Capítulo 1 – Linhas de Fogo

Linhas de Fogo
SOFIA
Entrei no campo de treinamento, com minhas longas sombras se estendendo pelo asfalto e pelo aço da base. Cada movimento — cada virada de cabeça, cada olhar — era calculado. Senti olhares sobre mim quase de imediato, mas não notei logo de cara. Eu já estava acostumada.
Lá estava ele. Damien Hart. Parado de lado, ombros alinhados, o queixo inclinado o suficiente para me observar sem mudar de posição. Calmo, mas irradiando aquela aura intimidadora. Mesmo depois de todos esses anos, vê-lo aqui — inalterado — era enfurecedor.
Metido.
Ele sempre foi infame — é claro. Filho de um bilionário, herdeiro de uma fortuna, mas tinha trocado tudo aquilo pelo campo de batalha. Único. Inesquecível. Nosso treinamento passado com ele tinha deixado marcas que eu nunca conseguiria apagar.
Eu não precisava olhar para trás para saber que ele estava observando. Seu olhar estava fixo em mim como uma marca em um alvo, mas ele não se movia. Ele sempre tinha sido assim. Mesmo agora, seu incômodo comigo não tinha diminuído. Ele sempre me viu como uma ameaça.
O resto da unidade estava ocupado ao meu redor — uma mistura de barulho e metal batendo —, mas eu ignorei. Foquei na tarefa. Armas verificadas, equipamento alinhado. Cada detalhe importava. E eu podia sentir ele observando cada um — minha postura, minha mira, o jeito que meus dedos seguravam o rifle. Mais atento do que qualquer namorado obsessivo, como se ninguém mais pudesse chegar perto de mim.
Às vezes eu me pergunto… se eu o seduzisse, ele ficaria de pau duro por mim?
Algo brilhou em seu rosto. Interesse? Surpresa? Talvez os dois. Eu não me importava. Quando terminei minha tarefa, segui em direção aos meus companheiros, que observavam os recém-chegados ao acampamento. Recrutas. Novos desafios. A regra não dita: o que fizeram com você, você repassa. A ironia residia na força forjada pela vingança.
Alguns da unidade murmuravam, lançando olhares furtivos para mim — a única mulher.
“Eles estão falando sério. Mandaram uma mulher para a nossa unidade.”
“Isso não vai durar muito, especialmente com o Capitão Hart aqui.”
“Você não a conhece?”
“Não. Por que ela está…”
Eu não ouvi. Deixe que pensassem o que quisessem.
Pelo canto do olho, vi Damien rastreando cada movimento meu, me estudando. Sorri secretamente. Ele não me queria ali, mas não fazia nada. Comparar as palavras dele com as minhas habilidades? Nem pensar.
Eu ainda podia sentir ele observando mesmo depois que o exercício terminou.
O campo de treinamento ficou silencioso, mas permanecemos com os oficiais superiores. Damien não falou. Ele não precisava — seu silêncio pesava mais do que a gritaria da maioria dos homens.
Horas depois, a sala de instruções encheu rapidamente. Luzes baixas, mapas projetados, marcadores vermelhos piscando pelo território inimigo.
Sentei-me, sabendo exatamente onde ele estava. Primeira fileira. Costas retas. Focado.
“Desdobramento em seis horas”, dizia a ordem. “Operação conjunta. Sem margem para erros.”
Um murmúrio baixo percorreu a sala. Meu peito apertou — não de medo, mas de excitação. Eu sentia falta disso. Fazia quase um ano desde a última vez que pisei em campo.
Então a lista apareceu:
Sofia Morales — Primeiro-Tenente (O-2), Operativa Sênior
Damien Hart — Capitão (O-3), Líder de Equipe
Força-Tarefa de Operações Especiais de Elite
Eu não olhei para trás. A atenção dele ainda estava em mim. O que ele estava pensando?
Respirei fundo, encarando os mapas projetados. Cada ângulo, cada localização, cada marco precisava ser estudado com cuidado. O que aconteceu antes nunca aconteceria de novo. Não importava o que, dentro ou fora do acampamento. Nada disso importava mais. O campo de batalha não se importa com o histórico. Ele apenas mostra o resultado.
O terreno era irregular, o cheiro de terra molhada, óleo de arma e algo metálico preenchendo meus pulmões. Cada passo precisava ser medido; cada decisão poderia custar nossas vidas. Examinei rapidamente o campo, localizando proteção, linhas de visão e rotas de fuga. Meu pulso disparou — não apenas pelo esforço, mas pela consciência de que ele estava perto, sempre perto, observando, julgando. Damien Hart.
“Mova-se para a esquerda”, ele ordenou, com a voz calma, porém cortante, superando o falatório do rádio.
Estreitei os olhos. “Não. Vamos para a direita. Melhor proteção, linha de visão limpa. Você está arriscando o flanco.”
Ele inclinou a cabeça, um leve desafio na curva de seu maxilar. “Tem certeza?” O tom era ácido, divertido, me testando.
“Sim. Siga-me, ou perderemos tempo.” Apertei a empunhadura do rifle.
“Sempre tentando provar que estou errado”, ele murmurou, baixo, perigoso.
“Estou tentando nos manter vivos”, retruquei.
O momento se prolongou. O calor dele me alcançou através do espaço — magnético, enfurecedor. Meu coração batia forte, não apenas pelo esforço, mas pelo seu julgamento silencioso.
Eu me movi primeiro, correndo em direção ao cume, músculos prontos, precisos. Passos calculados, ritmo natural. Ele me seguiu, silencioso, eficiente, respirando, movendo-se, controlado, consciente.
Busquei cobertura enquanto tiros passavam acima de mim, o pulso acelerado — não de medo, mas por provar que ele estava errado. Olhei para trás; ele estudava o mesmo caminho, sobrancelha arqueada em reconhecimento silencioso.
“Impressionante”, ele murmurou baixinho. Senti como uma faísca — indesejada, elétrica. Foco à frente, escaneando, calculando, mas uma emoção estranha percorreu meu peito.
O resto da equipe vacilou. Eu os liderei impecavelmente, cada passo preciso, cada ordem clara. Os olhos de Damien permaneciam em mim. Inabaláveis. Eu sabia que ele via tudo. Não dava para esconder. Meu peito apertou — não pelo esforço, mas pela atração dele, um reconhecimento silencioso misturado com desafio.
Quando chegamos ao ponto final, eu fui a primeira a cruzar, ilesa, eficiente, consciente de que ele estava logo atrás de mim, analisando. Nossos olhares se encontraram de novo. Silenciosos. Pesados. Carregados. Atrito, rivalidade, uma sutil emoção de estar à altura dele — e talvez empurrá-lo além do esperado.
Eu não desviei o olhar. Ele também não.
Pressionei-me contra a barricada fria, o peito arfando, o rifle firme. Minha mente disparava — não apenas pelo tiroteio, mas por causa dele. Damien estava perto demais — sempre observando, sempre calmo — e isso fazia meu pulso acelerar mais do que qualquer bala.
“Cubra seu ângulo!” Sua voz cortou bruscamente o ruído do rádio, mais incisiva que o normal, mais urgente. Incisiva demais. Meu coração falhou — não de medo, mas de irritação.
“Eu estou cobrindo!” retruquei, mal me contendo. Meus olhos travados nele — maxilar tenso, olhar afiado, aquele brilho… perigoso, magnético.
Ele se aproximou mais do que o necessário, perto o suficiente para eu sentir o calor irradiando dele. O metal de nossos rifles quase se tocou. Minha respiração falhou, curta e irregular, enquanto o perfume dele — limpo, levemente metálico, inegavelmente dele — preenchia meus sentidos. Cada instinto gritava para manter o profissionalismo. Cada outra batida do meu pulso dizia o contrário.
“Você é imprudente”, ele disparou, as palavras cortantes como o assobio das balas passando. Sua voz tinha um peso que eu não esperava — uma autoridade não apenas militar, mas pessoal, pressionando-me.
Ergui o queixo, recusando-me a recuar. “E você é teimoso. Não é um defeito — é previsível.” As palavras foram um desafio, mas, por baixo delas, uma emoção surgiu, involuntária. Sua sobrancelha contraiu, apenas por um segundo, antes que ele a mascarasse com calma.
Congelamos em um momento que se estendeu demais. O tiroteio ao nosso redor diminuiu; apenas nossas respirações, rápidas e curtas, preenchiam o vazio. Meus dedos coçavam na empunhadura do rifle; o leve toque da manga dele na minha enviava uma corrente de algo quente através de mim. Adrenalina, eu disse a mim mesma. Tinha que ser.
Então ele se inclinou levemente em minha direção, olhos afiados, lábios cerrados. “Não me dê lições, Morales.” Baixo, controlado, perigoso. Meu pulso martelava ao som disso, uma mistura de fúria e fascínio.
Inclinei a cabeça, deixando um sorriso surgir nos meus lábios, e respondi suavemente, apenas para ele ouvir: “Talvez você deva acompanhar o ritmo, Capitão.”
O som do tiroteio ficou em segundo plano, substituído pela tensão entre nós — elétrica, inevitável, impossível de ignorar. Eu podia senti-lo analisando cada contração do meu rosto, cada mudança na minha postura. Eu fazia o mesmo, capturando aquele brilho em seus olhos, a respiração apressada sob sua compostura.
Por um segundo, eu quis me aproximar mais, ver se ele recuaria ou se me enfrentaria. A tensão acendeu algo cru — calor, desafio, mais afiado do que qualquer arma em nossas mãos. Mas o momento passou tão rápido quanto veio. As ordens voltaram ao foco; a realidade — o campo, a equipe, a missão — surgiu novamente.
Ainda assim, quando nos afastamos, eu o vi me olhando pelo canto do olho. Aquela faísca não desapareceu. Eu sabia, profundamente na espiral de tensão em meu peito, que essa rivalidade tinha acabado de se tornar muito mais perigosa — e muito mais pessoal — do que qualquer um de nós esperava.
Recuamos do confronto, rifles pendurados frouxamente nos ombros, mas o calor entre nós não diminuiu. Meu pulso ainda disparava, respiração irregular, cada passo mais pesado — consciente de que seu olhar permanecia mais tempo do que o necessário. Ousei um olhar em sua direção, pegando-o ajustando a alça do equipamento, maxilar tenso, olhos fixos nos meus tempo suficiente para me fazer questionar meu foco.
“Fique do seu lado do cume”, ele ordenou.
“Não sou sua subordinada”, retruquei, o tom afiado. “Este lado dá melhor proteção.”
Ele soltou um rosnado baixo, quase inaudível, o canto de sua boca tremendo. “Não preciso de uma aula de estratégia sua, Morales.”
“Não estou dando aula”, respondi, a borda da voz traindo a adrenalina e a frustração. “Estou nos mantendo vivos.”
Atrás de nós, vozes abafadas ecoavam pela floresta. Passos desaceleraram, sussurros tecidos pelo ar como uma corrente que eu não conseguia ignorar. Fragmentos: “…você viu aquilo?” “…Morales e Hart…” seguidos por uma risada contida. Eles estavam observando. Medindo. Imaginando. Meu estômago deu um nó — orgulho misturado com irritação. Eles achavam que entendiam. Não entendiam.
“Eu tomo a frente se você for hesitar”, disse eu, escaneando o terreno à frente.
Ele fechou a distância, o calor roçando o meu. “Não estou hesitando. Você está passando dos limites.”
“Passar dos limites nos mantém vivos”, disparei, apertando o rifle. O contato me deu um choque. “Relaxe. Isso não é sobre eles.”
Ele soltou um som seco — meio sorriso, meio rosnado — e murmurou: “Claramente, eles estão prestando atenção. Atenção demais.” Os olhos saltaram para os companheiros de equipe próximos, depois voltaram para mim, escuros e avaliadores. Aquele olhar… pesava sobre mim, testando, sondando, e percebi que eu estava tão consciente quanto ele.
“Não pense que pode me empurrar porque sigo ordens de um jeito diferente”, adicionei baixinho.
“Não estou empurrando”, ele disse, voz baixa e seca. “Estou sobrevivendo.”
Sussurros giravam, diminuindo conforme a equipe avançava, mas eu podia sentir seus ecos no calor entre nós. Cada passo era um desafio. Cada toque de seu braço era um lembrete: éramos ambos perigosos, teimosos, relutantes em ceder — mas inegavelmente atraídos um pelo outro.
Engoli seco, a tensão apertando meu estômago. Não era mais apenas uma rivalidade. Cada olhar, cada passo medido ao lado dele sussurrava algo que eu não estava pronta para admitir — desejo misturado com desafio, atração envolta em competição.
Na borda da clareira, o zumbido do helicóptero, tiroteio distante e o gosto metálico de balas disparadas preencheram meus sentidos. Encontrei seu olhar uma última vez antes de ele encerrar o impasse silencioso. Por um momento, o mundo se resumiu ao espaço entre nós. Então ele se virou, caminhando à frente com uma compostura controlada e enfurecedora, deixando-me com pensamentos acelerados — e a consciência inegável de que aquilo era apenas o começo.
Paramos atrás de um cume, o ar denso de fumaça, poeira e tensão. O zumbido do tiroteio distante e o barulho das botas diminuíram, deixando apenas nossa respiração. Senti-o antes de vê-lo — peito alinhado, olhos fixos nos meus. Cada músculo teso instintivamente, parte cautela, parte antecipação.
Seu olhar era afiado, medido, quase… ousado. Não consegui desviar. Um desafio silencioso me desafiava a piscar primeiro, a quebrar o impasse não dito. Meu pulso disparou, calor rastejando pela minha pele, mãos relaxando com esforço.
“Não acabamos”, eu disse, baixo, mas firme, deixando as palavras pairarem no ar carregado.
“Não acabamos de discutir?”, ele rebateu, baixo, afiado, olhos brilhando.
Sorri apesar da tensão. “Não até você admitir que eu estava certa.”
Ele não respondeu imediatamente. O olhar se intensificou, um leve sorriso puxando o canto de sua boca. Aquele sorriso — meio diversão, meio desafio — dizia mais do que qualquer palavra poderia. O atrito estalava, não dito, mas inegável.
Em algum lugar na distância, um colega de equipe tossiu. O ruído soou quase obsceno contra a tensão que nos pressionava. Senti o fantasma de seu calor, um roçar de seu braço enquanto ele se movia levemente. O coração disparou, traindo minha compostura.
Como se por acordo mútuo, ambos recuamos apenas o suficiente para reivindicar espaço, mas não o suficiente para quebrar o impasse. Meus olhos nunca deixaram os dele, e captei o brilho de curiosidade — e talvez admiração — em seu olhar. Aquele breve reconhecimento, o desafio silencioso embutido nele, fez meu estômago apertar.
Isso não tinha acabado. Nem de longe. Em algum lugar no silêncio, observando-nos, alguém na unidade — rival ou aliado — estava notando cada movimento, cada lampejo de reação.
Expirei lentamente, forçando uma calma que não sentia, sabendo de uma coisa com certeza: o jogo tinha acabado de começar.