Capítulo 1
Eu achava que conhecia cada centímetro desse lugar, pensei, franzindo a testa enquanto dava zoom na foto do horário no celular, como se isso fosse me dizer magicamente onde ficava a aula de Governo Americano. Sala 302B.
Prédio certo? Tudo certo.
Terceiro andar? Tudo certo.
Olhei para os números pretos e pequenos acima das portas das duas salas de canto à minha frente: 302 à esquerda e 304 à direita. A 303 ficava do outro lado do corredor. Então, onde diabos está a 302B?
— Está procurando Economia?
— Sim! — Sorri, agradecida, para o professor que se aproximou, um senhor de uns 60 e poucos anos que parecia o avô carinhoso de alguém. — Por algum motivo, não consigo achar essa sala.
— Pois é, isso confunde todo mundo — ele riu. Apontou para o corredor curto entre as duas salas. — Está vendo aquela placa lá na frente que diz “Acesso Restrito”? Bem à esquerda daquela porta, e sei que é difícil ver daqui, fica a 302B.
— Nossa, eu nunca teria encontrado!
— Tecnicamente, é a sala 302 dividida em duas partes. Esse corredor leva até a outra seção sem precisar passar pela sala da frente e atrapalhar a aula. Eu tinha colocado uma placa aqui na parede mostrando o caminho, não sei onde foi parar.
— Ah, tá, faz sentido. Bom, obrigada… — Olhei para o crachá pendurado no cordão no pescoço dele. — Sr. Cline.
— De nada, e até segunda-feira.
Claro que ele era o professor. Ri baixinho enquanto marcava mentalmente essa da lista de salas “encontradas”. Eu até que estava com um pé atrás com a aula, mas talvez ele a tornasse suportável.
Só faltava mais uma aula para caçar agora: Francês 4. Depois, podia ir atrás da Rachael e do Adam.
Hoje era a quarta-feira antes do início das aulas, último ano do ensino médio, e eu estava mergulhada na aventura de navegar pela matrícula. Sei que pode parecer bobo, mas eu curto isso todo ano — começar no refeitório para ouvir o diretor Avery dar o mesmo discurso de boas-vindas de sempre; arrumar o armário do jeito certo; comparar horários com os amigos; e o caos geral de centenas de alunos e pais lotando os corredores para descobrir onde ficam as salas. Talvez até conhecer os professores que aparecem. Todo esse ritual me ajuda a voltar para a cabeça de estudante depois de 12 semanas gloriosas de verão. Esse ano, em especial, tinha um gostinho agridoce, já que seria o meu último no Westbrook High.
Voltando à correria, fui abrindo caminho no meio da multidão. Havia uma saída no fim do corredor que levava para as escadas externas e, de lá, eu chegaria ao prédio de artes. Já estava começando a suar um pouco com tanto calor humano ao redor e morria de vontade de prender meu cabelo cacheado e volumoso, mas as fotos do último ano estavam marcadas para daqui a pouco, e eu não podia arriscar o frizz de mexer nele.
Quando avistei a porta de saída logo à frente, respirei fundo e avancei. Não sei se foi de propósito ou sem querer, mas alguém me empurrou por trás, me fazendo ir para frente, e meu ombro bateu com força na pessoa à minha esquerda, que vinha no sentido contrário.
— Ai! — soltei, assustada. Quando olhei para cima, meu coração deu uma cambalhota. Na minha frente estava o garoto mais lindo que eu tinha visto em muito tempo.
Ele segurou meu braço rápido para me impedir de tropeçar e levar nós dois ao chão, e me vi olhando dentro daqueles olhos castanhos hipnotizantes. Pisquei, surpresa com o arrepio elétrico que percorreu meu corpo ao toque dele, e me perguntei se ele também tinha sentido.
— Cuidado — ele disse baixinho, com um sorrisinho nos lábios. A voz dele era grave e rouca.
— D-desculpa! — gaguejei, tentando me recompor.
— Tudo certo. — E ele continuou andando.
O encontro todo durou segundos, mas pareceu que o tempo parou por um instante, por mais clichê que isso soe. Havia algo vagamente familiar nele, mas eu não conseguia identificar o quê. Olhei por cima do ombro bem a tempo de vê-lo olhando para mim também, antes de perdê-lo de vista na multidão.
Por um segundo, pensei em dar meia-volta, mas o bom senso prevaleceu. Seria quase impossível encontrá-lo agora, e eu não queria me atrasar para encontrar o Adam e a Rachael. Empurrando a porta de saída e descendo as escadas apressada, só podia torcer para vê-lo de novo.
— Você vai usar isso!?
Rachael Gutierrez, minha alma gêmea, me olhou de cima a baixo quando a encontrei no refeitório um pouco depois. A gente se conhece desde a quinta série e, desde então, é praticamente unha e carne.
Ao ouvir o comentário, dei uma olhada nela. No estilo aspirante-a-escola-de-arte, ela usava uma calça harém preta, sandálias gladiadoras, uma blusa vermelha solta que caía estrategicamente de um ombro, e o cabelo castanho-avermelhado, quase na cintura, preso num penteado elaborado com dois hashis enfeitados. Alta, curvilínea e linda de morrer.
Depois, olhei para mim mesma: jeans rasgado vintage, camiseta dos Ramones e All Stars brancas. Não via nada de errado no que estava vestindo. Respirei fundo, pronta para rebater, mas a Rachael levantou a mão.
— Não quero saber das suas desculpas — ela foi direta. — Hoje é o Dia das Fotos do Terceirão.
— Informal — corrigi, adorando a ideia das fotos espontâneas, que eu poderia distribuir para os amigos e usar no convite de formatura, muito mais do que a foto oficial do anuário, que exigiria aquele drapeado preto horroroso.
Rachael fez um som de desdém com a boca. — Informal, formal, tanto faz. Olha, não espero que você seja igual a mim, tá? Mas, meu Deus, custava fingir que se importa, nem que fosse um pouquinho?
— Mas eu não me importo. Nem um pouquinho. — Fiz uma pausa. — Bom, talvez um pouquinho, eu passei maquiagem.
Olhei ao redor do ginásio, sem me abalar com o sermão da Rachael. Adorava que a gente tinha uma relação em que podíamos ser sinceras uma com a outra sem magoar, na maioria das vezes. Ela era como uma irmã para mim.
— E aí, cadê o Raymond? — perguntei, olhando em volta.
— Aqui não tem menino, só homem!
Ao me virar com um sorriso, dei de cara com os olhos verdes cintilantes do Adam. Ele riu e me puxou para um abraço de um braço só, deixando-o cair casualmente sobre meus ombros. Com a mão livre, fez um soco de brincadeira no ombro da Rachael. Ela fez beicinho e o cutucou.
— Por que a Gia ganha abraço e eu levo soco?
— Carinho, amor, carinho — Adam me soltou e passou a mão pelo cabelo castanho já bagunçado. Levantou o queixo, curioso. — Vocês viram meu irmão? Saí de casa antes dele, mas ele já devia estar aqui.
O Adam entrou para o nosso grupinho no início do segundo ano. A Rachael e eu não pudemos deixar de notar o garoto magrelo com espinhas que se enfiava nas filas de matrícula, contando piadas para quem passasse e fazendo todo mundo rir, mesmo sem querer. Quando ele finalmente veio falar com a gente, acho que causamos uma boa impressão, porque ele não saiu mais do nosso pé. Três anos depois, o Adam estava com 1,85 m, todo musculoso, com a pele linda e um sorriso charmoso que combinava com as piadas. Também era gente boa de verdade e todo mundo gostava dele. Não era à toa que as garotas se jogavam em cima dele o tempo todo, mas ele nem ligava. Relacionamentos davam muito trabalho, na opinião dele.
Rachael balançou a cabeça e colocou um chiclete de menta na boca. Na mesma hora, tirou outro do pacote, desembrulhou e estendeu para o Adam, que o pegou com os dentes. Esse era o ritual diário deles fazia meses.
— Nem saberíamos como ele é, já que nunca o vimos antes — ela comentou. — Mas não deve ser difícil de achar, né?
— Não tire conclusões precipitadas — ele balançou o dedo para ela. — Só porque somos gêmeos não quer dizer que somos idênticos.
— Principalmente se forem gêmeos fraternos — completei, e o Adam assentiu, satisfeito.
— Você acertou, jovem padawan, somos.
— Ei — franzi a testa. — Por que a gente só está conhecendo seu irmão depois de três anos?
— Cara, você sabia que ele não morava comigo…
— Tá, mas nunca ter conhecido ele até agora? — Pensei nas fotos pela casa do Adam, e a única que me lembrava de ter visto era dos dois com uns 11 ou 12 anos, talvez menos. Nunca teria ligado o Adam ao garoto da foto, muito menos ao irmão que eu nunca tinha visto.
Adam deu de ombros.
— Não vejo qual é o problema. Ele não é tão interessante quanto eu, de qualquer forma.
Na minha cabeça, o irmão do Adam sempre foi uma espécie de criatura mítica. Pouco se falava do Ethan, a não ser que, quando os pais deles se separaram no verão depois do primeiro ano, o Adam veio morar em Westbrook com a mãe, e ele escolheu ficar com o pai em Hartfield, duas cidades adiante. Ele aparentemente tinha se mudado para Westbrook no fim de semana passado, para o último ano.
— Ah, lá está ele. — Adam se esticou todo e levou o polegar e o dedo médio da mão esquerda à boca, soltando um assobio estridente. — Vem aqui, seu filho da puta!
Rachael me lançou um olhar rápido, as sobrancelhas erguidas. Balancei a cabeça e ri. Típico do Adam. Olhei na direção em que ele estava e congelei.
— Esse é seu irmão?!
Ethan se aproximou do Adam, e eles se cumprimentaram com aquele abraço de “bro” — um encostão rápido com um tapa nas costas — e depois se afastaram, sorrindo. Bom, o Adam sorriu, e o Ethan deu um sorrisinho. Olhei de um para o outro. Os dois tinham o cabelo castanho ondulado e eram altos e musculosos, e dava para ver algumas semelhanças no rosto agora que estavam lado a lado. Mas enquanto a personalidade extrovertida e divertida do Adam transparecia no sorriso caloroso e na simpatia, o Ethan passava uma vibe mais fechada, enigmática, de quem não quer papo. Ele olhou primeiro para a Rachael e depois para mim, e me vi mais uma vez fitando aqueles olhos castanhos hipnóticos que me fizeram tremer mais cedo, no terceiro andar. Meu estômago deu uma reviravolta, e desviei o olhar.
Adam fez as apresentações de forma descontraída. — Ethan, essa é a Rachael e essa é a Gia. — Apontou para cada uma de nós enquanto dizia nossos nomes, cutucando nossa testa de leve com o dedo. Rachael resmungou e deu um tapa na mão dele.
— Oi — Ethan disse baixinho, sem tirar os olhos de mim.
— Oi… de novo.
Adam olhou para mim e depois para o irmão, confuso.
— Vocês dois já se conhecem?
Ethan riu. — Dá para dizer que sim.
— Oi, amor. — Uma morena baixinha de vestido longo azul-claro apareceu do lado do Ethan, se encostando no ombro dele. Olhou para ele com um sorrisinho íntimo. Senti uma pontada de decepção e ciúme, mas disfarcei. Olhei de relance para o Ethan, tentando ver a reação dele. Ele não demonstrou nada, só ergueu a sobrancelha para ela em cumprimento antes de voltar a atenção para o irmão, a Rachael e eu. Ela pareceu satisfeita e nos olhou com certo desdém.
— Oi. Eu sou a Dinette. — Ela disse isso de forma vaga, sem direcionar para ninguém em particular. Depois, o olhar dela pousou em mim, e os olhos se arregalaram de leve, surpresa.
— Ouvi dizer que hoje é dia de foto. É isso que você vai usar?
Adam caiu na gargalhada, e a Rachael se virou para mim com uma cara de “eu avisei!”. Eu estava fervendo por dentro, mas respondi só com uma risada despretensiosa. Ethan não disse nada, mas, quando dei mais uma espiada nele, ele ainda me observava, com a cabeça ligeiramente inclinada e aquele sorrisinho no rosto. Encontrei o olhar dele por um instante e pigarreei, nervosa, desviando os olhos. Ele riu baixinho.
— Vamos — ele disse de repente para a Dinette, e para nós: — A gente ainda tem uma aula para achar e depois vamos tirar as fotos. Até mais. — Dinette acenou de leve e, depois de lançar mais um olhar para o meu jeans, seguiu o Ethan, meio sem graça. Poxa, não podia ser mais irritante, né?
Rachael, Adam e eu fomos para o auditório principal tirar as fotos, tagarelando e fofocando o caminho todo. Fiquei feliz com a distração, para não ficar pensando demais no Ethan. Na minha cabeça, não parava de ver o rosto dele, me olhando com curiosidade, quase me atravessando com aquele sorriso torto. Só de pensar nele, algo no meu peito e no estômago se apertava, cheio de expectativa. Nunca tinha sentido isso antes, mas sabia, no fundo, que, por mais louco que parecesse até para mim, ele ia ser alguém importante na minha vida. E isso me assustava um pouco.