Um Novo Começo
Ponto de vista da Vanessa
—
A melhor parte de recomeçar é escolher o que as pessoas não precisam saber sobre você.
Aqui, em uma cidade onde ninguém reconhece meu rosto nem se assusta com meu sobrenome, posso existir sem uma sombra me perseguindo. Sem estranhos inclinando a cabeça como se estivessem tentando decidir se mereço pena ou desconfiança.
Eles não sabem das escolhas que fiz. Das pessoas que machuquei. Da linha que atravessei e da qual nunca mais voltei.
E pretendo que continue assim.
Ele está morto agora. O homem que me criou. Aquele que me ensinou que o amor é uma moeda de troca e que erros são ofensas puníveis.
As pessoas esperam luto.
O que elas não esperam é alívio.
Alívio por nunca mais ter que ouvir a voz dele. Alívio por não precisar mais encenar perfeição só para ganhar um pouco de silêncio.
Eu não sinto falta dele.
Na verdade, sinto raiva por a morte tê-lo poupado das consequências do que ele fez... e do que ele me obrigou a ser.
Odeio o fato de ele nunca ter vivido o bastante para ver o estrago total que causou à nossa família. De nunca ter sentido o peso do dano que deixou para trás.
Ele me ensinou muito. A maior parte, eu gostaria de poder esquecer.
Ele acreditava que a pressão criava a perfeição. Que a disciplina deveria doer. Que crianças não serviam para receber conforto, mas para serem amoladas.
Erros não eram corrigidos. Eram punidos.
E a excelência era o mínimo esperado.
Enquanto outros pais matriculavam os filhos em aulas de piano ou futebol, ele me arrumava tutores que não acreditavam em clemência. Instrutores de idiomas que tratavam uma pronúncia errada como um fracasso.
“Você nunca será pequena”, ele me disse uma vez, como se fosse uma ameaça em vez de uma promessa. “Pessoas pequenas são esmagadas.”
Na época, achei que ele falava de ambição. Agora percebo que ele falava de controle.
Ele queria que eu fosse inquebrável. Algo afiado o suficiente para sobreviver no mundo que ele achava que existia, um mundo onde a compaixão era um peso e o poder era a única rede de segurança.
Eu o odiava por isso. Odiava a pressão. As expectativas. A maneira como ele olhava para mim como um projeto, e não como uma filha.
Mas eu estaria mentindo se dissesse que os métodos dele não funcionaram. Eles funcionaram.
Sou adaptável. Focada. Inabalável por fora. Consigo entrar em qualquer lugar e me manter firme. Sei negociar, calcular e suportar.
Ele me transformou em algo útil.
Mas agora, há coisas ligadas ao meu nome que nunca poderei deixar totalmente para trás. Decisões que tomei. Pessoas que feri. Momentos em que eu deveria ter ido embora mais cedo... ou nem ter aparecido.
Carrego o peso disso.
Não porque me ache a vilã da minha própria história, mas porque sei que também não sou uma boa pessoa.
Há noites em que a culpa se instala no meu peito e se recusa a ir embora, revivendo escolhas que não posso desfazer. Palavras que deveria ter dito de outro jeito. Silêncios que não deveria ter mantido.
Acredito em assumir o que fiz. E, então, tentar ser melhor.
Esta mudança, esta cidade nova, esta folha em branco... não é sobre apagar o passado.
É sobre me recusar a deixar que ele dite o resto da minha vida.
Fico diante da janela, observando carros estranhos passarem por ruas estranhas, e sinto algo perigosamente próximo da esperança.
Ninguém aqui sabe o nome do meu pai.
Pressiono a palma da mão contra o vidro e deixo o silêncio me envolver.
Eu não sou o legado dele. Eu não sou o erro dele.
O que quer que aconteça a seguir será meu.
E cansei de deixar que os fantasmas do meu passado me digam o que mereço.
Recomeçar parece algo romântico até você se ver diante de um apartamento semimobiliado e um saldo bancário que faz seu peito apertar.
Recomeços exigem dinheiro.
Sento-me no chão com as pernas cruzadas, com meu laptop equilibrado sobre uma caixa de mudança marcada como Cozinha, navegando por anúncios de emprego que, depois de um tempo, parecem todos iguais. Assistente de marketing. Coordenadora administrativa. Assistente de escritório.
Então, eu vejo.
ASSISTENTE PESSOAL DO CEO Salário: Extremamente Competitivo Local: Centro Requisitos: • Fluência em pelo menos dois dos seguintes idiomas: inglês, mandarim, francês, hindi, espanhol • Disponibilidade para viagens frequentes • Capacidade de prosperar sob pressão • Discrição absoluta obrigatória
O número no final me faz piscar.
Ninguém paga isso a menos que o trabalho seja brutal.
Ou que o chefe seja.
Eu clico no anúncio mesmo assim.
A descrição soa como um aviso disfarçado de oportunidade. Longas horas. Expectativas altas. Ambiente acelerado. Tolerância zero a erros.
Eu ignoro o nome da empresa a princípio, mais focada no requisito de idiomas do que em qualquer outra coisa.
Minha boca se curva em algo que talvez seja um sorriso amargo. Conheço 4 dos 5.
A única coisa pela qual um dia agradecerei ao meu pai.
Ele forçou os idiomas dentro de mim como se fossem uma armadura. Tutores que não aceitavam desculpas. Sessões de prática que se estendiam até tarde da noite. Conversas no jantar onde eu era corrigida no meio da frase se minha pronúncia falhasse.
Na época, parecia cruel. Agora, parece vantagem.
Subo a página até o nome da empresa.
Castro Law.
Noah Castro.
As manchetes voltam em flashes. Coisas que li por cima ao longo dos anos sem me importar o suficiente para clicar.
CEO IMPIEDOSO AGITA O MERCADO NOAH CASTRO NOMEADO O HOMEM MAIS TEMIDO DA DIRETORIA Internet o Declara o "Homem Mais Atraente Vivo" — Ele Não Está Nem Aí
Essa última tinha ficado em alta por dias, se bem me lembro.
Poder. Ego. Dinheiro. O tipo de homem que nunca pede desculpas e nunca perde.
O tipo de homem para quem trabalhar seria um pesadelo absoluto.
Ainda assim... o valor do salário me encara de volta.
Pesadelo ou não, não tenho o luxo de ser exigente.
Abro uma nova aba e pesquiso o nome dele.
O rosto dele preenche a tela instantaneamente.
Cabelo castanho claro. Traços marcantes. O tipo de estrutura óssea que as pessoas geralmente acusam de ser injusta. Olhos que parecem nunca ter hesitado em tomar decisões difíceis.
Cada foto o mostra da mesma maneira: composto, controlado, intocável.
Fecho a aba.
Então, envio meu currículo.
Meu cursor paira sobre o botão de enviar.
Então, eu clico.
—
Duas horas depois, estou caminhando pelo centro com um café em uma mão e os nervos borbulhando sob a pele.
O prédio que abriga a Castro Law ergue-se como um monumento ao excesso: vidro, aço e uma intimidação silenciosa. Tudo nele grita dinheiro. Poder. Influência.
Atravesso as portas giratórias, ensaiando mentalmente minhas respostas.
Idiomas. Experiência. Adaptabilidade. Resistência ao estresse.
Eu sei me vender. Sempre soube.
O saguão tem cheiro de colônia cara e ambição, pisos polidos e uma recepção que parece mais uma central de controle do que um balcão de atendimento.
Faço meu check-in, recebo um crachá de visitante e sigo para os elevadores.
Mas, bem quando dou um passo para o lado para deixar alguém sair, dou de cara com uma parede de músculos e tecido de terno.
Mãos fortes seguram meus braços antes que eu possa tropeçar para trás.
"Cuidado", diz uma voz grave, irritada.
Olho para cima.
E, por um segundo, meu cérebro esquece como funcionar.
Ele é mais alto do que eu esperava. Mais largo. Mais perto. Um terno escuro feito sob medida, como se fosse para ele e apenas para ele. Seus olhos me examinam com uma precisão que parece menos olhar e mais avaliar.
Não com curiosidade. Com análise.
"Olhe por onde anda", ele acrescenta secamente.
Fico tensa na hora. "Talvez tente não ficar parado em portas como se fosse o dono do lugar."
O canto da boca dele se contrai. Não é um sorriso. É algo mais cortante.
"Acredite", diz ele friamente, passando por mim, "eu sou."
Então ele se vai, desaparecendo em direção aos elevadores como se o próprio prédio se abrisse para ele.
O calor ainda queima onde as mãos dele tocaram meus braços, como eletricidade estática depois de um raio.
Irritante. Arrogante. E irritantemente magnético.
Uma recepcionista ali perto me olha com algo que parece pena.
"Primeira vez aqui?", ela pergunta.
"É tão óbvio assim?", murmuro.
"Todo mundo fica com essa cara depois de conhecê-lo", ela diz levemente.
Meu estômago gela.
"...Sr. Castro?", pergunto.
Seu sorriso de quem sabe tudo confirma isso.
Claro.
Claro que a primeira pessoa que encontro neste prédio é o próprio CEO impiedoso.
Solto o ar pelo nariz e endireito a postura.
Se esse é o homem para quem vou trabalhar, então acabei de ter uma prévia de exatamente que tipo de inferno esse emprego será.
Cortante. condescendente. Poderoso. E absolutamente certo de que é dono de qualquer lugar em que pisa.
Enquanto sou chamada para a entrevista, um pensamento se instala no meu peito com partes iguais de pavor e euforia:
Se eu conseguir esse emprego, não estou apenas começando uma nova carreira.
Estou entrando em um mundo construído sobre poder, conflito e um homem que vai testar cada grama da minha paciência.
Um homem que não gosta de perder o controle.
E, de alguma forma...
Eu já sei que não vou embora.