas também ouvi que um faxineiro foi demitido só por ter feito contato visual com ele por acidente."
"Eu deixaria ele me demitir se isso significasse ficar na mesma sala que ele por cinco minutos", a outra respondeu.
Balancei a cabeça e atravessei as portas de vidro. O ar de inverno cortava minha jaqueta fina como um bisturi. Eu não tinha dinheiro para um táxi, então comecei a longa caminhada até o ponto de ônibus, passando pelas vitrines brilhantes do distrito comercial. A cada poucos quarteirões, o logotipo do lobo prateado e da serpente da Moretti Industries zombava de mim em um outdoor ou tela digital. Ele estava em toda parte, um deus que eu nunca conheceria, sendo dono de um mundo no qual eu mal estava conseguindo sobreviver.
Quando finalmente cheguei ao meu prédio, o corredor cheirava a madeira úmida e cerveja choca. Subi as escadas, com o coração pesado devido ao aviso do banco na minha bolsa. Estourada, de novo.
"Pai? Liam?" chamei ao abrir a porta.
O apartamento estava silencioso. A luz não acendeu quando apertei o interruptor.
"Pai?"
Peguei meu telefone, usando a lanterna para escanear a sala. Meu coração parou. A sala de estar tinha sido revirada. O vaso favorito da minha mãe estava estilhaçado no chão, os cacos de cerâmica parecendo ossos na luz fraca. A poltrona do meu pai estava virada, e a pequena mesa da cozinha estava encostada na parede.
"Pai!" gritei, avançando.
Eu o encontrei na cozinha, desmaiado no chão. Seu rosto era uma máscara de hematomas roxos e sangue seco. Ele estava respirando, mas era um som úmido e rouco que fez meus instintos médicos gritarem.
"Thea", ele gemeu, seus olhos piscando enquanto abria. "Me desculpe. Eu achei... eu achei que poderia ganhar de volta."
"Quem fez isso?" eu sibilei, caindo de joelhos e pressionando um pano de prato limpo sobre o corte em sua testa. "Foram os homens do porto?"
"Não", ele sibilou, agarrando meu braço com uma mão trêmula. "Eles venderam a dívida, Thea. Disseram que não queriam mais esperar. Venderam para um homem que não acredita em espera."
"Quem? Me diga um nome!"
Meu pai olhou para a porta, seus olhos arregalados com um terror que eu nunca tinha visto antes. "Ele não deu um nome. Ele só deixou isso."
Ele apontou para a mesa da cozinha. Lá, perfeitamente centralizado, estava um cartão feito de papel de seda preto, fosco e pesado. Alcancei-o, com os dedos tremendo. Não havia nome na frente, apenas o brasão prateado de um lobo entrelaçado com uma serpente.
Virei-o. A caligrafia era nítida e elegante.
Dra. Sterling, seu pai apostou uma vida que não era dele para perder. Agora, a dívida pertence a mim. Olhe pela sua janela. Você tem sessenta segundos.
Corri para a janela, puxando a cortina rasgada. Lá embaixo, na rua, três SUVs pretas estavam paradas na chuva, seus faróis cortando a escuridão como olhos de um predador. Um homem de terno cinza impecável estava ao lado do carro principal, olhando diretamente para a minha janela. Ele não se moveu. Apenas segurou um cronômetro.
Meu telefone vibrou na minha mão. Era um número desconhecido. Atendi, com a voz em um soluço estrangulado. "Quanto é o dinheiro do papai? Eu vou conseguir, eu juro!"
"Cinquenta segundos, Doutora", respondeu uma voz. Não era o homem na rua. Era uma voz que soava como cascalho sendo arrastado e gelo, profunda e terrivelmente calma. "Não me faça esperar. Descobri que tenho pouquíssima paciência para pessoas que me devem."
"Quem é você?" gritei para o telefone.
"O homem que possui a alma do seu pai", a voz sussurrou. "E, desde um minuto atrás, também possuo a sua."
A linha ficou muda.