A Camisa do Rival

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Resumo

Kylie nunca planejou se apaixonar por ele. Não por Cole Peters. Não pelo capitão do time de hóquei, convencido, imprudente, com uma fama e um temperamento à altura. E definitivamente não pelo maior rival do seu ex-namorado. No início, era para ser apenas algo passageiro — só uma maneira de provocar a pessoa errada. Um relacionamento fake. Um jogo temporário. Mas, em algum lugar entre as voltas de carro tarde da noite, rinques lotados e momentos roubados que pareceram reais demais… Kylie parou de fingir. E Cole? Ele nunca esteve fingindo. Agora, com sussurros a seguindo pelos corredores e o mundo de Cole ficando cada vez mais agitado, Kylie precisa decidir se é forte o suficiente para ficar ao lado dele quando tudo — e todos — começam a pressionar. Porque amar Cole Peters não é fácil. É complicado. É intenso. É avassalador. Mas, pela primeira vez na vida… é real. E ela não tem certeza se quer abrir mão disso.

Status
Completo
Capítulos
41
Classificação
5.0 14 avaliações
Classificação Etária
16+

Chapter 1

Kylie

Se você perguntasse a qualquer um na Westfield High quem tinha a vida mais perfeita, provavelmente diriam o meu nome sem nem pensar.

O que é engraçado, porque eu não me lembro de ter me candidatado para esse cargo.

Às sete e meia da manhã, o meu dia já parece um currículo.

Reunião do grêmio estudantil.

Treino de líderes de torcida.

Prova de cálculo avançado.

Revisão do discurso de formatura.

Jogo hoje à noite.

E, claro, namorada de Myles Anderson.

Como se fosse uma atividade extracurricular.

O corredor cheira a limpa-vidros com aroma de limão e café queimado quando empurro as portas da frente, com as luzes fluorescentes zumbindo acima de mim. Meus tênis brancos de líder de torcida rangem no piso enquanto caminho, e pelo menos três pessoas gritam meu nome antes mesmo de eu chegar ao meu armário.

“Ky! Você vem para o treino mais cedo?”

“Não esquece as faixas!”

“Você ainda vai dar aula particular depois da escola, né?”

Eu sorrio automaticamente. Sou boa em sorrir automaticamente.

“Sim.”

“Entendido.”

“Com certeza.”

Minhas bochechas doem antes mesmo de a primeira aula começar.

Westfield leva tradições a sério, e, pelo visto, eu sou uma delas.

Capitã das líderes de torcida. Notas máximas. Nunca fui a uma festa que a polícia acabou. Nunca perdi o toque de recolher. Nunca namorei o cara errado.

Principalmente o cara errado.

Porque o certo está encostado no meu armário agora, como se tivesse acabado de sair de um filme adolescente.

Myles Anderson.

Jaqueta do time. Cabelo perfeito. Aquele sorriso fácil de político que ele pratica desde o fundamental. Ele parece o tipo de cara que as faculdades colocam em folhetos.

Presidente da turma dos veteranos. Estrela do hóquei. Futuro estudante de negócios. Minha mãe o chama de “um rapaz tão gentil”, como se ele já estivesse concorrendo a um cargo público.

Ele se desencosta do armário quando me vê e passa um braço pela minha cintura como se fosse o lugar dele.

Como se eu fosse o lugar dele.

“Bom dia, oradora da turma”, ele diz, beijando minha têmpora.

Eu rio. “Você nem sabe disso ainda.”

Ele dá de ombros. “Por favor. Você nasceu sabendo disso.”

Os elogios saem tão naturalmente que quase parecem ensaiados. Talvez sejam.

Ele tem o cheiro daquela colônia estupidamente cara dele. Cedro. Limpo. Seguro.

Todos nos observam quando caminhamos pelo corredor juntos. Não é que fiquem encarando, exatamente — apenas notam. Como se fôssemos o mascote da escola ou algo assim.

O casal dourado de Westfield.

Tem sido assim desde a oitava série. Quando ele me passou um bilhete dobrado na aula de ciências que dizia:

Você quer sair comigo ou vai partir meu coração? Marque um.

Eu marquei sim. Eu sempre marco sim.

“Então”, ele diz, apertando meu quadril de leve, “jogo importante hoje à noite. Peters vai começar como titular. Deve ser divertido ver ele se borrar todo.”

Eu reviro os olhos automaticamente. “Você consegue falar dele sem parecer pessoalmente ofendido com a existência dele?”

“Ele é pessoalmente ofensivo”, Myles diz. “O cara acha que é o presente de Deus para o hóquei.”

“Talvez ele seja apenas bom”, provoco.

Myles para de andar. Só por um segundo. É algo pequeno. A maioria não notaria. Mas sua mão aperta um pouco.

“Confie em mim”, ele diz, o sorriso ainda ali, mas mais fino agora, “você não quer nada com Colsten Peters.”

Como se fosse um aviso. Não uma brincadeira.

Eu assinto porque essa é a resposta certa. “Obviamente.”

Eu nunca conversei de verdade com Cole Peters. Nem uma vez. Mas me disseram que eu o odeio há anos. Então, eu odeio. É assim que funciona. Você herda inimigos da mesma forma que herda sobrenomes.

Chegamos à porta da minha primeira aula e Myles se abaixa para me beijar de verdade desta vez. Lento. Possessivo. O tipo de beijo que faz as pessoas desviarem o olhar.

“Te vejo no jogo”, ele diz. “Use minha camisa hoje à noite, tá?”

Eu sorrio. “Quando é que eu não uso?”

Ele sorri como se já tivesse vencido algo. Como se eu fosse um troféu que ele pode carregar por aí. E eu não sei por que, mas, pela primeira vez em cinco anos, esse pensamento faz meu estômago dar um nó. Como se algo não estivesse certo. Como se, talvez, perfeito não seja a mesma coisa que feliz.

Eu espanto esse pensamento. Porque é ridículo. Minha vida está ótima. Perfeita, na verdade. Nada está prestes a desmoronar. Certo?

As noites de jogo em Westfield parecem menos eventos esportivos e mais feriados de cidade pequena.

Às seis e meia, a casa inteira cheira a laquê e pipoca.

Minha mãe grita lá de baixo que vamos nos atrasar, mesmo que nunca nos atrasemos. Meu pai já está vestindo seu moletom de hóquei de Westfield como se tivesse treinado o time pessoalmente. E eu estou parada na frente do meu espelho, segurando a camisa de Myles como se ela pesasse mais do que deveria.

Branca. Números azuis. ANDERSON nas costas.

Número dez.

Eu usei essa coisa tantas vezes que praticamente conta como um segundo uniforme. Deveria ser confortável. Familiar. Em vez disso, fico encarando por um segundo a mais.

“Você está dissociando por causa de um tecido”, Aria diz da minha cama.

Olho para trás. Ela está espalhada pelo meu edredom, na metade de um pacote de balas, me observando como se eu fosse um reality show.

“O quê?”, eu digo.

“Você está segurando essa camisa há um minuto inteiro. Ou veste logo, ou pede ela em casamento.”

Eu rio pelo nariz. “Cala a boca.”

Aria Bennett: melhor amiga desde o jardim de infância, provocadora profissional, a única pessoa na terra que me confronta sobre literalmente qualquer coisa.

Se eu sou o golden retriever da Westfield High, ela é o gato selvagem.

Delineador preto. Jeans rasgados. Medo zero.

Ela olha para a camisa. “Ainda acho bizarro você ter que se vestir como o merchandising dele.”

“É para apoiar”, eu digo automaticamente.

“É marcação”, ela rebate.

Eu jogo uma meia nela.

Mas a palavra fica. Marcação. Como se eu estivesse fazendo propaganda dele. Como se as pessoas vissem o número antes de me verem.

Eu espanto o pensamento e puxo a camisa pela cabeça de qualquer jeito. Ela passa das minhas coxas cobertas pelo jeans, as mangas longas demais, como sempre. Cheira levemente à colônia dele e sabão em pó.

Pronto. Fantasia de namorada perfeita: completa.

Aria suaviza um pouco quando olha para mim. “Você está bem?”

“Sim. Por que eu não estaria?”

Ela me dá aquele olhar que diz você está animada demais. “Não sei. Você só tem parecido… tensa ultimamente.”

“Estou bem”, eu digo, sorrindo de novo. Automático. Sempre automático. “Vamos logo antes que meu pai mande uma equipe de busca.”

O rinque já está lotado quando chegamos lá. Ar frio. Luzes brilhantes. O barulho dos patins no gelo ecoando pelas paredes. O lugar todo vibra com energia. Azul de Westfield por toda parte. Cartazes. Pintura facial. Dedos de espuma. Parece que estamos dentro de uma lata de refrigerante que alguém acabou de chacoalhar.

Aria e eu nos esprememos na arquibancada dos alunos e, imediatamente, alguém grita: “KY! A NAMORADA DO ANDERSON CHEGOU!”

Algumas pessoas vibram como se eu fizesse parte do time.

Eu aceno sem jeito.

Troféu. Mascote. Namorada. Dá no mesmo.

Os times entram patinando um minuto depois.

Westfield primeiro — todo mundo gritando. Depois os visitantes.

Camisas pretas. Detalhes em vermelho. O número de Peters na frente da fila. Mesmo que você não soubesse quem ele era, você saberia.

Colsten Peters não entra no gelo como todo mundo. Ele é o dono do lugar. Alto. Ombros largos. Cabelo escuro saindo debaixo do capacete. Ele se move como se nem estivesse se esforçando e ainda assim é mais rápido que todos. Sem esforço. Irritantemente sem esforço.

Ele toca os tacos com seu time, o maxilar firme, olhos atentos. E então — ele sorri. Direto para a nossa seção. Como se soubesse de algo que nós não sabemos.

Aff.

Eu cruzo os braços. “Meu Deus, ele parece tão convencido.”

Aria se inclina para frente. “Aquele é o capitão rival, né?”

“Infelizmente.”

“Não vou mentir”, ela diz, semicerrando os olhos, “ele é meio…”

“Nem começa”, eu aviso.

Ela sorri. “—gato.”

“Aria.”

“O quê? Eu tenho olhos. Ele tem cara de quem arruinaria a vida de alguém de um jeito divertido.”

Eu dou um empurrão no ombro dela, mas um calor sobe pelo meu pescoço sem motivo nenhum. Não importa. Eu o odeio. Por associação. Sempre odiei.

O jogo é brutal.

Rápido. Barulhento. Com colisões fortes o suficiente para fazer o vidro tremer.

Toda vez que Myles marca, a torcida vai ao delírio. Toda vez que Peters rouba o disco, a seção dos visitantes explode.

No terceiro período, o jogo está empatado.

E Myles parece… frustrado. Não focado. Frustrado. Ele continua olhando para Peters como se isso fosse pessoal. Como se vencer não fosse o bastante — ele precisa que Cole perca.

Então, faltando trinta segundos —

Disparada.

Peters. Ele desce pelo gelo. Um chute limpo.

Gol.

O lado deles explode. O nosso fica em silêncio absoluto, exceto pelo brilho vermelho terrível do placar.

Westfield: 3 Ridgeview: 4

Fim de jogo.

“Não acredito”, Aria resmunga.

Sinto um frio no estômago.

Eu odeio perder. E odeio mais ainda o fato de ele parecer feliz com isso.

Depois da fila de cumprimentos, o clima fica tenso rápido. Jogadores murmurando. Empurrões. Tacos batendo no gelo com mais força do que o necessário.

Estou debruçada no parapeito quando acontece.

Myles e Cole param um na frente do outro. Perto demais. Conversando. Definitivamente não é algo amigável. Mesmo daqui, consigo ver o maxilar de Myles contraído. Cole apenas parece divertido. Como se aquilo fosse engraçado.

Ele diz algo que não consigo ouvir. Myles retruca na hora. Então Cole ri. Ri de verdade. Lento. Convencido. Irritante.

Ele patina de costas e grita, alto o suficiente para metade do rinque ouvir —

“Dá uma olhada no placar, Anderson.”

Alguns de seus companheiros de time gritam. Myles parece que vai socá-lo.

Sinto aquela raiva antiga e automática subir.

Meu Deus, eu o odeio. Um idiota tão arrogante.

Então — os olhos de Cole sobem.

Para as arquibancadas. Para mim. E eles param. Como se ele tivesse notado algo inesperado. Não foi um olhar rápido. Não foi uma varredura. Foi uma parada total.

O olhar dele percorre meu corpo — a camisa, o número, meu rosto — lenta e deliberadamente. Como se ele estivesse realmente me vendo. Não como a namorada do Myles. Não como a capitã das líderes de torcida.

Eu.

Prendo a respiração.

É estranho. Perturbador.

Ninguém nunca olha para mim assim. Como se eu fosse uma pergunta para a qual ele quer a resposta. Ele inclina a cabeça levemente. Quase curioso. Então — o menor dos sorrisos de lado.

Nada maldoso. Sem deboche.

Outra coisa.

Algo que faz meu estômago dar voltas de um jeito que eu me recuso terminantemente a analisar.

Aria se inclina para mim. “Ei… o capitão rival está totalmente encarando você.”

“Ele não está.”

“Ele está, sim.”

Eu desvio o olhar primeiro. Porque é óbvio. Porque é nojento. Porque ele é o inimigo. Porque eu o odeio. Não é?

Ainda assim… ao sair do rinque mais tarde, não consigo explicar por que parece que algo mudou esta noite. Como se uma rachadura tivesse acabado de se formar em um lugar que eu nem sabia que existia. Como se o universo tivesse movido, em silêncio, uma peça no tabuleiro e eu nem tivesse percebido.

Ainda não.

Quando chego em casa, a casa está silenciosa, com aquele peso de fim de noite que faz tudo parecer menor.

Papai está dormindo na poltrona com a ESPN ainda murmurando. Mamãe deixou a luz da cozinha acesa para mim, como sempre.

Esquento a sobra de macarrão no micro-ondas, coloco uma calça de moletom e me sento de pernas cruzadas na cama com o laptop aberto, dividida entre a lição de cálculo e o jogo que repriso na cabeça.

A derrota. O rosto de Myles. Cole rindo.

Meu Deus, como ele foi insuportável.

Aquele sorriso estúpido.

O jeito que ele olhou para mim depois — eu balanço a cabeça e rabisco mais um exercício.

Por que estou pensando nele?

Meu celular vibra.

Myles ❤️

Eu sorrio automaticamente e atendo no segundo toque.

“Oi.”

“Oi, você”, ele diz, com a voz calorosa e leve. “Já está com saudade?”

“Com certeza. Estou arrasada, na verdade.”

Ele ri. Lá está — o ritmo familiar. Confortável. Ensaido. Seguro.

“Chegou bem em casa?”, ele pergunta.

“Sim. E você?”

“O treinador nos segurou até tarde. Análise de vídeo. Uma tortura. O de sempre.”

Coloco o cabelo atrás da orelha e encaro a equação resolvida pela metade à minha frente.

“Então… sobre o que vocês estavam discutindo?”, pergunto.

“Quem?”

“No rinque. Você e o Peters. Parecia meio intenso.”

Há uma pausa. Curta. Mas notável.

Então ele ri. “Sério? Não foi nada, Ky.”

“Não pareceu nada.”

“É só o Peters sendo o Peters. provocações. O cara se acha hilário.”

“Ah.”

“Não me diga que você está defendendo ele agora”, ele brinca levemente.

“Não. Meu Deus. Eu só… pareceu pessoal.”

“Com ele é sempre pessoal”, Myles diz, agora mais ríspido. “Ele é um idiota. Não gaste energia com ele.”

Algo no jeito que ele diz isso me faz sentir estúpida por ter perguntado.

Então eu deixo para lá. “É. Você tem razão.”

Apago o pensamento como se nunca tivesse acontecido. Como sempre faço. Há um momento de silêncio, então o tom dele muda — mais suave.

“Então… meus pais vão sair amanhã à noite.”

“É?”

“Jantar de aniversário. Eles não vão chegar cedo.”

Meu estômago dá um solavanco estranho. Eu sei onde isso vai dar antes mesmo de ele falar.

“Você deveria vir aqui”, ele acrescenta. Casual. Casual demais. “Poderíamos finalmente, sabe… curtir um tempo sem todo mundo por perto pela primeira vez.”

“Ah.”

Encaro o cursor piscando no laptop. Meu pulso de repente parece alto demais.

“Faz uma eternidade que não ficamos a sós”, ele continua. “Só nós dois. Sem hora para voltar. Sem amigos. Sem distrações.”

A voz dele baixa um pouco. Sugestiva.

Minhas bochechas esquentam. “Myles…”

“O que foi?”, ele diz gentilmente. “Seria legal.”

Fico puxando um fio da minha manga.

Ele não está sendo maldoso. Ele nunca é. É isso que torna difícil.

“Eu só… não sei”, digo baixinho.

“Não sabe o quê?”

“Eu não estou pronta.”

Silêncio. Não de raiva. Apenas… confuso.

“Ky”, ele diz, mais suave agora, como se explicasse algo óbvio, “estamos juntos há cinco anos.”

“Eu sei.”

“Eu te amo.”

“Eu sei disso também.”

“Você me ama.”

“Amo.”

“Então qual é o problema?”

E lá está. Não é exatamente uma pressão. É só lógica. Como se estivéssemos resolvendo uma equação. Como se fosse matemática. Como se a resposta devesse ser simples. Cinco anos + amor = próximo passo.

Meu cérebro começa a fazer o que sempre faz.

Ele tem razão. Faz sentido. As pessoas esperam isso. Nós somos basicamente o casal perfeito. Não é apenas… o que acontece? Uma caixa para marcar? Mais um marco? Como o baile. A formatura. As inscrições para a faculdade.

Mas algo aperta no meu peito.

Porque quando imagino isso, não parece romântico. Parece uma performance. Como se estivesse provando algo. Como se eu estivesse entregando um troféu em vez de um pedaço de mim mesma. E não sei como explicar isso sem parecer ridícula.

“Eu só…” engulo em seco. “Não quero que pareça algo que somos obrigados a fazer.”

“O que isso significa?”

“Não sei. Eu só queria que parecesse… certo. Não agendado.”

Ele solta o ar, quieto, mas frustrado. “Eu não estou agendando você, Kylie.”

“Eu sei. Eu só… talvez possamos comer algo em vez disso? Ou ver um filme? Só passar um tempo juntos?”

Outra pausa. Mais longa desta vez.

“É”, ele diz finalmente. “Talvez. Mas talvez eu tenha uma aula de reforço amanhã à noite. Esqueci.”

“Ah. Com quem?”

“Só… alguém de química”, ele diz rapidamente. “Não é nada. O treinador quer que nossas notas subam.”

“Ah. Tudo bem.”

Ele nunca diz nomes. Na verdade, nunca disse. Não sei por que isso subitamente me incomoda hoje à noite.

Não deveria. Ele sempre ajuda as pessoas. Esse é o Myles. Perfeito. Responsável. Confiável. Eu estou sendo estranha.

“Fica para outra vez, então?”, ele diz.

“É”, forço um sorriso que ele não pode ver. “Fica para outra vez.”

Dizemos boa noite. Coloco o celular de lado. O quarto parece silencioso demais de novo. Parado demais.

Encaro meu reflexo na tela escura do laptop. Cabelo bagunçado. Rímel borrado. A camisa enorme dobrada na minha cadeira, de mais cedo.

Eu deveria me sentir sortuda. Todos dizem que sou sortuda. Namorado perfeito. Vida perfeita. Então, por que parece que eu acabei de reprovar em algum tipo de teste? Como se eu tivesse dado a resposta errada? Como se o amor não devesse ser sobre convencer a si mesma?

Fecho o laptop e apago a luz. Mas, quando deito na cama, meu cérebro não para de funcionar. E por alguma razão — completamente do nada — penso no rinque.

Sobre o jeito que Cole Peters olhou para mim como se eu não estivesse decidida. Como se eu não fosse propriedade de alguém. Como se eu fosse algo que ele ainda não tinha decifrado. Como se eu fosse… interessante.

É estúpido.

Eu me viro e enterro o rosto no travesseiro.

Eu o odeio. É claro.

Ainda assim. O sono demora muito mais para chegar do que deveria.