Capítulo 1
James
James Harrington chegou ao escritório pouco antes das oito.
Ele preferia o prédio antes de ficar cheio — antes que as conversas começassem a se repetir e as pessoas começassem a fazer perguntas cujas respostas já sabiam. Ele caminhou direto para sua sala, tirando o paletó enquanto destrancava a porta, com o celular pressionado contra o ouvido.
“Sim”, disse ele. “Passe a ligação de Zurique para amanhã. Quero os números revisados antes de falarmos novamente.”
Ele encerrou a ligação assim que entrou.
Claire já estava lá.
Ela estava ao lado da mesa dele, com o tablet na mão e o café posicionado exatamente onde sempre ficava. Claire era sua assistente há quase seis anos. Eficiente, calma e atualmente grávida de três meses — um fato que ela levava com a mesma competência silenciosa que aplicava em tudo o resto.
“Bom dia”, disse ela. “Você chegou cedo.”
“Não consegui dormir”, respondeu James, afrouxando a gravata. “O que temos primeiro?”
Ela deu uma olhada em seu tablet. “Documentos do conselho às nove. Jurídico às onze. E o RH agendou a entrevista interna que você pediu.”
Ele pausou. “Hoje?”
“Sim. Dez e meia.”
“Ótimo.”
“Elena Moreno”, acrescentou Claire. “Operações. Analista júnior.”
James assentiu. “Já a vi em reuniões.”
“O feedback sobre ela é sempre muito bom”, disse Claire. “Não é exibida. É bem constante.”
Ele pegou seu café. “Isso geralmente conta mais.”
Claire sorriu discretamente. “Imaginei que diria isso.”
Ela tocou na tela. “Só para deixar claro — vou trabalhar junto com ela por alguns meses, se você aprovar a contratação. Ela será uma assistente executiva júnior e, se for capaz, poderá assumir o meu cargo.”
“Essa é a ideia”, disse James. “Não quero deixar uma lacuna.”
“Eu também não”, disse Claire. “E ela parece... sensata.”
James emitiu um som concordando vagamente. “Vamos ver.”
Elena
O convite para a entrevista apareceu na caixa de entrada de Elena logo após as oito.
RH – Entrevista Interna 14º Andar, Sala de Reuniões C
Ela terminou o relatório em que estava trabalhando antes de fechar seu notebook. Não havia motivo para pressa. A reunião tinha sido marcada ontem — ela tinha se candidatado à vaga sabendo que o processo seria rápido —, mas ainda assim sentia um frio na barriga.
O décimo quarto andar era mais silencioso que os andares de baixo. Quando Elena entrou na sala de reuniões, Margaret, do RH, já estava lá, organizando alguns papéis na mesa.
“Bom dia, Elena”, disse Margaret. “Obrigada por vir.”
“Bom dia”, respondeu Elena. “De nada.”
Elas sentaram-se uma de frente para a outra. Margaret deu uma olhada em seu tablet.
“Como você sabe, esta é uma promoção interna”, disse ela. “Cargo de assistente executiva, apoiando a liderança sênior no departamento de desenvolvimento de negócios e estratégia.”
“Sim.”
“Principalmente dando suporte a James Harrington, nosso Diretor de Estratégia.”
Elena assentiu. “Entendo.”
Margaret recostou-se um pouco na cadeira. “Você está no seu cargo atual há algum tempo. O que a fez se candidatar agora?”
Elena pensou na resposta, escolhendo ser honesta em vez de dar uma resposta ensaiada.
“Aprendi muito na minha posição atual”, disse ela. “Sinto-me confortável com o trabalho e estou pronta para mais responsabilidades. Este cargo parece ser o próximo passo natural.”
Margaret sorriu levemente. “Seu gerente concorda. Suas avaliações de desempenho têm sido sempre muito boas.”
“Fico feliz em saber disso.”
“Esta posição exige um alto nível de discrição”, continuou Margaret. “Você terá acesso a informações que não são compartilhadas com todos.”
“Entendo a responsabilidade.”
“E pode ser exigente”, acrescentou Margaret. “Longas horas, prioridades que mudam.”
Elena assentiu. “Estou preparada para isso.”
Margaret fechou a pasta. “James pediu para conhecê-la antes de tomarmos uma decisão final. Ele está disponível agora.”
“Certo”, disse Elena. “Obrigada.”
O escritório de James Harrington ficava no final do corredor executivo e consistia em um conjunto de salas para vários assistentes. Margaret bateu uma vez e entrou.
“James”, disse ela. “Esta é a Elena Moreno.”
Ele estava ao telefone, parado perto de sua mesa.
“Eu te ligo de volta”, disse ele, encerrando a chamada antes de se virar para elas.
Elena já o tinha visto em reuniões antes — sempre composto, sempre focado. De perto, ele parecia exatamente igual.
“Obrigado por vir”, disse ele. “Por favor, sente-se.”
Elena sentou-se.
Margaret deu um aceno educado e as deixou a sós.
James sentou-se na cadeira atrás da mesa. “Soube que você se candidatou ao cargo de assistente executiva.”
“Sim.”
“Você está atualmente em operações.”
“Sim.”
“Você está na empresa há três anos.”
“Exatamente.”
Ele deu uma olhada na tela à sua frente. “Seu gerente fala muito bem de você.”
“Agradeço por isso.”
“Este cargo exige confiança”, disse James. “Você estará envolvida em discussões de planejamento, agendamentos em nível sênior e lidará com informações confidenciais.”
“Sinto-me confortável com essa responsabilidade.”
Ele a observou por um momento e depois assentiu.
“Notei que você não fala muito nas reuniões”, disse ele. “Mas quando fala, costuma ser direto ao ponto.”
Elena sorriu levemente. “Tento ficar atenta a quando minha opinião é útil.”
“Esse é um bom instinto”, disse ele. “Este cargo tem menos a ver com visibilidade e mais com consistência.”
“Entendo.”
“Você lidará com pessoas que estão sob pressão”, continuou ele. “Inclusive eu.”
“Estou acostumada com esse ambiente.”
James permitiu-se um breve sorriso. “Bom. Porque eu nem sempre diminuo o ritmo.”
“Eu consigo acompanhar”, disse Elena, com firmeza.
Ele recostou-se na cadeira. “Se o RH concluir suas verificações, não vejo motivo para não prosseguirmos.”
Um alívio surgiu, silencioso, mas constante.
“Obrigada”, disse Elena. “Agradeço a oportunidade.”
James assentiu. “Entraremos em contato em breve.”
Ao sair do escritório, Elena sentiu-se centrada em vez de eufórica. Ela não precisou provar nada — simplesmente apareceu sendo ela mesma. Sentiu um orgulho crescer dentro dela; ela era boa o suficiente e isso tinha sido notado.