(1) Reed aposta alto.
Ponto de vista do Reed:
Eu arrisquei tudo e, como sempre, perdi.
Eu tenho o pior azar do mundo — não, isso é mentira. Azar dá a entender que a culpa não foi minha. Eu fui quem apostou cada centavo que meus tios me deram em um único jogo de futebol. Eu fui quem assistiu àquela bola escapar das mãos do jogador no último segundo e sentiu o estômago despencar até o chão. Agora, parado do lado de fora desta clínica de pesquisa na cidade, encaro meu telefone como se ele fosse me dizer que tudo não passou de uma brincadeira.
Cada centavo. Foi tudo embora.
Respirei fundo e enfiei o telefone no bolso da calça. *Quantas vezes você vai fazer isso, Reed? Quantas vezes você vai pular sem olhar e se perguntar por que a queda doeu tanto?* Talvez esteja no meu sangue. Meu DNA é como uma mola estragada, me fazendo desejar o risco mesmo quando é estupidez. Agora nem tenho dinheiro para a gasolina para sair da cidade. Vou ter que voltar para casa com o rabo entre as pernas e dizer à minha família que sou um fracassado.
De novo.
Passei a mão pelo lado direito do rosto, sentindo o relevo familiar das cicatrizes, e abri a porta da clínica.
*Uau.*
Estou acostumado com as pessoas me olhando. Desde o incêndio, quando eu tinha quinze anos, virei um acidente ambulante. As pessoas recuam, às vezes sussurram, ou encaram por tempo demais a pele repuxada e a parte onde o cabelo não cresce mais. Quando estou trabalhando com encanamento com meu tio, consigo ignorar. Sou apenas um cara trabalhando num espaço apertado.
Mas ninguém nunca me olhou como aquele homem estava olhando.
Fiquei paralisado dentro das portas de vidro da United Hematology and Research Labs. Um estranho alto estava parado perto da recepção e ele virou a cabeça devagar — bem devagar, como se estivesse se movendo através de piche fresco. Seus olhos travaram nos meus. Ele não desviou o olhar e não pareceu sentir pena de mim. Era algo mais intenso.
Admiração?
Pisquei, sentindo-me um completo idiota por estar bloqueando a entrada. Entrei, com as luzes fluorescentes ferindo meus olhos. O lugar cheirava a limpador de limão, tentando disfarçar o cheiro de filtros de ar velhos. Passei por um ficus de plástico, puxando minha camisa xadrez como se pudesse esconder minhas cicatrizes.
O saguão estava cheio de gente provavelmente tão desesperada quanto eu. O grupo se amontoava em cadeiras de plástico, todos digitando em seus telefones, com os rostos iluminados pela luz azul das telas. Eles olharam para minhas cicatrizes e depois se viraram educadamente.
Mas o Sr. Gostosão não.
Ele estava ali, vestindo um terno preto de três peças que provavelmente custava mais do que meu trailer inteiro. Esse cara parecia ter acabado de sair da capa de uma revista de moda, não de uma clínica para gente que está passando aperto. Ele tinha esmalte preto brilhante nas unhas e um delineador que fazia seus olhos escuros parecerem profundos o suficiente para alguém se afogar neles. Nunca fui fã de maquiagem em homem, mas nele ficou muito gostoso.
Disse a mim mesmo que não havia mal nenhum em admirar um colírio para os olhos. Meu tio sempre diz que a gente pode olhar os carros no showroom, mesmo que não possa levá-los para dar uma volta. Mas, meu Deus, como eu queria levar este para *dar uma volta*. Eu casaria com um homem como aquele e passaria o resto da minha vida foder com vontade naquele bumbum lindo em uma daquelas camas caras com dossel.
“Você não pode entrar na área de pesquisa.”
A voz da recepcionista cortou meu devaneio como uma serra elétrica. Ela era uma loira bonita chamada Rosa, mas seu sorriso parecia sustentado por fios invisíveis.
“Por favor, saia”, disse ela, com o tom ficando mais afiado. “*Senhor.*”
O jeito que ela cuspiu essa palavra fez os pelos do meu pescoço se arrepiarem. Agora, ela não parecia mais tão doce. Ela estava alerta. Quase perigosa.
Não tinha certeza do porquê de ter pensado isso.
Meu instinto dizia para eu dar meia-volta, entrar na minha picape e dirigir. Mas eu não estava ali por causa dela ou do homem com aquela bunda que não passava despercebida. Eu estava ali pelo meu irmão caçula. Sou um apostador, é verdade, mas não ia apostar contra o meu próprio sangue. Eu estava ali para implorar por um milagre.
O Sr. Gostosão assentiu, seus lábios se curvando num franzido. Ele ajeitou o cabelo preto ondulado, me deu uma última olhada com aqueles olhos castanhos incríveis e saiu caminhando pela porta.
Dei uma última olhada cheia de desejo para aquele traseiro quente.
O ar ficou pesado depois que ele saiu, como o céu pouco antes de um raio cair.
“Posso ajudar?” perguntou Rosa. A voz dela estava brilhante e animada de novo, como se não estivesse acabando de sibilar para um estranho. Muito bizarro.
“Sim”, eu disse, aproximando-me. “Estou aqui para uma consulta. Reed Jaco.”
Ela digitou algo e então seu sorriso vacilou.
“Sinto muito. A Dra. Jenna não está.” Ela suspirou, parecendo muito mais chateada com isso do que uma recepcionista normal deveria estar.
Meu peito apertou. Era apenas mais uma derrota em um dia cheio delas. Uma vez perdi o dinheiro do aluguel em uma única mão de pôquer, e sobrevivi. Eu aguentaria isso também.
“Posso remarcar?”
“Por favor, coloque seu dedo aqui.” Ela colocou um tubo cinza no balcão.
“Por quê?”
“Precisamos de uma amostra de sangue para acompanhar suas informações. Não posso ligar para você sem ela.”
Fiz uma careta. Nunca ouvi falar de uma clínica que precisasse de sangue para fazer uma ligação, mas minha cabeça estava girando com pensamentos sobre meu irmão, então enfiei o dedo ali. Uma picada rápida me fez franzir o cenho, e puxei a mão de volta, levando o dedo à boca para parar o sangramento.
“Tudo pronto”, disse ela, com os olhos brilhando. “Ligaremos para você em breve. Mal posso esperar.”
Aquele arrepio de filme de terror subiu pela minha espinha de novo. Soltei um “*Ok...*” bem lento e fui em direção à saída.
O ar fresco da noite foi bom. O sol estava se pondo, pintando o céu de dourado e rosa. Eu tinha acabado de sair quando uma voz veio da minha esquerda.
“Posso acompanhá-lo?”
Virei a cabeça rapidamente. O Sr. Gostosão do saguão estava encostado na parede de tijolos como se estivesse me esperando. Que porra é essa?
“Eu te assustei?”
“Eu te assustei?” repeti, rindo baixinho. “Amigo, olha para mim.” Apontei para meu rosto parcialmente queimado. “Eu sou o assustador aqui.”
O homem soltou uma risada profunda e suave, como veludo.
“Ora, ora. Você é algo especial.”
“*Bem*, você é uma figura.” Eu sabia quando alguém era demais. Dez contos que esse cara era um exagero.
A risada do estranho era entrelaçada com doçura e fumaça. Seus olhos, escuros como chocolate derretido, sem fundo sob o delineador, ardiam de diversão, de foco, de... interesse sexual? É, era isso, mas o Sr. Gostosão não estava vendo meu rosto? Eu nunca fui o tipo de atrair o olhar de um homem.
“Posso acompanhá-lo?” perguntou o estranho de novo, fazendo uma reverência.
Sério? Uma reverência?
“Me acompanhar?”
“Acompanhá-lo até seu veículo. Para garantir sua segurança.”
Minha segurança? Pisquei. Tenho um metro e oitenta e corpo de quem carrega canos pesados para viver. Eu não era exatamente uma velhinha carregando compras. O estacionamento estava silencioso, filas organizadas de carros sob o céu que escurecia. Nenhum problema à vista. Nem um gato de rua rondando.
“Sou o Irmão Addison”, disse o estranho suavemente, com dedos longos ajustando seu casaco. Uma pulseira de ouro grossa apareceu sob a manga. Aposto que aquilo custou uma fortuna. “Da ordem sagrada de Lex Sanguis. Seria uma honra acompanhá-lo.”
“*Certo.*” Eu encarei. “Acompanhar até minha picape?”
“Sim.” Addison assentiu. “Gostaria de ser cavalheiro e galante.”
“Galante?” Meus instintos mandaram eu dizer não. Isso era estranho. E quem diabos usava a palavra galante?
Mas aquele apostador dentro de mim? Eu queria ver onde isso ia dar. Meu pulso disparou como dados rolando sobre uma mesa. Inclinei-me para frente, perseguindo a adrenalina. Eu queria ver o que aconteceria se eu dissesse sim.
“Seria uma honra acompanhá-lo.” O estranho sorriu, revelando dentes perfeitamente brancos.
“Você pode vir comigo.”
*Bem, inferno*, as palavras saíram antes que eu pudesse impedi-las. Meu coração batia forte contra as costelas, me dando aquela mesma descarga que sinto nas pistas de corrida. Era oficial. O lado apostador estava mesmo no meu sangue.
Era um risco. Eu senti isso até nos dedos dos pés.
Addison estendeu a mão, e eu a segurei.