Capítulo 1
O grave das caixas de som ainda vibrava no peito de Jack enquanto eles tropeçavam ao sair do banco de trás do Tahoe de Leo. Era uma noite quente de sexta-feira em julho, aquele tipo de ar denso e pesado que grudava na pele e deixava tudo um pouco surreal. Os postes de luz zumbiam, projetando sombras longas e esticadas pelo pavimento da entrada de carros.
"A melhor festa do verão, sem dúvida", declarou Jack, esticando os braços acima da cabeça. Sua voz carregava aquela confiança fácil e ressonante que era natural nele, o tipo de garoto que ganhava troféus só por aparecer. Ele se virou para o carro, inclinando-se para olhar o motorista. "Leo, você é uma lenda por nos tirar de lá antes que a polícia aparecesse."
Leo deu um sorriso de lado, aquele tipo de sorriso predatório e afiado que fazia metade da equipe de natação e toda a equipe de líderes de torcida o seguirem. Ele desligou o motor, mas manteve os faróis acesos, inundando o jardim da frente com uma luz branca e intensa. Ele descansou um braço casualmente sobre o topo do volante, e as mangas de sua camisa polo ajustada esticavam sobre bíceps que eram praticamente esculpidos pela física e pelo cloro.
"Eu sou uma lenda porque sei dirigir, Jack. Algo que você entenderia se tivesse tirado sua carteira", rebateu Leo, com a voz escorrendo aquele charme convencido que lhe era peculiar. Ele deu um toque curto na buzina, um bip agudo que cortou a quietude da noite no subúrbio. "Dá o fora daqui antes que sua mãe comece a olhar pelas cortinas."
"Também te amo, cara", Jack riu, batendo a porta com um pouco de força demais. Ele tropeçou levemente, segurando-se na caixa de correio antes de se virar para a irmã. "Você vem, Cara? Ou está esperando o Leo te colocar na cama?"
Cara revirou os olhos com tanta força que até doeu, um gesto praticado que ela aperfeiçoou ao longo de dezoito anos sendo gêmea de Jack. Ela ajustou a alça de sua bolsa carteiro, sentindo o peso reconfortante contra o quadril.
"Acho que prefiro me afogar na piscina do vizinho a ouvir você tentar ser engraçado por mais um segundo", Cara retrucou, empurrando Jack com uma força que o fez rir. Ela se virou para o carro ligado, segurando a moldura da porta aberta. "Valeu pela carona, Leo. E desculpa pelo Jack. Acho que o cérebro dele está 80% cloro a esta altura."
Leo riu, um som grave e profundo que parecia vibrar por todo o chassi do carro. Ele olhou para além de Jack, seus olhos cruzando com os de Cara. No brilho intenso dos faróis, as pontas azul-petróleo de seu cabelo castanho pareciam faixas vibrantes de neon. "Sem problemas, Cara. Alguém tem que manter esse aqui vivo. Além disso, é divertido ver ele tentando funcionar em terra firme."
Cara ofereceu um sorriso pequeno e genuíno. Apesar da aparência de atleta e do ego que ocupava metade da vizinhança, Leo sempre tinha sido legal com ela. Ele era o irmão que ela nunca pediu, mas que normalmente não se importava em ter por perto, especialmente quando mantinha Jack ocupado.
"Tanto faz", resmungou Jack, fazendo um gesto rude na direção de Leo antes de se virar para a casa. "Vou destruir uma pizza e provavelmente apagar. Não fique acordada a noite toda gritando com seu computador, Cara. Alguns de nós têm treino de verdade de manhã."
"Estragar seu nado de costas não é treino, Jack, é afogamento recreativo", disparou Cara, embora não houvesse raiva real naquilo. Era o ritmo deles. Um ruído de fundo constante de provocações entre irmãos que era a trilha sonora de suas vidas desde que usavam fraldas.
Jack mostrou o dedo do meio para ela novamente sem se virar e tateou as chaves na porta da frente. A luz da varanda acendeu, disparada pelo sensor de movimento, lançando um brilho quente e amarelo sobre o gramado bem cuidado. Era um contraste gritante com o mundo alternativo e iluminado por neon em que Cara frequentemente preferia se refugiar.
"Tchau, Leo", ela gritou, fazendo um aceno desanimado antes de fechar a porta pesada do Tahoe.
Ela subiu o caminho apressada, o cascalho estalando satisfatoriamente sob suas botas. Ela alcançou a porta da frente bem no momento em que Jack a fechava, escorregando para a entrada fresca e climatizada da casa. O cheiro de lustra-móveis de limão e comida de entrega substituiu instantaneamente o ar úmido da noite.
"Jack?", ela chamou, chutando as botas e deixando-as jogadas perto do tapete. Sua mãe daria um chilique por causa da bagunça de manhã, mas agora, Cara só queria subir.
"Na cozinha!", a voz de Jack ecoou de volta, acompanhada pelo som agressivo de um pacote de salgadinhos sendo amassado.
Cara subiu as escadas, a madeira rangendo sob seu peso. Seu quarto era seu santuário, uma divergência caótica da ordem impecável do resto da casa. Pôsteres de bandas indie obscuras e arte conceitual de seus jogos de tiro favoritos cobriam as paredes, sobrepondo-se em uma colagem de cores. Luzes de fada estavam espalhadas de qualquer jeito pelo teto, emitindo um brilho quente e ambiente que era perfeito para sessões de desenho tarde da noite.
Ela jogou a bolsa carteiro sobre a mesa, com o som do seu tablet e de uma coleção de canetas tilintando. Ela soltou um longo suspiro, balançando o cabelo, sentindo a adrenalina residual da festa desaparecer em uma solidão familiar e confortável.
Ela tirou o elástico do cabelo, sacudindo a cabeça até que seus fios castanhos caíssem soltos ao redor do rosto. As mechas azul-petróleo, geralmente brilhantes e desafiadoras, pareciam um pouco mais apagadas sob a luz suave de seu quarto. A festa não tinha sido *terrível*, na verdade. Era só barulhenta. E cheia. E repleta de pessoas como Jack e Leo. Gente que se movia pelo mundo com a certeza de que pertencia a ele, enquanto Cara sentia como se estivesse constantemente esperando por uma tela de carregamento que nunca terminava.
Ela se jogou na cama, olhando para o teto, onde uma estrela que brilha no escuro estava perdendo a cola. Ela pendia por um único canto, caída como uma flor murcha.
"Meu Deus, estou cansada", ela murmurou para o quarto vazio.
Ela se deixou ali por exatamente três minutos, contando as rotações do ventilador de teto, antes que sua bexiga a forçasse a agir. Com um gemido, ela se empurrou para fora do colchão e voltou andando para baixo, em direção à cozinha.
A cena era exatamente como ela esperava. Jack estava encostado na enorme ilha de granito, na metade de um sanduíche que parecia perigosamente perto de se desmanchar em suas mãos. A luz fluorescente acima dele zumbia, iluminando as medalhas e fitas que ainda estavam magneticamente presas à geladeira desde a noite de formatura.
"Demorou, hein", disse Jack com a boca cheia de peru e queijo. "Pensei que você tivesse apagado lá em cima."
"Deus, você é repulsivo quando come", Cara fez uma careta, pegando uma garrafa de água na geladeira. Ela se encostou no balcão oposto a ele, girando a tampa. "Precisava inalar o negócio inteiro? Acho que a mamãe comprou isso para o almoço de amanhã."
Jack deu de ombros, engolindo com esforço. "Combustível para a máquina, Cara. Diferente de você, eu queimo calorias quando estou acordado. Eu não fico só sentada em uma cadeira desenvolvendo síndrome do túnel do carpo."
"Chama-se resistência artística", ela retrucou, dando um longo gole na água. O líquido gelado ajudou a lavar o gosto seco e estagnado do ar da festa. "E, para constar, meus reflexos são de elite. Eu provavelmente conseguiria te dar um tiro do outro lado do mapa antes mesmo de você descobrir qual botão faz você pular."
Jack bufou, um som que era metade diversão, metade má digestão. "Por favor. Você e suas guerrinhas de desenho animado. Eu vivo no mundo real, Cara. Onde a resistência à água é algo que existe, e você não pode simplesmente apertar 'renascer' quando se afoga."
"O mundo real é chato, Jack. É por isso que inventaram as placas de vídeo", ela disse, empurrando-se para longe do balcão e indo em direção às escadas. "Vou para a cama. Tente não engasgar com esse sanduíche enquanto sonha com o seu próprio reflexo."
"Também te amo, estranha!", Jack gritou, sua voz ecoando pela escadaria enquanto a geladeira zumbia alto no silêncio repentino.
Cara acordou com o ataque ofuscante do sol do meio da manhã e o som persistente e rítmico de uma bola de basquete batendo no concreto. Era a trilha sonora do seu verão: Jack e Leo, incapazes de ficar parados por mais de dez minutos, envolvidos em algum tipo de exercício físico.
Ela gemeu, puxando o edredom sobre a cabeça para bloquear a luz. Não adiantou. A casa já vibrava com atividade. Lá embaixo, ela podia ouvir o tilintar de pratos, sua mãe carregando a lava-louças agressivamente e o zumbido baixo da TV.
Jogando as cobertas para o lado, Cara colocou os pés para fora da cama e foi até o espelho. As pontas azul-petróleo de seu cabelo estavam espetadas em ângulos estranhos, um ninho caótico de fios castanhos e azul-esverdeados. Ela pegou a escova, desembaraçando os nós enquanto olhava para seu reflexo. Olheiras manchavam a pele sob seus olhos avelã, resquícios de uma invasão tarde da noite em seu MMO que durou até as 3 da manhã.
Ela lavou o rosto, a água fria a chocando para algo que se assemelhava à consciência, e vestiu uma camiseta de banda larga e um par de shorts folgados. Se era para passar o dia na cadeira, que fosse confortável.
Lá embaixo, a cozinha cheirava a café e torradas queimadas. Sua mãe já estava pronta para o trabalho, digitando furiosamente em seu tablet na ilha da cozinha.
"Bom dia, querida", sua mãe disse sem olhar para cima. "Jack e Leo já estão na piscina. Jack disse que eles vão para a academia mais tarde, então provavelmente vão comer o suficiente para alimentar um pequeno exército quando voltarem."
"A cara do Jack", Cara murmurou, pegando uma caneca no armário e servindo o café forte que a esperava. "Quais são as chances de eles quebrarem alguma coisa antes do meio-dia?"
"Baixas. Eles quebram coisas quando estão tentando se exibir, não quando estão apenas nadando", disse a mãe, finalmente olhando por cima dos óculos de leitura. Ela suspirou, examinando a roupa de Cara. "Você pretende ficar dentro de casa o dia todo de novo? Dizem que o tempo vai estar bom."
"Tenho encomendas para terminar", Cara mentiu tranquilamente. Ela tinha encomendas, sim, mas também uma necessidade urgente de subir o nível de sua habilidade de encantamento no jogo mais recente. "E o sol é meu inimigo. Você sabe disso."
Sua mãe estalou a língua, um som de leve decepção que Cara tinha aprendido a ignorar anos atrás. "Você tem dezoito anos, Cara. Esse é o seu tempo livre antes que o mundo real comece. Você deveria estar na praia, ou... sei lá, fazendo trilha com amigos."
"Eu estou com amigos", rebateu Cara, soprando o líquido fumegante em sua caneca. "Digitalmente. E estamos salvando o reino de um culto de dragões. É um trabalho muito importante."
"Fazer trilha te dá vitamina D", disse a mãe, levantando-se e pegando sua pasta. "Cultos de dragões te dão túnel do carpo. Só... pense em sair um pouco, tudo bem? O nível de pólen nem está tão alto hoje."
"Claro, mãe. Vou sair sim. Vou fotografar um pouco de musgo raro para a biblioteca de texturas", Cara mentiu sem esforço, encostando-se no balcão enquanto sua mãe beijava sua bochecha.
"Essa é a minha garota", ela disse, soando suspeitosamente aliviada. "Estarei de volta às seis. Não coloque fogo na casa."
"Sem promessas", Cara murmurou para a cozinha vazia enquanto a porta da frente batia.
O silêncio que se seguiu ao fechamento da porta era pesado, mas não era do tipo opressor. Era o tipo de silêncio pelo qual Cara pagava caro com seu comportamento, uma moeda de distanciamento que comprava sua solidão.
Ela levou o café para o andar de cima, a caneca de cerâmica quente contra as palmas das mãos. Quando chegou ao patamar, o som da bola de basquete batendo no concreto da entrada havia cessado, substituído pelo som distante e rítmico do tapa-tapa-tapa de pele molhada atingindo o concreto. Jack e Leo tinham ido para a piscina. Ela conhecia essa rotina intimamente. Dez minutos de "basquete de rua" para se exibir para os vizinhos imaginários, seguidos por três horas de treino de verdade porque nenhum dos dois conseguia desligar sua competitividade.
Cara se acomodou em sua cadeira, o couro rangendo em protesto. Ela iniciou seu computador, observando os LEDs familiares passarem pela sequência de inicialização RGB. Enquanto o computador ligava, ela tateou a bolsa carteiro para recuperar seu caderno de esboços.
O caderno não estava lá.